Nostalgia vegetal

     O plátano é a árvore mais atrofiante que existe, não aguenta as folhas sobre si durante o ano inteiro, tem um tronco que faz lembrar o corpo duma pessoa com a pele a soltar-se aos bocados, e não há como o plátano para agravar as alergias dos cidadãos inocentes que caminham pelas ruas e pelos parques. Esse era o pensamento aproximado dos habitantes da urbanização quando a edilidade lhes propôs cortar o pequeno parque com plátanos na sua orla - a única e tímida aproximação a uma área verde - para os substituir por um recinto alcatroado para estacionamento de viaturas. O estacionamento beneficiaria menos os moradores da urbanização do que os operários das fábricas vizinhas, mas todos tinham de pensar em termos de contexto e enquadramento, como dissera o autarca na reunião que promovera com os moradores, porque vivemos todos no mesmo barco e, afinal, também havia pessoas dali a trabalhar nas fábricas em redor. No fim de contas, até não era um sacrifício tão grande, porque os plátanos só dão como fruto as alergias, e não tinham outra utilidade que não fosse, emprestarem alguns dos seus ramos para os balouços de pneu onde as crianças brincavam. Argumentos e contra-argumentos, e os plátanos foram deitados abaixo, e construído o estacionamento, obra generosamente patrocinada pelas fábricas em redor, e o assunto foi prontamente esquecido, pelo menos, em tempo de vigília. Por um acaso caprichoso, ou por influência duns troços de raízes dos plátanos que permaneceram na terra sob o jazigo de gravilha e alcatrão, os habitantes da urbanização e os operários das fábricas, miúdos e graúdos, começaram a partilhar o sonho redundante de estarem transformados em plátanos e terem braços como ramos esticados, em cujas extremidades, como nas palmas das mãos, eram capazes de sentir o toque leitoso e frio do luar.

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