INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
   «De sete em sete anos, o corpo muda», repetiu, colocando muita energia em cada palavra - »Que idade você tem?».
   «Trinta e quatro!» - respondeu, apoiando nas costas da cadeira a asa dorida.
   «Vê? Já não falta muito para o seu corpo mudar. E você é uma simpatia, por isso, só desejo que o seu corpo não mude para quadrúpede!».

O ponto zero

     Ela contou-lhe tudo sobre o seu passado, com quem andara, por quem se tinha apaixonado, as avenças e desavenças das suas muitas relações e casos, uma narração de horas, generosa como uma gesta e rica em episódios e descrições. Afinal, iam começar a vida juntos e fazia todo o sentido serem ambos sinceros.
     Amaste alguém antes de mim? -perguntou-lhe ela por fim.
     Ele pensou com esforço. A sua novela era muito mais simples e monocromática, e pensando ainda, mas em voz alta, disse:
     Uma vez há muitos anos tive um caso de uma noite, ela tinha uns olhos verdes profundíssimos, parecia um lago mas, ao mesmo tempo, era um abismo sem fim, e uma vertigem. Não sei o que foi feito dela porque nunca mais a vi, mas acho que ainda hoje estou a nadar nesse lago. Isso conta?

Uma pessoa

    A mulher-a-dias penetrou na velha mansarda com um olhar reprovador e o nariz torcido. Pó, em camadas, estratos e camadas de pó sobre todos os objectos; tufos e nuvenzinhas de pó a cada gesto inusitado, um encosto num móvel, num cortinado, no denso ar. Depressa a senhora compreendeu que o que havia mais ali dentro eram livros, fiadas e pilhas de livros invadindo todas as áreas e superfícies, embaraçando os lugares de passagem, os degraus das escadas e os assentos das cadeiras e bancos. Os pontos mais aliviados de pó eram os lugares de onde tinha sido retirado recentemente algum livro, deixando exposto um rectângulo limpo de pó - limpo, por muito pouco tempo.
   - Isto estava mesmo a precisar - avaliou - vou precisar de dias para pôr alguma ordem e limpeza nisto.
   O dono da casa, enrolado num roupão esgarçado, levou o seu dedo indicador aos lábios da senhora.
   - Não repita de novo essas palavras atrozes. Não quero que ordene isto, porque tudo aqui tem um ordem e um lugar próprio, ditados pela ordem e pelo lastro deixado pelas minhas leituras. Só quero que limpe isto um pouco, para que eu consiga ler sem ter uma nuvem de pó entre mim e as páginas.
   A senhora concordou num aceno, olhando com mais atenção a figura curiosa daquele homem. Tinha o rosto estreito e magro, com um bigode negro triangular, e óculos de aros finos, redondos. Iria jurar que o conhecia de qualquer lugar. Mas devia ser só uma impressão, porque nunca andara por aquelas paragens antes daquele dia, e só ali estava, naquela casa velha, porque passeava pela rua e viu o bilhete manuscrito afixado no portão de ferro enferrujado. O seu lado prático veio ao de cima, e soprou sobre a lombada empoeirada dum livro para exprimir com esse gesto simbólico a sua repugnância para com aquele ambiente que considerava imundo e impróprio para uma pessoa viver.
   - Há quanto tempo não abre uma janela da casa?
   O freguês não respondeu, esgravatava no fundo duma caixa de madeira, e esticou-lhe a mão estendida com algumas moedas de prata.
   - Espero que aceite isto pelo seu trabalho, são de prata de lei.
   Ela hesitou, revirando as moedas na palma da mão.
   - Não percebo muito disto, mas acho que pode ser...se for só o pó! Ou há outras limpezas de fundo a fazer? Cozinha ou casas-de-banho?
   - Não, é mesmo só o pó. A cozinha, ninguém a utiliza há mais de setenta e cinco anos.
   - Não me diga!? Bem...e quando é quer que eu comece?
   - Pode ser agora? Neste momento? É que está a acabar o tempo que me concederam, e ainda não li todos os livros que queria  ler!



A justiça do nome

    Lançou-se a montar um quebra-cabeças tridimensional da Torre de Pisa. Cada uma das peças do quebra-cabeças, fabricada numa liga plástica densa, pesava perto de quatro quilos, e o grau de dificuldade do trabalho acrescia da torre ser, é claro, inclinada, e susceptível de ruir no processo. Uma das primeiras coisas que aprendeu logo ali, foi o motivo porque lhes chamavam quebra-cabeças.

Zen Hermeticamente embalado - a 3ª Lei

   Songhai, mestre da escola Soto, surpreendeu dois dos seus discípulos a atar fitas de papel com orações escritas, numa das colunas dum alpendre do templo. O alpendre era sobranceiro ao desfiladeiro de Hondai, do outro lado do qual se erguia a montanha verdejante pontilhada de templos. Se pudessem ver mais de perto, poderiam descobrir nas colunas desses templos, outras orações como aquelas a drapejar ao vento.
   Songhai deu-lhes para a mão um seixo grande e liso, e pediu-lhes que o atassem também à coluna. Eles entreolharam-se, e reviraram a pedra na palma das mãos à procura de caracteres gravados. Um deles, o mais novo em aprendizagem, inquiriu.
   - Mestre, acredito que tenha depositado nesta pedra uma oração ou uma parábola, mas porquê atá-la à coluna? É apenas uma pedra.
   - Nada é imóvel e tudo vibra, das asas do dragão que voa acima das nuvens, a essas fitas de papel, e à própria pedra que tens na mão. A níveis diferentes, tudo se movimenta, tudo tem energia, e tudo vive e vibra; e aquilo a que chamamos inércia, é apenas uma modalidade mais profunda do movimento. Por vezes, agindo sobre os seres e as coisas, podemos alterar o modo como vibram. Vejam essa pedra, eu trouxe-a da cozinha, costumam aquecê-la ao fogo para cozer os alimentos dentro da panela. A acção do fogo, alterou na pedra a sua inércia, e tornou-a mais próxima, de maneira que agora já a podemos sentir ou ouvir.
   Cada um dos discípulos tomou a pedra entre as mãos e pôde sentir como pulsava, mesmo no limite do que os seus sentidos eram capazes, tal o eco breve duma voz que chegasse até eles vinda do outro lado do desfiladeiro de Hondai.
   Os dois discípulos ataram o seixo à coluna do alpendre e um deles, o mais novo em aprendizagem, atingiu a iluminação.

Zen Hermeticamente embalado - a 1ª Lei

   - O que é o mundo? – perguntou um discípulo de Songhai ao seu Mestre
   - Imagina que no interior da tua cabeça existia uma minúscula cabana de bambu, do tamanho dum grão de areia, e que dentro dessa cabana, vivia um homem ainda mais minúsculo que pensava que a cabana era o próprio mundo – a terra sob ele, as paredes que marcavam o seu fim, o tecto que lhe servia de céu. Nada sabia de ti e dos teus pensamentos, e desse mundo de que falas, e que te parece infinito e sem vida mental.
   - Não percebo, Mestre!
   - O mundo que me perguntavas, é a cabana de bambu em que vivemos!
   E o discípulo percebeu.

A Segunda Lei de Hermes

(gravura de Angela Schnoor)

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     Era assim. Ou ficara assim enquanto dormia. As flores haviam desaparecido do mundo, e, das plantas, só sobreviviam as espinhosas e aguçadas e as árvores outonais despidas, as paisagens resolviam-se numa imensidão monótona de cores sombrias - cinza, castanho, negro. A lua no cimo era negra, e o Sol ardente no céu havia-se reduzido a uma estrela débil e azulada que parecia prestes a consumir-se de vez no céu da mesma cor.
     A jovem mulher cansou-se, cansou-se dos seus ombros descaídos, dos pés doridos de tanto pisar o solo áspero semeado de picos e espinhos, da alma retorcida sobre si mesma como a concha espiralada dum gastrópode no imo da qual mantinha represadas as emoções – e desentranhou de si essas emoções como quem se liberta dum fardo pesado, soltou a loucura e a vertigem de sentir, de amar e odiar, de experimentar o desejo com a mesma ferocidade e com a mesma violência com que repelia e afastava o que a enojava.
    Ao libertar os sentimentos, repôs os contrastes no mundo, a lua branca no céu escurecido, o astro dourado no azul do céu, a crueza da beleza e da fealdade, as cores, as flores e os espinhos onde elas pertenciam estar sob as estrelas. E nunca mais a viram andar de ombros descaídos.
   (no fundo de si mesma, no entanto, a sua melancolia pulsava e crescia como uma paciente névoa acinzentada).

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Sintomas Síncronos

   Marco e Francisco são gémeos idênticos, univitelinos, nome científico muito estranho, mas que não importa ao caso. O que conta objectivamente é que cada um deles se comporta no dia-a-dia, como se tivesse a percepção exacta do que o outro sente, sonha ou sofre, mesmo que estejam distanciados centenas de metros, ou largos quilómetros. Chegam, segundo os familiares, a terem acções idênticas no mesmo período de tempo, no mesmo segundo até, atitudes, gestos. Foi isso que levou dois estudiosos a utilizarem-nos para comprovar de forma concisa e científica, esse elo psíquico que se atribui aos gémeos idênticos.
   Eleitos como grupo de estudo, cada um dos gémeos, acompanhado dum dos cientistas, foi colocado numa residência sem telefones ou telemóveis, faxes ou pombos-correio. As duas residências distanciavam uma da outra, duzentos e cinquenta quilómetros, beneficiavam do mesmo fuso horário, e os estudiosos sincronizaram os relógios antes de se iniciar a experiência, de forma a obterem dados fiáveis. A experiência teve a duração de vinte e quatro horas e, posso adiantar, foi um sucesso completo naquilo que os cientistas pretendiam demonstrar. O que se segue é uma sumária confrontação dos cadernos de anotação de ambos os lados. As desconcertantes concordâncias estão em sublinhado.

   Primeiro Dia da Experiência. Casa de Marco. Nove e quinze da manhã. Marco é acordado pelo cientista que teme que o seu ressonar ponha em risco as fundações da casa. Dez e quarenta e quatro, Marco levanta-se da cama, depois de lhe assegurarem que não há serviço de quartos no meio da montanha. Meio-dia e dez, Marco exige champanhe francês e arroz de marisco ao almoço, o que levanta sérios problemas de logística. Treze e vinte, Marco come lasanha aquecida no micro-ondas. Catorze e quinze, Marco quer lanchar arroz de gambas. Catorze e quarenta, Marco faz uma prelecção sobre as virtudes da haute-cuisine enquanto come uma sandes de courato. Dezasseis e vinte, Marco pergunta se a experiência dá direito a ceia porque acha que já são horas de jantar. Dezassete e doze, Marco janta arroz de pato descongelado. Dezanove horas e dois minutos, Marco começa a comer os ovos com presunto que estavam reservados para o pequeno-almoço do dia seguinte. Dezanove e trinta, Marco adormece na sala com o som da ventoinha.
   Segundo Dia da Experiência. Casa de Marco. Oito da manhã, Marco é acordado para lhe perguntarem se viu quem assaltou o frigorífico e a despensa durante a noite. Nove e dez, iniciam a viagem de regresso. Catorze e trinta, chegam a casa de Francisco para a reunião, depois de terem feito escala em quatro restaurantes diferentes. Catorze e quarenta e cinco, Marco abre a porta de casa e sente uma violenta dor psíquica na cabeça.

   Primeiro Dia da Experiência. Casa de Francisco (e reparem na simultaneidade das horas). Nove e dez da manhã, Francisco tenta ouvir rádio porque não sabe os resultados da última jornada de futebol, e, como a recepção é má, destrói o aparelho com o martelo de picar carne. Dez e quarenta e um, Francisco quer tabaco, mas não o deixam sair para comprar e desfaz uma cadeira a pontapés. Meio-dia e vinte, Francisco tenta consertar o velho transístor, atando a antena partida no estendal da roupa. Treze e vinte, Francisco pergunta pelos resultados do futebol ao carteiro, e como este não saiba, persegue-o rua abaixo com uma enxada. Catorze e dez, Francisco começa a polir a lâmina duma navalha-de-ponta-e-mola que traz consigo. Catorze e trinta, o cientista serve-lhe lasanha aquecida no micro-ondas (!) para tentar que ele largue a navalha. Dezasseis e trinta, Francisco descobre na despensa umas garrafas de vinho rosé alemão que devem ter sido deixadas por outros rendeiros e começa a beber com sofreguidão. Dezassete e quinze, Francisco embosca-se no telhado da casa com uma espingarda de Pressão de Ar à espera da volta do carteiro, e dispara alguns chumbos quando este aparece na curva, fazendo-o fugir. Dezanove horas e quatro minutos, o cientista consegue que ele coma arroz de pato descongelado (!!), o que ele faz, usando a lâmina da navalha como colher. Vinte e trinta, aproximadamente, Francisco, ameaçando-o com a navalha, fecha o estudioso à chave numa arrecadação, para sair à noite para ir beber uns copos e armar umas brigas.
   Segundo Dia da Experiência. Casa de Francisco. O cientista continua fechado à chave. Treze e dez, Francisco acorda, pelo menos, o cientista ouve os seus passos pela casa. Catorze e trinta, Francisco abre inadvertidamente a sua porta porque anda à procura de mais garrafas de vinho. Catorze e quarenta e três, batem à porta de casa. Catorze e quarenta e cinco, Francisco abre a porta e atira a garrafa de vinho vazia à primeira figura desfocada que vê no umbral da porta.


Conto escrito a duas mãos - 3

Consertar o mundo

   A pequena endiabrada apareceu a correr pelo meio dos cones de canas carregados com feijão verde, e aproximou-se da avó que pendurava roupa no estendal.
   - Cuidado quando passas pela horta, ou ainda fazes estragos - recomendou a anciã.
   - Avó, emprestas-me algumas molas de roupa?
   - Para que é que queres as molas?
   - Para segurar um bocado do céu, que está a cair.
   A avó encolheu os ombros com um sorriso bondoso nos lábios, entregou-lhe as molas e ficou a vê-la correr de volta - pelo meio da horta, a dar a volta à esquina da casa, e subir o morro por detrás desta. Voltou às suas roupas. A neta era capaz de passar uma tarde inteira no monte, a brincar no meio das árvores e rochedos.
   Quando acabou a tarefa, espreitou o monte por cima do ombro, e sentou-se nos degraus da entrada, a cozer os botões duma bata. Não tardou que a neta estivesse de novo ao pé dela, ofegante com o esforço da corrida.
   - Tenho um problema, avó!
   - Qual é o problema?
   - Fixei o céu que estava a cair, mas agora as nuvens já desceram muito e estão nas ramas das árvores. Parecem bocados de algodão doce. Vou precisar de as fixar um pouco ao céu com alfinetes, para depois as soltar ao vento. Além dos alfinetes, também vou levar alguns dos caniços cortados que estão ao lado da horta. São para ter a certeza de que a água do riacho está mesmo a correr, porque acho que a água da nascente já não está a nascer...
   A avó passou-lhe para a mão a caixa dos alfinetes. A menina, levou-a até junto da horta, parou para escolher alguns caniços, e voltou a subir o morro. A avó observou-a, muito pensativa, manuseando a memória das suas palavras com extremo cuidado, como se mudasse de sítio uma ninhada de pintos acabados de nascer. Por fim, vencida pela curiosidade, pousou o cesto da costura, levantou-se com esforço e começou a subir o morro no encalço da neta.
   Parou no alto do morro e os seus olhos viram o pequeno milagre. A sua neta refizera o mundo dentro da toca de um velho castanheiro: para li levara casas, árvores, animais, fontes, terrenos e, no fim, construíra um pequeno céu: algodão doce sob um azul intensamente suave.   Discretamente, anunciou o arco-íris.

Conto escrito por José e Maria

25 de Abril


   Descobriu aquela mulher misteriosa no balcão do bar, bebericando um daiquiri no meio da névoa de fumo. E estava sozinha. Sentou-se no banco ao lado, inclinando-se sobre o seu ombro nu.
   - Posso pagar-lhe outra bebida, ou sou o mais azarado dos homens e o seu marido foi só até à máquina do tabaco?
   Ela encolheu os ombros.
   - Não tenho marido, nem dono, e nem conseguiria viver presa a uma pessoa só porque sou muito promíscua, demasiado mesmo…
   Ele sorriu abertamente, a situação prometia.
   - Procurava justamente uma mulher com esse estado de espírito, não acreditava era que fosse encontrar uma tão bonita. Chamo-me Ricardo.
   - E eu chamo-me Liberdade.
   - Liberdade, como A Liberdade?!
   - Sou a própria. Mas não se entusiasme demais com o meu aspecto agradável, ou com o cravo vermelho que alinda os meus cabelos. Eu não tenho quase nada de meu, as dívidas fizeram-me vender um dos meus rins, um olho e a minha cabeleira natural. Todos os meus outros órgãos estão arrolados na dívida, e no dia em que morrer, virão cortar-me aos pedacinhos para satisfazer os credores.
   - Não diga?! Não fazia ideia.
   - Ah, e também vendi a perna direita, que troquei por uma prótese. Você não faz ideia do quanto vale uma perna sadia no mercado negro. Um dia terei de fazer o mesmo com a outra para não se ficar a rir. Tudo isto para alimentar os tubarões que não largam a minha porta.
   - Mas não deve estar muito mal, está aqui neste bar, bem vestida e a beber um daiquiri…
   - Hoje tirei a noite para recuperar o ânimo porque também é preciso, e tenho de aproveitar os trocos que guardo na carteira porque hoje foi dia de vender sangue.
   - Pois, estou a ver…- balançou Ricardo, com o entusiasmo nos seus níveis mais baixos.
   - Mas não fique melindrado e faça como eu, afunde o barco que o trouxe até aqui, rasgue os Seguros, pinte a manta, brinque aos loucos. Apesar de tudo o que eu disse, ainda sou uma mulher de corpo inteiro e estou aqui para as curvas. Quer-me acompanhar? Ou, como diziam os nossos avós, quer tomar a Liberdade? 


A prova

   Ti Joaquim levantou-se da mesa da taberna e tomou o caminho da porta mas, antes de sair, parou um momento a espiar discretamente uma nova fotografia que havia sido colocada na parede maior do estabelecimento. Ali estava, com todo o destaque e desplante, a foto mais recente das proezas piscatórias de Rogério, o taberneiro, mostravam-no junto ao portão da taberna, de sorriso rasgado, a segurar um robalo enorme. O sacana devia ter perto de setenta centímetros da cabeça ao rabo. Ti Joaquim remoeu a inveja. Era só uma fotografia e, na certa, havia sido retocada, aumentando o peixe original que não devia ser maior do que uma petinga.
   - A pesca é para os pescadores, Joaquim! – ironizou Rogério, falando tão perto de si que se assustou com a voz dele.
   - Não sei o que queres dizer, Rogério. Peixitos como este, eu apanho quase todas as semanas.
   - Acredito, mas eu nem te pergunto onde é que apanhas os teus peixes. Se estiveste a pescar na Ponta do Trovão, dizes que estiveste na Quebrada do Lingueirão, e vice-versa, e a maior parte das vezes estiveste nos dois sítios e em muitos mais e só pescaste a desgraçada da sardinha que enfiaste no anzol.
   - Estou farto das tuas piadas, Rogério. A próxima vez que eu pescar um peixe cá dos meus, trago-o cá e penduro-o pelo rabo naquele prego na parede ao lado da fotografia.
   E saiu da taberna a deitar fogo pelas ventas. Raios-partam o Rogério mais as suas manias – pensava, no caminho de casa, onde só parou para se aprestar para a pesca. Menos dum quarto de hora depois já estava em funções na Quebrada do Lingueirão, sentado num rochedo suspenso sobre a rebentação. As horas passavam, e só havia pescado um modesto pargo. Pouco peixe e pequeno. Começava a acreditar que era melhor desistir quando sentiu um súbito puxão na linha. Fincou os tacões das botas numa reentrância do rochedo e começou a puxar e a rodar o carreto da cana de pesca. O cabrão era grande! Podia dizê-lo pelo esforço que tinha de fazer, e pelos breves assomos da presa no meio da espuma da rebentação.
   - Não hás-de fugir! – bramia, ao mesmo tempo que soltava um grito de entusiasmo ao estimar que aquele robalo devia ter um metro de comprido.
   Lutou e puxou, usando todos os músculos do seu corpo como uma força conjunta, simétrica ao esforço daquele peixe para se libertar. Caprichosamente, num dos saltos que deu na luta, o peixe foi cair fora de água, no meio das rochas, fazendo a linha ficar enredada num monturo de canas.
   Ti Joaquim pôs-se de pé, e avaliou a situação num ápice. O peixe estava no meio das rochas, mas por pouco tempo, era só vir outra onda que o puxasse para o mar, e não sabia se o anzol se aguentava. Decidido, cortou a linha, empunhou a cana ao contrário e em três saltos de gamo, desceu até ao sopé do rochedo. O peixe continuava a debater-se, e ele, Pumba!, deu-lhe uma cacetada na cabeça com o cabo em inox da cana.
   O robalo gigantesco rodou o corpo, ficando com a cabeça virada para ele, e a sua boca abriu-se e falou, falou mesmo, com voz de gente:
   - Não me mates – pediu – eu sou um peixe mágico, e se me poupares, eu posso ajudar-te!
   - Cala-te peixe – e Pumba outra vez – a melhor ajuda que me podes dar é ficares calado até eu te pendurar na taberna do Rogério.

Projecto de vida

    Uma aldeã enorme e avantajada, surpreendeu os vizinhos ao plantar três árvores no pátio da sua casa.
    - Para que é queres as árvores? – Perguntaram-lhe, de rosto erguido para ela.
    - São amoreiras. Vou criar as árvores e nelas vou criar bichos-da-seda, e quando tiver seda que chegue, vou criar um vestido para com ele procurar noivo.
    E assim foi. As árvores cresceram, o que levou o seu tempo, nas árvores criou bichos-da-seda, dos quais recolhia diligentemente os casulos (o que também não acontecia todos os dias) e quando começou a ter uma quantidade apreciável de seda e planeava iniciar o vestido, morreu, de velhice. Depois do funeral, os vizinhos atreveram-se a espreitar a sua casa, a medo, como formigas num carreiro. As portas e as mobílias tinham dez vezes o tamanho normal, e em duas divisões da casa, maiores do que celeiros, distribuía-se a seda e os meticulosos preparos para o vestido projectado.
   - Quantos séculos pensava ela que iria durar? – Perguntavam-se.

Caracteres não são quilates - Um breve apontamento

     Quando pretendemos definir o que é uma micronarrativa ou microconto, toda a definição necessária está contida no próprio termo – é uma narrativa de dimensões microscópicas, quando comparado com a extensão que um conto pode ambicionar ter. Aqui, a dificuldade que se apresenta, é determinar o número de caracteres que um microconto deverá ter para merecer essa designação, ou a partir de que dimensões passa a ser um conto menos micro, ou um mini-conto em potência. Duas das cifras mais aceites são as que colocam esse limite nos cento e cinquenta, e nos duzentos caracteres.

    Diante deste desafio – criar um conto num espaço tão restrito – só podemos imaginar o autor a servir-se da muleta do contador de caracteres do seu processador de texto. Ali está ele, um dínamo de ansiedade criativa, a tentar por no papel uma narrativa que lhe ocorreu, mas com a preocupação subjacente dele eventualmente exceder a fronteira legalmente admitida para o microconto. E se o seu conto microscópico não puder ter menos de cento e cinquenta e um caracteres, ou duzentos e um caracteres? Deverá ele amputá-lo numa palavra indispensável como um jardineiro desajeitado que podasse a sua roseira; ou deverá ele mantê-lo assim, na esperança de que os puristas da micronarrativa não movam contra ele uma Guerra Santa, organizando manifes á porta da sua casa?

     Traço esta imagem caricatural, tendo bem presente que um autor que escreva microcontos amiúde, adquire uma percepção apurada sobre a extensão que pode dar à sua nano-narrativa, sem ter necessidade de espiar o contador de caracteres a cada palavra que escreva. Mas esta caricatura serve-me, ao mesmo tempo, para introduzir um dos recursos mais fecundos para a edição de microcontos: o Twitter.

     O Twitter é simultaneamente uma rede social, e uma plataforma para microblogging. E aqui voltamos ao universo microscópico: cada tweet, como é sabido, não pode ter mais de cento e quarenta caracteres, cifra que vai decrescendo á medida que organizamos as formigas das palavras numa minúscula carreira. Um conto escrito no Twitter é, forçosamente, um microconto, sem contadores de caracteres nem dúvidas quantitativas. Não há concessões nem cedências, se coube no tweet é, tecnicamente, um microconto, mesmo que se se socorra dalguns expedientes, como as abreviaturas de palavras ou a supressão do espaço a seguir à pontuação (também, com centro e quarenta caracteres, seria cruel esperar o oposto!). O Twitter revela-se assim, um recurso precioso para qualquer autor de micronarrativas, e essa é uma noção cada vez mais difundida e aceite na Web.

     A título experimental, ensaiei no twitter uma modesta página de micronarrativas (dei-lhe o título de nanonarrativas, uma variação), mas paralelamente, ao explorar o que se tem feito nesses moldes no Twitter, tive a felicidade de encontrar inúmeras páginas onde são criados regularmente microcontos.
Num apreciação de conjunto, muito genérica (e falível), posso adiantar que o microconto no Twitter passa ao lado dos autores lusos, mas já tem uma franca aplicação em terras do Brasil, sendo notório, no entanto, que é no universo hispano-americano, que ele conhece o seu desenvolvimento mais exponencial, em proporção com a vitalidade e o florescimento da micronarrativa nesses mesmos países.

     Sem pretender ser exaustivo, nem influenciar escolhas, apresento em seguida uma mão-cheia de micros de diferentes autores e de tonalidades diversas, retirados do Twitter, e vertidos para português (quando foi o caso). Quem pretender aprofundar mais o tema, basta pesquisar no próprio Twitter, ou visitar as “páginas semelhantes”, que aparecem por vezes listadas na aba lateral da página. 
     Garanto-vos que vale a pena!

  
  «Um dia, as miragens não desapareceram. Foi o deserto que acabou por se desvanecer entre tantos oásis e mananciais».
(José Luis Zárate, México # Twitter e Weblog).


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 «Hansel cruel: envenenando o pão, pôde seguir o rasto dos passaritos mortos para voltar a casa».
(Javier López, de Espanha # Twitter e Weblog)


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  «O que desenhava com aquele lápis mágico, ganhava vida e aparecia-lhe em sonhos. Uma vez, desenhou uma porta, e nunca ninguém voltou a vê-lo».
(Lucas Arangette, Argentina # Twitter)


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  «Começou a recolher os pedaços, um a um, com todo o cuidado. Horas depois já pegava punhados, braçadas. Eram tantos».
(Mel Nader, do Colectivo Sem Ruído, Brasil # Twitter)


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  "VIDAS ALHEIAS. As velhas abandonaram as janelas. Nas ruas, desfilavam apenas tanques".
(Samir Mesquita, Brasil # Twitter e Weblog)


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   «A respiração cortada quando a asa corta o vento, e respirar-te,adquire um sentido de bosque e primavera»
Francisco Lozano Dr., Argentina,  # Twitter e Weblog)


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  «Ardem-me os olhos, o fígado está-me a matar e tenho uma dor insuportável nos testículos. É difícil ser um boneco vodu, mas pagam bem».
(Renato Guillén, Argentina, # Twitter)


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  «Soava um piano no fresco Outono. A janela aberta permitia que as suas notas destroçassem os meus planos para o dia»
(María Cera, Espanha,  #Twitter)


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  «COMO ACABOU A HUMANIDADE. Ninguém esperava que uma pomba branca entrasse pela janela e fosse pousar sobre o botão de auto-destruição».
("PollodeGoma", Espanha, # Twitter e Weblog)


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  «Insectos metálicos polinizavam as árvores mecânicas, e pequenos chips brotavam entre pétalas de silício, dispostos a propagar a informação».
(Héctor Gómez Herrero, Espanha # Twitter e Weblog)


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  «É Terça-Feira pela manhã, e não houve mais do que solidão desde a cama até à porta».
(Adrián Gléz Camargo, México, # Twitter e Weblog)


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  «Era o último copo de água que havia mas, sem ter dúvidas, a anciã partilhou-o com as suas margaridas»
(Óscar Rodríguez Nieto, Colômbia, # Twitter e Weblog)


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  «A minha pele de folhas secas e os meus dedos como raízes que buscam o oásis que é tocar-te»
(Gabriela Muñoz, Equador, # Twitter e Weblog)



Tours


1

     Ergueu os olhos da revista, quando sentiu a presença da enfermeira. Bonita e fresca, diga-se de passagem, daquele tipo de mulheres a quem a rotina e o quotidiano não deslustram a beleza diamantina.
     - Pode entrar, o doutor vai atendê-lo!
     A menção ao médico, trouxe-lhe à memória as questões que o atormentavam. Cruzou a porta e foi recebido pelo médico, que o cumprimentou com um caloroso aperto de mão.
     - Como é que está, meu caro?
     - Bem, doutor, é caso para dizer - Bons olhos o vejam!
     O médico riu-se, e indicou-lhe uma cadeira.
     - Caro amigo, as coisas estão a correr bem, e a velocidade de cruzeiro. O seu transplante da córnea foi um sucesso completo. O astigmatismo é quase nulo, há apenas umas pequenas correcções a fazer, para as quais nos serviremos das lentes. Fora isso, é continuar com os colírios e evitar carregar com pianos nos próximos tempos.
     - Sim, doutor, nem sei como lhe agradecer, e a todo o pessoal envolvido. Agora, eu vejo na perfeição, e isso parece-me um milagre.
     - É um milagre da ciência, meu caro, mais particularmente, da cirurgia a Laser. Para mim, é quase como se deixássemos de operar com escopro e martelo. Mas o que eu gostava que o meu amigo me dissesse, é como se tem sentido com os seus novos olhos? Algum ardor ou impressão fora de comum?
     Seguiu-se um silêncio fugaz, e o médico percebeu que havia ali coisa.
     - Tenho acordado com os olhos a palpitar, quase como se já estivessem a palpitar durante o sono. É uma impressão ritmada, com ciclos de poucos segundos. E...doutor...vai achar uma parvoíce, mas desde que fui operado aos olhos, tenho tido sonhos diferentes, que antes nunca havia experimentado.
     - Que tipo de sonhos?
     - Sonho com viagens, no espaço exterior, mas tudo muito realista, como se fosse uma memória. Vejo um mar de asteróides, com todas a cores vivas e todas as linhas e ângulos, sonho com luas bizarras parecidas com batatas gigantes, como as luas de Marte que vi há dias num Atlas, também me aparecem erupções de fogo na superfície duma estrela, ou um mar púrpura num planeta estranho onde as estrelas estão tão próximas como se não houvesse atmosfera...E todos estes sonhos começaram na noite a seguir à operação, e reaparecem-me amiúde.
     - Sejamos objectivos. Esse palpitar na vista desaparece logo a seguir, ou continua pelo dia fora?
     - Permanecem enquanto é de noite. Se acordo com a luz do dia desaparecem de imediato, deixando-me no entanto a sensação de que o senti enquanto dormia.
     - Essas palpitações podem ter uma explicação muito simples, os olhos comportam-se de forma diferente durante os diferentes ciclos de sono, nunca dormem profundamente, e é natural que durante esta fase transitória de adaptação às novas córneas, o trabalho nocturno da vista cause alguma impressão sob as pálpebras...
     - E quanto ao resto, doutor?
     - O resto é uma mera coincidência, e um mito. Nenhum órgão humano, nenhum osso, possui uma memória residual. É comum vermos nos filmes ou ler nos romances que uma pessoa que recebe um coração novo, pode apaixonar-se pelas pessoas de quem o doador gostava, mas isso são ficções. O que pode ter acontecido, é que nesta fase de deslumbramento em que você se encontra, a ler livros e a ver muitos filmes, algum detalhe desse jorro de informação tenha despoletado a sua imaginação nos sonhos. Acredite-me, quase tudo na vida tem uma explicação simples e suficiente, embora isso contrarie essa nossa vocação onírica que prefere trocar o óbvio pelo mistério, e a ciência pelo delírio.
     «Mas, se precisar de mais evidências, posso fazer-lhe uma inconfidência, só para o tranquilizar. Se esses sonhos que o senhor tem tivessem eventualmente a sua causa na sua operação à vista, seria normal supor que o dador fosse um astronauta, um cineasta ou um ilustrador de ficção científica, mas nada mais longe da verdade. O homem de quem você recebeu as córneas era um humilde agricultor, sem escolaridade nem instrução, e que teve o infortúnio de ser colhido por um carro quando ia a caminho do mercado local. Não acredito que esse homem visse documentários pela televisão, nem sequer, que alguma vez tivesse ido ao cinema ver um filme ambientado no espaço exterior».


2


     Acordou, quando o braço mecânico articulado começava a recolher amostras do solo. Sentou-se na cama, enquanto o sonho se desvanecia. Sentia os olhos de novo a latejar, esfregou as têmporas e levantou-se, arrancando um resmungo de protesto à mulher, que dormia nua sobre os lençóis. Consultou o relógio luminoso, ainda faltavam umas quatro horas para amanhecer, e ele sem sono. 
     Foi até à cozinha, preparou uma chávena de café com leite e começou a  molhar bolachas no líquido. A impressão na vista permanecia, e ia e vinha como a luz de um comboio num túnel que se aproximasse rapidamente para de seguida recuar de novo para a escuridão profunda. E o pior é que, simultaneamente a isso, sentia uma espécie de angústia, um desconforto no peito, como se estivesse rodeado por algo de ameaçador ou terrível. Saiu da cozinha e andou e perambulou inquieto pelas divisões da casa, e foi na biblioteca que viu algo que o perturbou, uma luz diferente filtrava-se pelas frestas dos estores mal fechados, uma luz que aumentava e decrescia de intensidade ao mesmo ritmo das suas palpitações na vista. Abriu os estores. A fonte de luz encontrava-se longe, para além dos troncos e ramos das oliveiras, mas era refractada pelas chapas de zinco do telhado do anexo. Vestiu-se rapidamente com as roupas de andar na fazenda, calçou uns botins e saiu para a rua. Os seus passos perseguiam a origem daquela luz. Subiu a pequena colina em passadas largas, e quando começou a descê-la do lado oposto, e já livre das árvores no seu campo de visão, avistou o engenho no fundo do vale, pousado ao lado do dólmen, tinha a aparência dum disco, e na parte inferior um domo de vidro emitia uma luz intermitente, a mesma que observara de casa, e que pulsava ao ritmo das suas palpitações na vista. Continuou a aproximar-se, e descobriu no exterior da nave a silhueta de seis pequenos humanóides, pouco maiores do que chimpanzés. Estavam em pé, dispostos em semi-círculo, com a parte aberta virada para si, e todos o fitavam. Estavam à sua espera.

Bullying

     - O que é que tu és? - repetiu o deputado com capacete viking na cabeça - O que é que és?
    - Sou um genuíno homem de esquerda - voltou o jovem, com o nariz a sangrar - Quero ajudar a mudar o mundo, limar as desigualdades e as injustiças, e dar voz a quem não tem voz....
    O jovem gritou quando o deputado lhe torceu uma orelha com força. O autarca ao seu lado juntou-se à festa, descalçando o ingénuo idealista para lhe prender molas metálicas aos dedos do pé.
     - Vão com calma! - interveio então Almeida, o ex-ministro, soprando as palavras pelo meio do fumo do charuto - talvez ele não vos ouça bem, ou haja aqui algum problema de semântica que vos escapa. Não vêem que ele ainda não viveu o suficiente para adquirir o vocabulário complexo e o know-how de políticos profissionais como nós? Como eu possuo um temperamento benevolente, proponho-te um desafio, rapaz - quais são as três primeiras coisas que farias se estivesses no poder por um dia?
     - Poderia enumerar cem coisas, mas começaria pelo seu caso. Você recebe reforma vitalícia por ter passado pelo governo, isto, mantendo uma bem remunerada profissão liberal e tendo reunido um considerável pecúlio enquanto estava no poder, fruto de reconhecidos esquemas de corrupção. Acabava já com a sua reforma, e mandava depurar as suas finanças...
     As suas palavras foram substituídas por um grito, quando a pele do pé tomou contacto com o calor tropical do tabaco cubano.

A água e a jura

     Afonso Nudéjar, solteirão empedernido, não era um homem muito dado, apenas tinha uma meia-dúzia de amigos, e tolerava outra meia-dúzia de pessoas no universo inteiro - mas havia uma pessoa a quem odiava até à médula, a Narcisa, uma mulher viúva que morava dois andares acima no prédio. Ironicamente,conhecidos comuns haviam tentado fazer o arranjinho entre os dois, sem hipótese alguma de sucesso."Nem que fosse a última mulher na terra " - afiançava Afonso - "Se não houvesse mais ninguém, castrava-me e atirava o meu membro aos cães".Uma resposta semelhante haviam recebido de Narcisa: "Eu nunca partilharia a minha vida com aquela amostra de gente, nem que não houvesse mais homem nenhum no mundo. Preferia ser emparedada viva!".


     Calhou àqueles dois, serem as duas últimas pessoas vivas no mundo. À excepção deles,extinguiu-se toda a espécie humana, dos citadinos das zonas temperadas às tribos das florestas e aos caravanistas do deserto. Apenas ficaram Afonso e Narcisa para contar a história, e já não existiam as meninas da Casa da Guida que amenizavam a solidão de Afonso, nem o velho carteiro que esfregava periodicamente o bolor da vagina de Narcisa. Apenas os dois, os mesmos dois que haviam jurado a pés juntos que não se aproximariam um do outro, mesmo que o resto da humanidade se volatizasse no vazio.


     Ambos mantiveram as suas posições e a memória da sua inimizade. Mas ninguém se auto-castrou, nem houve iniciativas de emparedamento pessoal. Afonso e Narcisa mantiveram-se no mesmo prédio, e começaram a procurar-se um ao outro na cumplicidade das trevas da noite, comungando os seus corpos no patamar das escadas, e na cama dum e doutro, por vezes com o pensamento longe, outras, dando sinais de temperar o seu velho ódio com o prazer que sentiam. E com o tempo, inventaram a ternura e o companheirismo no seio da desolação, deixando cair o disfarce que haviam mantido na escuridão. E também, já não havia mais ninguém para os censurar ou louvar por isso.


                                                        
     A pequena nave espacial alienígena sai do hiperespaço, com alguns segundos apenas para os seus tripulantes corrigirem a rota de forma a não embater na superfície de Terra. Não embatem, aterrissam, suavemente, no centro duma lixeira a perder de vista a alguns metros do mar. Os tripulantes saem. Em volta só se vê lixo empilhado, uns quantos arbustos raquíticos, e gaivotas a debicar no lixo, aves que eles julgam ser os únicos habitantes do planeta descoberto. Recorrendo ao registo dalgumas línguas do universo e a múltiplas imagens tridimensionais, tentam estabelecer comunicação com as gaivotas, mas sem fruto. Desanimados, entram no seu engenho espacial e mergulham de novo no hiperespaço, levando consigo a crónica sobre uma raça alada inteligente, que foi embrutecida pelos miasmas tóxicos do lixo que produziram.


Versão cartoonada:



    A pequena nave espacial alienígena sai do hiperespaço, com alguns segundos apenas para os seus tripulantes corrigirem a rota de forma a não embater na superfície de Terra. Não embatem, aterrissam, suavemente, no centro duma lixeira a perder de vista a alguns metros do mar. Os tripulantes saem. Em volta só se vê lixo empilhado, uns quantos arbustos raquíticos, e gaivotas a debicar no lixo, aves que eles julgam ser os únicos habitantes do planeta descoberto. Recorrendo ao registo dalgumas línguas do universo e a múltiplas imagens tridimensionais, tentam estabelecer comunicação com as gaivotas, e têm êxito apenas com uma delas, a mais inteligente, e a solicitação que lhe fazem é: "Leva-me ao teu chefe!".
   A ave levanta voo diante deles, e esvoaça até pousar numa gaivota a pedais que jaz na praia.

       Ela descobriu aquele homem triste sentado no banco da estação do Metro. Tudo era triste nele, os cabelos ainda molhados da chuva, os olhos inexpressivos mirando o ar ou as suas moléculas, a gabardina dobrada ao seu lado a gotejar como um animal ferido. Ela se fez a ele, meteu conversa, animou-o com conversa de circunstância, e convidou-o para sua casa, onde lhe deu banho e roupa enxuta, confortou o seu estômago com um bom jantar, e fê-lo esquecer a tristeza enquanto lhe oferecia o corpo na cama aberta.
   Ela não suportava ver um cão abandonado, e o seu único problema, é que era alérgica a cães.

Efervescência

     Caiu por engano na água, mesmo no centro da piscina. O importante era não entrar em pânico, a atitude mais adequada à sobrevivência, rodou o corpo dentro do líquido incolor e mexeu com energia as patitas minúsculas enquanto tentava manter as asas fora de água para enxugarem um pouco. Foi senão quando viu despenhar em direcção a si um disco grosso de cor amarela que, mal mergulhou na água, desencadeou uma tempestade furiosa, com bolhas de iodo a subirem em direcção à superfície, enquanto era fustigado por remoinhos endiabrados de cor ocre. Lutou no seio das ondas, tentando não se afogar, uma vez que sabia ser impossível fixar as patas às muralhas de vidro que encontrava por todo o lado. Quando a tempestade no copo de água amainou, o mosquito conseguiu por fim recompor-se do susto e voltar a boiar à superfície da água, mesmo a tempo de ser tragado por uma matrona com o estômago alvoraçado.

       Susana, Rosa e Margarida, são colegas de trabalho e amigas, e estão sentadas ao balcão duma churrasqueira a comer frango e a beber cerveja. Susana e Rosa começam a falar ao mesmo tempo, e iniciam a fala com a mesma palavra. Riem-se alto, e repetem o dito: “Não morremos hoje, nem daqui a um ano!”. Margarida vira-se para dentro, eclipsa-se numa penumbra fatalista. 
   Naquela tarde, quando regressa ao quarto alugado em que vive, dispõe sobre o divã a sua melhor roupa e os sapatos de que mais gosta, enfiando na lapela do casaco o isqueiro grená que pertencera a Emídio, o único dos homens que conhecera por quem nutrira algum sentimento romântico. Prepara o seu próprio enterro.


A fraga

     A quem ocorra viajar pela estrada que contorna o sopé dos montes Hercínios, próximo a Castro Alto há-de, com toda a certeza, reparar numa pequena lagoa à esquerda da estrada onde, nos anos de seca mais rigorosa, se pode ver assomar acima das águas a torre sineira de alvenaria da antiga aldeia de Alvedrim. É um bom sítio para se parar o carro e tirar-se umas fotos catitas enquanto se come uma bucha, mas se o viajante quiser saber algo mais sobre Alvedrim ou sobre a lagoa onde as suas casas repousam num sono amniótico, não encontrará muitas pessoas que estejam dispostas a falar sobre o assunto, até pela desconfiança dos locais quanto aos estranhos e ao bom-senso que se lhes pode reconhecer. 

     E o assunto circunscreve-se em poucas palavras. Alvedrim fica, ou ficava, situado num vale muito fértil em bacia onde, mal acabava o casario, se estendia uma malha intrincada de pequenas courelas de terreno, de onde cada família retirava o seu sustento. A sul do povoado e alinhado com a torre de menagem da igreja (ou esta com aquela), erguia-se uma fraga isolada na planície, um penedo esguio de granito a quem todos, por tradição, davam o nome de Umbigo. Também por costume e por tradição, em volta dessa fraga estava demarcada um terreno de forma circular que se destinava a exploração comunal, e que forçosamente, aravam num só sentido, em espiral a partir do rochedo e rodando no sentido dos ponteiros do relógio. Diziam os antigos que, se isso não fosse respeitado, a fraga rodaria como uma chave, e as águas da terra ficariam abertas e inundariam toda a aldeia.

     Estes costumes e tradições persistiram de geração em geração, mesmo com os modernismos e alfaias agrícolas, e a volta à terra dos que haviam emigrado para outras paragens. Foi então que os estranhos entraram na liça. Nos gabinetes dos Paços do Concelho, a dezenas de quilómetros daquele lugar e daquela realidade, os engenheiros agrícolas estudaram os mapas topográficos de Castro Alto e Alvedrim, e decidiram no conforto dos seus gabinetes, sobre a melhor forma de se proceder ao emparcelamento de terrenos para uma melhor produtividade agrícola da zona. Escorados por todas as autoridades autárquicas que conseguiram reunir, os técnicos expuseram o plano aos agricultores locais, que logo contrapuseram o que lhes pareceu mais sensato - dever-se-ia respeitar o terreno comunal em redor da fraga do Umbigo, que deveria ser mantida fora da reorganização e emparcelamento de terras. Os técnicos agrícolas mostraram-se espantados com tanta crendice e atraso, e insistiram e cismaram em que fosse mantido o projecto inicial que se havia traçado nos seus gabinetes com ar condicionado, mas os habitantes de Alvedrim mostraram-se irredutíveis. Um dia inteiro de debates e discussões e, ao entardecer, as duas partes continuavam sem ceder. Quando os técnicos agrícolas se retiravam para irem pernoitar numa pousada em Castro Alto, um deles, um jovem engenheiro agrónomo que tinha uma excelente opinião de si mesmo, decidiu provar àquela gente rude de que forma um espírito racional e iconoclasta é capaz de prevalecer sobre qualquer superstição atávica. Pediu emprestado um pequeno tractor agrícola ao enteado do Presidente da Junta, e rumou com ele ao terreno da discórdia, seguido de perto pelos seus pares e por alguns aldeões desconfiados. Lá chegado, fez baixar as relhas mecânicas e começou a arar o terreno circular, de fora para dentro em espirais centrífugas no sentido contrário aos ponteiros do relógio.

     E o assunto, e Alvedrim, terminam aqui. E seria um assunto triste, se a lagoa e Alvedrim não fossem um lugar estupendo para esticar as pernas e tirar umas fotos catitas e, com um pouco de sorte, ouvir o vento uivar na torre esverdeada da igreja. À fraga, ninguém mais a avistou, mesmo a quem se atreveu a mergulhar no lugar onde antes existia. Os sobreviventes de Alvedrim acreditam que ela se sumiu pela terra adentro.




A frágua

     Recaredo trabalhava como forneiro numa fábrica de louça quando abriram vagas para auxiliar de maquinista nos Caminhos de Ferro, e Recaredo foi-se oferecer e foi aceite, dada a sua familiaridade com fornalhas e combustão de orgânicos. Calhou-lhe um comboio de mercadorias. A locomotiva a vapor era um monstro com uma fornalha gigantesca rodeada de tubos de vapor, mais um vagão adossado com carvão mineral, donde Recaredo tinha de retirar à pazada o alimento para a boca da besta.
   Era sua responsabilidade o funcionamento da caldeira, que tinha de ser preparada antes, e só quando estava no ponto é que a viagem podia começar, e isso cabia-lhe apenas a ele, que o maquinista só entrava em funções quando tudo estava pronto a funcionar. Por esse motivo, quando o comboio começava a rodar, já Recaredo escorria em água de tanto calor que havia apanhado. Como suava muito, Recaredo começou também a beber muito, litros e litros de água em cada viagem. Nas primeiras jornadas, trazia um ou dois garrafões de vidro para o gasto, mas logo essa quantidade duplicou e decuplicou. Recaredo, que nem era tão sôfrego de água no empego anterior e mantivera uma barriguinha digna e respeitável de homem de meia-idade , tinha agora de estar constantemente a beber água, quer alimentasse a fornalha ou verificasse os mostradores da pressão de vapor; conquistando com isso um barrigão descomunal como se estivesse a gerar fetos líquidos em redor da coluna vertebral.
   - Tens de cuidar de ti - dizia-lhe o maquinista com ar grave - qualquer dia não cabemos aqui os dois, e arranjam outro para o teu lugar.
   Recaredo concordava com acenos de cabeça com o garrafão semi-adernado para a boca, mas não conseguia concentrar-se nisso, nem deixar de beber água como se estivesse a arder por dentro. As circunstancias, no entanto, desvalorizaram os conselhos do maquinista. Numa das viagens, partiu-se a haste duma das válvulas de pressão, e imobilizou-se o comboio na via enquanto o maquinista avaliava se o dano era reparável. Recaredo aproveitou a paragem para ir aliviar a bexiga nuns arbustos com silvas junto à linha férrea, envolto na nuvem de vapor causada pela avaria do comboio. Depois de ter esvaziado a bexiga, Recaredo picou a barriga numa das silvas, e a barriga esvaziou-se como um odre d'água que se houvesse furado.



A mágoa

     Noutros tempos, e nessa designação tão genérica pretendo reportar-me ao final do século dezanove, o casamento, como qualquer outro rito civil ou religioso, revestia-se de uma grande complexidade, quase incompreensível para nós. Na minha família conta-se como uma história exemplar, o drama que envolveu o casamento dos meus bisavós maternos. 


    O lugar onde essa trama se desenrola é a cidade do Porto. O meu bisavô era um homem de trabalho, artífice de metais, possuía umas mãos de ouro, e trabalhava, martelava e soldava o metal - cobre, estanho, bronze - para criar crucifixos, candelabros, molduras, e uma infinidade de outras peças de elevado cunho artístico. Conheceu a futura mulher num passeio de Domingo pela foz do Douro. Viram-se e simpatizaram um com o outro, mas estiveram meses sem trocar uma palavra, apesar de terem conhecidos em comum e viverem em ruas paralelas da cidade. Com o tempo, começaram a namorar, uma relação muito cerimoniosa com lugar certo, à porta da casa dela ou na sala, com a presença de uma terceira pessoa, quase sempre, a madrinha dela, que sempre desconfiara do carácter e das intenções do meu bisavô e que o tinha permanentemente debaixo de olho. 


     Com o desenrolar do namoro, os dois decidiram-se casar. Foi necessário o aval das duas famílias, para o qual muito ajudou o facto de ambas já se conhecerem, e terem tido vários membros vinculados à Confraria dos Alfaiates. Marcada uma data, iniciaram-se os longos preparativos. Foi no decurso destes, que despoletou o drama. A minha bisavó voltava a casa de braço dado com a madrinha, vindas da modista, quando viram, de fugida, o meu bisavô a entrar no café Águia D'Ouro. Foi o Deus-nos-acuda, um homem sério e honrado nunca entraria no Água D'Ouro, que era pouso de boémios e artistas, de gente ociosa e sem préstimo! O desgosto foi avassalador, a minha bisavó chorou durante dias, trancada no quarto e o futuro casamento, fez-se saber  ao outro lado das barricadas, estava seriamente comprometido. Às vãs tentativas dalguns familiares para solucionar o problema, contrapunha a madrinha da minha bisavó com alusões venenosas aos clientes do Águia D'Ouro, e à calúnia que começara por essa altura a urdir, dizendo à desconsolada noiva que um homem que frequenta um lugar daqueles teria na certa alguma amante nalgum esconso da cidade, que sustentaria com o grosso do seu trabalho e da sua fortuna. No meio do seu infortúnio, a minha bisavó começou a tomar como verdadeira a calúnia inventada, e já se referia a ela com mesma certeza com que lembrava a tarde em que testemunhara a entrada do noivo no Águia D'Ouro.


     Por essa altura, aconteceu uma infelicidade que imprimiu um rumo diferente à história. A madrinha caluniadora faleceu, de tétano, uma coisa horrível que mergulhou a família num poço de dor. Em volta da perda, as duas famílias reaproximaram-se, e houve familiares que, então, redobraram esforços para reconciliar os dois noivos desavindos, o que efectivamente aconteceu, mas com um desfecho que ninguém esperaria. A minha bisavó, diante do noivo e tendo como única testemunha a sua mãe, que tapava os ouvidos, mortalmente envergonhada, anunciou ao noivo que aceitava contrair matrimónio com ele, mas que, depois de casada, se negaria a ser sua esposa no leito, pelo menos, enquanto se lembrasse dos cafés de má nota que ele frequentava, e da amante misteriosa que ela adivinhava em cada esquina da cidade e em cada olhar feminino que surpreendia. O noivo aceitou, cansado de negar a existência da amante fantasma, e convencido de que, em poucas semanas, a noiva se esqueceria das suas palavras e acederia em se reunir a ele no leito.


     As coisas não foram, no entanto, tão rápidas como ele desejaria. Viveram durante muito tempo em quartos separados, mas mantendo uma aparência inquestionável de casal completo e feliz. A minha bisavó começou com o tempo a amolecer no lume brando do seu sangue quente. Talvez não fosse imperdoável o que ele fizera e, se Deus perdoa, quem era ela para se negar a fazê-lo? O marido era um homem trabalhador e dedicado, respeitado por todos na cidade do Porto. O mesmo lhe dizia a mãe e a sogra em conversas privadas, tidas na sala grande da casa, falando em murmúrio para que aquelas palavras mundanas não chegassem aos ouvidos da imagem de São Bom Homem que tinham em cima do aparador. Por fim, por virtude dos conselhos das matronas, e dos anseios do seu corpo jovem, a minha bisavó mudou de ideias. Quinze anos depois da boda, e já depois do nascimento do seu terceiro filho, ela acedeu a que se consumasse o casamento.

Nostalgia vegetal

     O plátano é a árvore mais atrofiante que existe, não aguenta as folhas sobre si durante o ano inteiro, tem um tronco que faz lembrar o corpo duma pessoa com a pele a soltar-se aos bocados, e não há como o plátano para agravar as alergias dos cidadãos inocentes que caminham pelas ruas e pelos parques. Esse era o pensamento aproximado dos habitantes da urbanização quando a edilidade lhes propôs cortar o pequeno parque com plátanos na sua orla - a única e tímida aproximação a uma área verde - para os substituir por um recinto alcatroado para estacionamento de viaturas. O estacionamento beneficiaria menos os moradores da urbanização do que os operários das fábricas vizinhas, mas todos tinham de pensar em termos de contexto e enquadramento, como dissera o autarca na reunião que promovera com os moradores, porque vivemos todos no mesmo barco e, afinal, também havia pessoas dali a trabalhar nas fábricas em redor. No fim de contas, até não era um sacrifício tão grande, porque os plátanos só dão como fruto as alergias, e não tinham outra utilidade que não fosse, emprestarem alguns dos seus ramos para os balouços de pneu onde as crianças brincavam. Argumentos e contra-argumentos, e os plátanos foram deitados abaixo, e construído o estacionamento, obra generosamente patrocinada pelas fábricas em redor, e o assunto foi prontamente esquecido, pelo menos, em tempo de vigília. Por um acaso caprichoso, ou por influência duns troços de raízes dos plátanos que permaneceram na terra sob o jazigo de gravilha e alcatrão, os habitantes da urbanização e os operários das fábricas, miúdos e graúdos, começaram a partilhar o sonho redundante de estarem transformados em plátanos e terem braços como ramos esticados, em cujas extremidades, como nas palmas das mãos, eram capazes de sentir o toque leitoso e frio do luar.

     «Bebam meus amigos, esvaziem as taças até à última gota, o passado é uma equação insolúvel e o futuro não existe. Só agora, neste momento, é que temos, tenho, o direito de desafiar o infinito e a eternidade, bebendo e rindo enquanto a velha ceifeira ronda a minha porta, imprimindo o peso dos seus ossos no saibro do caminho. Já a ouço, a cabra maldita quer cortar o fio da minha vida precária, com ordens e decisões que farão amargar este vinho e arrancar-me o sorrido da caveira. Bebam ainda, meus amigos, bebam sofregamente porque tudo vai acabar em poucos instantes, já ouço o bafo pestilento da velha ceifeira, enquanto os seus passos se dirigem para cá, ouço-os a atravessar o salão...agora...principiam a descer a escada da adega. Estou perdido. Deixem-me esvaziar este último copo...».
     Empina o copo, despejando o vinho na garganta. Batem à porta, com força, entreolham-se todos, e os amigos imitam-no, e despejam o vinho das taças enquanto ele abre a porta. Uma mulher está de pé no umbral como uma estátua maciça, velha e pesada.
     - Já ceifamos o centeio todo, e precisa de ser carregado - declara - agora, está na hora de vocês fazerem alguma coisa!

Conversas Imaginárias



Sábado, 16 de Abril

10:30 – Ponto de Encontro: Piano-Bar do CLP.

Sessões no Auditório:
11:30 – Novas formas de publicação em Portugal (debate com Pedro Ventura, Carla Ribeiro, Diana Sousa e Ana Cláudia Silva; moderação de Rogério Ribeiro).
12:30 – Intervalo.
14:00 – Arte Fantástica: Ilustração, Fotografia e Banda Desenhada (apresentações por Ana Cruz, André Coelho, Pedro Miranda, Manuel Alves e Diogo Carvalho; moderação de Rui Ramos).
15:30 – Marionetas do Porto (apresentação por Isabel Barros e Shirley Resende; moderação de Rui Ramos).
16:00 – O Porto Fantástico e o Fantástico no Porto: À conversa com Beatriz Pacheco Pereira (moderação de Rogério Ribeiro).
17:00 – Intervalo.
17:30 – Contos: O Fantástico em dose concentrada (debate com João Ventura, Jorge Palinhos e João Reis; moderado por Inês Botelho).
18:30 – Projectos multimédia (apresentações de Nocturnus (Rafael Loureiro-escritor+Alexandre Cebrian Valente-cineasta), Yoshi (João Pedro Sousa-mangaka+Pedro Andrade-músico), Noidz e UnderSiege; moderação de Rogério Ribeiro).

20:30 – Encontro em restaurante a anunciar. Jantar com a participação especial da contadora de histórias Clara Haddad.


Domingo, 17 de Abril

10:30 – Ponto de Encontro: Piano-Bar do CLP.
Demonstrações de roleplaying games.

Sessões no Auditório:
11:30 – Literatura Fantástica Portuguesa (debate com João Barreiros, Ana Cristina Alves, Luís Filipe Silva e João Seixas; moderação de Madalena Santos).
13:00 – Intervalo.
14:30 – Utopias e Distopias (debate com Fátima Vieira, Luís Filipe Silva e João Seixas; moderação de Inês Botelho).
15:30 – Cinema Fantástico (debate com José Pedro Lopes, Pedro Leite, Artur Serra Araújo; moderação de Rui Baptista).
17:00 – Intervalo.
17:30 – Gravação ao vivo do podcast Jogador-Sonhador (por Ricardo Tavares).


Organização: Rogério Ribeiro, Rui Baptista, Inês Botelho, Rui Ramos e Madalena Santos. Colaboração na org.: Isabel Damião (CLP).

Conversas Imaginárias 2011 @Porto
http://conversas-imaginarias.blogspot.com/

Local: CLP - Clube Literário do Porto



A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...