INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Gravame agravado

     Eu sou uma criatura que se adaptou demasiado bem à vida nas cidades, um rato de cidade por excelência, que conhece-respeita-teme-procura-evita-ama tudo o que encontra nos seus meandros; e isto para dar conta de algo que para mim é insólito na cidade em que vivo - em vinte e tal anos que por aqui conduzo, e nunca encontrei, uma vez que fosse, um lugar de estacionamento vago no Bairro Azul. E isso aconteceu hoje, e pode parecer uma coisa sem importância, lido aqui na imagem do monitor a dezenas ou milhares de quilómetros do lugar onde estou, mas as pessoas que não vivem aqui não fazem ideia do Trabalho de Hércules que é encontrar um lugar para o carro nesta cidade, principalmente para uma pessoa como eu que leva o carro para todo o lado que consiga, e que sente pena de não poder entrar com ele nos edifícios onde tem de ir, e subir escadas, elevadores e étecétera. Mas volto ao prodígio que comecei a contar. Encontrei um lugar vazio para o carro. Arrumei-o, a entoar um cântico de regozijo, e quando saio do carro, ouço alguém chamar por mim. Olho para cima e a dona da voz é uma senhora de meia-idade dependurada numa varanda do primeiro andar do prédio.
     - O senhor vai demorar muito tempo? - pergunta-me - espere aí em baixo um segundo, que eu vou aí ter consigo...
     Esperei, e foi pouco mais do que um segundo. A senhora devia ter vindo a escorregar pelo corrimão. Tem enfiado pelo pescoço um avental um pouco molhado, e enxuga as mãos a uma das pontas, esfregando-se nervosamente.
     - O senhor vai demorar muito tempo? - repete.
     - Uma meia-hora, vou só ali ao solicitador apanhar uns papéis, e comprar um maço de chuchas.
     - Então, eu espero por si. O senhor sai, e eu vou buscar o carro, para o meter aqui. Sabe, eu moro aqui por cima, no apartamento que tem um doberman de louça na varanda. Não se ria, o doberman foi a melhor coisa que comprei. Antes, os drogados subiam lá acima à noite para ver se arranjavam uns trocados, mas agora, ganzados como andam, eles não sabem se o cão é de louça ou não, e deixaram de o fazer.
     - Certo, então, eu vou...
     - Espere só um momento, que eu vou chamar o meu filho, que vai ficar aqui, enquanto eu procuro outro lugar para estacionar, para ficar mais descansada - e em seguida, ergue a cabeça, abre muito a boca de dentes cariados, e grita muito alto - Jorge!! Ó Jorge!!
     O Jorge chega um bom pedaço depois, vem a arrastar os passos, um adolescente gordo com fones nos ouvidos e com a tromba armada.
     - Ficas aqui a guardar o lugar deste senhor, que eu vou para o outro lado da rua. Aquele carro velho não costuma estar por aqui, deve ser de alguém que está dentro do Banco, e eu caço-o à saída.
     A senhora atravessa a rua, ainda a esfregar as mãos no avental. O filho levanta um dos fones, e pergunta:
     - Posso encostar-me ao carro? Não tem alarme?
     - Não! E o carro da tua mãe, está assim tão longe?
     - No parque da polícia! E também caçaram-lhe a carta. O que não é muito mau, porque assim, ela não atropela ninguém.
A senhora já está do outro lado, e grita com o dono do carro velho, a gesticular muito.
     - Isto já é uma tradição - continua o Jorge - e tudo porque ela se recusa a tomar a medicação porque lá diz que afecta a capacidade de conduzir.
     - E o que é que diz o teu pai de tudo isto, supondo que o tens?
     - O meu pai já fez o que podia. É polícia.

Abafadores

      A velha senhora está sentada numa divisão dos fundos, onde tem a máquina de costura e a máquina de lavar roupa. Cose a bainha duns cortinados, absorta no manejo da agulha e nos pontos da linha. De súbito sente uma presença ao pé de si e tem um sobressalto, mas é o marido, que a olha com um misto de admiração e divertimento.
   - Assustei-me, o que é que queres!? Ouço-te sempre a andar pela casa, pelo que sei sempre por onde andas, mas agora já não te ouvi.
   - É por isso mesmo que eu estou aqui, sinto comichão na palma dos pés. Tens um tempinho para mim?
   Ela suspirou, pousa o cortinado num banco, à vista, que era para retomar onde havia parado, e levantou-se.
   - Senta-te no banco da casa-de-banho..
   Ele assim fez. Sentou-se no banco de madeira da casa-de-banho, com as pernas esticadas, apoiadas no bidé. Ela entrou a seguir, trazendo uma tesoura e uma lâmina de barbear.
   - Olha como tens estes pés...já me devias ter pedido há mais tempo.
   A palma dos pés do marido estão revestidos por uma camada de pêlo negro e espesso com um centímetro de alto, que ela apara com a tesoura comprida, antes de os cortar com a lâmina. Repete a operação no outro pé, e regressa à divisão dos fundos, enquanto o seu homem limpa o produto da limpeza.
   A senhora está sentada novamente na divisão dos fundos, e retoma o seu trabalho. Ergue o rosto e sorri, porque agora já consegue ouvir os passos dele na outra ala da casa. De súbito, sente uma presença junto de si, mas já não se sobressalta. Tinha muito trabalho pela frente mas está menos concentrada, e o que quer que seja, há-de partir como chegou.


Pedra sem socorro

     O avaro sofria antecipadamente com a perspectiva de alienarem o seu dinheiro depois que ele se fosse, mas avaro um dia, avaro para sempre, e ele renegou os seus parentes e familiares e reuniu em notas o máximo dinheiro que conseguiu para forrar com elas o fundo do seu caixão, sob a o manto almofadado em que um dia repousaria. E esse dia chegou no final duma vida solitária e desconfiada, morreu só e foi enterrado numa tarde chuvosa de Fevereiro na companhia dos coveiros e dum sacerdote de ocasião. O caixão desceu á terra, com o avaro e a sua fortuna em dinheiro. E logo os vermes gananciosos começaram a fazer o câmbio ao dinheiro que descera à terra.


Conto a duas mãos - 2



     Sentou-se no baloiço do jardim e puxou por um cigarro. Uma melancolia cansada invadiu-a e os olhos deambularam pela paisagem verde na sua frente. Ouviu o silêncio da natureza sempre ruidoso e tranquilizador e fechou os olhos. A cabeça vazia, o sorriso ausente, o vazio a espreitar a alma. E porquê? Não havia razão: os seus sentimentos não tinham mudado nos últimos dias, continuava a amar placidamente as suas crianças, mantinha-se indiferente aos crescidos como era habitual, fazia carícias á sua mãe, o irmão sempre igual a si próprio, ... Porquê a melancolia? Talvez o desânimo do peso da leveza... Sim, talvez isso...Mas mesmo isso não poderia explicar o desalento que agora sentia. Reteve o fumo nos pulmões como se uma resposta pudesse emergir dessa névoa quente dentro de si enquanto o seu corpo oscilava docemente em cima do baloiço. Uma voz gutural vinda do interior da casa arrancou-a dessa tépida melancolia, e a jovem levantou-se, apagou o cigarro misturando-a na terra com a biqueira da sapatilha, colheu do pessegueiro algumas flores, esboroou as pétalas e soltou-as de passagem no canto do jardim onde as crianças estavam sepultadas. Era o seu secreto segredo, e não gostaria que alguém pudesse suspeitar disso pela natureza dos seus gestos. Amava as crianças que ali dormiam o seu sono eterno, como as amara em vida, quando as atraíra para a sua casa com promessas de gulodices e brincadeiras divertidas. Era pena que fossem tão frágeis e tão perecíveis, as crianças, e não aguentassem coisa alguma que lhes fizessem. Mas amava-as como só as amaria uma mãe extremosa, e naquelas tardes amenas no jardim gostava de se sentar á sua beira e evocar os momentos tão fugazes em que tivera a bênção e a alegria da sua companhia. Mal entrou em casa, percebeu de onde vinha o som, era a mãe, sentada no cadeirão ao pé da janela. Protestava com pequenos urros, talvez tivesse fome, ou estivesse toda borrada. Mas agora, não tinha tempo para ela. Afagou-lhe o cabelo ao passar e procurou o irmão, ligeiramente preocupada. Descobriu-o sentado na cozinha, andara a vasculhar as gavetas e encontrara o que procurava, uma faca esquecida com a qual fizera pequenas incisões no antebraço, cortes em fio donde escorria sangue. Sentou-se ao seu lado, passou-lhe o braço pelos ombros e tirou-lhe a faca, sem violência, mas com firmeza. Ele ainda se debateu um pouco e começou a protestar, mas ela abraçou-o com ternura, enquanto espreitava a fundura dos golpes. Sentia o seu arfar aflitivo contra o seu peito.
     - Mana, quando é que arranjas mais amiguinhos para eu brincar? - Perguntou-lhe ele com voz de menino mimado.
     - Em breve, muito em breve…Prometo!


Conto de Maria e José

Luzes

- Sabes quem eu vi hoje na cidade? A Graça, aquela tua prima
- Eu também a vi...
- Verdade? Ainda bem, já não a via há tanto tempo que pensei que estava a alucinar.
- A alucinar estava eu, porque me pareceu que ela vinha a correr atrás do carro depois de a ter atropelado!

     O negócio começou na cidade quase sem se dar por isso. Um empresário hoteleiro à beira da falência, decidiu criar um Residencial para mendigos temporários com o nome adequado de Francisco de Assis, e que funcionava mais ou menos do seguinte modo: os interessados (pessoas prósperas, com posses e meios, mas provindas dum segmento específico da sociedade) davam entrada no Residencial, e era-lhes facultado roupas modestas, uma tigela de zinco e a chave dum quarto. O dito quarto era muito simples, despido de conforto e artigos de luxo, para entrarem no seu papel. Um saco-cama no chão do quarto, uma casa-de-banho sumária com duche, sanita e lavatório, e um punhado de livros empilhados no chão da saleta, ao lado duma cadeira de madeira com encosto de palhinha.. Ao fim duma hora de terem dado entrada, os novos hóspedes entregavam as roupas da sua antiga vida, e carteira, relógios ou jóias que transportassem consigo, para serem depositadas nos cofres da Residencial. As refeições eram tomadas em comum no salão grande, e comia-se sopa e o que houvesse na mesma tigela de zinco com que pediriam esmola, comiam apenas com uma colher, de madeira ou metal, e partilhavam o pão e a água como frades ou confrades.
     Pela manhã, saíam para esmolar, distribuídos pela cidade, procurando, cada um, ocupar um lugar favorável, onde não sofressem muito os eventuais rigores do clima; e todos eles estavam prevenidos para não se instalarem próximo a mendigos profissionais, porque estes eram muito ciosos dos seus lugares predilectos e poderiam armar zaragata ou apelar para o sindicato. Enquanto esperavam pela esmola, cada mendigo temporário fazia o que lhe aprouvesse para atrair ou cativar a caridade de quem passava. Alguns experimentavam o bel-canto (aquele que é despoletado habitualmente por um belo duche), as anedotas, ou a prédica ao calhas. Não era muito importante a quantidade de moedas (ou notas, sonhem!) que conseguiam juntar, o que importava ali, era serem vistos ou fotografados, haver testemunhas da sua mendicidade, ecos da sua condição decadente.
     Os mendigos temporários podiam ficar o tempo que quisessem na Residencial, e pelo mesmo espaço de tempo, mendigar pelas ruas. Quando saíam dali, pagavam a estadia como em qualquer unidade hoteleira ou similar e, pela porta do cavalo, ofereciam quase sempre uma generosa gratificação ao dono da residencial. O prémio justificava-se. A estadia na Residencial Francisco de Assis não era um exercício Zen ou um retiro espiritual, mas um hábil estratagema. Todos os que davam entrada na Residencial eram pessoas prósperas e com posses, mas tinham, como já o sugeri antes, uma outra característica em comum - estavam crivados sebastianamente de dívidas, tinham o dinheiro refundido em contas e lugares onde ninguém os encontraria, só à espera que eles se livrassem dos credores e fiscais que andavam no seu encalço 
     «O meu cliente é insolvente e indigente, senhor doutor juiz - declarava mais tarde o seu advogado - tenho aqui fotos e jornais que comprovam o triste estado a que chegou, tendo que recorrer à caridade alheia para terem um pouco de pão para a boca. E nem mesmo eu estaria aqui para o dizer se, vendo o estado lastimoso em que se encontra, não tivesse decidido defendê-lo Pro Bono...».

Um diálogo

     A porta do compartimento da carruagem dos caminhos-de-ferro foi aberta por um homem baixo e calvo, cujas patilhas grisalhas e felpudas pareciam ter acumulado o cabelo que carecia em outras zonas da cabeça. Dentro do compartimento só estava uma mulher que lia uma revista junto à janela, a primeira dum molhe de revistas que transportava consigo. O recém-chegado fixou nela o olhar, e continuou a olhá-la com insistência  depois de se ter sentado no mesmo banco que ela, a apenas um metro de distância. Intencional ou por instinto, ela fez transitar o molhe de revistas pousado sobre as suas pernas para o banco ao seu lado, demarcando uma fronteira simbólica entre ela e aquele estranho de olhar despudorado.
     A mulher já não se conseguia concentrar na entrevista que estava a ler - "quanto tempo demorará este matarruano a meter conversa?" perguntava-se.
     - A senhora desculpe-me - começou ele de imediato - você vai achar estranho o que lhe vou dizer, mas parece-me que já a vi antes, neste compartimento e neste mesmo comboio. É tudo igual, a cor e as manchas do tecto, aquele bilhete amarfanhado no chão ao canto, a capa da revista que está a ler neste momento...tudo! É como uma fotografia que trago na cabeça há muito tempo e que só agora posso identificar.
     Ela suspirou de modo audível.
     - Deixe-me completar o que acabou de dizer. O senhor anda há anos com esta imagem na cabeça, muitos anos mesmo, quase toda a vida, mesmo quando o senhor conservava todo o seu cabelo e tinha penugem na nuca, esta imagem já andava à frente dos seus olhos como a cenoura pendurada diante dos olhos do burro. Poupe-me! Andou a ler Carlos Castaneda ou Richard Bach e lembrou-se de compor uma frase de engate diferente, que invocasse o destino ou a predestinação para a queca da ordem. Foi isso, não foi?!
     - Compreendo a sua revolta e, diria também, a sua frustração, porque acho que a vida e os homens não a trataram muito bem, mas peço-lhe apenas que me escute mais um pouco. É verdade que acredito no Destino, como acredito e sei que em poucos segundos as suas revistas irão cair ao chão e a que ficar no topo, exibirá uma reportagem sobre a família real da Arábia Saudita.
     Ela principiou uma pequena risada quando a insinuante força centrípeta exercida sobre as carruagens numa curva da linha fez as revistas deslizarem para o chão da carruagem, onde se espalharam como cartas dum baralho, e os olhos de ambos puderam admirar a capa da que ficou no topo, que exibia uma foto do rei saudita Abdallah a presidir a uma cerimónia de Estado.
     - Eu vejo o Destino como um revisor desastrado de comboio - continuou o estranho - anda pelo corredor de compartimento em compartimento a fazer o seu trabalho, mas nem sempre o faz de forma ordeira e coordenada. O seu trabalho tem algo de caótico ou quântico que contraria as nossas concepções lineares e cartesianas. Assim, tendo o Destino reservado para nós encontrarmos-nos aqui, nesta carruagem, ele chegou primeiro a mim do que a si, foi um acidente, mas não podendo eu viver no meu próprio futuro, tive dele uma imagem especular, um reflexo, que eu sabia que me aguardava aqui, neste lugar, como se tivesse precisado de caminhar muito para alcançar a minha própria sombra. Não sei se isto faz algum sentido para si?
    Ela recebeu as revistas que ele havia recolhido do chão enquanto falava.
    - Supondo que a sua predição de há pouco não foi apenas uma brincadeira bem coroada, se o Destino reservou para nós um desfecho qualquer, hoje e neste lugar, que desfecho poderá ser esse, senhor-já-a-vi-em qualquer-lado?
    Ela manteve a ironia, mas já não havia ponta de desdém ou revolta na sua voz. E esperou pela resposta, desejando no fundo que ela fosse tão leve e tão desembaraçada como a sua questão. Mas a resposta veio em forma de silêncio, que pairou no ar como um orvalho gelado. Cada segundo, cada minuto que passava, e a ameaça parecia mais consistente e real.
     - Não tem uma resposta para mim? O Destino não lhe deu a honra duma Preview à porta fechada? Vamos fazer planos para fugir juntos ou vamos morrer na porcaria dum desastre de comboio?
     Ele segurou a mão dela entre as suas, exercendo uma pressão suave mas firme. Não falaram mais nada os dois, uma ilha no meio do silêncio, a escutar cada ruído vindo dos carris, cada gemido do metal da carruagem.

Projecto

- Sabes...que eu...vou começar...a escrever...as...minhas...memórias?...Mais...propria-mente...a...minha...auto-hipnografia?
- E quando é que começas a escrever essa...coisa?
- Quando...me...sentir...um...pouco...menos...sono-lento...

Os malefícios do conhecimento


       Dez e meia da manhã de uma Sexta-Feira. Nuno Sequeira passa pelo balcão de atendimento da esquadra da GNR, para colher dados sobre as ocorrências policiais da cidade com o fito de redigir a sua coluna informativa na folha policial do jornaleco onde trabalha. Sandra, a agente que lhe serve de ligação, faculta-lhe os dados com gestos impessoais, não conseguindo disfarçar o desconforto e a irritabilidade que a sua presença provoca (é o que dá, misturar sexo com trabalho). Dá uma vista de olhos, e, às primeiras, não vê nada de anormal. Um caixa Multibanco forçada na Baixa, uma acesa rixa à porta dum bar de alterne, dois furtos de automóveis, uma tentativa de arrombamento duma joalharia, tudo muito morno, insonso e farinhento, sem tiros nem mortes. Tira alguns apontamentos num bloco de notas, quando se apercebe que Sandra está a registar uma nova ocorrência, que é participada por um outro policial. Lesto como uma lebre, dá a volta ao balcão e faz uma tentativa de abordagem, mas Sandra não se deixa convencer, o assunto ainda está fresco de mais para ser História, mas Nuno Sequeira estende-lhe o seu bloco de notas com uma nota de vinte euros a espreitar entre as folhas. Pisca-lhe o olho, e Sandra desiste da sua resistência, recolhe a nota e conta-lhe o que sabe até então – Junto do mar, dois homens que iam pescar encontraram o cadáver dum homem, que já havia sido identificado pelos documentos que trazia na carteira. Chamava-se Augusto Reis, e uma rápida indagação dos polícias destacados apontava para a hipótese de suicídio. O indivíduo tinha problemas sérios de alcoolismo, e todos os vizinhos afirmavam que estava a atravessar uma depressão das pesadas.

     Catorze e dez. Nuno Sequeira deixou para trás os carros furtados ou a rixa diante do bar de alterne e está de volta à esquadra. Persegue o furo do suicídio misterioso, tentando espremer o que pode. A autópsia revela alguns detalhes sumarentos. Augusto Reis morreu de asfixia. Tinha a boca cheia de seixos marinhos, e um deles, atravessado na garganta, provocou-lhe a morte. Estranhamente, a hipótese de suicídio continua a prevalecer. Uma forma bizarra de suicídio, essa, seria mais fácil se o homem entrasse pelo mar adentro ou se se atirasse dum dos penhascos das proximidades. Volta á carga com a Sandra, promete-lhe um jantar num restaurante escolhido por ela em nome dos tempos agitados em que os dois andaram juntos, e depois de muito charme e muitos rodeios, Sandra, finalmente, adianta mais alguma coisa. Augusto Reis foi encontrado numa língua de areia entre as pedras, e no seu estertor final, escrevera na areia a palavra “demo”. Nuno dá um pulo de satisfação quando Sandra lhe conta isso. Fantástico! Não podia pedir melhor. Sandra diz-lhe que o moribundo podia ser uma pessoa religiosa e querer dizer que achava que a sua atracção pela morte era uma tentação do diabo, mas Nuno já ia muito além, tinha tomado o freio nos dentes e galopava a toda a brida. O pobre homem podia estar a dar um passeio ao pé do mar e ter surpreendido algum ritual demoníaco, o que podia ter desagradado aos intervenientes, que o sacrificaram ao príncipe das trevas, ou então, ser ele mesmo um dos oficiantes da cerimónia e ter sido escolhido para tal pelos seus pares. Ainda aflorou na sua imaginação a possibilidade de Augusto Reis ter perecido num ajuste de contas, talvez andasse a chantagear alguém por algo que soubera e aí, o "demo" devia ser parte dum nome, o princípio duma acusação. Andou a matutar - Aristodemo...Demócrito... - mas não se lembrava de ninguém significativo com esse nome. A hipótese de satanismo era o filão que tinha de explorar.

     Sábado, dez e vinte da manhã. Nuno Sequeira paga o café a Irene, amiga de longa data. Irene sabe tudo o que haja para saber sobre o Oculto e as pessoas da cidade cujas vidas orbitam em volta dele. Nuno pergunta, insiste, reformula as perguntas, mas Irene não sabe como o ajudar. Desconhece e descrê que tenha havido alguma missa negra ou outra cerimónia à beira-mar naquele dia. Talvez gente de fora? - tenta Nuno, mas Irene ri-se, nestes assuntos não há acidentes, ou actos espontâneos. Se houvesse alguma coisa, ela saberia, todos a respeitavam como uma papisa das trevas. Nuno agradece, ainda não completamente convencido, talvez a sua amiga andasse alheada destes assuntos, ou demasiado confiante em si mesma e no seu ascendente sobre os outros.

     Sábado, dezasseis e dez. Perdido por cem, perdido por mil. Nuno Sequeira aproveita o resto do dia para aprofundar o carácter e as relações de Augusto Reis. Relações, era coisa que Augusto Reis parecia não ter, fosse de que espécie fosse. Não se dava com ninguém, andava pela rua a esgueirar-se por entre as pessoas e na sombra dos prédios. Poucos lhe conheciam a voz, o homem falava pouco e aos soluços porque gaguejava imenso, um gaguejar causado aparentemente pelos nervos. Augusto Reis era escrivão da câmara, e durante muito tempo pareceu ser uma pessoa calma e ordeira, incapaz de mijar fora do penico, ou atirar lixo para o chão. Depois meteu-se na bebida, começou por beber numa taberna do bairro, nos primeiros tempos apenas alguns copos depois do trabalho para descomprimir da pressão, mas não tardou a passar ali a vida a enfrascar até chegar ao ponto de beber até perder a consciência. Perdeu o emprego, mas ainda tinha algum dinheiro amealhado. Deixou de ir á taberna, por causa da vergonha ou da timidez. Comprava as garrafas de bebida numa mercearia próxima, e esvaziava-as no segredo do lar confidente.
     Nesta inquirição, Nuno Sequeira cruzou-se por fim com um personagem fulcral da vida pretérita de Augusto Reis – António, o seu primo, a única pessoa à face da Terra, que ainda perdia alguns minutos a tentar conversar com ele, e sempre ao telefone. António forneceu-lhe um dado de capital importância: nas semanas que precederam a sua morte, Augusto Reis revelou-lhe que tencionava largar de vez a bebida, talvez através dos AA’s, queria retomar o controlo da sua vida, e arranjar um novo emprego para reparar tudo aquilo que deixara entregue à devastação. Nuno Sequeira achou irónico que pensassem que um homem prestes a redimir-se, se tivesse suicidado, e da forma mais bizarra possível, a tragar seixos de mar até sufocar.

     Segunda-Feira seguinte. Hora incerta entre a abertura da redacção do pequeno jornal, nove da manhã, e a chegada, muito tempo depois, do seu pachorrento e obeso director. Nuno Sequeira está a espera dele, agitado como se tivesse no bucho o inteiro escândalo Watergate, mas Nuno Sequeira apenas tem umas notas rabiscadas no seu bloco, e alguns rascunhos guardados na Pen. Sabe que não há factos, mas ténues indícios, que talvez chegassem para levantar a lebre e continuar a investigar, dependendo da boa-vontade do seu chefe. Pouca fundura para a garganta trémula que deseja expor o mistério do presumido suicídio de Augusto Reis. O director escuta-o pacientemente. A morte do ex-escrivão, o alcoolismo, os seixos na boca, a palavra demo escrita por uma mão que principia a arrefecer, o testemunho de António, o primo, sobre a sua intenção de jornadear para a luz e a salvação, a incoerência de se rotular de suicídio aquela morte junto ao mar.

     Onze horas da manhã, mais coisa menos coisa. O director arruma com o assunto, põe-lhe uma pedra em cima, mais pesada do que a de Sísifo – não vê mistério nenhum naquilo, nem sequer notícia. Apenas quer dele uma frase escrita, que o próprio director lhe dita, com verbos, sujeitos e predicados, noticiando o suicídio de Augusto Reis. Aquele jornal é um jornal sério, respeitável, conclui, e se ele tinha amor a estórias, que escrevesse um romance nos seus tempos livres.

    Dezasseis e trinta. Nuno Sequeira está de rastos, não consegue encaixar a mediocridade do jornal onde trabalha, do director que o dirige, da tacanhez das pessoas da cidade que o lêem, da humanidade inteira que sanciona e promove a humilhação do talento e da inteligência. Em vez disso, encaixa umas cervejas duma grade que partilha com uns colegas do jornal, enquanto pensa em seixos lisos e mulheres-polícia de lingerie

     Cinco dias antes, perto do meio-dia – mas isso, Nuno Sequeira nunca chegou a saber – Augusto Reis está ao telefone com António, o primo. Fala pelo telefone porque é mais fácil, se fosse pessoalmente começava a gaguejar, e era o cabo dos trabalhos, fala de abandonar a bebida, fala de aderir aos AA’s. António encoraja-o. Era fácil, era só ir a uma reunião, apresentar-se, falar do seu problema, e todos o ajudariam dali para a frente, uma hora de cada vez, um dia de cada vez, pelo resto da sua vida.
     Augusto Reis desliga o telefone, perfeitamente apavorado. Nunca, mas nunca mesmo, seria capaz de falar para uma sala cheia de pessoas, é que nem mesmo a gaguejar. Ficaria gelado de terror. E isto, Nuno Sequeira não tinha qualquer hipótese de saber.

     Três horas depois, Augusto está sentado no chão da sala. Acabara de despejar uma garrafa de aguardente,e não se consegue levantar, as pernas parecem feitas de puré e tem ataques convulsivos de tosse – a tosse aparecera-lhe uns meses atrás e ficara mais forte desde que começara a beber demais e a alimentar-se de menos. Augusto Reis tenta levantar-se agarrado a uma estante de livros, ergue-se até à meia altura antes de cair de novo para trás, arrastando alguns livros consigo. Fica deitado no chão, no meio daqueles destroços livrescos. Há um livro caprichosamente aberto diante dos seus olhos, o volume terceiro duma enciclopédia, de páginas abertas como braços no início do verbete “Demóstenes”. Augusto Reis lê, com a vista um pouco turva pela ausência dos óculos: “Demóstenes sofria de gaguez acentuada, e eliminou-a, habituando-se a ler trechos da Iliada em meio ao fragor das ondas na costa, com a boca cheia de seixos do mar…”.
Augusto Reis não leu mais, o conhecimento do que Demóstenes fizera pareceu-lhe oportuno e milagroso. Como se o conhecimento não pudesse comportar riscos e malefícios, Augusto Reis soube o que tinha de fazer: Imitar Demóstenes, curar a gaguez, libertar-se do álcool, e recuperar a sua vida antiga. Mas era arriscado encher a garganta de seixos quando se sofre de tosse como ele sofria. Mas também isto, Nuno Sequeira não podia saber. Nem Augusto Reis.

Rito urbano

     O grupo de treze amigos-cúmplices-confrades, reuniu-se no apartamento dum deles para levar a cabo um rito de revitalização da Primavera. Haviam escolhido um Sábado de manhã, por razões óbvias. Tinham todos empregos com funções administrativas e nenhum deles trabalhava  nesse dia, e a acrescentar a isso, a mulher-a-dias só chegava três horas depois, o que lhes dava tempo de sobra para a cerimónia mágico-religiosa.
      Rogério, ou DJ-Flee, como era conhecido na noite, colocou um disco com cânticos ameríndios e sentaram-se em círculo no tapete grande da sala, completamente nus. Ao centro, como um altar, erguia-se um pinheiro envasado, no qual eles concentrariam todas as energias do Atman. O cheiro a incenso era intenso. Néftis, ou Ana Torres de nome civil, dirigiu a cerimónia. Enquanto todos davam as mãos, ela ergueu as suas para o alto como os oradores das pinturas egípcias. Numa voz arrastada de transe, exortou: "Pinheiro sagrado, flori!". Fez-se silêncio até se dissipar o eco da sua voz, então ela nomeou um deus pagão de uma longa lista de deuses, e todos repetiam a prece: "Pinheiro sagrado, flori!". Invocaram-se vinte deuses e deusas pagãs, trinta, cinquenta, e o pinheiro continuava sem florir. Então, cada um tirou do bolso um papelinho com uma palavra misteriosa escrita, o papelinho era dobrado em quatro partes, como os elementos e os reinos, e depositado num cinzeiro junto ao vaso. Néftis colocou por cima dos treze papéis, um pó acinzentado e pegou fogo ao conteúdo. Quando a chama e o fumo atingiram a sua maior intensidade, a prece repetiu-se em voz alta: "Pinheiro, flori!". E nos segundos seguintes, em meio ao fumo e às propriedades do pó que Néftis acrescentara, pareceu a quase todos que o pinheiro tinha adquirido flores etéreas e brilhantes, cujas pétalas rodavam sobre si como pás de moinho. Ergueram-se todos dos seus lugares, beijaram-se e abraçaram-se em comunhão de Vida, felizes pelo êxito do rito. Quando chegou a mulher-a-dias, ainda estavam nus e a celebrar com cânticos e declamações. Néftis, a dona do apartamento, ficou um pouco embaraçada, mais do que a mulher da limpeza, e pediu-lhe que esperasse um pouco no corredor enquanto eles se vestiam. Por fim, disseram à senhora para entrar, enquanto todos eles abandonavam o apartamento, com a proa apontada a uma pizzaria próxima.
     Mas se viu sozinha, a mulher-a-dias, despiu as suas roupas, abriu três das janelas do apartamento, e colocou em cada uma delas uma flor de cor diferente. Foi buscar o aspirador e o balde da esfregona, e quando voltou à sala, o ar parecia carregado com o aroma obsidiante a húmus e chuva primaveril.
     - Pobres tolos - murmurou a mulher, dobrando as hastes metálicas do pinheiro artificial envasado que haviam deixado no meio do tapete - podiam-me perguntar...



estória seca

     Calcorreou as ruas, mirando as casas fechadas. Telhados de xisto, janelas de vidro duplo, portas isoladas. Todos o queriam manter longe das suas casas, ostracizado como um leproso de cara descoberta. Invejou aquelas pessoas que o receavam, os interiores iluminados e aquecidos das casas, com as famílias a conversar e a jogar diante da lareira, ou em volta de uma mesa farta onde o centro axial era assinalado por uma terrina de sopa fumegante. Invejou os cães e gatitos que eram mantidos lá dentro - até eles tinham direito, os desprezíveis animais - o fumo odorífero a lenha queimada que saía das chaminés, as camisolas de lã que as velhas urdiam nos seus cadeirões com longas agulhas que esgrimiam no colo.
     Invejou-os e deixou-os para trás, caminhando ou soprando sobre a neve, o senhor Frio.

Infra-texto

     Escreveu um pequeno conto, pequeno e breve, que terminava de forma explícita, enxuta, sem sombras nem evasivas. Apercebeu-se de que se havia excedido. O conto tinha um parágrafo a mais, aquele em que ele explicava e vulgarizava tudo. Seleccionou o parágrafo no monitor do portátil e apagou-o. Ficou um instante a olhar a página em branco, e começou a escrever um novo conto, com muito cuidado.
    (Desta vez tinha de se conter para não contar de mais no próximo micro-conto).

O novo Diógenes

     - «Lembra-te!», era a única coisa que aquele homem andrajoso dizia às pessoas na rua com o ar mais sério do mundo 
     - «Lembra-te!» - repetia o homem andrajoso
     As pessoas, regra geral, assustavam-se, e seguiam o seu caminho. Ás vezes, as pessoas lembravam-se, de algo que tinham esquecido em casa ou no trabalho, dum promessa velada que haviam deixado para trás, ou que o bebé no carro chorava porque já há sete horas que não comia, lembravam-se de coisas assim na penumbra da memória, detalhes e pessoas que não julgavam importante ter presentes, ou que magoavam ou comoviam quando saíam para a luz. Não era fácil, ter mau aspecto, e importunar as pessoas. Uma vez ou outra, tinha uma reacção mais extremada, como um chega-para-lá com um empurrão no peito ou no ombro, ou uma chuva de insultos e ameaças.
     O homem andrajoso não parecia importar-se com isso.
     «Lembra-te!».
     Continuava a dizer, coçando a feia cicatriz que sulcava a testa e a face esquerda.
     «Lembra-te!».
     Insistia.
     Até ao dia em que um homem se lembrou:
     - Eu lembro-me! Não me reconheces? Sou o Dário! Eu sei quem tu és! A tua família anda há anos há tua procura.
     O homem andrajoso chorou.

As nozes e os dentes

     Um cão pode ser um problema, um grande problema, dos maiores que existem. Ele e a mulher haviam comprado o dálmata um pouco antes da separação, decisão que nascera dum entusiasmo assolapado dela, e foi ela quem se encarregou de criar o animal - até aí, tudo bem! - mas depois, quando o divórcio aconteceu, ela não quis ficar com o amigo de quatro patas, e recaiu sobre ele, o homem mais inocente da Terra, a pesada pena de tomar conta do cão. E dava trabalho, tanto como criar um filho. Tinha de o alimentar, cuidar dele e da sua higiene, levá-lo à vacina, passear o cão, e para mais, não tinha jeito nem gosto por animais, e aquilo ameaçava a sua despreocupada independência, a liberdade anárquica de ficar com os colegas depois do trabalho a beber uns copos, sair ao fim-de-semana, ou passar a noite em casa duma conquista de momento, ou de uma das damas a quem pagava para ter sexo.
     A decisão foi espontânea e natural - tinha de se livrar do cão! Nem pensou em matá-lo, porque não seria capaz disso, ia libertá-lo. Num fim de tarde, aprovisionou alguma comida do animal, meteu-o no jipe, e conduziu até junto do cais da Foz do Arelho. Tirou-o do carro, e enquanto o cão comia da caixa com comida que pusera no chão, ele meteu-se às pressas no carro e arrancou com uma flecha em direcção a casa, seguido ao longe pelo cão. Naquela noite, foi jantar fora com uma amiga para comemorar, mas quando regressou a casa, lá estava o dálmata à sua espera ao pé do portão. Afagou-lhe a cabeça e o lombo, e levou-o para o jardim. A coisa estava difícil! Esperou uma semana até fazer uma nova tentativa. Voltou a metê-lo no carro, e conduziu durante horas e horas, tendo a preocupação de se meter por uma estrada de terra e atravessar dois pequenos riachos, porque sabia que a água anulava o faro dos cães. Depois de o deixar a roer um cordel de sisal com que prendera a sua coleira a uma árvore, voltou a casa, julgando que encerrara definitivamente aquele capítulo. Mas o cão voltou, não naquele dia nem nos dias que se seguiram, mas passadas duas semanas. Vinha sujo e arranhado, mas a abanar o rabo com o ar mais feliz do mundo.
     Entrou em parafuso, aquilo não podia estar a acontecer, tinha a vida esmagada e manietada pela presença dum cão miserável. Tinha de se libertar dele, da opressão de o ter por perto, sofregamente à espera dos seus cuidados e carinhos. Mais uma vez, esperou uma semana antes de uma nova tentativa. Num fim de tarde de Sábado arranjou-lhe muita comida, e deixou-o instalado no relvado da casa, com a comida e a água por perto. Quando o Sol começava a declinar no céu, meteu-se no jipe, sozinho, e conduziu novamente durante horas, sem mapas nem GPS, meteu-se por tudo quanto era estrada esburacada e caminho de cabras, deixou de olhar para sinais, tabuletas, marcos de estrada. Levou um tempo imenso nisso, e só parou quando o jipe ficou sem combustível no meio duns montes rochosos. Abandonou a viatura, atirou a chave às urtigas, e começou a caminhar sem destino.
     «Sempre quero ver se aquele cão me encontra agora!» - confidenciou à Lua.
     

Vagamundos

Estava cansado demais para sonhar e queria algo mais que não sabia explicar o que era. Sentou-se à espera, no alto da sua morada…resoluto mas incomodado (a pedra das campas é fria).

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...