INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
   Quando o marido chegou do trabalho, Eva teclava no portátil, sentada diante da televisão. Ele humedeceu os seus lábios nos dela num simulacro de beijo, e Eva continuou a teclar enquanto o procurava a espaços com um olhar aguçado de perdigueiro. O marido andava diferente, estranho, como se tivesse trocado de alma com um sujeito qualquer no meio da rua. Ela desconhecia, que ele andava angustiado porque a pequena oficina mecânica que criara e mantivera aqueles anos todos, estava prestes a falir, andava muito dinheiro enterrado na rua em calotes de amigos e conhecidos, e os fornecedores já se recusavam entregar material, e não tinha como trabalhar. 
   Era sempre Eva que lançava a corda, a ponte, esgrimindo contra os silêncios absurdos daquela casa. E, desta vez, não foi diferente.
   - Não te lavei o outro fato-macaco, porque não tinha mais roupa escura para a máquina - disse, e forçou-o a uma resposta - sabes dalguma roupa que possas juntar àquela?
   Ele resmungou qualquer coisa, abandonou a sala, e pouco depois voltou com algumas peças de roupa dobradas sobre o antebraço - uma camisa cinza, umas calças escuras, uma casaco preto e uma gravata, também preta. Eva conhecia as roupas.
   - É o fato que compraste para o funeral dos teus pais, não é?
   - É! Se puderes, lava-mo. Cheira-me que eu vou precisar dele outra vez...
   Eva sentiu um frio no estômago, mas não disse nada, e desta vez sentiu-se confortável com o silêncio.
   Lavou o fato ao marido, e reparou que ele preparou o resto, engraxando até os deixar reluzentes, uns sapatos novos de biqueira quadrada que possuía, e andou também à caça dum muito-estimado e discreto alfinete de gravata em prata fosca. O fato e os sapatos prontos, e Eva sentia-se cada vez estava menos preparada e pronta para uma situação daquelas. 
   Revistou as coisas dele, e não encontrou nenhuma arma nova que ele pudesse ter comprado, mas pela certa, retirou da banca da cozinha um jogo de facalhões de carne que lá estava exposto, e passou a ler à hora de deitar até o sentir dormir ao seu lado, lia sem ler enquanto se debatia com as dúvidas sobre como e quando ele a tentaria matar.
   Eva temia o pior, e o pior aconteceu, emergindo no centro da sua ignorância dos factos. Uma tarde, o marido voltou do trabalho mais carrancudo do que o costume, e refugiou-se no quarto. Tomou um bom banho, e vestiu por fim o fato negro de gravata. Fechara a oficina naquele dia, e dava como iniciado o seu luto, agora que haviam morrido todos os seus projectos e esperanças num futuro melhor.

2 comentários:

  1. Quantas são as mortes ao longo da vida?

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  2. Quantos lutos fazemos por projectos destroçados e esperanças perdidas? Mas, porque temos um caminho tortuoso e sempre a subir, para percorrer, recomeçamos, de novo, com ferramentas gastas mas a esperança, de novo, a luzir. É assim que carregamos a cruz que nos foi dada carregar! Gostei muito deste texto e gostei muito de passar por aqui!

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Rainha

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