Sintomas Síncronos

   Marco e Francisco são gémeos idênticos, univitelinos, nome científico muito estranho, mas que não importa ao caso. O que conta objectivamente é que cada um deles se comporta no dia-a-dia, como se tivesse a percepção exacta do que o outro sente, sonha ou sofre, mesmo que estejam distanciados centenas de metros, ou largos quilómetros. Chegam, segundo os familiares, a terem acções idênticas no mesmo período de tempo, no mesmo segundo até, atitudes, gestos. Foi isso que levou dois estudiosos a utilizarem-nos para comprovar de forma concisa e científica, esse elo psíquico que se atribui aos gémeos idênticos.
   Eleitos como grupo de estudo, cada um dos gémeos, acompanhado dum dos cientistas, foi colocado numa residência sem telefones ou telemóveis, faxes ou pombos-correio. As duas residências distanciavam uma da outra, duzentos e cinquenta quilómetros, beneficiavam do mesmo fuso horário, e os estudiosos sincronizaram os relógios antes de se iniciar a experiência, de forma a obterem dados fiáveis. A experiência teve a duração de vinte e quatro horas e, posso adiantar, foi um sucesso completo naquilo que os cientistas pretendiam demonstrar. O que se segue é uma sumária confrontação dos cadernos de anotação de ambos os lados. As desconcertantes concordâncias estão em sublinhado.

   Primeiro Dia da Experiência. Casa de Marco. Nove e quinze da manhã. Marco é acordado pelo cientista que teme que o seu ressonar ponha em risco as fundações da casa. Dez e quarenta e quatro, Marco levanta-se da cama, depois de lhe assegurarem que não há serviço de quartos no meio da montanha. Meio-dia e dez, Marco exige champanhe francês e arroz de marisco ao almoço, o que levanta sérios problemas de logística. Treze e vinte, Marco come lasanha aquecida no micro-ondas. Catorze e quinze, Marco quer lanchar arroz de gambas. Catorze e quarenta, Marco faz uma prelecção sobre as virtudes da haute-cuisine enquanto come uma sandes de courato. Dezasseis e vinte, Marco pergunta se a experiência dá direito a ceia porque acha que já são horas de jantar. Dezassete e doze, Marco janta arroz de pato descongelado. Dezanove horas e dois minutos, Marco começa a comer os ovos com presunto que estavam reservados para o pequeno-almoço do dia seguinte. Dezanove e trinta, Marco adormece na sala com o som da ventoinha.
   Segundo Dia da Experiência. Casa de Marco. Oito da manhã, Marco é acordado para lhe perguntarem se viu quem assaltou o frigorífico e a despensa durante a noite. Nove e dez, iniciam a viagem de regresso. Catorze e trinta, chegam a casa de Francisco para a reunião, depois de terem feito escala em quatro restaurantes diferentes. Catorze e quarenta e cinco, Marco abre a porta de casa e sente uma violenta dor psíquica na cabeça.

   Primeiro Dia da Experiência. Casa de Francisco (e reparem na simultaneidade das horas). Nove e dez da manhã, Francisco tenta ouvir rádio porque não sabe os resultados da última jornada de futebol, e, como a recepção é má, destrói o aparelho com o martelo de picar carne. Dez e quarenta e um, Francisco quer tabaco, mas não o deixam sair para comprar e desfaz uma cadeira a pontapés. Meio-dia e vinte, Francisco tenta consertar o velho transístor, atando a antena partida no estendal da roupa. Treze e vinte, Francisco pergunta pelos resultados do futebol ao carteiro, e como este não saiba, persegue-o rua abaixo com uma enxada. Catorze e dez, Francisco começa a polir a lâmina duma navalha-de-ponta-e-mola que traz consigo. Catorze e trinta, o cientista serve-lhe lasanha aquecida no micro-ondas (!) para tentar que ele largue a navalha. Dezasseis e trinta, Francisco descobre na despensa umas garrafas de vinho rosé alemão que devem ter sido deixadas por outros rendeiros e começa a beber com sofreguidão. Dezassete e quinze, Francisco embosca-se no telhado da casa com uma espingarda de Pressão de Ar à espera da volta do carteiro, e dispara alguns chumbos quando este aparece na curva, fazendo-o fugir. Dezanove horas e quatro minutos, o cientista consegue que ele coma arroz de pato descongelado (!!), o que ele faz, usando a lâmina da navalha como colher. Vinte e trinta, aproximadamente, Francisco, ameaçando-o com a navalha, fecha o estudioso à chave numa arrecadação, para sair à noite para ir beber uns copos e armar umas brigas.
   Segundo Dia da Experiência. Casa de Francisco. O cientista continua fechado à chave. Treze e dez, Francisco acorda, pelo menos, o cientista ouve os seus passos pela casa. Catorze e trinta, Francisco abre inadvertidamente a sua porta porque anda à procura de mais garrafas de vinho. Catorze e quarenta e três, batem à porta de casa. Catorze e quarenta e cinco, Francisco abre a porta e atira a garrafa de vinho vazia à primeira figura desfocada que vê no umbral da porta.


Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue