Descanso

   «Tem cuidado contigo, e não bebas muito!» - Disse a mãe por descargo de consciência, quando o filho saiu com os amigos para uma das suas noitadas - «Eu espero por ti, não fico descansada, e sabes que eu não adormeço sem tu voltares. Se, quando tu chegares diante da nossa casa, vires acesa a luz do meu quarto, saberás que eu estou acordada!».
   O filho não disse nada, já se habituara, a mãe dizia sempre algo de parecido, e beijou-lhe de fugida a testa enquanto pegava o casaco nas costas do sofá. Lá em baixo, o carro dos amigos voltou a buzinar.
   Saiu, dançou, bebeu, curtiu. No regresso, já de dia, ergueu o olhar para a janela do quarto da mãe e sorriu. Por ironia, não poderia ver luz alguma no interior porque os vidros espelhavam os primeiros raios de sol. Mas sabia que a mãe não chegara a adormecer. 
   (Já não estava viva, mas não chegara a adormecer).


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