INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Traga os óculos...

justificação

- Mãe! A minha sombra está a seguir-me, tenho medo!
- Porque é que não te viras, para a olhar de frente?
- Porque ela também se iria mover e eu teria muito mais medo de descobrir uma sombra anómala, apontada ao Sol...
   Sangue, muito sangue em poças e traços viscosos nas paredes, e tripas e fiapos de carne em cima dos móveis e enroladas nas borlas do cortinado. “Ainda não é suficiente!” pensou o realizador do filme sobre zombies.

«Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. / Sentir tudo de todas as maneiras. / Sentir tudo excessivamente, / Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas / E toda a realidade é um excesso, uma violência, / Uma alucinação extraordinariamente nítida / Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, / O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas / Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. (...)» (Álvaro de Campos, "Poemas")























Source:

Vida empresarial

   A empresa de jardinagem sediada no meu bairro, tem todo o tipo de recursos para cuidar de relvados, quer estes envolvam residências privadas, empresas ou instituições. 
   Para as áreas muito grandes usa tractores corta-relva. 
   Para áreas mais pequenas, faz proveito de corta-relvas a gasolina, eficientes e dinâmicos. 
   Para áreas ainda mais pequenas, já os seus trabalhadores lançam mão de cortadores de relva, de fita, que se manobram como cabos de gadanha. 
   Por fim, para áreas AINDA mais diminutas, essa empresa de jardinagem colocou a uso pequenos carros a gasolina, telecomandados, em cuja traseira foram fixadas lâminas de barbear em série.


Quando a vida lhe permite (porque a vida moderna o desinquieta, sempre transbordando de tecnologia e novos inventos), e levando na mão algumas flores surripiadas nalgum recanto ajardinado da cidade, Álvaro de Campos gosta de visitar o túmulo de Pessoa, de quem gostava como a um irmão.




(tributo heteronímico a "O Ano da Morte de Ricardo Reis")



Situações de todas as vidas

Depois


- Dêem-me as vossas carteiras - gritou, apontando uma arma ao casal - e todo o dinheiro e valores que tiverem em casa.
- But, I...eu...não compreeendô...você querer a carteira?!
- "Você QUER a carteira?" - corrigiu o assaltante - um curso completo e você ainda não usa bem os verbos. Agora, dê-ma cá!
- Mas...sem carteira, eu não poder pagar...
- A carteira e o resto! Ou dou-vos um tiro antes de bazar da vossa casa.
O homem fez um sinal à esposa, que foi reunir o que era pedido, enquanto ele olhava o professor com um ar confuso. A confusão era acrescida por Bazar ser um verbo novo para ele, que lhe era familiar de outras paragens.


& Antes


O casal inglês havia comprado uma casa no litoral alentejano, e foi à saída duma mercearia que viram aquele prospecto, onde um homem se oferecia para ensinar português ao domicílio. O curso, também prometia exercícios da língua em Real day life situations.

Protectores

   Um crucifixo, um anjo-da-guarda e uma pata de coelho pendurados do espelho do carro, autocolantes num dos vidros laterais representando Buda, Maomé, Xiva, Iemanjá, e três imagens de santos, ainda colados ao plástico do tablier.
   Tantos protectores reunidos nos destroços de um carro acidentado na berma da estrada.

analogias

   Toda a árvore, por maior que seja, nasceu de uma semente,
   Pensou, com os seus botões.
   Todo o animal foi uma cria, um feto, uma coisa minúscula e frágil. O elefante, a baleia azul, rainha dos viventes, todo o homem, e os dinossauros saurópodes que um dia caminharam sobre a terra, fazendo estremecer o solo.
   Pensando nessas coisas, pensou também, que ainda se lembrava das suas primeiras dívidas, tão insignificantes e inofensivas.

   Os olhos são as janelas da alma, as janelas são os olhos da casa. Quando fechamos os olhos, sonhamos, vemos para dentro. Quando se fecham as janelas à casa, ela sonha connosco, a sua alma.


   Desde que punha o primeiro pé nos degraus que desciam para a cave, que parecia que trinta olhos o seguiam - cada gesto, cada expressão, cada detalhe. Mas era só uma impressão, e agradável. Eram só olhos dentro de frascos. Uma belíssima colecção!


Instruções práticas de voo:

1 - Escolha do local:
    Para fazer uma experiência de voo pessoal, deverá escolher primeiro um lugar adequado. Desaconselha-se os lugares abertos, uma vez que ainda não está preparado para controlar o seu voo. Uma divisão da sua casa é o mais adequado, de preferência, uma que não tenha lustres nem ventoinhas de tecto. Na divisão que eleger, forre previamente uma parte do tecto, com uma esponja agrafada ao tecto (pode-se servir para o efeito dum colchão de esponja, dos de enrolar que se usa no campismo).
2 - Preparativos.
   Deve usar o mínimo de roupa possível (a nudez não é descabida), de modo a não agravar o seu peso natural; e a experiência só dará resultado se for levada a cabo a uma hora do dia astronómico em que você esteja na parte inferior do planeta, se tomarmos em conta a sua localização geográfica em relação ao eixo de rotação da Terra. 
3 - Método.
   O método, comprovado por várias experiências documentadas, consiste em colocar-se de cócoras e envolver os dedos dos pés com ambas as mãos. Conseguido isso, só terá de conseguir dar alguns pulos, mesmo que pequenos. Esses pequenos pulos colocarão em suspensão os elementos constitutivos do sangue, e as partículas metálicas do nosso cérebro, possibilitando que o seu corpo se torne mais leve que o ar e se eleve dentro do seu quarto (daí a esponja no tecto para evitar feridas ou concussões).
4 - F.A.Q.'s
   São muitas as pessoas que nos comunicam por não terem conseguido voar na segurança das suas casas, fazendo-nos perguntas variadas, às quais respondemos com uma resposta abrangente:
   - Verifique sempre primeiro se todos os preparativos foram cumpridos, sobretudo, a posição favorável e propiciadora na parte inferior do planeta. Pode sempre trocar a segurança do lar para o experimento, por um sítio ventoso ao ar livre que se pode revelar de muita utilidade. E se todos os preparativos para o voo forem confirmados, e continuarem a não produzir os resultados desejados, deixe-se de manobras e sovinices, e vá a uma agência de viagens.

   Descendo a avenida ematada por entre a ossatura dos prédios em ruínas, uma revoada de crianças desceu até à parte baixa da cidade, onde quase nunca se aventuravam. Eram oito, de ambos os sexos, as suas vozes e o som dos seus risos eram como um céu aberto. Em redor, ninguém os observava, a única vida presente era a das árvores de troncos deformados, e as trepadeiras grossas como jibóias que serpenteavam pelas janelas dos prédios. Ah! E os ratos e escaravelhos que apareciam por todo o lado!
   As crianças começaram a explorar o novo território, e não tardaram a eleger como centro das suas brincadeiras um autocarro em ruínas plantado no meio das ervas e caniços que fragmentavam o alcatrão da rua. Enquanto uma delas fingia que era o condutor, as outras aguardavam cá fora, e depois entravam em fila no autocarro, enquanto o condutor lhes validava os bilhetes. Repetiam a cena com novos condutores, ou viajavam sentados à janela do autocarro sem rodas, soltando exclamações e apontando os pormenores da paisagem como se estivessem em movimento pela cidade. Enquanto desenrolavam a sua fantasia, chegou uma mulher, a mãe dum deles, para os chamar para o abrigo porque não iria tardar a chover. E todos a seguiram nos seus passos arrastados, dois deles apoiados nos ombros de amigos porque haviam nascido com uma perna a menos - também os havia sem um braço ou com várias outras deformidades.
  - Venham - incitava a mulher, observando com preocupação as nuvens grossas e o pente da chuva a leste - a última coisa de que vocês precisam, é de mais chuva radioactiva!



Todo o sonho é um voo e um bater de asas, sonham os bichos e as pedras, sonham as montanhas com o regaço dos abismos, sonha a estátua na solidão do pedestal, sonham as palavras no remanso do nosso peito. Todo o sonho é um despertar!

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Expérience Aërostatique du S.r Adorne, premiers éssais faits à la Citadelle de Strasbourg au mois de Mars 1784 avec un ballon de 80 pieds de hauteur sur 156 de Circonférence déplaçant 113.310 pieds cubes d'air Athmosphérique du poids de 26 1/2 Quintaux en tout : [estampe]
Source: Bibliothèque nationale de France

   As pessoas, no geral, mas mais os homens, sobretudo estes, gostam muito de falar delas mesmas - mal espreite uma oportunidade e se entreabra uma fresta e lançam-se por ela adentro numa verborreia de narrações e fantasias e memórias e ideias que abrem com a palavra Eu, como duas letras capituladas em cada parágrafo de toda a história do mundo. Sendo uma pessoa, e um homem, e nunca tendo tido a veleidade de ser a excepção em vez da regra, também Thomas adorava falar de si mesmo e da sua vida, mesmo que isso fosse a última coisa que os outros precisavam dele. Assim, narrava-se e efabulava-se a cada hora do dia, retendo a atenção dos outros em profusas descrições dos seus dias presentes e passados, e fê-lo com tanta dedicação e empenho e durante tanto tempo, que um dia pareceu-lhe que já não tinha mais nada para contar.
   - Eu – começava ainda, mas agora a história era diferente das outras e nunca mudava – eu parece-me que, a cada dia que passa, a minha imagem no espelho está a ficar mais e mais esbatida, como se estivesse a desaparecer. 
   Os outros sorriam por simpatia, secretamente aliviados por Thomas não os supliciar com as suas peripécias intermináveis – enquanto Thomas voltava a repetir o mesmo, vencido pelas evidências. O seu reflexo no espelho estava a desvanecer-se, e esse reflexo absorveu-o também. Thomas acabou eventualmente por desaparecer do olhar de todos, e a última imagem que as pessoas guardam dele é a de uma silhueta vaporosa de homem, que vagueava ao acaso pelas ruas em busca do seu Eu perdido.
   Por isso, se um dia sentirem a presença de uma outra pessoa enquanto se olham no espelho, não sintam medo, porque são apenas sobrevivências do reflexo de Thomas, um ser inofensivo e abstraído, mais silencioso e inocente do que qualquer espelho.



  - Desculpe-me, mas o meu médico pediu para eu passar por cá para uma observação...
  A enfermeira olhou-a de alto a baixo,  medindo-a.
  - Só um momento - pediu, e desapareceu por uma porta.
  Voltou pouco depois, quando ela já se instalara numa cadeira a folhear uma revista.
  - Já avisei o doutor, e ele já a chama. É só uns instantes enquanto ele está a regular os binóculos.

O óculo expiatório

   Tocaram à campainha e a velha senhora espreitou pelo óculo da porta para ver quem era, mas só viu uma figura fosca no patamar do prédio. Soltou um grito de terror, e a tal figura fosca deu dois passos para trás com o susto e caiu pela escadas abaixo. No instante em que o seu corpo começava a tombar, conseguiu vislumbrar que era o seu marido. 
   Mais tarde, no hospital, à sua beira, a velha senhora desculpou-se com o malfadado óculo de porta - era velho e precisava de mudar a gradação da lente. Já por mais de uma vez, ela chocara contra os candeeiros de rua por causa dele.



Convite:


(clicar para ver melhor)
   Quando o marido chegou do trabalho, Eva teclava no portátil, sentada diante da televisão. Ele humedeceu os seus lábios nos dela num simulacro de beijo, e Eva continuou a teclar enquanto o procurava a espaços com um olhar aguçado de perdigueiro. O marido andava diferente, estranho, como se tivesse trocado de alma com um sujeito qualquer no meio da rua. Ela desconhecia, que ele andava angustiado porque a pequena oficina mecânica que criara e mantivera aqueles anos todos, estava prestes a falir, andava muito dinheiro enterrado na rua em calotes de amigos e conhecidos, e os fornecedores já se recusavam entregar material, e não tinha como trabalhar. 
   Era sempre Eva que lançava a corda, a ponte, esgrimindo contra os silêncios absurdos daquela casa. E, desta vez, não foi diferente.
   - Não te lavei o outro fato-macaco, porque não tinha mais roupa escura para a máquina - disse, e forçou-o a uma resposta - sabes dalguma roupa que possas juntar àquela?
   Ele resmungou qualquer coisa, abandonou a sala, e pouco depois voltou com algumas peças de roupa dobradas sobre o antebraço - uma camisa cinza, umas calças escuras, uma casaco preto e uma gravata, também preta. Eva conhecia as roupas.
   - É o fato que compraste para o funeral dos teus pais, não é?
   - É! Se puderes, lava-mo. Cheira-me que eu vou precisar dele outra vez...
   Eva sentiu um frio no estômago, mas não disse nada, e desta vez sentiu-se confortável com o silêncio.
   Lavou o fato ao marido, e reparou que ele preparou o resto, engraxando até os deixar reluzentes, uns sapatos novos de biqueira quadrada que possuía, e andou também à caça dum muito-estimado e discreto alfinete de gravata em prata fosca. O fato e os sapatos prontos, e Eva sentia-se cada vez estava menos preparada e pronta para uma situação daquelas. 
   Revistou as coisas dele, e não encontrou nenhuma arma nova que ele pudesse ter comprado, mas pela certa, retirou da banca da cozinha um jogo de facalhões de carne que lá estava exposto, e passou a ler à hora de deitar até o sentir dormir ao seu lado, lia sem ler enquanto se debatia com as dúvidas sobre como e quando ele a tentaria matar.
   Eva temia o pior, e o pior aconteceu, emergindo no centro da sua ignorância dos factos. Uma tarde, o marido voltou do trabalho mais carrancudo do que o costume, e refugiou-se no quarto. Tomou um bom banho, e vestiu por fim o fato negro de gravata. Fechara a oficina naquele dia, e dava como iniciado o seu luto, agora que haviam morrido todos os seus projectos e esperanças num futuro melhor.

   O corpo é simples, o amor é simples, sentiam os dois no fundo do seu íntimo enamorado e feliz, abraçados e entrelaçados como papoilas silvestres. Mas eram pequenos, e o mundo era grande e assustava, rondava o refúgio do seu amor adolescente e doce como pés monstruosos e gigantes que espezinhassem tudo em volta, impondo a submissão e o jugo. 
  O corpo é simples, o amor é simples, diziam agora os dois, já não acreditando no que diziam. 
  Papoilas silvestres. 
  Esmagadas.

Gratidão

     Foi nas rochas junto ao mar que viu a gaivota ferida quando ia para a pesca. Tinha a pata ferida, mas não voava porque a dor pesa. Esqueceu a pesca e levou a gaivota para casa, e cuidou dela até a ver sarada. Foi difícil. Tratar e alimentar uma ave para quem todo o mar não é vastidão que chegue. Mas curou-a. Levou-a de volta ao lugar onde a encontrara, e libertou-a. Nunca mais a viu, ou só a viu novamente quando estava quase a morrer. A gaivota veio e pousou no aro da janela a olhar para ele. Ele estava nas últimas, acamado e cheio de dores, podia deixar-se ir, morrer, ficar aliviado, mas não, lutava com todas as forças numa luta impossível de vencer, porque a vida o enchera de dor e a dor pesa. Vendo ali a gaivota, a olhar para ele e a escutá-lo, falou para ela, expôs-lhe as suas dores até se sentir curado. E, por fim, libertou-se.



Conto a Uma Mão (escrito pela Maria)

    


     Acordei cedo e bem disposta como já não acontecia há muito tempo. O dia estava esplêndido 
     Inspirei a brisa fresca e matinal e senti o ar expandir-se  livremente em mim. Sentia-me solta, leve, cintilante como os raios de luz que atravessavam o amanhecer e me chegavam difusos.   
     Mais tarde, depois da viajem, o sol revelou-se abrasador. Vesti o fato de banho e dirigi-me para a ribeira onde a água é sempre transparente, cristalina,  gelada.   
     O sol transforma os meus gestos em sombras lentas. Ao longe as fragas lisas. Olho. Invade-me o desejo de me deitar sobre elas. O meu corpo sobre o fogo da pedra. O calor a invadir-me a pele e a obrigar-me  desejar a água transparente, cristalina e gelada. De repente, levanto-me e avanço. O cheiro. Sim, o cheiro da erva, o cheiro da água, o cheiro da frescura por antecipação. O som. A cascata de água que pesa sobre o lago que se forma na corrente da ribeira. O fragor. A erosão lenta mas segura. O frio, a rocha, o peso da cascata, o cheiro da erva molhada, o sol abrasador.   
     Lentamente, avanço e mergulho nas águas.




Escrito por Maria

Foto daqui

Parque central


     O velho sentado no banco do parque, com as mãos enodadas no cabo da bengala, deliciou-se a ver como esvoaçava na brisa um papagaio de papel entre as árvores. Passado um pouco, conseguiu ver quem o manobrava - um menino duns doze anos, esgrimindo o fio com muita atenção e perícia. Encheu-se de assombro, não por ver uma criança a conduzir um papagaio de papel, mas porque não se sentia nenhuma brisa ou vento em redor. O ar parecia parado, as penas dos pombos desgarradas pelo chão não se mexiam, nem estremecia qualquer folha das árvores em volta. Chamou o menino, que se aproximou dele, andando de lado sem tirar os olhos do papagaio azul e verde.
   - Como é que consegues manter o papagaio lá em cima? Não há vento.
   O  menino riu-se, deu um puxão à corda, e o papagaio caiu em espiral até ficar adornado a uns dois metros deles.
   - É muito fácil. Quer ver?
   O velho disse que sim. O menino recuperou o papagaio de papel, desatou o cabo da armação e lançou-o no ar. O papagaio de papel, batendo as asas, ganhou altura entre as copas das árvores.

2001

 

   Nas profundezas do Espaço exterior, o comandante da nave olha com asco o líquido cor-de-chumbo que tem na caneca.
   - Hal?! - chama.
   Ouve-se uma espécie de suspiro, e Hal, o super-computador comparece vocalmente.
   - Sim, comandante?
   - O que é isto que eu tenho na caneca?
   - Uma bebida revitalizadora, comandante. Dá-lhe energia e ajuda-o a pensar.
   Uma prega na testa foi o único sinal visível do que preocupava o comandante - Hal dava mostras de estar a alimentar comportamentos divergentes das suas ordens, e dos princípios que deveriam orientar a sua inteligência.
   - Hal, não te pedi uma bebida revitalizadora semelhante a líquido propulsor. Pedi um capuchino!
   - Mas comandante, o capuchino...
   - Um capuchino, Hal!! - insistiu, não deixando espaço para dialécticas - Quero um capuchino. Percebeste?
   - Halright!

Dumilésimo poste





2000 posts na Estrada

       desde Janeiro de 2007

(Como estamos em crise, vou perguntar a uma certa companhia eléctrica nacional,se me oferecem algumas acçõeszitas pelo trabalho :)
    O mendigo esfarrapado estava invariavelmente sentado todos os Domingos à porta da igreja, a recolher as migalhas da caridade do próximo.Um dia, o Presidente da Câmara deixou-lhe cair no chapéu uma nota grande, para o experimentar. O mendigo deu vários saltos de alegria, e com a nota na mão, correu para a taberna mais próxima, onde a derreteu em bebida. No Domingo seguinte, lá estava ele outra vez, ainda mais roto e esfarrapado, a pedir uma esmola cristã. O Presidente acocorou-se junto a ele, decidido a fazer alguma coisa e, em jeito de preâmbulo, falou-lhe do ditado chinês que rezava que se alguém desse um peixe a um mendigo, matava a sua fome por um dia, mas que se o ensinasse a pescar, mataria a sua fome por uma vida inteira.
   O mendigo agitou-se no degrau da igreja, e temendo o que se aproximava, foi logo avisando:
   - Não sei o que o senhor está a preparar, senhor Presidente, mas devo avisá-lo de que o mar me faz enjoar!

Caso e acaso

    Na escola, quando entrei para o Segundo Ciclo, notei que todos os meus colegas de turma tinham afinidades comigo, porque todos sofriam dalgum problema de aprendizagem ou tinham tiques nervosos como eu. Havia uma colega ruiva que gostava de esconder a cabeça debaixo dos livros como uma rúbea avestruz, outro só era capaz de escrever em cadernos de capa preta e só se estes estivessem virados ao contrário, outro ainda, irmanava-se comigo na minha tentativa de apanhar as moscas que rastejavam entre os pés dos nossos colegas, deixando atrás delas um rasto de escamas vítreas. Umas semanas depois, dei-me conta de que todas as turmas do Segundo Ciclo possuíam uma coerência interna, ou seja, os seus membros tinham semelhanças evidentes entre eles, mas eram distintos dos alunos das outras turmas. Havia a turma dos crânios, que era capaz de encher um camião cisterna com a sua massa encefálica combinada, a das aberrações (a nossa) que era chamada a entreter os colegas no recreio e a protagonizar espectáculos bizarros para atrair o financiamento privado, a das beldades que servia de simpática muralha humana quando havia visitas oficiais importantes à escola, a dos etéricos que usavam pesadas botas militares para não perderem contacto com o solo, a turma dos sociopatas irascíveis, cujos alunos andavam em regra sedados, ou, quando não andava, usavam uma espécie de açaimo discreto em tecido da cor da pele, e outras similares. Um dia, em que entrei no gabinete da Directora da escola, no encalço duma mosca rastejante particularmente ágil, ganhei coragem e perguntei-lhe sobre esta segmentação da população escolar, mas ela negou-o com energia, explicando-me que todas as turmas eram formadas por sorteio, e qualquer semelhança intrínseca dos alunos das turmas, se devia apenas a fortuitas coincidências. 
   A sua resposta pareceu-me pouco convincente, e isso devia notar-se na minha expressão, porque ela apressou-se a despachar-me, explicando-me que não podia perder mais tempo em explicações supérfluas, porque tinha que ir coadjuvar uma das professoras que ia iniciar a aula na turma dos gémeos siameses.
   Ela aprendeu dactilografia, estenografia, escrita hieroglífica. Escreveu muito e escreveu sobre os autores e os sistemas de escrita. Por estes dias, já só escreve um nome na areia da praia, que fica a ver sumir-se na língua salina das ondas, imaginando que isso confortará o cadáver desassossegado que jaz no fundo do mar.

O companheiro

       Célia, celibatária e a viver num apartamento pequenino, comprou um candeeiro novo para a sua mesa-de-cabeceira, em bronze e com abajur cónico, a que deu o sugestivo nome de Amor.
   Célia, quando sentia o sono pesar-lhe nos olhos, dizia-lhe: "Boa noite, meu Amor, dorme bem!" e pela manhã, quando acordava, perguntava entre dois bocejos: "Bom dia, Amor. Dormiste bem?".
   Também o ia ver mal regressava a casa, e antes de sair de casa, nunca se esquecia de se despedir: "Xau, Amor!" ou "Até loguinho, Amor!". 
   (Mas Célia evitava beijá-lo, porque os seus lábios queimavam!).

"crónica"

   Ontem, tirei o dia para caminhar, reaprender a caminhar em terra de nenhures. Escolhi a Serra de Montejunto, larguei o carro na clareira dum pinhal junto a Cabana de Torres e deambulei pela serra com calçado adequado e umas garrafas de água na mochila, trilhando os caminhos que ziguezagueiam pelo dorso da serra, e suavizam a subida. Nestas alturas, dá-me vontade de ser a um tempo, botânico, geólogo, e pintor de paisagens; ou talvez isso não seja indispensável - o conhecimento não enriqueceria a minha curiosidade e o meu espanto, e fixar num esboço os traços duma paisagem seria tão inoperante e artificial como estar a gravar todas as imagens possíveis na memória duma máquina fotográfica para serem transferidas e exiladas para a memória dum disco rígido. Caminha-se e retemos as ínfimas descobertas, que passam a habitar em nós sem cábulas nem backups (à excepção deste), detalhes tão-sem-importância como um formigueiro de formigas enormes, a névoa sobre a planície funda, os jogos de luz do Sol nas cascalheiras que se derramam sobre as encostas, ou um caracol de casca ricamente pixelizada a deslizar sobre o relevo espiralado duma amonite aprisionada na rocha. Enquanto caminhava no alto, lembrei-me da afirmação dum conhecido meu, que defendia que a Serra de Montejunto era o umbigo satânico da Portugal, porque perfazia 666 metros de altitude, a cifra satânica do Apocalipse,afirmação que sempre considerei um perfeito disparate, e que me pareceu ainda mais absurda quando estava rodeado pelo gigantismo da Serra. Antes dos homens inventarem os deuses e os demónios, antes mesmo do homem se inventar a si mesmo ao evoluir com cada acréscimo e conquista - e já o ente mineral que é esta Serra erguia-se aqui, com os seus fósseis, grutas  e filões, adequando durante milhões de anos a sua vida aos humores, movimentos e fúrias do nosso planeta.

Ambiente fantasmagórico

      A casa, desabitada, tinha as portas cuidadosamente fechadas à chave, todos os fechos corridos, e as janelas entaipadas. Os aparelhos eléctricos estavam desligados da tomada de luz, e as torneiras de segurança fechadas, as de dentro e as de fora de casa. No salão grande, tinham coberto os móveis com lençóis, velando dessa forma a mesa oval  com as cadeiras arrumadas em volta, os sofás, a estante de livros, o piano de cauda e o bar atrás da porta de vidrinhos. Junto a um dos braços do sofá grande, havia um candeeiro de pé alto, e aproveitaram o mesmo lençol para proteger o candeeiro e o sofá, e a extremidade desse lençol tocava o chão como um cortinado pendente.
   Aproveitando a disposição do sofá, do candeeiro e do lençol que os cobria, dois ácaros juvenis brincavam aí ao escorrega.


   No meio dos bebés da maternidade, foi descoberto uma rato numa caminha vazia, o que gerou um grande alvoroço e paranóia. Um dos médicos responsáveis teve a frieza suficiente para que o rato fosse mantido vivo e enviado para o laboratório para ser estudado. E a decisão foi recompensadora. Aquele, não era um rato vulgar. Cheirava a enxofre e a ocre, o rabo comprido parecia ter incrustações microscópicas de quartzo e ametistas; o seu pêlo brilhava com o dourado da pirita, e cada uma das suas unhas era formada por diferentes minerais. Os cientistas refrearam o seu entusiasmo (são assim os homens da ciência), mas sentiam cada vez mais instalada a convicção de aquele rato tinha sido parido pela montanha.

   A senhora de meia-idade chegou ao dia do seu aniversário, e viu-se num impasse. Era suposto, os aniversariantes receberem prendas, mas, de quem? Não tinha esposo nem namorado, a família vivia muito longe, e os amigos andavam alheados e fora naquele fim-de-semana prolongado. O mais que poderia esperar, seria um ou outro telefonema para picar o cartão, dos amigos menos distraídos.
   Decidiu mimar-se, e ofereceu a si mesma um vestido e um par de sapatos novos, uma viagem, um colar de jóias, uma viagem e dois mancebos musculados. O dia do seu aniversário correu-lhe tão bem, que ela agora está a pensar seriamente em aniversariar mais do que uma vez por ano.


   - Não compreendo isto. As máquinas estão afinadas e a trabalhar bem, então, porque é que tu não fazes produção? – Perguntou o encarregado.
   Ele encolheu os ombros, um gesto autónomo, porque quase todos os seus gestos eram ditados por cabos e fios de titereiro que convergiam para um sistema de roldanas, e destas para as mãos do assessor do encarregado.
   - Não dizes nada?
   O encarregado olhou para o seu assessor, que falou por ele.
   - Ele anda um pouco sem forças, mas acho que é da comida do refeitório, que é deficiente em nutrientes e dá-lhe muitos gases.
   - Acelera-o! – ordenou o encarregado – todos nesta fábrica têm de dar o litro!
   O assessor começou a manobrar os fios, e o operário na outra ponta deles começou a laborar as máquinas a um ritmo febril, sufocando um ou outro queixume de dor, enquanto afivelava ao rosto um sorriso mecânico.


   A sua namorada acordou ao seu lado com um belo sorriso na cara.
   - De que te rias? – perguntou – algum sonho bom?
   Ela corou levemente.
   - Não te posso contar. Desculpa!
   Ele desculpou com ligeireza, mas a mesma situação repetiu-se na manhã seguinte, e nas que se seguiram a essa; e já não conseguia parecer tão descontraído.
   - Sonhavas com quê? Com outro homem, ou homens?
   - Não te posso mesmo contar. Desculpa! - Ia pedindo ela, envergonhada, não se atrevendo a confessar-lhe que era mesmo com ele que sonhava, em histórias de enredo fogoso que seria capaz de narrar à irmã ou a uma das amigas, mas não a ele.
   Uma manhã, na foz de uma noite que passara em claro, ele asfixiou o seu sorriso e a sua respiração com a almofada até sentir que ela deixava de se debater na cama. Tirou a almofada do rosto, e ainda descobriu vestígios daquele maldito sorriso.
   «Infiel, mesmo depois de morta!», concluiu ele com um misto de ódio e dor.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...