fado

   Agora, os Correios facilitaram as coisas. As fadas são entregues em casa, em mão própria, embaladas em celofane. Vêem num envelope que, regra geral, chega primeiro que o carteiro que o transporta. Uma vez entregues, as pessoas tomam a responsabilidade pelo seu destino. Eu costumo encomendar fadas por catálogo duma categoria que vem publicitado como "nebuloso e numinoso", ou seja, através desta algaravia comercial, sei que estas fadas são indicadas para o uso que lhes dou: aplico-as como recheio de almofada. Esvazia-se um pouco a almofada e coloca-se lá dentro a fada. É macia como uma nuvem e faz flutuar a nossa cabeça enquanto dormimos, também nos serve de nume durante as odisseias que experimentamos no sonho.
   Por exigências do distribuidor, ao fim dum dado período de experiência vem a nossa casa um delegado comercial para se certificar de que a fada que foi encomendada está a ser cuidada como merece. O que me visita habitualmente é um tipo expansivo e muito falador. No meu caso, nunca dei motivos para reclamações. Por vezes, elas estão já um pouco amarfanhadas e cheias de ácaros, mas isso é habitual nesta categoria, e o delegado comercial chega a trocá-los por uma em melhor estado sem censuras de maior. Noutras casas e casos, o delegado comercial (sei pelos seus desabafos) tem tido algumas surpresas, ao saber de fadas que são usadas como brinquedos sexuais ou como ingrediente-chave para receitas de culinária exótica. O Jambrinhas, o ocupa que se apossou das águas-furtadas do meu prédio, migou uma fada na máquina de picar carne, e foi usando-a aos poucos, incinerando-a em pequenas porções com uma colher e um isqueiro na esperança de que ela tivesse propriedades psicotrópicas.
   Mas tudo isto são infelizes excepções, diz-me o delegado comercial. O que está a ameaçar a prosperidade do distribuidor, é que o organismo das fadas não suporta a clausura, e rapidamente se deteriora nessas condições, e para disfarçar o aroma a podridão que já libertam no acto da entrega, é que elas são perfumadas com abundância antes de serem embrulhadas em celofane.
   Se isto poderá parecer um pouco desonesto, a verdade é que, como conclui o delegado, as pessoas têm as fadas que merecem.

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