INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

nacional-saudosismo-anacrónico

   Saem duma camioneta pintada com motivos náuticos, símbolos templários e bandeiras com a cruz de Cristo, e erigem um Padrão dos Descobrimentos no meu quintal. Sem mais, estes fulanos, francamente orgulhosos das suas barbas hirsutas e das vestimentas copiadas daquelas usadas pelos marinheiros de seiscentos, cavam um buraco no relvado e erigem ali o padrão, sob os latidos desesperados do meu cão, preocupado, penso eu, por eles terem profanado uma das suas secretas reservas de ossos. Vou à janela e eles olham-me ameaçadoramente, antes de voltarem para a camioneta a brandir as suas espadas.
   - Estes gajos não existem! - penso para comigo.

Esperas

   - Número oitenta e quatro?
   - Sou eu - disse, agitando a senha na mão - vinha tratar deste assunto das confrontações da partilha de bens com um senhor Alcino...
   - Enganou-se na fila. Primeiro andar, sala quatro.
   - Mas eu já estou há duas horas à espera, e disseram-me que era aqui!
   - Primeiro andar, sala quatro. Quando chegar ao cimo da escada, flecte duas vezes à direita, uma à esquerda e é a sala ao fundo do corredor, a que tem o retrato do rei Dom Carlos na parede do fundo.
   Abaixou as orelhas e obedeceu. Escadas, duas à direita, uma à esquerda, sala ao fundo do corredor. Ao fundo do corredor não havia sala, eram as escadas do lado oposto do edifício.
Entrou na primeira sala que viu com gente dentro. Três filas de atendimento, três dispensadores de senhas, fechou os olhos e tirou uma. Esperou. Quatro horas.
   - Número quatro!!
   - Sou eu. Vinha falar com um senhor Alcino por causa das partilhas. Disseram-me que era neste andar, e espero sinceramente que seja o senhor!
   - Não me baptize, que eu não tenho idade para isso. É neste andar mas não aqui, eu ajudo-o mas tem de ir com muita atenção porque isto é um labirinto de salas e corredores. Sai aqui à porta e vira à direita, depois à esquerda e novamente à direita. Vai encontrar o departamento do Contencioso e, ao lado deste, a sala onde se pode entrevistar com o senhor Alcino. Identifica facilmente a sala porque deve conservar um retrato do rei Dom Carlos na parede do fundo.
   Cumpriu as instruções, fazendo figas. Direita, esquerda, direita, a sala do Contencioso e, ao lado - lá estava!! - uma sala grande com o retrato do rei Dom Carlos ao fundo.
   Não conseguiu reprimir um pequeno grito de alegria. Entrou na sala. Não tinha ninguém, mas não estava vazia. Além do retrato e das teias de aranha, podia admirar secretárias e cadeiras carunchosas, tinteiros de tinta seca, e pilhas de papéis amarelados pelo tempo. A um canto, no chão, em meio a pedaços de madeira que deveriam ser o que restava dum banco comprido para os que esperavam a vez, descobriu o crânio com chifres e os ossos maciços do corpulento Minotauro.

enterro digno

- A que horas é que ele morreu? - perguntou o coveiro no portão do cemitério.
O morto estava deitado com os membros embrulhados, num carrinho de mão. Uma pequena multidão formara-se em volta.
- Às onze horas de ontem - respondeu a viúva, a abanar-se com um leque.
- Só pode ir para a cova ao fim de vinte e quatro horas - lembrou o coveiro.
- Espero que não comece a cheirar mal, debaixo deste sol - preveniu o filho do falecido, sentando-se na roda pneumática para descansar do esforço - caso aconteça, vou-me já embora!

O Guia


 

  Segundo dia da expedição espeleológica nos Andes chilenos. Os quatro homens, devidamente equipados, descem abaixo dos quatrocentos metros, iniciando a travessia duma galeria que parte do poço principal daquele sistema de grutas. Analisam o ar, é respirável. Fazem uma pausa para comer antes de prosseguir. Andrés Guzman, espanhol e o único europeu da expedição, não vê necessidade de parar, e avisa os companheiros que vai fazer um pequeno reconhecimento enquanto eles comem. 
   Avança na galeria uns cinquenta metros, e num dos lados distingue uma abertura longitudinal. Curiosamente, as suas linhas lembram-lhe a vulva duma mulher. Sorri, e aproxima-se para examinar a abertura. Com a luz da lanterna, distingue uma pequena galeria secundária que se afunda na diagonal, até a um cotovelo a uns meros três metros de profundidade. Procura o comunicador para falar com os seus colegas, e  um dos seus pés resvala na borda da cavidade, fazendo todo o seu corpo cair na gruta, deslizando por ela enquanto a sua cabeça e os seus membros embatem dolorosamente contra as protuberâncias rochosas da cavidade.
   No final da queda, o seu corpo mergulha nas águas geladas dum rio subterrâneo. Luta com denodo, e consegue manter-se à tona, apesar do peso do equipamento. Esbracejando como pode consegue atingir a margem rochosa, onde emerge com dores lancinantes em todo o corpo. Analisa a situação, palpa os membros doridos e conclui que não tem nada partido, apesar das dores. O sangue escorre duma escoriação no ombro e contém a hemorragia atando-lhe por cima o ensopado lenço do pescoço.
   Prepara-se para encontrar um caminho de regresso. Abre a mochila, e aliena todo o equipamento que não é indispensável, kits de recolha de amostras, amostras já ensacadas de minerais e rochas, um contador Geiger. Sente um alento de esperança quando consegue ligar novamente a lanterna. A margem do rio é estreita, e estende-se nas duas direcções. Ergue-se apoiado no bastão metálico e tenta a sorte, retirando uma moeda dum bolsilho do colete. Prepara-se para a atirar ao ar quando distingue uma forma a movimentar-se perto de si. Aponta a lanterna e fica espantado com o que vê: um corvo, um corvo de penas brancas, lindo e hierático como uma estátua de Hórus. Está pousado numa estalagmite de reflexos vítreos, e olha na sua direcção. Assemelhava-se a uma aparição, ou a um delírio alucinatório.
   Não tem como documentá-lo, nem procura racionalizar o achado. Guarda a moeda e e encaminha-se na sua direcção. O corvo levanta voo, pousa um pouco mais adiante e espera. Aproxima-se novamente, e de novo o corvo levanta voo, para pousar mais à frente, como se o esperasse. "Estou a ser guiado!" pensou para consigo, sem qualquer temor ou sombra de superstição, até porque se sente inundado duma vibrante alegria e as dores parecem ter desaparecido por completo.
   Estes pequenos voos do corvo branco repetem-se uma e outra e outra vez, até deixar de o ver. Ouve o som de água em queda, e avança com cautela. O rio ao seu lado mergulha num abismo um pouco mais à frente. Tendo bem presente a forma descuidada como antes caíra, aproxima-se agora com mil cuidados da berma do abismo.
   Não é um abismo no sentido geral, mas um poço semelhante àquele em que eles haviam realizado a descida, mas este é distinto. Calcula que o diâmetro é muito maior, e neste, as paredes emanam uma pálida luminescência, que não consegue explicar. 
   Cogita agora que a galeria em que se encontra, poderia estar a contaminá-lo com radioactividade, afectando o seu cérebro, e originando as sensações de euforia e a visão bizarra daquele corvo branco. Corvo que agora reaparece, esvoaçando à sua frente, no centro do poço subterrâneo. Enquanto o fita, escuta o murmúrio confuso de vozes e risos, e perpassam pelo seu campo de visão sombras prateadas de contorno humano, que teima e recusa-se em interpretar como espectros."É a radioactividade, ou os gases tóxicos das profundezas, que causam estas visões" - tenta ainda reflectir, reagindo à euforia que o inunda como uma maré luminosa.
   «This is the End, Beautiful friend» - cantarola, pondo-se por fim, de pé, na berma. Não sentia dores, não podia estar vivo. Abre os braços e salta em frente.

pequena estória "curitibana"

   Eugénio era um homem fechado e desconfiado. Poucos amigos e poucas falas. O merceeiro que lhe trazia os suprimentos à porta, o taberneiro e os nautas do lugar, as damas do bordel no fim da rua, e dois ou três sujeitos que teimavam em cumprimentá-lo e a quem respondia, só para dar troco. Ao seu lado morava o Nicolau, com quem andara na escola, e a quem, por isso, permitia mais liberdades. Por vezes, conversavam um pouco, sentados ambos nos degraus da entrada da casa, entre dois sorvos de tabaco. A Nicolau ofereceu uma vez, não se lembra bem porquê, uma garrafa de licor de medronho que um seu primo lhe trouxe um dia quando veio saber se ainda estava vivo por incumbência do resto da família, e dele recebeu um ou dois livros emprestados e, em troca, emprestou-lhe também alguns dos seus livros.
   A vida parecia correr mais leve e fácil para Eugénio, quando deu pela falta, na estante, dum livro de Gogol.
   - O meu Gogol? - perguntou a Nicolau - o meu Nariz de Gogol?
   - Nunca vi! - respondeu Nicolau.
   Eugénio não se acreditou, e foi o fim da amizade. Deixou de fumar na frente da casa, evitava-o na taberna e na casa das meninas, e começou a fechar as portadas de madeira das janelas da casa em pleno dia, como se lhes fechasse os olhos aos que passavam na rua. Se calhava cruzar-se com ele na rua, Nicolau cumprimentava-o, forçadamente, mas Eugénio, com o estômago a coruscar de azedume, respondia-lhe quase sempre o mesmo: "Cumprimenta antes o meu Gogol!", ou "Tens visto o meu Gogol e a minha aguardente de medronho?".
   Nicolau resignou-se. Ter Eugénio como vizinho, era igual a sabê-lo na Lapónia ou em Marte. 
   Anos volvidos, Nicolau arranjou noiva e casou-se (enfiou o envelope com o convite para a boda por debaixo da porta de Eugénio, mas sabia que ele nunca apareceria), e em menos de cinco anos, tinha já três filhos a barulhar pela casa. Eugénio, por vezes, pensativo, admirava-os a todos da penumbra da sua casa, espectro triste de casa assombrada. Os filhos de Nicolau cresceram sadios, a mulher alargou e ficou muito roliça, mas  ele, ao invés, mostrava-se cada dia mais encurvado e pálido. Do seu retiro, Eugénio assistiu às repetidas visitas do médico à casa do vizinho. Era qualquer coisa nos pulmões, contou-lhe o merceeiro, coisa feia mesmo. As visitas do médico sucediam-se com mais brevidade e uma manhã, pelo coro de gritos e prantos, Eugénio soube que Nicolau se tinha finado.
   Vieram vizinhos, colegas de trabalho da mina, parentela vária. E velaram o corpo ali mesmo, na sala grande da casa, as portas abertas, e a mesa da cozinha recheada de iguarias e petiscos para os que vinham prestar homenagem ao defunto. Eugénio também compareceu, para espanto de todos. Vestia um fato cinzento desbotado com calças ás riscas, e envergava a sua cara de enterro de todos os dias. Deu os sentimentos à viúva de forma irrepreensível, esfregou a mão transpirada nos cabelos dos órfãos e se dissimulou no ir e vir das visitas pelas divisões da casa. Poucos minutos depois, voltou à sala com um ar triunfante. Trazia pela mão o seu livro de Gogol, esfregou-o por segundos na cara do falecido e saiu com ele da casa, no meio da maior consternação.







   Dos milhões de palavras que existem, ela seleccionou apenas as mais afiadas e contundentes, estas, de lâmina em fio, aquelas, aguçadas como dardos, aqueloutras, pesadas como martelos de ferreiro. E usou-as sabiamente, com a ciência e a paciência dos torturadores. Deixou-a a sangrar por dentro e sumiu-se pelas vielas como um assassino encapuçado.

A Botânica do Pânico conterá certamente, frutos muito mais estranhos...
































Source:

à propos

O pai teve a infeliz ideia de por o nome de Dicionário ao seu filho, e todos o consultavam como se de um dicionário verdadeiro se tratasse. Em resposta, e para não desmerecer o destaque, decorou milhares de vocábulos e verbetes de diferentes dicionários e respondia à altura a qualquer questão. Mas o seu fim foi triste. Desleixou-se e ficou desactualizado, e acabou esquecido numa estante alta da Biblioteca.

O Navio dos Loucos - 2

(Hieronymus Bosch)




O velho homem fazia girar entre os dois polegares o papel com a autorização da Junta Militar, enquanto um seu colega arrastava pelos braços até eles, o corpo dum homem com a face desfeita. Colada ao torso, uma camisa de motivos de losangos, tingida de sangue e de terra.
Ela sentiu-se desfalecer, mas conseguiu aguentar-se. A vala colectiva estava aberta e os corpos juncavam o fundo da vala. O cheiro da morte era iniludível.
- É este o seu irmão?!
Ela observou-o melhor. O rosto estava irreconhecível. A camisa era parecida, mas exibia um coto cicatrizado por altura do cotovelo do braço direito, o que não coincidia com o do seu irmão, e aquele desgraçado era calvo como um ovo, em vez de exibir os cabelos fortes e compridos que ela tantas vezes lhe puxara quando os dois se chateavam.
- O meu irmão merece um enterro digno, e uma lápide com o nome, um lugar onde possamos trazer-lhe flores e chorarmos saudades. A nossa mãe morrerá de vez se não lhe dermos isso!
- É o seu irmão? – Voltou o velho com impaciência, apoiando a sola da bota na pá enterrada no solo.
- É sim, é o meu irmão!


O Navio dos Loucos



O adolescente vestia calças de ganga e uma t’shirt branca, e jogava sozinho com uma bola de basquetebol no recinto de cimento rodeado por uma rede metálica. Batia com ela no solo, ensaiava alguns passos num bailado caprichoso e arremessava-a, umas vezes para a encestar na argola metálica, outras, para atirá-la com força contra a parede coberta de graffitis que ocupava um dos lados mais pequenos. Jogava sozinho, naquele recinto no coração dos prédios duma urbanização. Naquela silente solidão fez-se ouvir o motor dum jipe que parou junto á rede do recinto com dois militares no interior, e o oficial que viajava no banco de trás, impecavelmente aprumado no seu uniforme, apeou-se e aproximou-se do jovem. Ele parou de jogar quando o sentiu ao seu lado. O oficial apoiou polidamente a mão grande e pesada no seu ombro, num sinal enxuto, desafectado, de apoio.
O jovem era seu filho. Não havia por ali mais jovens com quem ele pudesse jogar. A limpeza étnica estava muito adiantada.

FÉRIAS

- Vou estar fora de casa por uns dias, a ver se espaireço e me sinto mais leve... - disse o caracol.
- Vai fazer-te bem, aliás, já te está a fazer bem, porque pareces mais normal - respondeu a lesma.

   A casa da minha infância tinha duas andorinhas de louça na entrada da casa. Belas e singelas as andorinhas de louça, como a vida por esses dias.
   Era sempre Primavera na casa da minha infância.

Conto escrito a duas mãos - 4


A casa
   Os primeiros raios de sol acordaram-no e Girgah abandonou o abrigo sob a pedra saliente onde passara a noite. Esfregou o rosto revestido de escamas, porque ainda o sentia dormente. Com um punhado de ervas secas confeccionou uma espécie de chapéu para a cabeça, enrolando-as em círculo e mantendo-as no sítio com atilhos improvisados feitos de raízes finas e maleáveis.
   Só então reatou a viagem, tendo o cuidado de caminhar pelo sopé dos montes, onde a abundância de rochas dissimulava a sua presença, ao mesmo tempo que a altitude a que se encontrava, tornava mais fácil a observação do recôncavo fértil dos vales, e das criaturas que neles deambulavam. Para se alimentar, socorria-se de tudo o que conseguia apanhar, raízes, pequenas criaturas voadoras de cor azul-turquesa que nidificavam nas covas dos rochedos, e plantas grossas cuja polpa era suculenta e doce, e que se desenvolviam nos lugares de sombra como raízes solitárias à superfície. Tinham os tons e as cores das rochas em volta e a sua casca ostentava lâminas de sílica que desencorajavam os comensais menos preparados.
   Foi ao final daquele dia, o terceiro desde que iniciara a viagem, que Girgah conseguiu alcançar por fim o planalto dos ancestrais. Foi com alguma ansiedade que ele cruzou os dois blocos gigantes e vítreos que a natureza colocara naquele lugar, como as colunas diamantinas dum pórtico. O planalto estendia-se diante dele, com as suas areias e rochedos a refulgir sob a luz candente da segunda estrela. Girgah escalou uma rocha sobranceira para se certificar de que não havia perigos á espreita e, quando se sentiu mais tranquilo, tentou reconhecer os detalhes do lugar. Apesar de já estar escuro, Girgah via à mesma, tal como via todos os detalhes e seres nas profundezas da Lagoa do Refúgio, donde partira. O vale tinha a forma dum losango, em cujos limites se erguiam aquelas gemas caprichosas - quadrangulares na forma, mas de faces em losango - erguidas ao alto, em cadeia, como uma muralha a toda a volta. Todo o centro do vale era ocupado pelas carapaças abandonadas (e em vias de fossilização) dos seus longínquos antepassados, não muito grandes, com metade da altura de Girgah. Por fora assemelhavam-se a esferas de pedra, mas o espaço interior desenvolvia-se em espiral desde a abertura na parte superior. Girgah pôs de parte os receios, e foi ver mais de perto as carapaças. Eram as suas casas, as casas do seu povo, cada um dos membros da sua raça vivia numa daquelas carapaças com o corpo esguio a preencher a espiral interna, e a cabeça escamosa a assomar no topo, para comunicar, ou para se alimentarem dos seres voadores que caíam nas suas bocas, atraídos por um odor ácido a que não conseguiam resistir.
   Girgah tentou focar-se no que viera fazer. No extremo do vale, no vértice oposto ao da entrada, deveria situar-se a Mesa do Sacrifício, ou o que restava dela, e o pavilhão dos ancestrais. Era aqui que, segundo a Vidente, deveria procurar o talismã sagrado, cuja posse assinalaria o fim daquele ciclo, e a migração da sua raça de volta ao Planalto dos Ancestrais.
   «Estou cansado.» pensou « Quero regressar à origem, à minha família, passar o testemunho. O talismã será a minha passagem para a eternidade. Mas não sei qual é a pedra angular, não sei reconhecer o cristal inicial, primordial»
   De repente, ouviu um som leve, um bater de asas suave e... leve como uma pluma surgiu uma pequena fada. «Olá, vem comigo» e sorrindo transportou-o a uma pequena fonte. « Bebe a água da fonte e entenderás.» Nisto, Girgah , transformou-se numa pequena carapaça de sílica, transformou-se na sua própria casa. Corpo e mente em comunhão com o lugar. Agora fazia parte do seu povo. O testemunho foi passado e não se sabe a quem pertence. Às estrelas, talvez.

Conto escrito por Maria e José.

A mina como fachada

   Os Sete Anões maltrataram cruelmente a Branca de Neve. Desfiguraram-na, macerando as suas formas, e mergulharam-na num banho de ácido sulfúrico e depois disso, usaram ainda outros químicos terríveis como o carbonato de amónia. 
   Parecia irreconhecível, mas não para as autoridades policiais que fecharam a fábrica de coca.

Depois de atestar o depósito na bomba de gasolina, a mulher dirigiu-se à caixa para pagar.
- A Caixa Automática está sem comunicação - explicou o funcionário, vendo-a de cartão em punho - tem estado todo o dia assim!
- Então como é que vamos fazer? Não tenho cheque, nem dinheiro mas, se mo permitir, vou até ao ATM mais próximo e tento levantar dinheiro.
- E como é que eu sei que a senhora volta cá para saldar a dívida?
- Dou-lhe os meus dados e faz-me uma factura...
- Naaa! - reagiu o homem - detesto esses excessos burocráticos. Tenho uma solução mais prática - a senhora vai levantar dinheiro, mas deixa cá a sua sombra como refém!

a agrura da noite futura

   Tinha sangue a mais e isso notava-se nas suas faces dum rosado sanguíneo e nas veias pronunciadas dos braços e das costas. Mas nunca pôs a hipótese de dar sangue porque isso podia ser perigoso, antes preferiu drenar-se um pouco com o recurso a sanguessugas. Esse método secular produziu os resultados que esperava. Quando se sentiu melhor e antes que chegasse a Lua Cheia, teve de as matar a todas.

Frankenstein

«O nosso filho tem jeito para miniaturista - gabou-se o gigante à sua esposa, todo embevecido - vê só como ele cria novos seres a partir das criaturinhas corredoras da aldeia!».

   Pobre Inês*, que não tem preceitos de gente aprumada, toda suja e esgalgada, a remexer a terra da horta. Vejam como ela escava a terra solta com as mãos de unhas enegrecidas, e como arranca as folhas das couves para as enterrar mesmo ao ladinho, com as mesmas mãos com que enterra as batatas acabadas de apanhar, as cenouras com a rama virada para baixo, os frutos sumarentos do pomar. E quando se ocupa com isso, desenterra outros frutos antes inumados, em meio a punhados de arroz cozido, e vestígios de carne podrida, morte além da vida dum prato de carne, dum caldo ou duma canja odorífera.
   Pobre Inês, que não sai dali, e que só de quando em vez se apercebe do seu aspecto no espelho feio do nosso olhar.
   Encolhe os ombros, a pobre Inês, e acha por bem explicar:
   «É para o meu meninoo meu menino pode ter fome!».




*Inês-d'orta, palavra sugerida por José Moura Pereira (Obrigado!)

Cerimónia rápida

Inês de Castro foi coroada rainha depois de morta. 


(Foi difícil fixar-lhe a coroa na cabeça, sobretudo, quando a carne caía agarrada aos cabelos)

O amor e o sagrado

   Beijou-a com lábios redondinhos de beija-santinho, amou-a com mãos de rezar; urrou salmos de prazer; e, como se erguesse uma hóstia, ergueu-a ritualmente sobre si para cravar nela o seu sexo.
   O murro que lhe deu no final pareceu, aos dois, uma impiedade.
O pastor colocou uma ovelha lanuda junto ás ovelhas tosquiadas. Mal virou costas, elas baliram em coro para a recém-chegada: "Esta é uma praaaaia de nudiiiiistas! Se queres aqui estaaaaaaar..."

Descanso

   «Tem cuidado contigo, e não bebas muito!» - Disse a mãe por descargo de consciência, quando o filho saiu com os amigos para uma das suas noitadas - «Eu espero por ti, não fico descansada, e sabes que eu não adormeço sem tu voltares. Se, quando tu chegares diante da nossa casa, vires acesa a luz do meu quarto, saberás que eu estou acordada!».
   O filho não disse nada, já se habituara, a mãe dizia sempre algo de parecido, e beijou-lhe de fugida a testa enquanto pegava o casaco nas costas do sofá. Lá em baixo, o carro dos amigos voltou a buzinar.
   Saiu, dançou, bebeu, curtiu. No regresso, já de dia, ergueu o olhar para a janela do quarto da mãe e sorriu. Por ironia, não poderia ver luz alguma no interior porque os vidros espelhavam os primeiros raios de sol. Mas sabia que a mãe não chegara a adormecer. 
   (Já não estava viva, mas não chegara a adormecer).


   «Sou uma pessoa muito, muito doente. Você choraria por mim e comigo se conhecesse todas as minhas maleitas» - queixou-se o hipocondríaco na cama do hospital - «Acredita em mim?».
   O seu interlocutor, um outro homem acamado (engessado dos pés à cabeça), pestanejou repetidamente em sinal de concordância.

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Um D.Quixote envelhecido e desencantado olhou os moinhos, e viu...moinhos. 
Estes, os gigantes, tiveram pena do pobre velho, e despiram os seus disfarces de moinho. 


[imagem: arte de Gustave Doré]



   Durante os anos que viveu como náufrago solitário lançou ao mar dezenas de mensagens em garrafas. Que pessoas  ecologicamente responsáveis recolhiam nas praias e processavam para reciclagem: vidro para um lado, papel para o outro.

Harmonia conjugal

   - Mulher, tenho uma coisa a confessar-te - disse, com ar grave - esta semana que hoje acaba, não te traí com nenhuma outra mulher!
   Ela pôs-lhe a mão na testa e, para jogar pelo seguro, foi procurar uma aspirina.

Freud Flintstone

- Freud explicou-o como ninguém - começou por explicar a psicóloga do presídio - você só queria era amar a sua mãe e matar o seu pai!
- Então Freud falhou comigo - reparou - eu não queria amar nenhum dos dois.
   Era noite e a noite consegue ser espantosamente comprida. Ela mantinha-se acordada, puxou as almofadas para trás das costas e sentou-se na cama a ver televisão com o som off, imagens dum sarau de ginástica dum canal de desporto. Ao seu lado dormia um homem, um perfeito estranho, a respiração da sua boca aberta fazia dançar uma bolha de muco que se formara no canto do lábio. Dormia porque o deixara dormir quando o serviço estava completo. Enternecera-a a sua maciez, a sua bondade quase feminina, a gratidão que exteriorizara pelo prazer proporcionado por ela com as suas sábias carícias e a felação, o medo de magoar que se tornou evidente quando a sodomizou de olhos nos olhos. Parecia-lhe ser um homem doce,o oposto de todos os que conhecera naqueles anos de ofício amoroso, que conseguiam ferir mesmo quando não agrediam, rebaixando-a com palavras e violentando-a com o seu desprezo e o seu nojo. Chegou-se ele e afagou-lhe os cabelos, desinquietada pelo carinho que experimentava por um desconhecido. Talvez ele quisesse voltar mais vezes, ou ficar mesmo por ali. Talvez aquilo fosse amor.

Uma exposição dos factos:

«Eram três, os extraterrestres. Não eram muito grandes. As feições? Pareciam patos, assim como os sobrinhos do Pato Donald…aliás…acho que eram mesmo eles…mas eram extraterrestres. A nave deles pousou no terraço do meu prédio, (eu ouvi o barulho do motor) eles traziam armas douradas que pareciam pistolas d’água, e capacetes com antenas compridas. Desceram as escadas, saltitando de quatro em quatro degraus (talvez levitassem ligeiramente) até chegarem ao andar em que eu moro. A minha mãe estava a sair do apartamento quando eles apareceram e ficou feita uma estátua, tal foi o terror que sentiu. Eles passaram por ela, mantendo-a quieta ao fixarem a extremidade dos seus membros a uma incongruência inter-dimensional. Ultrapassada a minha mãe, entraram no apartamento, comigo escondido na marquise. Usando as armas douradas, os três extraterrestres fizeram desaparecer grande parte do recheio do apartamento, teletransportando-o, sem qualquer dúvida, para o interior da nave pousada no terraço - móveis, papéis, a colecção de cinzeiros do meu pai, a máquina de costura antiga que herdamos da avó, e tantas outras muitas coisas. Não é supérfluo referir que, concluída essa recolha de amostras, os extraterrestres voltaram para a nave, enquanto a minha mãe voltava ao normal e, não menos importante, que foi dessa forma que desapareceu de forma irremediável o TPC * que eu tinha concluído».


* Trabalho Para Casa

Modal

1
   - Taxista, siga aquele carro!
   O taxista mirou o novo passageiro pelo espelho retrovisor, e encolheu os ombros.
   - É um carro funerário...vai ser uma corrida lenta...
   O passageiro não se deu por achado, puxou dum bloco de notas e  começou a escrever nervosamente. De vez em quando, levantava os olhos para o carro funerário que rolava pela hora da morte, e mergulhava de novo na sua escrita.
   - Deixe-me imaginar, o senhor tem um blogue ou uma coluna de crónicas, e está a colher impressões sobre a experiência da morte, mais coisa, menos coisa.
   - Pode-se dizer que acertou, mas eu estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa. Só a imaginar.
   O taxista sentiu vontade de rir, mas conteve-se, e em poucos segundos, essa vontade esfumou-se por completo quando sentiu um toque gelado na cabeça. Olhou pelo espelho, e deu de caras com um revólver reluzente cujo cano o passageiro lhe encostara à nuca.
   - Não sei qual é o destino do cadáver que segue naquele carro, ou daquele que está a segurar o volante deste, mas estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa.


2

   - Taxista, siga aquele carro!
   O taxista mirou o novo passageiro pelo espelho retrovisor, e encolheu os ombros.
   - É um carro funerário...vai ser uma corrida lenta...
   O passageiro não se deu por achado, puxou dum bloco de notas e começou a escrever nervosamente. De vez em quando, levantava os olhos para o carro funerário que rolava pela hora da morte, e mergulhava de novo na sua escrita.
   - Deixe-me imaginar, o senhor tem um blogue ou uma coluna de crónicas, e está a colher impressões sobre a experiência da morte, mais coisa, menos coisa.
   - Pode-se dizer que acertou, mas eu estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa. Só a imaginar.
   - Então veio ter com a pessoa certa, porque eu conheço toda a gente desta terra, são como uma grande família para mim.
   E como se pretendesse demonstrar o que acabara de afirmar, posicionou o táxi uns poucos metros à frente do cortejo fúnebre, e abandonou o veículo para ir conferenciar com o pessoal da funerária e com os familiares do falecido. Quando voltou para o táxi, não conseguia disfarçar um sorriso de contentamento.
   - Está tudo tratado - anunciou.
   Tratado o quê? Perguntava-se, mas não era hora para oratórias. Tiraram o corpo do falecido do caixão, com extremo cuidado, e sentaram-no no táxi, à frente, no lugar do morto. E o passageiro fez a viagem contrária.
   - Aproveite a oportunidade para imaginar e entrar no espírito da coisa - disse-lhe o taxista, antes de fechar a tampa do caixão sobre os seus olhos apreensivos.



Ele nunca se enerva, não se revolta, não se insurge. Suporta. Tudo. A ironia que fere. O insulto. Os desmandos dos chefes. Os cortes do Governo. A pedra no sapato. O sapato na garganta. A mordaça na boca. O sorriso do ladrão. O cuspo do cabrão.
Nada o agita.
É notória, a sua mansuetude.
É manso. E é tudo!






[Desafio: Sugiram-me (mail,FB)palavras em desuso que vos pareçam sugestivas]

versos para um dia triste

(...)
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, 
Pagã triste e com flores no regaço. 


(De "Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio", uma das Odes de Ricardo Reis)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...