A frágua

     Recaredo trabalhava como forneiro numa fábrica de louça quando abriram vagas para auxiliar de maquinista nos Caminhos de Ferro, e Recaredo foi-se oferecer e foi aceite, dada a sua familiaridade com fornalhas e combustão de orgânicos. Calhou-lhe um comboio de mercadorias. A locomotiva a vapor era um monstro com uma fornalha gigantesca rodeada de tubos de vapor, mais um vagão adossado com carvão mineral, donde Recaredo tinha de retirar à pazada o alimento para a boca da besta.
   Era sua responsabilidade o funcionamento da caldeira, que tinha de ser preparada antes, e só quando estava no ponto é que a viagem podia começar, e isso cabia-lhe apenas a ele, que o maquinista só entrava em funções quando tudo estava pronto a funcionar. Por esse motivo, quando o comboio começava a rodar, já Recaredo escorria em água de tanto calor que havia apanhado. Como suava muito, Recaredo começou também a beber muito, litros e litros de água em cada viagem. Nas primeiras jornadas, trazia um ou dois garrafões de vidro para o gasto, mas logo essa quantidade duplicou e decuplicou. Recaredo, que nem era tão sôfrego de água no empego anterior e mantivera uma barriguinha digna e respeitável de homem de meia-idade , tinha agora de estar constantemente a beber água, quer alimentasse a fornalha ou verificasse os mostradores da pressão de vapor; conquistando com isso um barrigão descomunal como se estivesse a gerar fetos líquidos em redor da coluna vertebral.
   - Tens de cuidar de ti - dizia-lhe o maquinista com ar grave - qualquer dia não cabemos aqui os dois, e arranjam outro para o teu lugar.
   Recaredo concordava com acenos de cabeça com o garrafão semi-adernado para a boca, mas não conseguia concentrar-se nisso, nem deixar de beber água como se estivesse a arder por dentro. As circunstancias, no entanto, desvalorizaram os conselhos do maquinista. Numa das viagens, partiu-se a haste duma das válvulas de pressão, e imobilizou-se o comboio na via enquanto o maquinista avaliava se o dano era reparável. Recaredo aproveitou a paragem para ir aliviar a bexiga nuns arbustos com silvas junto à linha férrea, envolto na nuvem de vapor causada pela avaria do comboio. Depois de ter esvaziado a bexiga, Recaredo picou a barriga numa das silvas, e a barriga esvaziou-se como um odre d'água que se houvesse furado.



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