Pobre Inês*, que não tem preceitos de gente aprumada, toda suja e esgalgada, a remexer a terra da horta. Vejam como ela escava a terra solta com as mãos de unhas enegrecidas, e como arranca as folhas das couves para as enterrar mesmo ao ladinho, com as mesmas mãos com que enterra as batatas acabadas de apanhar, as cenouras com a rama virada para baixo, os frutos sumarentos do pomar. E quando se ocupa com isso, desenterra outros frutos antes inumados, em meio a punhados de arroz cozido, e vestígios de carne podrida, morte além da vida dum prato de carne, dum caldo ou duma canja odorífera.
   Pobre Inês, que não sai dali, e que só de quando em vez se apercebe do seu aspecto no espelho feio do nosso olhar.
   Encolhe os ombros, a pobre Inês, e acha por bem explicar:
   «É para o meu meninoo meu menino pode ter fome!».




*Inês-d'orta, palavra sugerida por José Moura Pereira (Obrigado!)

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