As pessoas, no geral, mas mais os homens, sobretudo estes, gostam muito de falar delas mesmas - mal espreite uma oportunidade e se entreabra uma fresta e lançam-se por ela adentro numa verborreia de narrações e fantasias e memórias e ideias que abrem com a palavra Eu, como duas letras capituladas em cada parágrafo de toda a história do mundo. Sendo uma pessoa, e um homem, e nunca tendo tido a veleidade de ser a excepção em vez da regra, também Thomas adorava falar de si mesmo e da sua vida, mesmo que isso fosse a última coisa que os outros precisavam dele. Assim, narrava-se e efabulava-se a cada hora do dia, retendo a atenção dos outros em profusas descrições dos seus dias presentes e passados, e fê-lo com tanta dedicação e empenho e durante tanto tempo, que um dia pareceu-lhe que já não tinha mais nada para contar.
   - Eu – começava ainda, mas agora a história era diferente das outras e nunca mudava – eu parece-me que, a cada dia que passa, a minha imagem no espelho está a ficar mais e mais esbatida, como se estivesse a desaparecer. 
   Os outros sorriam por simpatia, secretamente aliviados por Thomas não os supliciar com as suas peripécias intermináveis – enquanto Thomas voltava a repetir o mesmo, vencido pelas evidências. O seu reflexo no espelho estava a desvanecer-se, e esse reflexo absorveu-o também. Thomas acabou eventualmente por desaparecer do olhar de todos, e a última imagem que as pessoas guardam dele é a de uma silhueta vaporosa de homem, que vagueava ao acaso pelas ruas em busca do seu Eu perdido.
   Por isso, se um dia sentirem a presença de uma outra pessoa enquanto se olham no espelho, não sintam medo, porque são apenas sobrevivências do reflexo de Thomas, um ser inofensivo e abstraído, mais silencioso e inocente do que qualquer espelho.



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