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25 de Abril


   Descobriu aquela mulher misteriosa no balcão do bar, bebericando um daiquiri no meio da névoa de fumo. E estava sozinha. Sentou-se no banco ao lado, inclinando-se sobre o seu ombro nu.
   - Posso pagar-lhe outra bebida, ou sou o mais azarado dos homens e o seu marido foi só até à máquina do tabaco?
   Ela encolheu os ombros.
   - Não tenho marido, nem dono, e nem conseguiria viver presa a uma pessoa só porque sou muito promíscua, demasiado mesmo…
   Ele sorriu abertamente, a situação prometia.
   - Procurava justamente uma mulher com esse estado de espírito, não acreditava era que fosse encontrar uma tão bonita. Chamo-me Ricardo.
   - E eu chamo-me Liberdade.
   - Liberdade, como A Liberdade?!
   - Sou a própria. Mas não se entusiasme demais com o meu aspecto agradável, ou com o cravo vermelho que alinda os meus cabelos. Eu não tenho quase nada de meu, as dívidas fizeram-me vender um dos meus rins, um olho e a minha cabeleira natural. Todos os meus outros órgãos estão arrolados na dívida, e no dia em que morrer, virão cortar-me aos pedacinhos para satisfazer os credores.
   - Não diga?! Não fazia ideia.
   - Ah, e também vendi a perna direita, que troquei por uma prótese. Você não faz ideia do quanto vale uma perna sadia no mercado negro. Um dia terei de fazer o mesmo com a outra para não se ficar a rir. Tudo isto para alimentar os tubarões que não largam a minha porta.
   - Mas não deve estar muito mal, está aqui neste bar, bem vestida e a beber um daiquiri…
   - Hoje tirei a noite para recuperar o ânimo porque também é preciso, e tenho de aproveitar os trocos que guardo na carteira porque hoje foi dia de vender sangue.
   - Pois, estou a ver…- balançou Ricardo, com o entusiasmo nos seus níveis mais baixos.
   - Mas não fique melindrado e faça como eu, afunde o barco que o trouxe até aqui, rasgue os Seguros, pinte a manta, brinque aos loucos. Apesar de tudo o que eu disse, ainda sou uma mulher de corpo inteiro e estou aqui para as curvas. Quer-me acompanhar? Ou, como diziam os nossos avós, quer tomar a Liberdade? 


2 comentários:

  1. Toda despida!
    Potente...
    O eterno feminino, tomado pela mão; vou dormir com ela.

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  2. Eu teria medo dela. Mas não sou homem...

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