«Bebam meus amigos, esvaziem as taças até à última gota, o passado é uma equação insolúvel e o futuro não existe. Só agora, neste momento, é que temos, tenho, o direito de desafiar o infinito e a eternidade, bebendo e rindo enquanto a velha ceifeira ronda a minha porta, imprimindo o peso dos seus ossos no saibro do caminho. Já a ouço, a cabra maldita quer cortar o fio da minha vida precária, com ordens e decisões que farão amargar este vinho e arrancar-me o sorrido da caveira. Bebam ainda, meus amigos, bebam sofregamente porque tudo vai acabar em poucos instantes, já ouço o bafo pestilento da velha ceifeira, enquanto os seus passos se dirigem para cá, ouço-os a atravessar o salão...agora...principiam a descer a escada da adega. Estou perdido. Deixem-me esvaziar este último copo...».
     Empina o copo, despejando o vinho na garganta. Batem à porta, com força, entreolham-se todos, e os amigos imitam-no, e despejam o vinho das taças enquanto ele abre a porta. Uma mulher está de pé no umbral como uma estátua maciça, velha e pesada.
     - Já ceifamos o centeio todo, e precisa de ser carregado - declara - agora, está na hora de vocês fazerem alguma coisa!

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