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A Segunda Lei de Hermes

(gravura de Angela Schnoor)

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     Era assim. Ou ficara assim enquanto dormia. As flores haviam desaparecido do mundo, e, das plantas, só sobreviviam as espinhosas e aguçadas e as árvores outonais despidas, as paisagens resolviam-se numa imensidão monótona de cores sombrias - cinza, castanho, negro. A lua no cimo era negra, e o Sol ardente no céu havia-se reduzido a uma estrela débil e azulada que parecia prestes a consumir-se de vez no céu da mesma cor.
     A jovem mulher cansou-se, cansou-se dos seus ombros descaídos, dos pés doridos de tanto pisar o solo áspero semeado de picos e espinhos, da alma retorcida sobre si mesma como a concha espiralada dum gastrópode no imo da qual mantinha represadas as emoções – e desentranhou de si essas emoções como quem se liberta dum fardo pesado, soltou a loucura e a vertigem de sentir, de amar e odiar, de experimentar o desejo com a mesma ferocidade e com a mesma violência com que repelia e afastava o que a enojava.
    Ao libertar os sentimentos, repôs os contrastes no mundo, a lua branca no céu escurecido, o astro dourado no azul do céu, a crueza da beleza e da fealdade, as cores, as flores e os espinhos onde elas pertenciam estar sob as estrelas. E nunca mais a viram andar de ombros descaídos.
   (no fundo de si mesma, no entanto, a sua melancolia pulsava e crescia como uma paciente névoa acinzentada).

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1 comentário:

  1. Puxa José! Você escreveu uma bela parábola para esta pobre e murcha criatura. Gostei muito de seu texto e não imagina o quanto tem a ver comigo.
    Obrigada, sim?

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