É tramado!

   «O grande problema das pessoas que sofrem de alergias como eu, é os alergénios ocultos ou não declarados. Um tipo é alérgico ao amendoim, por exemplo, come uma deliciosa tarde de morango confeccionada com manteiga de amendoim, e Zás Trás!, fica com problemas respiratórios, e borbulhões na pele como se estivesse a pagar pelo pecado da gula (ou da gulodice). O meu drama pessoal é o trabalho, sou alérgico ao trabalho, literalmente. É claro que trabalho, mas para manter os meus sintomas alérgicos em níveis que possa tolerar, tomo diariamente para o efeito um batalhão de comprimidos e xaropes; caso contrário, não o poderia fazer.
  «Mas o meu drama dentro do drama, são as férias. Dizem-me: "Estás de férias, podes relaxar!". E eu relaxo. Não tenho de trabalhar, por isso, não tenho de tomar a medicação para a minha alergia ao trabalho. Mas as coisas saem-me sempre ao contrário. Se estou em casa, engatam-me para fazer pequenos arranjos, obras em casa e no jardim, serviços à comunidade, ajudar a descarregar as mercearias compradas pelos vizinhos, soprar nos geradores eólicos em dias de calmaria. Se saio de férias com a família, o trabalho salta-me sempre ao caminho, fazer e desfazer malas e carregar com elas, montar tendas de campismo, ir pela madrugada comprar pão fresco para o pequeno-almoço, arrastar geleiras e grades de cerveja, respirar o ar puro do campo; tudo, coisas que dão imenso trabalho.
  «Assim, as minhas férias são sempre pontuadas por episódios de surto alérgico com os seus sintomas indesejáveis, e idas rápidas a farmácias e urgências de Hospital. De cada vez que a alergia volta,retomo a medicação, mas abandono-a quando os sintomas aliviam porque penso comigo (erradamente): agora é que as minhas férias vão começar a sério!
  «Onde quer que passe as férias, ou de que forma as empregue, acabo sempre a voltar para o trabalho com cara de quem está a precisar de começar umas férias novas».

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