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Adenda

 Nota Suplementar
Ao “Relatório Etnológico a Respeito das Populações Arcaicas da Anatólia”
Por Renato Silvestre (Doutor) e Alípio Antunes (Bacharel).


«Nas margens do lago Van, viveu em tempos uma população nómada (omitida no Relatório), que era conhecida pelo nome de Rushmir, nome de raiz arménia que é comummente usado para referir o vento. Os últimos representantes da etnia são tão modernos quanto os anos trinta do século XX, e alguns Rushmir chegaram a ser entrevistados e desenhados por altura das primeiras escavações arqueológicas em povoados e cidades hititas (v. Bibliografia). Os Rushmir viviam do comércio e da pastorícia, e tudo faziam para não terem contacto algum com a terra, que consideravam como um elemento perverso e negativo do universo. E isso estava presente em todas as fases da vida duma pessoa.

«Homens e mulheres usavam sandálias de sola grossa, para os separar desse elemento. Todos os que colhessem ervas para os rebanhos, ou frutos, ou raízes comestíveis de arbustos, tinham de se purificar após esse acto, e alguém que o fizesse regularmente (como os pastores, ou as mulheres em geral) era tido como um ser impuro.

«Quando nascia um Rushmir, o cordão umbilical era envolvido em panos brancos (cor que associavam ao ar e aos cumes brancos das montanhas do Tauro) e queimado num cesto tecido com os ramos finos das árvores mais altas da região.

«Por ocasião da sua morte, nunca o corpo dum Rushmir podia ser enterrado na terra. Era levado para dentro duma pequena torre erguida com pedras soltas, onde se deixava que os abutres devorassem a sua carne. Acreditava-se que a alma estava distribuída pela carne, e que, ao ser devorada pelos abutres, ela era levada assim de volta para os espíritos uranianos que estavam na base do seu sistema de crenças. Depois de descarnado o corpo, os ossos eram quebrados e esmagados com rochas como se não tivessem qualquer significado ou função.

«Uma expressão notável das suas crenças era a casa dos Rushmir. Estes nunca construíram casas em alvenaria por não desejarem erguer algo com fundações a partir da terra. As famílias Rushmir viviam em cabanas de madeira e peles de animais, mas também estas não se apoiavam em troncos cravados na terra com receio de que estes ganhassem raízes e causassem a derrocada das suas crenças e normas sociais. A cabana era montada a partir de dois troncos delgados de madeira tenra, de comprimento ligeiramente diferente, que eram dobrados e dispostos em cruz, e atadas então as pontas com cordas. Essa estrutura era deixada a secar ao sol, mas, no processo, também era comum queimar a casca das árvores com tochas para acelerar o processo. Depois que os troncos ficavam rijos, era montado o resto da estrutura: paus atados horizontalmente a estes troncos-guia e, sobre estes, as esteiras e peles de animais. Finalizada a casa, os Rushmir criavam o seu mobiliário rudimentar, do qual é importante realçar os estrados em madeira sobre os quais dormiam para não estarem em contacto directo com a terra. Mencionamos antes que os dois troncos-guia da cabana Rushmir tinham dimensões algo diferentes, e isso tem uma explicação de carácter mítico-religioso: o tronco maior representava a luminosa coluna vertebral do cosmos, a nossa Via Láctea, onde viviam as almas dos Rushmir que haviam morrido, e os seus espíritos tutelares. Os Rushmir evocavam uns e outros, entalhando figuras e símbolos no tronco-guia principal da sua cabana familiar.
«Uma última referência a um dos seus processos de expurgação social. Quando um indivíduo cometia um acto sacrílego ou agia ou dizia alguma coisa que lesasse as leis mais sagradas dos Rushmir, podia ser condenado a espojar-se na areia impura e, a partir desse momento, é como se tivesse morrido. Raymond Williamson, que liderou as escavações no templo de Arinna em Hattusa, deixou escrito no seu diário da campanha, que presenciou um desses castigos dos Rushmir, e que o proscrito, depois disso, deixou-se simplesmente morrer, golpeando cruentamente o seu próprio nariz, convencido de que, por ter estado imerso na areia, estava a apodrecer rapidamente no meio dum fedor insuportável.


Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...