A chuva veio nas horas da noite que precederam o amanhecer e a luz. Veio discreta, traiçoeira, felina. Caiu sobre os campos, os telhados, os desertos, e diluiu as cores de tudo, arrastando-as numa enxurrada confusa e colorida, todas as cores do espectro desapareceram, as cores das nuvens, do céu e dos mares, mesmo as das pessoas que dormiam nas casas e dos seus sonhos subitamente transparentes e deslavados, mesmo a dos bichos recolhidos nas suas covas, e dos peixes de luz no fundo dos abismos marinhos.


  Quando o dia finalmente irrompeu, não existiam já cores nenhumas, nem nos rios, mares e lagos para onde elas haviam escorrido, todo o universo era composto por formas transparentes onde os contornos eram delineados por rebordos e zonas translúcidas, um infindável painel vítreo à espera de ser pintado, colorido.


   Mas, com quê?

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