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A água e a jura

     Afonso Nudéjar, solteirão empedernido, não era um homem muito dado, apenas tinha uma meia-dúzia de amigos, e tolerava outra meia-dúzia de pessoas no universo inteiro - mas havia uma pessoa a quem odiava até à médula, a Narcisa, uma mulher viúva que morava dois andares acima no prédio. Ironicamente,conhecidos comuns haviam tentado fazer o arranjinho entre os dois, sem hipótese alguma de sucesso."Nem que fosse a última mulher na terra " - afiançava Afonso - "Se não houvesse mais ninguém, castrava-me e atirava o meu membro aos cães".Uma resposta semelhante haviam recebido de Narcisa: "Eu nunca partilharia a minha vida com aquela amostra de gente, nem que não houvesse mais homem nenhum no mundo. Preferia ser emparedada viva!".


     Calhou àqueles dois, serem as duas últimas pessoas vivas no mundo. À excepção deles,extinguiu-se toda a espécie humana, dos citadinos das zonas temperadas às tribos das florestas e aos caravanistas do deserto. Apenas ficaram Afonso e Narcisa para contar a história, e já não existiam as meninas da Casa da Guida que amenizavam a solidão de Afonso, nem o velho carteiro que esfregava periodicamente o bolor da vagina de Narcisa. Apenas os dois, os mesmos dois que haviam jurado a pés juntos que não se aproximariam um do outro, mesmo que o resto da humanidade se volatizasse no vazio.


     Ambos mantiveram as suas posições e a memória da sua inimizade. Mas ninguém se auto-castrou, nem houve iniciativas de emparedamento pessoal. Afonso e Narcisa mantiveram-se no mesmo prédio, e começaram a procurar-se um ao outro na cumplicidade das trevas da noite, comungando os seus corpos no patamar das escadas, e na cama dum e doutro, por vezes com o pensamento longe, outras, dando sinais de temperar o seu velho ódio com o prazer que sentiam. E com o tempo, inventaram a ternura e o companheirismo no seio da desolação, deixando cair o disfarce que haviam mantido na escuridão. E também, já não havia mais ninguém para os censurar ou louvar por isso.


                                                        

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...