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Outros dados, e cartas, no final da página

Uma pessoa

    A mulher-a-dias penetrou na velha mansarda com um olhar reprovador e o nariz torcido. Pó, em camadas, estratos e camadas de pó sobre todos os objectos; tufos e nuvenzinhas de pó a cada gesto inusitado, um encosto num móvel, num cortinado, no denso ar. Depressa a senhora compreendeu que o que havia mais ali dentro eram livros, fiadas e pilhas de livros invadindo todas as áreas e superfícies, embaraçando os lugares de passagem, os degraus das escadas e os assentos das cadeiras e bancos. Os pontos mais aliviados de pó eram os lugares de onde tinha sido retirado recentemente algum livro, deixando exposto um rectângulo limpo de pó - limpo, por muito pouco tempo.
   - Isto estava mesmo a precisar - avaliou - vou precisar de dias para pôr alguma ordem e limpeza nisto.
   O dono da casa, enrolado num roupão esgarçado, levou o seu dedo indicador aos lábios da senhora.
   - Não repita de novo essas palavras atrozes. Não quero que ordene isto, porque tudo aqui tem um ordem e um lugar próprio, ditados pela ordem e pelo lastro deixado pelas minhas leituras. Só quero que limpe isto um pouco, para que eu consiga ler sem ter uma nuvem de pó entre mim e as páginas.
   A senhora concordou num aceno, olhando com mais atenção a figura curiosa daquele homem. Tinha o rosto estreito e magro, com um bigode negro triangular, e óculos de aros finos, redondos. Iria jurar que o conhecia de qualquer lugar. Mas devia ser só uma impressão, porque nunca andara por aquelas paragens antes daquele dia, e só ali estava, naquela casa velha, porque passeava pela rua e viu o bilhete manuscrito afixado no portão de ferro enferrujado. O seu lado prático veio ao de cima, e soprou sobre a lombada empoeirada dum livro para exprimir com esse gesto simbólico a sua repugnância para com aquele ambiente que considerava imundo e impróprio para uma pessoa viver.
   - Há quanto tempo não abre uma janela da casa?
   O freguês não respondeu, esgravatava no fundo duma caixa de madeira, e esticou-lhe a mão estendida com algumas moedas de prata.
   - Espero que aceite isto pelo seu trabalho, são de prata de lei.
   Ela hesitou, revirando as moedas na palma da mão.
   - Não percebo muito disto, mas acho que pode ser...se for só o pó! Ou há outras limpezas de fundo a fazer? Cozinha ou casas-de-banho?
   - Não, é mesmo só o pó. A cozinha, ninguém a utiliza há mais de setenta e cinco anos.
   - Não me diga!? Bem...e quando é quer que eu comece?
   - Pode ser agora? Neste momento? É que está a acabar o tempo que me concederam, e ainda não li todos os livros que queria  ler!



A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...