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A mágoa

     Noutros tempos, e nessa designação tão genérica pretendo reportar-me ao final do século dezanove, o casamento, como qualquer outro rito civil ou religioso, revestia-se de uma grande complexidade, quase incompreensível para nós. Na minha família conta-se como uma história exemplar, o drama que envolveu o casamento dos meus bisavós maternos. 


    O lugar onde essa trama se desenrola é a cidade do Porto. O meu bisavô era um homem de trabalho, artífice de metais, possuía umas mãos de ouro, e trabalhava, martelava e soldava o metal - cobre, estanho, bronze - para criar crucifixos, candelabros, molduras, e uma infinidade de outras peças de elevado cunho artístico. Conheceu a futura mulher num passeio de Domingo pela foz do Douro. Viram-se e simpatizaram um com o outro, mas estiveram meses sem trocar uma palavra, apesar de terem conhecidos em comum e viverem em ruas paralelas da cidade. Com o tempo, começaram a namorar, uma relação muito cerimoniosa com lugar certo, à porta da casa dela ou na sala, com a presença de uma terceira pessoa, quase sempre, a madrinha dela, que sempre desconfiara do carácter e das intenções do meu bisavô e que o tinha permanentemente debaixo de olho. 


     Com o desenrolar do namoro, os dois decidiram-se casar. Foi necessário o aval das duas famílias, para o qual muito ajudou o facto de ambas já se conhecerem, e terem tido vários membros vinculados à Confraria dos Alfaiates. Marcada uma data, iniciaram-se os longos preparativos. Foi no decurso destes, que despoletou o drama. A minha bisavó voltava a casa de braço dado com a madrinha, vindas da modista, quando viram, de fugida, o meu bisavô a entrar no café Águia D'Ouro. Foi o Deus-nos-acuda, um homem sério e honrado nunca entraria no Água D'Ouro, que era pouso de boémios e artistas, de gente ociosa e sem préstimo! O desgosto foi avassalador, a minha bisavó chorou durante dias, trancada no quarto e o futuro casamento, fez-se saber  ao outro lado das barricadas, estava seriamente comprometido. Às vãs tentativas dalguns familiares para solucionar o problema, contrapunha a madrinha da minha bisavó com alusões venenosas aos clientes do Águia D'Ouro, e à calúnia que começara por essa altura a urdir, dizendo à desconsolada noiva que um homem que frequenta um lugar daqueles teria na certa alguma amante nalgum esconso da cidade, que sustentaria com o grosso do seu trabalho e da sua fortuna. No meio do seu infortúnio, a minha bisavó começou a tomar como verdadeira a calúnia inventada, e já se referia a ela com mesma certeza com que lembrava a tarde em que testemunhara a entrada do noivo no Águia D'Ouro.


     Por essa altura, aconteceu uma infelicidade que imprimiu um rumo diferente à história. A madrinha caluniadora faleceu, de tétano, uma coisa horrível que mergulhou a família num poço de dor. Em volta da perda, as duas famílias reaproximaram-se, e houve familiares que, então, redobraram esforços para reconciliar os dois noivos desavindos, o que efectivamente aconteceu, mas com um desfecho que ninguém esperaria. A minha bisavó, diante do noivo e tendo como única testemunha a sua mãe, que tapava os ouvidos, mortalmente envergonhada, anunciou ao noivo que aceitava contrair matrimónio com ele, mas que, depois de casada, se negaria a ser sua esposa no leito, pelo menos, enquanto se lembrasse dos cafés de má nota que ele frequentava, e da amante misteriosa que ela adivinhava em cada esquina da cidade e em cada olhar feminino que surpreendia. O noivo aceitou, cansado de negar a existência da amante fantasma, e convencido de que, em poucas semanas, a noiva se esqueceria das suas palavras e acederia em se reunir a ele no leito.


     As coisas não foram, no entanto, tão rápidas como ele desejaria. Viveram durante muito tempo em quartos separados, mas mantendo uma aparência inquestionável de casal completo e feliz. A minha bisavó começou com o tempo a amolecer no lume brando do seu sangue quente. Talvez não fosse imperdoável o que ele fizera e, se Deus perdoa, quem era ela para se negar a fazê-lo? O marido era um homem trabalhador e dedicado, respeitado por todos na cidade do Porto. O mesmo lhe dizia a mãe e a sogra em conversas privadas, tidas na sala grande da casa, falando em murmúrio para que aquelas palavras mundanas não chegassem aos ouvidos da imagem de São Bom Homem que tinham em cima do aparador. Por fim, por virtude dos conselhos das matronas, e dos anseios do seu corpo jovem, a minha bisavó mudou de ideias. Quinze anos depois da boda, e já depois do nascimento do seu terceiro filho, ela acedeu a que se consumasse o casamento.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...