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Caracteres não são quilates - Um breve apontamento

     Quando pretendemos definir o que é uma micronarrativa ou microconto, toda a definição necessária está contida no próprio termo – é uma narrativa de dimensões microscópicas, quando comparado com a extensão que um conto pode ambicionar ter. Aqui, a dificuldade que se apresenta, é determinar o número de caracteres que um microconto deverá ter para merecer essa designação, ou a partir de que dimensões passa a ser um conto menos micro, ou um mini-conto em potência. Duas das cifras mais aceites são as que colocam esse limite nos cento e cinquenta, e nos duzentos caracteres.

    Diante deste desafio – criar um conto num espaço tão restrito – só podemos imaginar o autor a servir-se da muleta do contador de caracteres do seu processador de texto. Ali está ele, um dínamo de ansiedade criativa, a tentar por no papel uma narrativa que lhe ocorreu, mas com a preocupação subjacente dele eventualmente exceder a fronteira legalmente admitida para o microconto. E se o seu conto microscópico não puder ter menos de cento e cinquenta e um caracteres, ou duzentos e um caracteres? Deverá ele amputá-lo numa palavra indispensável como um jardineiro desajeitado que podasse a sua roseira; ou deverá ele mantê-lo assim, na esperança de que os puristas da micronarrativa não movam contra ele uma Guerra Santa, organizando manifes á porta da sua casa?

     Traço esta imagem caricatural, tendo bem presente que um autor que escreva microcontos amiúde, adquire uma percepção apurada sobre a extensão que pode dar à sua nano-narrativa, sem ter necessidade de espiar o contador de caracteres a cada palavra que escreva. Mas esta caricatura serve-me, ao mesmo tempo, para introduzir um dos recursos mais fecundos para a edição de microcontos: o Twitter.

     O Twitter é simultaneamente uma rede social, e uma plataforma para microblogging. E aqui voltamos ao universo microscópico: cada tweet, como é sabido, não pode ter mais de cento e quarenta caracteres, cifra que vai decrescendo á medida que organizamos as formigas das palavras numa minúscula carreira. Um conto escrito no Twitter é, forçosamente, um microconto, sem contadores de caracteres nem dúvidas quantitativas. Não há concessões nem cedências, se coube no tweet é, tecnicamente, um microconto, mesmo que se se socorra dalguns expedientes, como as abreviaturas de palavras ou a supressão do espaço a seguir à pontuação (também, com centro e quarenta caracteres, seria cruel esperar o oposto!). O Twitter revela-se assim, um recurso precioso para qualquer autor de micronarrativas, e essa é uma noção cada vez mais difundida e aceite na Web.

     A título experimental, ensaiei no twitter uma modesta página de micronarrativas (dei-lhe o título de nanonarrativas, uma variação), mas paralelamente, ao explorar o que se tem feito nesses moldes no Twitter, tive a felicidade de encontrar inúmeras páginas onde são criados regularmente microcontos.
Num apreciação de conjunto, muito genérica (e falível), posso adiantar que o microconto no Twitter passa ao lado dos autores lusos, mas já tem uma franca aplicação em terras do Brasil, sendo notório, no entanto, que é no universo hispano-americano, que ele conhece o seu desenvolvimento mais exponencial, em proporção com a vitalidade e o florescimento da micronarrativa nesses mesmos países.

     Sem pretender ser exaustivo, nem influenciar escolhas, apresento em seguida uma mão-cheia de micros de diferentes autores e de tonalidades diversas, retirados do Twitter, e vertidos para português (quando foi o caso). Quem pretender aprofundar mais o tema, basta pesquisar no próprio Twitter, ou visitar as “páginas semelhantes”, que aparecem por vezes listadas na aba lateral da página. 
     Garanto-vos que vale a pena!

  
  «Um dia, as miragens não desapareceram. Foi o deserto que acabou por se desvanecer entre tantos oásis e mananciais».
(José Luis Zárate, México # Twitter e Weblog).


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 «Hansel cruel: envenenando o pão, pôde seguir o rasto dos passaritos mortos para voltar a casa».
(Javier López, de Espanha # Twitter e Weblog)


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  «O que desenhava com aquele lápis mágico, ganhava vida e aparecia-lhe em sonhos. Uma vez, desenhou uma porta, e nunca ninguém voltou a vê-lo».
(Lucas Arangette, Argentina # Twitter)


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  «Começou a recolher os pedaços, um a um, com todo o cuidado. Horas depois já pegava punhados, braçadas. Eram tantos».
(Mel Nader, do Colectivo Sem Ruído, Brasil # Twitter)


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  "VIDAS ALHEIAS. As velhas abandonaram as janelas. Nas ruas, desfilavam apenas tanques".
(Samir Mesquita, Brasil # Twitter e Weblog)


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   «A respiração cortada quando a asa corta o vento, e respirar-te,adquire um sentido de bosque e primavera»
Francisco Lozano Dr., Argentina,  # Twitter e Weblog)


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  «Ardem-me os olhos, o fígado está-me a matar e tenho uma dor insuportável nos testículos. É difícil ser um boneco vodu, mas pagam bem».
(Renato Guillén, Argentina, # Twitter)


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  «Soava um piano no fresco Outono. A janela aberta permitia que as suas notas destroçassem os meus planos para o dia»
(María Cera, Espanha,  #Twitter)


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  «COMO ACABOU A HUMANIDADE. Ninguém esperava que uma pomba branca entrasse pela janela e fosse pousar sobre o botão de auto-destruição».
("PollodeGoma", Espanha, # Twitter e Weblog)


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  «Insectos metálicos polinizavam as árvores mecânicas, e pequenos chips brotavam entre pétalas de silício, dispostos a propagar a informação».
(Héctor Gómez Herrero, Espanha # Twitter e Weblog)


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  «É Terça-Feira pela manhã, e não houve mais do que solidão desde a cama até à porta».
(Adrián Gléz Camargo, México, # Twitter e Weblog)


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  «Era o último copo de água que havia mas, sem ter dúvidas, a anciã partilhou-o com as suas margaridas»
(Óscar Rodríguez Nieto, Colômbia, # Twitter e Weblog)


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  «A minha pele de folhas secas e os meus dedos como raízes que buscam o oásis que é tocar-te»
(Gabriela Muñoz, Equador, # Twitter e Weblog)



Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...