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A mostrar mensagens de Abril, 2011
«De sete em sete anos, o corpo muda», repetiu, colocando muita energia em cada palavra - »Que idade você tem?».
   «Trinta e quatro!» - respondeu, apoiando nas costas da cadeira a asa dorida.
   «Vê? Já não falta muito para o seu corpo mudar. E você é uma simpatia, por isso, só desejo que o seu corpo não mude para quadrúpede!».

O ponto zero

Ela contou-lhe tudo sobre o seu passado, com quem andara, por quem se tinha apaixonado, as avenças e desavenças das suas muitas relações e casos, uma narração de horas, generosa como uma gesta e rica em episódios e descrições. Afinal, iam começar a vida juntos e fazia todo o sentido serem ambos sinceros.
     Amaste alguém antes de mim? -perguntou-lhe ela por fim.
     Ele pensou com esforço. A sua novela era muito mais simples e monocromática, e pensando ainda, mas em voz alta, disse:
     Uma vez há muitos anos tive um caso de uma noite, ela tinha uns olhos verdes profundíssimos, parecia um lago mas, ao mesmo tempo, era um abismo sem fim, e uma vertigem. Não sei o que foi feito dela porque nunca mais a vi, mas acho que ainda hoje estou a nadar nesse lago. Isso conta?

Uma pessoa

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A mulher-a-dias penetrou na velha mansarda com um olhar reprovador e o nariz torcido. Pó, em camadas, estratos e camadas de pó sobre todos os objectos; tufos e nuvenzinhas de pó a cada gesto inusitado, um encosto num móvel, num cortinado, no denso ar. Depressa a senhora compreendeu que o que havia mais ali dentro eram livros, fiadas e pilhas de livros invadindo todas as áreas e superfícies, embaraçando os lugares de passagem, os degraus das escadas e os assentos das cadeiras e bancos. Os pontos mais aliviados de pó eram os lugares de onde tinha sido retirado recentemente algum livro, deixando exposto um rectângulo limpo de pó - limpo, por muito pouco tempo.
   - Isto estava mesmo a precisar - avaliou - vou precisar de dias para pôr alguma ordem e limpeza nisto.
   O dono da casa, enrolado num roupão esgarçado, levou o seu dedo indicador aos lábios da senhora.
   - Não repita de novo essas palavras atrozes. Não quero que ordene isto, porque tudo aqui tem um ordem e um lugar próprio, dita…

A justiça do nome

Lançou-se a montar um quebra-cabeças tridimensional da Torre de Pisa. Cada uma das peças do quebra-cabeças, fabricada numa liga plástica densa, pesava perto de quatro quilos, e o grau de dificuldade do trabalho acrescia da torre ser, é claro, inclinada, e susceptível de ruir no processo. Uma das primeiras coisas que aprendeu logo ali, foi o motivo porque lhes chamavam quebra-cabeças.

Zen Hermeticamente embalado - a 3ª Lei

Songhai, mestre da escola Soto, surpreendeu dois dos seus discípulos a atar fitas de papel com orações escritas, numa das colunas dum alpendre do templo. O alpendre era sobranceiro ao desfiladeiro de Hondai, do outro lado do qual se erguia a montanha verdejante pontilhada de templos. Se pudessem ver mais de perto, poderiam descobrir nas colunas desses templos, outras orações como aquelas a drapejar ao vento.    Songhai deu-lhes para a mão um seixo grande e liso, e pediu-lhes que o atassem também à coluna. Eles entreolharam-se, e reviraram a pedra na palma das mãos à procura de caracteres gravados. Um deles, o mais novo em aprendizagem, inquiriu.    - Mestre, acredito que tenha depositado nesta pedra uma oração ou uma parábola, mas porquê atá-la à coluna? É apenas uma pedra.    - Nada é imóvel e tudo vibra, das asas do dragão que voa acima das nuvens, a essas fitas de papel, e à própria pedra que tens na mão. A níveis diferentes, tudo se movimenta, tudo tem energia, e tudo vive e vibra; …

Zen Hermeticamente embalado - a 1ª Lei

- O que é o mundo? – perguntou um discípulo de Songhai ao seu Mestre    - Imagina que no interior da tua cabeça existia uma minúscula cabana de bambu, do tamanho dum grão de areia, e que dentro dessa cabana, vivia um homem ainda mais minúsculo que pensava que a cabana era o próprio mundo – a terra sob ele, as paredes que marcavam o seu fim, o tecto que lhe servia de céu. Nada sabia de ti e dos teus pensamentos, e desse mundo de que falas, e que te parece infinito e sem vida mental.    - Não percebo, Mestre!    - O mundo que me perguntavas, é a cabana de bambu em que vivemos!    E o discípulo percebeu.

A Segunda Lei de Hermes

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(gravura de Angela Schnoor)

Era assim. Ou ficara assim enquanto dormia. As flores haviam desaparecido do mundo, e, das plantas, só sobreviviam as espinhosas e aguçadas e as árvores outonais despidas, as paisagens resolviam-se numa imensidão monótona de cores sombrias - cinza, castanho, negro. A lua no cimo era negra, e o Sol ardente no céu havia-se reduzido a uma estrela débil e azulada que parecia prestes a consumir-se de vez no céu da mesma cor.      A jovem mulher cansou-se, cansou-se dos seus ombros descaídos, dos pés doridos de tanto pisar o solo áspero semeado de picos e espinhos, da alma retorcida sobre si mesma como a concha espiralada dum gastrópode no imo da qual mantinha represadas as emoções – e desentranhou de si essas emoções como quem se liberta dum fardo pesado, soltou a loucura e a vertigem de sentir, de amar e odiar, de experimentar o desejo com a mesma ferocidade e com a mesma violência com que repelia e afastava o que a enojava.     Ao libertar os sentimentos, repôs …

Sintomas Síncronos

Marco e Francisco são gémeos idênticos, univitelinos, nome científico muito estranho, mas que não importa ao caso. O que conta objectivamente é que cada um deles se comporta no dia-a-dia, como se tivesse a percepção exacta do que o outro sente, sonha ou sofre, mesmo que estejam distanciados centenas de metros, ou largos quilómetros. Chegam, segundo os familiares, a terem acções idênticas no mesmo período de tempo, no mesmo segundo até, atitudes, gestos. Foi isso que levou dois estudiosos a utilizarem-nos para comprovar de forma concisa e científica, esse elo psíquico que se atribui aos gémeos idênticos.    Eleitos como grupo de estudo, cada um dos gémeos, acompanhado dum dos cientistas, foi colocado numa residência sem telefones ou telemóveis, faxes ou pombos-correio. As duas residências distanciavam uma da outra, duzentos e cinquenta quilómetros, beneficiavam do mesmo fuso horário, e os estudiosos sincronizaram os relógios antes de se iniciar a experiência, de forma a obterem dados…

Conto escrito a duas mãos - 3

Consertar o mundo
A pequena endiabrada apareceu a correr pelo meio dos cones de canas carregados com feijão verde, e aproximou-se da avó que pendurava roupa no estendal.    - Cuidado quando passas pela horta, ou ainda fazes estragos - recomendou a anciã.    - Avó, emprestas-me algumas molas de roupa?    - Para que é que queres as molas?    - Para segurar um bocado do céu, que está a cair.    A avó encolheu os ombros com um sorriso bondoso nos lábios, entregou-lhe as molas e ficou a vê-la correr de volta - pelo meio da horta, a dar a volta à esquina da casa, e subir o morro por detrás desta. Voltou às suas roupas. A neta era capaz de passar uma tarde inteira no monte, a brincar no meio das árvores e rochedos.    Quando acabou a tarefa, espreitou o monte por cima do ombro, e sentou-se nos degraus da entrada, a cozer os botões duma bata. Não tardou que a neta estivesse de novo ao pé dela, ofegante com o esforço da corrida.    - Tenho um problema, avó!    - Qual é o problema?    - Fixei o céu que e…

25 de Abril

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Descobriu aquela mulher misteriosa no balcão do bar, bebericando um daiquiri no meio da névoa de fumo. E estava sozinha. Sentou-se no banco ao lado, inclinando-se sobre o seu ombro nu.    - Posso pagar-lhe outra bebida, ou sou o mais azarado dos homens e o seu marido foi só até à máquina do tabaco?    Ela encolheu os ombros.    - Não tenho marido, nem dono, e nem conseguiria viver presa a uma pessoa só porque sou muito promíscua, demasiado mesmo…    Ele sorriu abertamente, a situação prometia.    - Procurava justamente uma mulher com esse estado de espírito, não acreditava era que fosse encontrar uma tão bonita. Chamo-me Ricardo.    - E eu chamo-me Liberdade.    - Liberdade, como A Liberdade?!    - Sou a própria. Mas não se entusiasme demais com o meu aspecto agradável, ou com o cravo vermelho que alinda os meus cabelos. Eu não tenho quase nada de meu, as dívidas fizeram-me vender um dos meus rins, um olho e a minha cabeleira natural. Todos os meus outros órgãos estão arrolados na dívida, …

A prova

Ti Joaquim levantou-se da mesa da taberna e tomou o caminho da porta mas, antes de sair, parou um momento a espiar discretamente uma nova fotografia que havia sido colocada na parede maior do estabelecimento. Ali estava, com todo o destaque e desplante, a foto mais recente das proezas piscatórias de Rogério, o taberneiro, mostravam-no junto ao portão da taberna, de sorriso rasgado, a segurar um robalo enorme. O sacana devia ter perto de setenta centímetros da cabeça ao rabo. Ti Joaquim remoeu a inveja. Era só uma fotografia e, na certa, havia sido retocada, aumentando o peixe original que não devia ser maior do que uma petinga.    - A pesca é para os pescadores, Joaquim! – ironizou Rogério, falando tão perto de si que se assustou com a voz dele.    - Não sei o que queres dizer, Rogério. Peixitos como este, eu apanho quase todas as semanas.    - Acredito, mas eu nem te pergunto onde é que apanhas os teus peixes. Se estiveste a pescar na Ponta do Trovão, dizes que estiveste na Quebrada do …

Projecto de vida

Uma aldeã enorme e avantajada, surpreendeu os vizinhos ao plantar três árvores no pátio da sua casa.     - Para que é queres as árvores? – Perguntaram-lhe, de rosto erguido para ela.     - São amoreiras. Vou criar as árvores e nelas vou criar bichos-da-seda, e quando tiver seda que chegue, vou criar um vestido para com ele procurar noivo.     E assim foi. As árvores cresceram, o que levou o seu tempo, nas árvores criou bichos-da-seda, dos quais recolhia diligentemente os casulos (o que também não acontecia todos os dias) e quando começou a ter uma quantidade apreciável de seda e planeava iniciar o vestido, morreu, de velhice. Depois do funeral, os vizinhos atreveram-se a espreitar a sua casa, a medo, como formigas num carreiro. As portas e as mobílias tinham dez vezes o tamanho normal, e em duas divisões da casa, maiores do que celeiros, distribuía-se a seda e os meticulosos preparos para o vestido projectado.    - Quantos séculos pensava ela que iria durar? – Perguntavam-se.

Caracteres não são quilates - Um breve apontamento

Quando pretendemos definir o que é uma micronarrativa ou microconto, toda a definição necessária está contida no próprio termo – é uma narrativa de dimensões microscópicas, quando comparado com a extensão que um conto pode ambicionar ter. Aqui, a dificuldade que se apresenta, é determinar o número de caracteres que um microconto deverá ter para merecer essa designação, ou a partir de que dimensões passa a ser um conto menos micro, ou um mini-conto em potência. Duas das cifras mais aceites são as que colocam esse limite nos cento e cinquenta, e nos duzentos caracteres.
    Diante deste desafio – criar um conto num espaço tão restrito – só podemos imaginar o autor a servir-se da muleta do contador de caracteres do seu processador de texto. Ali está ele, um dínamo de ansiedade criativa, a tentar por no papel uma narrativa que lhe ocorreu, mas com a preocupação subjacente dele eventualmente exceder a fronteira legalmente admitida para o microconto. E se o seu conto microscópico não pu…

Tours

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     Ergueu os olhos da revista, quando sentiu a presença da enfermeira. Bonita e fresca, diga-se de passagem, daquele tipo de mulheres a quem a rotina e o quotidiano não deslustram a beleza diamantina.
     - Pode entrar, o doutor vai atendê-lo!
     A menção ao médico, trouxe-lhe à memória as questões que o atormentavam. Cruzou a porta e foi recebido pelo médico, que o cumprimentou com um caloroso aperto de mão.
     - Como é que está, meu caro?
     - Bem, doutor, é caso para dizer - Bons olhos o vejam!
     O médico riu-se, e indicou-lhe uma cadeira.
     - Caro amigo, as coisas estão a correr bem, e a velocidade de cruzeiro. O seu transplante da córnea foi um sucesso completo. O astigmatismo é quase nulo, há apenas umas pequenas correcções a fazer, para as quais nos serviremos das lentes. Fora isso, é continuar com os colírios e evitar carregar com pianos nos próximos tempos.
     - Sim, doutor, nem sei como lhe agradecer, e a todo o pessoal envolvido. Agora, eu vejo na perfeição, e is…

Bullying

- O que é que tu és? - repetiu o deputado com capacete viking na cabeça - O que é que és?
    - Sou um genuíno homem de esquerda - voltou o jovem, com o nariz a sangrar - Quero ajudar a mudar o mundo, limar as desigualdades e as injustiças, e dar voz a quem não tem voz....
    O jovem gritou quando o deputado lhe torceu uma orelha com força. O autarca ao seu lado juntou-se à festa, descalçando o ingénuo idealista para lhe prender molas metálicas aos dedos do pé.
     - Vão com calma! - interveio então Almeida, o ex-ministro, soprando as palavras pelo meio do fumo do charuto - talvez ele não vos ouça bem, ou haja aqui algum problema de semântica que vos escapa. Não vêem que ele ainda não viveu o suficiente para adquirir o vocabulário complexo e o know-how de políticos profissionais como nós? Como eu possuo um temperamento benevolente, proponho-te um desafio, rapaz - quais são as três primeiras coisas que farias se estivesses no poder por um dia?
     - Poderia enumerar cem coisas, mas c…

A água e a jura

Afonso Nudéjar, solteirão empedernido, não era um homem muito dado, apenas tinha uma meia-dúzia de amigos, e tolerava outra meia-dúzia de pessoas no universo inteiro - mas havia uma pessoa a quem odiava até à médula, a Narcisa, uma mulher viúva que morava dois andares acima no prédio. Ironicamente,conhecidos comuns haviam tentado fazer o arranjinho entre os dois, sem hipótese alguma de sucesso."Nem que fosse a última mulher na terra " - afiançava Afonso - "Se não houvesse mais ninguém, castrava-me e atirava o meu membro aos cães".Uma resposta semelhante haviam recebido de Narcisa: "Eu nunca partilharia a minha vida com aquela amostra de gente, nem que não houvesse mais homem nenhum no mundo. Preferia ser emparedada viva!".


     Calhou àqueles dois, serem as duas últimas pessoas vivas no mundo. À excepção deles,extinguiu-se toda a espécie humana, dos citadinos das zonas temperadas às tribos das florestas e aos caravanistas do deserto. Apenas ficaram Afonso…
A pequena nave espacial alienígena sai do hiperespaço, com alguns segundos apenas para os seus tripulantes corrigirem a rota de forma a não embater na superfície de Terra. Não embatem, aterrissam, suavemente, no centro duma lixeira a perder de vista a alguns metros do mar. Os tripulantes saem. Em volta só se vê lixo empilhado, uns quantos arbustos raquíticos, e gaivotas a debicar no lixo, aves que eles julgam ser os únicos habitantes do planeta descoberto. Recorrendo ao registo dalgumas línguas do universo e a múltiplas imagens tridimensionais, tentam estabelecer comunicação com as gaivotas, mas sem fruto. Desanimados, entram no seu engenho espacial e mergulham de novo no hiperespaço, levando consigo a crónica sobre uma raça alada inteligente, que foi embrutecida pelos miasmas tóxicos do lixo que produziram.


Versão cartoonada:



A pequena nave espacial alienígena sai do hiperespaço, com alguns segundos apenas para os seus tripulantes corrigirem a rota de forma a não embater na superfície …
Ela descobriu aquele homem triste sentado no banco da estação do Metro. Tudo era triste nele, os cabelos ainda molhados da chuva, os olhos inexpressivos mirando o ar ou as suas moléculas, a gabardina dobrada ao seu lado a gotejar como um animal ferido. Ela se fez a ele, meteu conversa, animou-o com conversa de circunstância, e convidou-o para sua casa, onde lhe deu banho e roupa enxuta, confortou o seu estômago com um bom jantar, e fê-lo esquecer a tristeza enquanto lhe oferecia o corpo na cama aberta.
   Ela não suportava ver um cão abandonado, e o seu único problema, é que era alérgica a cães.

Efervescência

Caiu por engano na água, mesmo no centro da piscina. O importante era não entrar em pânico, a atitude mais adequada à sobrevivência, rodou o corpo dentro do líquido incolor e mexeu com energia as patitas minúsculas enquanto tentava manter as asas fora de água para enxugarem um pouco. Foi senão quando viu despenhar em direcção a si um disco grosso de cor amarela que, mal mergulhou na água, desencadeou uma tempestade furiosa, com bolhas de iodo a subirem em direcção à superfície, enquanto era fustigado por remoinhos endiabrados de cor ocre. Lutou no seio das ondas, tentando não se afogar, uma vez que sabia ser impossível fixar as patas às muralhas de vidro que encontrava por todo o lado. Quando a tempestade no copo de água amainou, o mosquito conseguiu por fim recompor-se do susto e voltar a boiar à superfície da água, mesmo a tempo de ser tragado por uma matrona com o estômago alvoraçado.

Susana, Rosa e Margarida, são colegas de trabalho e amigas, e estão sentadas ao balcão duma churrasqueira a comer frango e a beber cerveja. Susana e Rosa começam a falar ao mesmo tempo, e iniciam a fala com a mesma palavra. Riem-se alto, e repetem o dito: “Não morremos hoje, nem daqui a um ano!”. Margarida vira-se para dentro, eclipsa-se numa penumbra fatalista. 
   Naquela tarde, quando regressa ao quarto alugado em que vive, dispõe sobre o divã a sua melhor roupa e os sapatos de que mais gosta, enfiando na lapela do casaco o isqueiro grená que pertencera a Emídio, o único dos homens que conhecera por quem nutrira algum sentimento romântico. Prepara o seu próprio enterro.


A fraga

A quem ocorra viajar pela estrada que contorna o sopé dos montes Hercínios, próximo a Castro Alto há-de, com toda a certeza, reparar numa pequena lagoa à esquerda da estrada onde, nos anos de seca mais rigorosa, se pode ver assomar acima das águas a torre sineira de alvenaria da antiga aldeia de Alvedrim. É um bom sítio para se parar o carro e tirar-se umas fotos catitas enquanto se come uma bucha, mas se o viajante quiser saber algo mais sobre Alvedrim ou sobre a lagoa onde as suas casas repousam num sono amniótico, não encontrará muitas pessoas que estejam dispostas a falar sobre o assunto, até pela desconfiança dos locais quanto aos estranhos e ao bom-senso que se lhes pode reconhecer. 

     E o assunto circunscreve-se em poucas palavras. Alvedrim fica, ou ficava, situado num vale muito fértil em bacia onde, mal acabava o casario, se estendia uma malha intrincada de pequenas courelas de terreno, de onde cada família retirava o seu sustento. A sul do povoado e alinhado com a torre …

A frágua

Recaredo trabalhava como forneiro numa fábrica de louça quando abriram vagas para auxiliar de maquinista nos Caminhos de Ferro, e Recaredo foi-se oferecer e foi aceite, dada a sua familiaridade com fornalhas e combustão de orgânicos. Calhou-lhe um comboio de mercadorias. A locomotiva a vapor era um monstro com uma fornalha gigantesca rodeada de tubos de vapor, mais um vagão adossado com carvão mineral, donde Recaredo tinha de retirar à pazada o alimento para a boca da besta.
   Era sua responsabilidade o funcionamento da caldeira, que tinha de ser preparada antes, e só quando estava no ponto é que a viagem podia começar, e isso cabia-lhe apenas a ele, que o maquinista só entrava em funções quando tudo estava pronto a funcionar. Por esse motivo, quando o comboio começava a rodar, já Recaredo escorria em água de tanto calor que havia apanhado. Como suava muito, Recaredo começou também a beber muito, litros e litros de água em cada viagem. Nas primeiras jornadas, trazia um ou dois garraf…

A mágoa

Noutros tempos, e nessa designação tão genérica pretendo reportar-me ao final do século dezanove, o casamento, como qualquer outro rito civil ou religioso, revestia-se de uma grande complexidade, quase incompreensível para nós. Na minha família conta-se como uma história exemplar, o drama que envolveu o casamento dos meus bisavós maternos. 


    O lugar onde essa trama se desenrola é a cidade do Porto. O meu bisavô era um homem de trabalho, artífice de metais, possuía umas mãos de ouro, e trabalhava, martelava e soldava o metal - cobre, estanho, bronze - para criar crucifixos, candelabros, molduras, e uma infinidade de outras peças de elevado cunho artístico. Conheceu a futura mulher num passeio de Domingo pela foz do Douro. Viram-se e simpatizaram um com o outro, mas estiveram meses sem trocar uma palavra, apesar de terem conhecidos em comum e viverem em ruas paralelas da cidade. Com o tempo, começaram a namorar, uma relação muito cerimoniosa com lugar certo, à porta da casa dela …

Nostalgia vegetal

O plátano é a árvore mais atrofiante que existe, não aguenta as folhas sobre si durante o ano inteiro, tem um tronco que faz lembrar o corpo duma pessoa com a pele a soltar-se aos bocados, e não há como o plátano para agravar as alergias dos cidadãos inocentes que caminham pelas ruas e pelos parques. Esse era o pensamento aproximado dos habitantes da urbanização quando a edilidade lhes propôs cortar o pequeno parque com plátanos na sua orla - a única e tímida aproximação a uma área verde - para os substituir por um recinto alcatroado para estacionamento de viaturas. O estacionamento beneficiaria menos os moradores da urbanização do que os operários das fábricas vizinhas, mas todos tinham de pensar em termos de contexto e enquadramento, como dissera o autarca na reunião que promovera com os moradores, porque vivemos todos no mesmo barco e, afinal, também havia pessoas dali a trabalhar nas fábricas em redor. No fim de contas, até não era um sacrifício tão grande, porque os plátanos só d…
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«Bebam meus amigos, esvaziem as taças até à última gota, o passado é uma equação insolúvel e o futuro não existe. Só agora, neste momento, é que temos, tenho, o direito de desafiar o infinito e a eternidade, bebendo e rindo enquanto a velha ceifeira ronda a minha porta, imprimindo o peso dos seus ossos no saibro do caminho. Já a ouço, a cabra maldita quer cortar o fio da minha vida precária, com ordens e decisões que farão amargar este vinho e arrancar-me o sorrido da caveira. Bebam ainda, meus amigos, bebam sofregamente porque tudo vai acabar em poucos instantes, já ouço o bafo pestilento da velha ceifeira, enquanto os seus passos se dirigem para cá, ouço-os a atravessar o salão...agora...principiam a descer a escada da adega. Estou perdido. Deixem-me esvaziar este último copo...».      Empina o copo, despejando o vinho na garganta. Batem à porta, com força, entreolham-se todos, e os amigos imitam-no, e despejam o vinho das taças enquanto ele abre a porta. Uma mulher está de pé n…

Conversas Imaginárias

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Sábado, 16 de Abril

10:30 – Ponto de Encontro: Piano-Bar do CLP.

Sessões no Auditório:
11:30 – Novas formas de publicação em Portugal (debate com Pedro Ventura, Carla Ribeiro, Diana Sousa e Ana Cláudia Silva; moderação de Rogério Ribeiro).
12:30 – Intervalo.
14:00 – Arte Fantástica: Ilustração, Fotografia e Banda Desenhada (apresentações por Ana Cruz, André Coelho, Pedro Miranda, Manuel Alves e Diogo Carvalho; moderação de Rui Ramos).
15:30 – Marionetas do Porto (apresentação por Isabel Barros e Shirley Resende; moderação de Rui Ramos).
16:00 – O Porto Fantástico e o Fantástico no Porto: À conversa com Beatriz Pacheco Pereira (moderação de Rogério Ribeiro).
17:00 – Intervalo.
17:30 – Contos: O Fantástico em dose concentrada (debate com João Ventura, Jorge Palinhos e João Reis; moderado por Inês Botelho).
18:30 – Projectos multimédia (apresentações de Nocturnus (Rafael Loureiro-escritor+Alexandre Cebrian Valente-cineasta), Yoshi (João Pedro Sousa-mangaka+Pedro Andrade-músico), Noidz e UnderSiege…