"crónica"

   Ontem, tirei o dia para caminhar, reaprender a caminhar em terra de nenhures. Escolhi a Serra de Montejunto, larguei o carro na clareira dum pinhal junto a Cabana de Torres e deambulei pela serra com calçado adequado e umas garrafas de água na mochila, trilhando os caminhos que ziguezagueiam pelo dorso da serra, e suavizam a subida. Nestas alturas, dá-me vontade de ser a um tempo, botânico, geólogo, e pintor de paisagens; ou talvez isso não seja indispensável - o conhecimento não enriqueceria a minha curiosidade e o meu espanto, e fixar num esboço os traços duma paisagem seria tão inoperante e artificial como estar a gravar todas as imagens possíveis na memória duma máquina fotográfica para serem transferidas e exiladas para a memória dum disco rígido. Caminha-se e retemos as ínfimas descobertas, que passam a habitar em nós sem cábulas nem backups (à excepção deste), detalhes tão-sem-importância como um formigueiro de formigas enormes, a névoa sobre a planície funda, os jogos de luz do Sol nas cascalheiras que se derramam sobre as encostas, ou um caracol de casca ricamente pixelizada a deslizar sobre o relevo espiralado duma amonite aprisionada na rocha. Enquanto caminhava no alto, lembrei-me da afirmação dum conhecido meu, que defendia que a Serra de Montejunto era o umbigo satânico da Portugal, porque perfazia 666 metros de altitude, a cifra satânica do Apocalipse,afirmação que sempre considerei um perfeito disparate, e que me pareceu ainda mais absurda quando estava rodeado pelo gigantismo da Serra. Antes dos homens inventarem os deuses e os demónios, antes mesmo do homem se inventar a si mesmo ao evoluir com cada acréscimo e conquista - e já o ente mineral que é esta Serra erguia-se aqui, com os seus fósseis, grutas  e filões, adequando durante milhões de anos a sua vida aos humores, movimentos e fúrias do nosso planeta.

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