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Conto escrito a duas mãos - 4


A casa
   Os primeiros raios de sol acordaram-no e Girgah abandonou o abrigo sob a pedra saliente onde passara a noite. Esfregou o rosto revestido de escamas, porque ainda o sentia dormente. Com um punhado de ervas secas confeccionou uma espécie de chapéu para a cabeça, enrolando-as em círculo e mantendo-as no sítio com atilhos improvisados feitos de raízes finas e maleáveis.
   Só então reatou a viagem, tendo o cuidado de caminhar pelo sopé dos montes, onde a abundância de rochas dissimulava a sua presença, ao mesmo tempo que a altitude a que se encontrava, tornava mais fácil a observação do recôncavo fértil dos vales, e das criaturas que neles deambulavam. Para se alimentar, socorria-se de tudo o que conseguia apanhar, raízes, pequenas criaturas voadoras de cor azul-turquesa que nidificavam nas covas dos rochedos, e plantas grossas cuja polpa era suculenta e doce, e que se desenvolviam nos lugares de sombra como raízes solitárias à superfície. Tinham os tons e as cores das rochas em volta e a sua casca ostentava lâminas de sílica que desencorajavam os comensais menos preparados.
   Foi ao final daquele dia, o terceiro desde que iniciara a viagem, que Girgah conseguiu alcançar por fim o planalto dos ancestrais. Foi com alguma ansiedade que ele cruzou os dois blocos gigantes e vítreos que a natureza colocara naquele lugar, como as colunas diamantinas dum pórtico. O planalto estendia-se diante dele, com as suas areias e rochedos a refulgir sob a luz candente da segunda estrela. Girgah escalou uma rocha sobranceira para se certificar de que não havia perigos á espreita e, quando se sentiu mais tranquilo, tentou reconhecer os detalhes do lugar. Apesar de já estar escuro, Girgah via à mesma, tal como via todos os detalhes e seres nas profundezas da Lagoa do Refúgio, donde partira. O vale tinha a forma dum losango, em cujos limites se erguiam aquelas gemas caprichosas - quadrangulares na forma, mas de faces em losango - erguidas ao alto, em cadeia, como uma muralha a toda a volta. Todo o centro do vale era ocupado pelas carapaças abandonadas (e em vias de fossilização) dos seus longínquos antepassados, não muito grandes, com metade da altura de Girgah. Por fora assemelhavam-se a esferas de pedra, mas o espaço interior desenvolvia-se em espiral desde a abertura na parte superior. Girgah pôs de parte os receios, e foi ver mais de perto as carapaças. Eram as suas casas, as casas do seu povo, cada um dos membros da sua raça vivia numa daquelas carapaças com o corpo esguio a preencher a espiral interna, e a cabeça escamosa a assomar no topo, para comunicar, ou para se alimentarem dos seres voadores que caíam nas suas bocas, atraídos por um odor ácido a que não conseguiam resistir.
   Girgah tentou focar-se no que viera fazer. No extremo do vale, no vértice oposto ao da entrada, deveria situar-se a Mesa do Sacrifício, ou o que restava dela, e o pavilhão dos ancestrais. Era aqui que, segundo a Vidente, deveria procurar o talismã sagrado, cuja posse assinalaria o fim daquele ciclo, e a migração da sua raça de volta ao Planalto dos Ancestrais.
   «Estou cansado.» pensou « Quero regressar à origem, à minha família, passar o testemunho. O talismã será a minha passagem para a eternidade. Mas não sei qual é a pedra angular, não sei reconhecer o cristal inicial, primordial»
   De repente, ouviu um som leve, um bater de asas suave e... leve como uma pluma surgiu uma pequena fada. «Olá, vem comigo» e sorrindo transportou-o a uma pequena fonte. « Bebe a água da fonte e entenderás.» Nisto, Girgah , transformou-se numa pequena carapaça de sílica, transformou-se na sua própria casa. Corpo e mente em comunhão com o lugar. Agora fazia parte do seu povo. O testemunho foi passado e não se sabe a quem pertence. Às estrelas, talvez.

Conto escrito por Maria e José.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...