Scrooge on the rocks

   Caminhava pela estrada poeirenta do deserto, quando encontrou uma bifurcação, a estrada em que seguia separava-se em duas. Não havia grandes dúvidas quanto ao caminho a tomar.
   A estrada da direita acabava a poucas dezenas de metros num duna de areia de forma piramidal onde assomavam pneus velhos, grades ferrugentas de cama e ossos ressequidos ao Sol de, julgava, reses ou cavalos.
   Tomou a estrada da esquerda, que subia pela encosta dum monte de linhas suaves e torneadas como a coxa duma mulher, e descia do lado oposto, acompanhado a partir do topo pelos postes carcomidos duma linha de telégrafo desactivada. Viu lá em baixo uma cabana de madeira com alpendre, cujos detalhes emergiam à medida que se aproximava. Havia um homem no alpendre, um velho sem os dentes da frente sentado nos degraus que percutia com os dedos ossudos o fundo duma lata vazia, criando uma música repetitiva e angustiante.
   - Que estrada é esta – perguntou quando o julgou ter ao alcance da voz.
   A música interrompeu-se, e o homem mostrou-lhe um sorriso disforme.
   - Esta é a sua estrada e tem o seu nome. Por ela você pode chegar a algum lugar, ou ficar para sempre num lugar onde não se tem estradas para andar.
   E nesse instante, o velho levantou-se dum salto, exibindo uma agilidade que não esperaria dum velho como ele.
   - Venha comigo! – ordenou, pegando à passagem numa picareta que estava encostada ao canto da casa.
   Tinha muitas perguntas no espírito mas decidiu calar-se. Colado à sombra do velho, seguiu-o até a um outro monte próximo, em cujo topo distinguiu algo bizarro e misterioso – uma paralelepípedo com as dimensões dum autocarro que parecia formado de muitos e diferentes objectos embrulhados e enrolados numa matéria vítrea e amarelada como a resina seca.
   - O que é isto?
   O velho entregou-lhe a picareta.
   - Aquilo é a sua vida, o casulo da sua vida, olhe com atenção porque irá reconhecê-la. Está tudo ali, como num bolo em camadas, começa com a sua infância na base e até antes disso e, depois, as diversas pessoas em que você se transformou ao longo da sua vida. O seu trabalho é recuperar as coisas que você foi largando, os seus objectos e os objectos associados às pessoas que o amaram sem esperança, que o ajudaram sem retribuição nem gratidão, que tentaram fazer por si o que você não faria por ninguém deste mundo, ou do mundo pretérito, melhor dizendo. Se resgatar esses objectos e seres desta amálgama, talvez haja esperança para si.
   - Tenho de trabalhar? Ou melhor, vou ter de me matar a trabalhar para desfazer este rochedo a golpes de picareta? Você deve estar a sonhar…
   - Eu ajudo-o – disse o velho – eu dou o primeiro golpe e você continua, se achar que vale a pena.
   O velho desapareceu do seu lado, e reapareceu no cimo do paralelepípedo como se tivesse voado para lá.     Levantou a picareta e mergulhou-a no casulo vitrificado. Instantes depois estava ao pé de si, abriu a mão e mostrou-lhe um pequeno objecto metálico.
   - Guarde! – disse – esta é a coroa de glória da sua vida excepcional, a bala que fizeram o favor de enfiar na sua cabeça oca.

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