INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

O Renitente

   «Porque é que o senhor não fala? O senhor devia falar mais vezes, não é saudável andar assim, calado, como se os lábios estivessem cosidos com alguma linha invisível, devia falar, palrar, tagarelar, cavaquear, dizer umas graçolas para passar o tempo, soltar uns bitaites para desemburrar a vida, mandar umas postas de pescada para ajudar à festa.
   «Eu cá comigo, desconfio sempre das pessoas caladas, cá para mim andam a preparar alguma e já a fizeram ou estão para a fazer.  Você não vê aquele ditado sobre o cão que ladra não morde? É isso que eu acho, penso que era o Lucrécio, ou então, o senhor Saraiva da minha aldeia, que dizia também que se deve estar de olho no homem que não fala e no cão que não ladra.
   «Não é bom para a nossa cabecinha andar calado, até porque a língua é um músculo que deve ser exercitado porque senão atrofia, e nem estou a falar da degustação ou do sexo oral, porque isso também é muitíssimo importante. Mas, veja, se você não der à língua é como se fosse um cavalo que tivesse desistido de correr no meio duma pista de obstáculos, fica deitado no chão e espera que lhe tragam forragem para engordar mais depressa. Agora, diga-me, que utilidade é que poderia ter um cavalo desses? Nenhuma, obviamente. Por isso é que temos o dever de falar, e a menos que nos cortem a língua, temos de manter a preocupação de treinar a agilidade da nossa língua. Agora, não me venha o senhor dizer que eu falo de mais, seria um absurdo, um contra-senso, seria como se a natureza nos tivesse dado asas e a gente fosse trancafiá-las numa gaveta qualquer e estivesse à espera que os outros fizessem o mesmo...»
   - Olhe, desculpe interromper...
   «O que é? Fale o senhor também, diga de sua justiça!»
   - É que nós estamos a atravessar um momento particularmente difícil, eu e a minha família, e pedíamos-lhe que tentasse não perturbar o velório. Pode ser?...

GPS

   O automóvel rolava na estrada, o som monótono do motor e das rodas só era interrompido pela voz do GPS reconfigurado.
   «A duzentos metros, rotunda. Virar na primeira saída à direita, seguir durante oitocentos metros e encontrarão o barranco do miradouro, o primeiro local ideal para tentar o suicídio».
   Os dois entreolharam-se. Naamm - lia-se nos seus olhos. Pouco passava das duas, ainda era tão cedo!
   Encontraram a rotunda, viraram à direita, andaram oitocentos, mil metros.
   «Caminho errado. Quando possível, inverter a marcha e regressar ao miradouro!»
   Continuaram. A mensagem de erro ainda foi repetida duas vezes, antes de perder a sua importância.
   «No próximo cruzamento, virar à esquerda. A duzentos metros, poço a descoberto à direita da estrada, poço profundo que engole todos os que aí se atiram devido a plantas aquáticas e raízes que atravessam as paredes do poço».
   Sem sequer se consultarem um ao outro, chegaram ao cruzamento e viraram à direita.
   «Caminho errado. Quando for possível, regressar ao cruzamento e seguir em frente...Caminho errado...»
   O pé premiu ainda mais o acelerador, afastando o carro do cruzamento.Um pouco mais adiante, o GPS voltou à carga.
   «Rotunda a seiscentos metros. Seguir em frente até à falésia diante do mar. A falésia não tem resguardo, é só seguir em frente...».
   - Achas que saltemos agora? - Perguntou ele.
   - Não sei, está um dia bonito e cheio de Sol, a vista da falésia deve ser fabulosa - sugeriu a esposa.
   Mal acabara de falar, o Sol escondeu-se, e o dia ficou sombrio e triste como o xaile negro duma viúva.
   - A que distância é que estaremos de lá? - Perguntou ela, remoendo as suas palavras.
   «Rotunda a duzentos metros. Seguir em frente até à falésia diante do mar...»

A devastação

- Desapareceu uma cozinha inteira, com os móveis, electrodomésticos e figuras, e eu reconstruí tudo com maçapão, e aproveitei ter-me sobrado material, e modelei um aparador novo para o corredor.
- Certo, bom trabalho...e depois?
- Noutro dia foi a escada para o sótão, e o bengaleiro da entrada. Comidos! Assim como a pobre família sentada diante do televisor. Assim não consigo, nem mesmo a usar todo o talento artístico que me coube.
- Vem aí uma recriminaçãozinha qualquer...Qual é?
- Sabes como a tua filha é apegada à casa das bonecas! Só te peço que instales armadilhas para os ratos!
O Homem-Que-Queria-Tudo corria passeio acima quando viu, sentado e assentado, o Homem-Que-Já-Teve-Tudo.
- Porque corres? – Perguntou este.
- O mundo é imenso e eu quero uma fatia grossa dessa imensidão do mundo - eis porque tenho de correr! E porque estás tu parado?
- Porque não existe mundo, apenas a sua oca imensidão.


   A chuva veio nas horas da noite que precederam o amanhecer e a luz. Veio discreta, traiçoeira, felina. Caiu sobre os campos, os telhados, os desertos, e diluiu as cores de tudo, arrastando-as numa enxurrada confusa e colorida, todas as cores do espectro desapareceram, as cores das nuvens, do céu e dos mares, mesmo as das pessoas que dormiam nas casas e dos seus sonhos subitamente transparentes e deslavados, mesmo a dos bichos recolhidos nas suas covas, e dos peixes de luz no fundo dos abismos marinhos.


  Quando o dia finalmente irrompeu, não existiam já cores nenhumas, nem nos rios, mares e lagos para onde elas haviam escorrido, todo o universo era composto por formas transparentes onde os contornos eram delineados por rebordos e zonas translúcidas, um infindável painel vítreo à espera de ser pintado, colorido.


   Mas, com quê?

Visão

- Tive uma premonição, muita intensa. Neste lugar onde nos encontramos, havia chamas ali em frente, no Cinema, e pessoas a gritar lá dentro. Havias de ter visto, uma coisa pavorosa, rolos de fumo mais negros que alcatrão, e gritos de arrepiar, com toda a gente cá fora a gritar também, impotentes para fazer o que quer que fosse.
- E quando é que achas que isso poderá acontecer?
- Hoje, sei, sinto que é hoje, e aquele relógio digital diante da farmácia marcava 16:50...Ou 17:50...não me lembro bem.
- Mas já são 16:25, e de fumo não se vê nem o ténue traço do fumo dum cigarro.
- Vai acontecer, sei que sim! Mas, pelo sim, pelo não, trago na bagageira do carro um isqueiro e um jarricã de gasolina...

O Cabo da Vaga Esperança

   Dobrou os 35 e descobriu-se nostálgico. Vive ouvindo as músicas que embalaram a sua infância e adolescência, revê os filmes e séries de televisão, restaurou e enriqueceu a sua colecção de brinquedos identitários. Agora, a mãe deu com ele a chorar diante duma foto do Joly, o seu cão preferido que, vinte e cinco anos atrás, fora feito em papa por um camião mesmo em frente à casa.
   - Meu filho... - foi avisando a mãe - espero que não penses em regressar ao meu ventre, porque já não cabes na porta...



No Micro-leituras:




Abraham Omar Lugo









João Pereira de Matos
O polícia traçou uma linha branca no alcatrão da berma da estrada. 
- Caminhe sobre ela, um pé à frente do outro! 
Ele assim fez mas, ao segundo passo, a linha começou a esticar-se mais e mais à sua frente. Crescia e serpenteava como uma cobra, torneou a base dos morros mais próximos e tomou o caminho da montanha pelo V do vale. Com ele a correr atrás, um pé à frente do outro, correndo muito para não a perder, enquanto os polícias sopravam nos apitos sem saber bem porquê.

fado

   Agora, os Correios facilitaram as coisas. As fadas são entregues em casa, em mão própria, embaladas em celofane. Vêem num envelope que, regra geral, chega primeiro que o carteiro que o transporta. Uma vez entregues, as pessoas tomam a responsabilidade pelo seu destino. Eu costumo encomendar fadas por catálogo duma categoria que vem publicitado como "nebuloso e numinoso", ou seja, através desta algaravia comercial, sei que estas fadas são indicadas para o uso que lhes dou: aplico-as como recheio de almofada. Esvazia-se um pouco a almofada e coloca-se lá dentro a fada. É macia como uma nuvem e faz flutuar a nossa cabeça enquanto dormimos, também nos serve de nume durante as odisseias que experimentamos no sonho.
   Por exigências do distribuidor, ao fim dum dado período de experiência vem a nossa casa um delegado comercial para se certificar de que a fada que foi encomendada está a ser cuidada como merece. O que me visita habitualmente é um tipo expansivo e muito falador. No meu caso, nunca dei motivos para reclamações. Por vezes, elas estão já um pouco amarfanhadas e cheias de ácaros, mas isso é habitual nesta categoria, e o delegado comercial chega a trocá-los por uma em melhor estado sem censuras de maior. Noutras casas e casos, o delegado comercial (sei pelos seus desabafos) tem tido algumas surpresas, ao saber de fadas que são usadas como brinquedos sexuais ou como ingrediente-chave para receitas de culinária exótica. O Jambrinhas, o ocupa que se apossou das águas-furtadas do meu prédio, migou uma fada na máquina de picar carne, e foi usando-a aos poucos, incinerando-a em pequenas porções com uma colher e um isqueiro na esperança de que ela tivesse propriedades psicotrópicas.
   Mas tudo isto são infelizes excepções, diz-me o delegado comercial. O que está a ameaçar a prosperidade do distribuidor, é que o organismo das fadas não suporta a clausura, e rapidamente se deteriora nessas condições, e para disfarçar o aroma a podridão que já libertam no acto da entrega, é que elas são perfumadas com abundância antes de serem embrulhadas em celofane.
   Se isto poderá parecer um pouco desonesto, a verdade é que, como conclui o delegado, as pessoas têm as fadas que merecem.

Porto Novo

    Quem chegou primeiro foi o historiador auto-didacta, e romântico, que afirmou que as gentes deste lugar eram descendentes de marinheiros, fenícios ou púnicos, e que tinham o sangue espesso por causa das areias do deserto e das cinzas do moloque esfaimado. O genealogista, rindo interiormente com a sobranceria inspirada pelos livros que lera, negou a generosa fantasia, pegou em papéis, certidões e fotocópias de livros de assentamentos, e desenhou os primeiros ramos da árvore, até há cinco ou sete gerações atrás, tudo muito miúdo, minucioso e esmiuçado, com casamentos, parentescos e descendência. Foi, até onde conseguiu ir, e depois enfiou o orgulho nas algibeiras.
  Outro historiador, este, de mais fôlego, pegou nos apelidos e, foçando nos arquivos, recuou até onde podia recuar, até ao útero da palavra escrita. Vencido pelo silêncio dos nomes, deu o seu lugar ao arqueólogo e ao antropólogo, que andaram para um lado e para o outro com o ADN e com as evidências comprovadas, mas não conseguiram mais do que modelos teóricos de migrações e povoamentos, no meio dos quais se perdeu a pista á origem das gentes deste lugar.
   No final, depois dos seus oponentes terem desistido, regressou o historiador auto-didacta, criticado, ostracizado, e agora redimido pela impotência das outras mentes; historiador que, entretanto, lera aturadamente poesia, e que não precisou de muitos elementos ou estudos para surpreender o brilho das constelações nos olhos destas gentes. Os seus ancestrais, afirmava agora, não eram marinheiros antigos do Mediterrâneo, mas antigos navegantes interplanetários, e tinham o sangue espesso e negro devido às tempestades furiosas na superfície dalgum planeta gigante. E às suas origens ou às suas viagens entre as estrelas, tinham ficado a dever os seus hábitos sonâmbulos, e os sonhos recorrentes sobre o nascimento doloroso e ígneo de mundos, e a eclosão de criaturas estranhas em ovos de vidro suspensos sobre abismos cor de salitre.
  Depois dessas afirmações, ninguém dos outros homens de ciência o contestou. Antes pelo contrário, defendem-no e, ocasionalmente, fazem-lhe companhia enquanto ele grava os relatos dos habitantes de Porto Novo, desfiados enquanto aprestam os seus barcos de nomes bizarros, ou decoram com estrelas e símbolos os ovos de louça saídos das suas oficinas de olaria.


         Vivia numa pequena aldeia da Estremadura chamada Alfeizerão, e enamorara-se da filha dum vizinho quando era rapaz jovem. Sentia, sabia, que ela seria a mulher da sua vida, mas meteu na cabeça que tinha que construir um futuro para ambos e, para isso, precisava ganhar dinheiro, muito dinheiro, e construir uma casa, e provê-la de todos os bens que ela pudesse precisar, e ter dinheiro de reserva para os filhos que ambos pudessem ter.  
    Devido a tudo isso, emigrou, andou embarcado, trabalhou como um mouro, sofreu como um condenado. Mas conseguiu o dinheiro, não obstante alguns aninhos que haviam transcorrido no processo.
    Quando voltou à aldeia natal - já ostentando alguns cabelos brancos na cabeça - o objecto da sua paixão já não se encontrava aí.
    Sem esta explicação prévia, ninguém poderá entender porque é que, num cemitério a dezenas de quilómetros desta aldeia, e na campa duma mulher, existe uma aliança presa a um fio que abraça a cruz de pedra.

Ansiedade


   Podia dar-lhe para pior, porque agora crê que é uma mariposa, e anda dum lado para outro a agitar as asas, braços, digo, e a chocar contra as paredes do estômago.


Karma (um quadro)

    Cave dum arranha-céus citadino. Um círculo de carros forma uma arena improvisada e no seu centro, estudando-se com instinto assassino, dois homens preparam-se para a refrega. Possuem coleiras eriçadas de picos, olhos raiados de sangue, e a baba escorre das suas bocas rosnantes. 
  Estão treinados e preparados para matar, mas, como se isso não fosse suficiente, são atiçados para o fazer com rosnadelas e latidos dos animais que assistem à luta como uma cortina viva sobre os carros: Boxers, Dobermanns, Pit Bulls, Rotweillers, Dogues Argentinos...

o limiar

   Acontecia-lhe ter pesadelos terríveis, com monstros hediondos que a atacavam, criaturas que não lembrariam a um aderecista de filmes de terror, todos eriçados de garras e espinhos, tentáculos, fauces ensaguentadas. O médico receitou-lhe uns comprimidos para dormir profundamente, e esses monstros desapareceram, de facto, das suas noites, expulsos para algum lugar, certamente longínquo. A sua alegria não durou muito tempo, e começou a definhar com o regresso dum desses monstros quando se preparava para dormir, ou duma parte dele, um tentáculo esponjoso que surripiou os comprimidos da sua mesa-de-cabeceira num gesto rancoroso.

O grande dia

   O casal morava a escassos metros da fortaleza, e dali os dois podiam ouvir os músicos a ensaiar no pátio murado. A mulher, irrequieta como uma noiva no dia da boda, voltou ao quarto quando ele aparava ao espelho os fartos bigodes. O uniforme estava estendido em cima da cama. O dólman de cotim de algodão de cor cinza-azulado, as calças curtas, próprias das tropas apeadas, o capote com gola de voltar e botões metálicos largos, e as grevas cinzentas. Aos pés da cama, as botas de couro, tão bem zeladas que se diria serem novas.
   - Sinto-me orgulhoso de ti – confessou – sinto uma grande alegria quando te vejo todo aperaltado com os olhos de todos os oficiais e das suas esposas postos em ti. Sim, porque só esses é que interessam, não os do povo que só sabe gritar e ulular como uma matilha de cães danados. Ah! E também o senhor bispo, e o nosso governador e a sua bela família, e as pessoas importantes que são chamadas a subir à varanda, os embaixadores, os comerciantes, os sábios homens de letras.
   O militar voltou a inspeccionar as botas, e começou a vestir-se, enquanto a mulher retomava o seu discurso depois de um longo suspiro de álgida felicidade.
   - Ficas tão bem com o teu uniforme, tenho a certeza de que os oficiais e os teus camaradas têm a mesma opinião, e talvez te invejem um pouco, bem lá no fundo, tal é a tua elegância e beleza. Por vezes, fico a imaginar qual seria a reacção deles se te vissem com um uniforme de oficial, daqueles com peliça de cor azul com faixa de astracã, dólman de botões dourados e um daqueles lindos casacos negros de lã. Ah! Aí então eu seria a mais feliz das mulheres, e teria de me conter para não andar sempre contigo, agarrado ao teu braço, a anunciar às pessoas que sou casada contigo.
   Ele acaba de se vestir, e coloca a espingarda ao ombro. Só dentro do forte, quando estivesse com os outros, é que acabaria de a preparar. Sentia-se cansado, muito cansado.
   - Nesse dia, quando envergares um uniforme de oficial, hei-de ver-te com um daqueles sabres de cerimónia, a conduzires os teus homens nas paradas, e ai é que eu vou rebentar mesmo de orgulho. E esse dia vai chegar mais depressa do que pensamos, eu acredito nisso como acredito na Virgem. Vai, vai lá, e mantém-te assim aprumado, porque todos vão estar de olhos postos em ti.
   - Mulher – falou por fim – é só mais um fuzilamento...

Adenda

 Nota Suplementar
Ao “Relatório Etnológico a Respeito das Populações Arcaicas da Anatólia”
Por Renato Silvestre (Doutor) e Alípio Antunes (Bacharel).


«Nas margens do lago Van, viveu em tempos uma população nómada (omitida no Relatório), que era conhecida pelo nome de Rushmir, nome de raiz arménia que é comummente usado para referir o vento. Os últimos representantes da etnia são tão modernos quanto os anos trinta do século XX, e alguns Rushmir chegaram a ser entrevistados e desenhados por altura das primeiras escavações arqueológicas em povoados e cidades hititas (v. Bibliografia). Os Rushmir viviam do comércio e da pastorícia, e tudo faziam para não terem contacto algum com a terra, que consideravam como um elemento perverso e negativo do universo. E isso estava presente em todas as fases da vida duma pessoa.

«Homens e mulheres usavam sandálias de sola grossa, para os separar desse elemento. Todos os que colhessem ervas para os rebanhos, ou frutos, ou raízes comestíveis de arbustos, tinham de se purificar após esse acto, e alguém que o fizesse regularmente (como os pastores, ou as mulheres em geral) era tido como um ser impuro.

«Quando nascia um Rushmir, o cordão umbilical era envolvido em panos brancos (cor que associavam ao ar e aos cumes brancos das montanhas do Tauro) e queimado num cesto tecido com os ramos finos das árvores mais altas da região.

«Por ocasião da sua morte, nunca o corpo dum Rushmir podia ser enterrado na terra. Era levado para dentro duma pequena torre erguida com pedras soltas, onde se deixava que os abutres devorassem a sua carne. Acreditava-se que a alma estava distribuída pela carne, e que, ao ser devorada pelos abutres, ela era levada assim de volta para os espíritos uranianos que estavam na base do seu sistema de crenças. Depois de descarnado o corpo, os ossos eram quebrados e esmagados com rochas como se não tivessem qualquer significado ou função.

«Uma expressão notável das suas crenças era a casa dos Rushmir. Estes nunca construíram casas em alvenaria por não desejarem erguer algo com fundações a partir da terra. As famílias Rushmir viviam em cabanas de madeira e peles de animais, mas também estas não se apoiavam em troncos cravados na terra com receio de que estes ganhassem raízes e causassem a derrocada das suas crenças e normas sociais. A cabana era montada a partir de dois troncos delgados de madeira tenra, de comprimento ligeiramente diferente, que eram dobrados e dispostos em cruz, e atadas então as pontas com cordas. Essa estrutura era deixada a secar ao sol, mas, no processo, também era comum queimar a casca das árvores com tochas para acelerar o processo. Depois que os troncos ficavam rijos, era montado o resto da estrutura: paus atados horizontalmente a estes troncos-guia e, sobre estes, as esteiras e peles de animais. Finalizada a casa, os Rushmir criavam o seu mobiliário rudimentar, do qual é importante realçar os estrados em madeira sobre os quais dormiam para não estarem em contacto directo com a terra. Mencionamos antes que os dois troncos-guia da cabana Rushmir tinham dimensões algo diferentes, e isso tem uma explicação de carácter mítico-religioso: o tronco maior representava a luminosa coluna vertebral do cosmos, a nossa Via Láctea, onde viviam as almas dos Rushmir que haviam morrido, e os seus espíritos tutelares. Os Rushmir evocavam uns e outros, entalhando figuras e símbolos no tronco-guia principal da sua cabana familiar.
«Uma última referência a um dos seus processos de expurgação social. Quando um indivíduo cometia um acto sacrílego ou agia ou dizia alguma coisa que lesasse as leis mais sagradas dos Rushmir, podia ser condenado a espojar-se na areia impura e, a partir desse momento, é como se tivesse morrido. Raymond Williamson, que liderou as escavações no templo de Arinna em Hattusa, deixou escrito no seu diário da campanha, que presenciou um desses castigos dos Rushmir, e que o proscrito, depois disso, deixou-se simplesmente morrer, golpeando cruentamente o seu próprio nariz, convencido de que, por ter estado imerso na areia, estava a apodrecer rapidamente no meio dum fedor insuportável.



«(…) Se, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna do vosso quarto, despertardes com a embriaguez diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são.

E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão:

- É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!»

Baudelaire (Pequenos Poemas em Prosa, 33)

Proto-tipinhos

Um amigo meu ia entrar ao trabalho às sete da manhã. Corria o mês de Julho, o dia era tão claro que se podia desenhar as penas da cauda dum milhafre a planar no céu. A uns cinquenta metros da fábrica onde trabalha, a polícia manda-o parar e fazem uma breve vistoria. Documentos, piscas, esguicho do limpa-pára-brisas, estado dos pneus. Tudo em ordem. Mas não é isso que lhe dizem, e passam-lhe uma multa por não ter os mínimos ligados e andar na estrada sem visibilidade suficiente. O meu amigo tenta responder pela lógica:
- A multa não faz sentido - protesta - se vocês me viram para me mandar parar, é porque o carro tinha visibilidade suficiente.
- As coisas são como são - replica um deles, com uma lógica irrepreensível - e se começa a protestar, o valor da multa sobe na mesma proporção.
O meu amigo cala-se, recolhe a multa e segue caminho, depois de acender os faróis nos máximos, os quatro-piscas e a luz do interior do habitáculo.




No Lago Bess da Escócia, vive uma criatura marinha misteriosa a quem os locais chamam Bessie. Quase nunca é vista, mas a sua voz cheia e rouca pode ser ouvida a pairar sobre as ondas nas noites de luar.

frase lapidar

- A minha solidão escreve-se com as letras do teu nome! -disse-lhe ela quando se despediu. 
Ele ficou a pensar nisso, 
até hoje. 
Já experimentou sinónimos de solidão em face ao seu próprio nome; 
anagramas do seu nome e as palavras que a solidão lhe inspira,
a palavra solidão em diversas línguas, e as traduções possíveis do seu nome.
Ao fim de tanto tempo e de tantas suspeitas e pesquisas, ele, que cada vez estranha mais o seu próprio nome, vive cada dia mais solitário.
O barco começa a afundar. Ouve-se as sirenes e os gritos. Na água gelada, cinco fãs de Esther Williams fazem natação sincronizada, dançam em sintonia e desenham círculos e estrelas com os seus corpos.
O taxista, sem pressa alguma de chegar ao destino indicado, montava discursos de cicerone e cosia-se às ruas da cidade e aos seus milhentos atractivos com tanta paciência e meticulosidade, que eu achei que ele devia ser um taxidermista nas horas vagas.

Os malabaristas do circo fizeram uma sociedade na lotaria e saiu-lhes a sorte grande. Agora, brincam aos circos nos coqueiros de praia da costa do Malabar.

Coerência Zen

- Mestre, o que eu faço às minhas paixões e desejos?
- Aligeira-te delas, liberta-te, atira tudo para trás das costas!
- E aos meus medos?
- Se não tiveres paixões nem desejos, também não terás medos. Mas se algum dos teus medos persistir, deita-o fora, liberta o peso que carregas sobre ti, atira-o para longe.
- E aos meus sonhos de futuro, àquilo que eu achava que viria a ser um dia?
- Deita-os também fora, tu caminhas para o não-ser, futuro e sonho não existe aí. Liberta-te de todos esses erros, e atira-os para bem longe!
- E a afeição dos meus amigos e familiares?
- Liberta-te desse e de todos os pesos, começa agora mesmo, enquanto subimos ao santuário.
- Mas mestre, e o seu peso? O que faço consigo, agora que o trago ás cavalitas?
- ...



   A ilha tinha zonas completamente destruídas, com árvores arrancadas pela raiz, e erguidas como destroços de proas, folhas de palmeira a rolar em volta como fiapos do tecido das velas, covas na praia cheias de água onde boiavam cocos quebrados e animais mortos pela tempestade. Cadáveres, ruínas, vestígios.
   Ao homem solitário, pareceu-lhe que a ilha naufragara como ele.

Propriedade intelectual

- Vou escrever uma história absurda. Já a tenho na cabeça...começa com um pássaro com escamas que vive dentro do mar, e que é apanhado por um pescador à dentada como os ursos apanham os salmões. O pescador abre uma das tampas da cesta de vime para o levar para casa, mas a cesta começa a agitar ambas as tampas e levanta voo para grande alegria do pássaro. O que é que achas da história?
- Acho-a engraçada, sempre achei, mas deverias ver primeiro se não tens de pagar direitos de autor. O tipo que a tatuou na tua careca vai ter motivos para apresentar queixa contra ti.

É tramado!

   «O grande problema das pessoas que sofrem de alergias como eu, é os alergénios ocultos ou não declarados. Um tipo é alérgico ao amendoim, por exemplo, come uma deliciosa tarde de morango confeccionada com manteiga de amendoim, e Zás Trás!, fica com problemas respiratórios, e borbulhões na pele como se estivesse a pagar pelo pecado da gula (ou da gulodice). O meu drama pessoal é o trabalho, sou alérgico ao trabalho, literalmente. É claro que trabalho, mas para manter os meus sintomas alérgicos em níveis que possa tolerar, tomo diariamente para o efeito um batalhão de comprimidos e xaropes; caso contrário, não o poderia fazer.
  «Mas o meu drama dentro do drama, são as férias. Dizem-me: "Estás de férias, podes relaxar!". E eu relaxo. Não tenho de trabalhar, por isso, não tenho de tomar a medicação para a minha alergia ao trabalho. Mas as coisas saem-me sempre ao contrário. Se estou em casa, engatam-me para fazer pequenos arranjos, obras em casa e no jardim, serviços à comunidade, ajudar a descarregar as mercearias compradas pelos vizinhos, soprar nos geradores eólicos em dias de calmaria. Se saio de férias com a família, o trabalho salta-me sempre ao caminho, fazer e desfazer malas e carregar com elas, montar tendas de campismo, ir pela madrugada comprar pão fresco para o pequeno-almoço, arrastar geleiras e grades de cerveja, respirar o ar puro do campo; tudo, coisas que dão imenso trabalho.
  «Assim, as minhas férias são sempre pontuadas por episódios de surto alérgico com os seus sintomas indesejáveis, e idas rápidas a farmácias e urgências de Hospital. De cada vez que a alergia volta,retomo a medicação, mas abandono-a quando os sintomas aliviam porque penso comigo (erradamente): agora é que as minhas férias vão começar a sério!
  «Onde quer que passe as férias, ou de que forma as empregue, acabo sempre a voltar para o trabalho com cara de quem está a precisar de começar umas férias novas».

Caminho

- Desde que nasci que ando à procura da minha casa!
- E onde é que fica a tua casa?
- O infinito é a minha casa!!
- Caramba! Isso fica longe, deves gastar umas quantas solas de sapato para lá chegares!

Depois de mim...

- Amor, já viste que o Duarte, da Quinta de S. João, tem uma lancha enorme em cima dum atrelado, frente à casa?
- Sim, vi, vê-se bem da estrada.
- Estou preocupada...estou mesmo preocupada...
- Por ele ter uma lancha? Estou-te a estranhar, achava que não eras invejosa, e que tanto te fazia que os outros tivessem uma lancha, um iate, ou um patinho de borracha na banheira.
- Não, não é por isso. É que, quando passei, ele estava a fazer entrar na lancha todos os animais que tem na quinta, ou animais de todas as espécies, porque era só um casal de cada.

Forever more

«A modesta propriedade onde vivo, é composta por uma casa simples (pouco mais do que um barraco), aninhada num terreno exíguo que considero meu de direito. O espaço em volta da casa é um jardim natural com ervas e malvas, pedras, e silvas. A norte, junto à nogueira que aí se ergue, orgulhosa, estende-se para um lado e para o outro uma sebe que foi prosperando por si mesma a partir de pés que alguém plantou em tempos ao longo da vedação de rede. Nos campos para alem desta, é muito comum - quase uma constante - existirem corvos, muitos corvos, que preenchem a minha vida com o seu crocitar áspero, e que me iluminam as pupilas quando os observo junto à sebe. Nunca percebi muito bem porque é que os corvos elegeram aquele lugar para se demorarem, e porque é que regressam sempre ali depois de terem partido. Talvez tenham percebido o quanto eu gosto deles, e como são importantes para mim na minha solidão e no meu desapego ás pessoas. Mas é possível que a explicação seja mais simples. Os corvos são animais inteligentes, como certamente já constataram, e devem ter percebido que lhes é conveniente andarem por ali, uma vez que de vez em quando lhes atiro por cima da sebe, as sobras de carniça das minhas vítimas».

...reticências...

   Deixara a cartola em casa, mas quis subir à mesma ao palco para o seu número de magia. Para substituir a cartola, emprestaram-lhe um chapéu de criança, de criança pequena, muito pequeno. Com dois toques da varinha, pretendeu tirar dele uma revoada de pombas esvoaçantes, e saíram algumas borboletas brancas numa voluta alada. Nova tentativa, e quis tirar um coelho, e dele apenas saiu uma pata de coelho. Foi aí, que a sua sorte mudou.

(de) voragem

    A porta estava apenas no trinco. Não esperava que a mulher estivesse em casa, e sabia agora que ela não estava só. Vira as suas roupas e as do amante soltas a partir do hall de entrada num rasto de roupas que o enfurecia. Lembrou-se da porta aberta atrás de si (podia voltara sair), com a mesma nitidez com que se lembrou do revólver que comprara dois anos antes e que repousava no alto dos armários da cozinha, para os filhos não lhe chegarem. Era para os ladrões, houvera vários assaltos no prédio e os dois tinham comprado a arma, para os ladrões, para os que pretendiam invadir o seu espaço sem qualquer pinga de consideração por eles. Alcançou a cozinha (eles deveriam estar no quarto, na cama com a colcha com miosótis estampados), sabia onde o revólver estava, entre dois almofarizes de bronze que comparara numa feira de velharias. Deveria funcionar, o revólver, limpara-o há coisa de dois meses, para estar preparado para quando os ladrões lhe saíssem ao caminho.Subiu a um banco e alcançou-o, tomou o peso da arma na mão suada e depois carregou-a com as balas. A janela da cozinha estava entreaberta e entrava por lá uma brisa quente e os gritos e vozes dos miúdos que jogavam à bola no pátio lá em baixo. Parecia uma disputa por si, dum lado o mundo e a rapaziada que jogava à bola num dia de canícula, do outro o corredor sombrio que só poderia desaguar na morte mais negra. Ouviu passos no corredor e empunhou o revólver que, por um estranho pudor, manteve oculto sob o casaco que trazia dobrado no braço.
   Apareceu-lhe a mulher e, quando o seu dedo começava a palpitar sobre o gatilho, surgiu atrás dela o Jorge, o mais velho dos três filhos.
   - Estás aí!? Diz ao Jorge o que é que tu achas do fato-de-treino que lhe comprei. Ele é que o escolheu, e mal entramos em casa começou logo a trocar-se, mas agora diz que é de menina porque tem uma barra cor-de-rosa nas calças.Diz-me se isto cabe na cabeça de alguém?
   (Travou a arma)
Para ficar mais leve, confiou as suas lembranças e recordações à mulher. Mas a desavergonhada despojou-o delas, roubou-as para sempre, deixando-o vazio e meio perdido. 
Ela não tinha nada que morrer tão cedo!
   Cronista de jornal por profissão e náufrago numa ilha deserta por acidente, deitava ao mar os seus artigos, ternamente enrolados dentro de garrafas vazias de uísque. Era angustiante a dúvida, o desconhecer se alguém, alguma vez, encontraria as garrafas e leria os seus textos, ou se os conseguiria ler na língua em que escrevera, ou se a humidade e o sol não borratariam a tinta, ou se.... O que menos lhe custava, e não o angustiava nem um pouco, ainda era, esvaziar as garrafas.





Scrooge on the rocks

   Caminhava pela estrada poeirenta do deserto, quando encontrou uma bifurcação, a estrada em que seguia separava-se em duas. Não havia grandes dúvidas quanto ao caminho a tomar.
   A estrada da direita acabava a poucas dezenas de metros num duna de areia de forma piramidal onde assomavam pneus velhos, grades ferrugentas de cama e ossos ressequidos ao Sol de, julgava, reses ou cavalos.
   Tomou a estrada da esquerda, que subia pela encosta dum monte de linhas suaves e torneadas como a coxa duma mulher, e descia do lado oposto, acompanhado a partir do topo pelos postes carcomidos duma linha de telégrafo desactivada. Viu lá em baixo uma cabana de madeira com alpendre, cujos detalhes emergiam à medida que se aproximava. Havia um homem no alpendre, um velho sem os dentes da frente sentado nos degraus que percutia com os dedos ossudos o fundo duma lata vazia, criando uma música repetitiva e angustiante.
   - Que estrada é esta – perguntou quando o julgou ter ao alcance da voz.
   A música interrompeu-se, e o homem mostrou-lhe um sorriso disforme.
   - Esta é a sua estrada e tem o seu nome. Por ela você pode chegar a algum lugar, ou ficar para sempre num lugar onde não se tem estradas para andar.
   E nesse instante, o velho levantou-se dum salto, exibindo uma agilidade que não esperaria dum velho como ele.
   - Venha comigo! – ordenou, pegando à passagem numa picareta que estava encostada ao canto da casa.
   Tinha muitas perguntas no espírito mas decidiu calar-se. Colado à sombra do velho, seguiu-o até a um outro monte próximo, em cujo topo distinguiu algo bizarro e misterioso – uma paralelepípedo com as dimensões dum autocarro que parecia formado de muitos e diferentes objectos embrulhados e enrolados numa matéria vítrea e amarelada como a resina seca.
   - O que é isto?
   O velho entregou-lhe a picareta.
   - Aquilo é a sua vida, o casulo da sua vida, olhe com atenção porque irá reconhecê-la. Está tudo ali, como num bolo em camadas, começa com a sua infância na base e até antes disso e, depois, as diversas pessoas em que você se transformou ao longo da sua vida. O seu trabalho é recuperar as coisas que você foi largando, os seus objectos e os objectos associados às pessoas que o amaram sem esperança, que o ajudaram sem retribuição nem gratidão, que tentaram fazer por si o que você não faria por ninguém deste mundo, ou do mundo pretérito, melhor dizendo. Se resgatar esses objectos e seres desta amálgama, talvez haja esperança para si.
   - Tenho de trabalhar? Ou melhor, vou ter de me matar a trabalhar para desfazer este rochedo a golpes de picareta? Você deve estar a sonhar…
   - Eu ajudo-o – disse o velho – eu dou o primeiro golpe e você continua, se achar que vale a pena.
   O velho desapareceu do seu lado, e reapareceu no cimo do paralelepípedo como se tivesse voado para lá.     Levantou a picareta e mergulhou-a no casulo vitrificado. Instantes depois estava ao pé de si, abriu a mão e mostrou-lhe um pequeno objecto metálico.
   - Guarde! – disse – esta é a coroa de glória da sua vida excepcional, a bala que fizeram o favor de enfiar na sua cabeça oca.

Infra-mote

- Não me interessa o que digam, eu quero quinhentas moedas de prata para trair o Nazareno! - avisou Judas.
- Trinta! Cuius vulturis hoc erit cadaver?
- Quinhentas, e escusam de falar em latim porque eu sei o que disseram - vocês sabem que eu não sou um homem vulgar, mas vão tentar enganar-me como se o fosse. Eu sou muito inteligente!
- Minus habens. Trinta moedas de prata.
- Está bem, eu faço um preço menor - Trezentas moedas de prata!
- Trinta! Neque habet plus sapientiae quam lapis
- Vêem? Vocês reconhecem que ninguém sabe negociar como eu, e isso merece uma atenção minha. Quero trinta e duas moedas de prata!
- Is minimo eget mortalis qui minimum cupit. Trinta moedas de prata!
- De acordo, aceito trinta moedas de prata. Esse dinheiro, como vocês dizem, serve no mínimo, para atrair a ajuda de Cupido.




Mote:
"O traidor é um tradutor!"


Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...