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A mostrar mensagens de Março, 2011

Gravame agravado

Eu sou uma criatura que se adaptou demasiado bem à vida nas cidades, um rato de cidade por excelência, que conhece-respeita-teme-procura-evita-ama tudo o que encontra nos seus meandros; e isto para dar conta de algo que para mim é insólito na cidade em que vivo - em vinte e tal anos que por aqui conduzo, e nunca encontrei, uma vez que fosse, um lugar de estacionamento vago no Bairro Azul. E isso aconteceu hoje, e pode parecer uma coisa sem importância, lido aqui na imagem do monitor a dezenas ou milhares de quilómetros do lugar onde estou, mas as pessoas que não vivem aqui não fazem ideia do Trabalho de Hércules que é encontrar um lugar para o carro nesta cidade, principalmente para uma pessoa como eu que leva o carro para todo o lado que consiga, e que sente pena de não poder entrar com ele nos edifícios onde tem de ir, e subir escadas, elevadores e étecétera. Mas volto ao prodígio que comecei a contar. Encontrei um lugar vazio para o carro. Arrumei-o, a entoar um cântico de regozijo…

Abafadores

A velha senhora está sentada numa divisão dos fundos, onde tem a máquina de costura e a máquina de lavar roupa. Cose a bainha duns cortinados, absorta no manejo da agulha e nos pontos da linha. De súbito sente uma presença ao pé de si e tem um sobressalto, mas é o marido, que a olha com um misto de admiração e divertimento.
   - Assustei-me, o que é que queres!? Ouço-te sempre a andar pela casa, pelo que sei sempre por onde andas, mas agora já não te ouvi.
   - É por isso mesmo que eu estou aqui, sinto comichão na palma dos pés. Tens um tempinho para mim?
   Ela suspirou, pousa o cortinado num banco, à vista, que era para retomar onde havia parado, e levantou-se.
   - Senta-te no banco da casa-de-banho..
   Ele assim fez. Sentou-se no banco de madeira da casa-de-banho, com as pernas esticadas, apoiadas no bidé. Ela entrou a seguir, trazendo uma tesoura e uma lâmina de barbear.
   - Olha como tens estes pés...já me devias ter pedido há mais tempo.
   A palma dos pés do marido estão reve…

Pedra sem socorro

O avaro sofria antecipadamente com a perspectiva de alienarem o seu dinheiro depois que ele se fosse, mas avaro um dia, avaro para sempre, e ele renegou os seus parentes e familiares e reuniu em notas o máximo dinheiro que conseguiu para forrar com elas o fundo do seu caixão, sob a o manto almofadado em que um dia repousaria. E esse dia chegou no final duma vida solitária e desconfiada, morreu só e foi enterrado numa tarde chuvosa de Fevereiro na companhia dos coveiros e dum sacerdote de ocasião. O caixão desceu á terra, com o avaro e a sua fortuna em dinheiro. E logo os vermes gananciosos começaram a fazer o câmbio ao dinheiro que descera à terra.


Conto a duas mãos - 2

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Sentou-se no baloiço do jardim e puxou por um cigarro. Uma melancolia cansada invadiu-a e os olhos deambularam pela paisagem verde na sua frente. Ouviu o silêncio da natureza sempre ruidoso e tranquilizador e fechou os olhos. A cabeça vazia, o sorriso ausente, o vazio a espreitar a alma. E porquê? Não havia razão: os seus sentimentos não tinham mudado nos últimos dias, continuava a amar placidamente as suas crianças, mantinha-se indiferente aos crescidos como era habitual, fazia carícias á sua mãe, o irmão sempre igual a si próprio, ... Porquê a melancolia? Talvez o desânimo do peso da leveza... Sim, talvez isso...Mas mesmo isso não poderia explicar o desalento que agora sentia. Reteve o fumo nos pulmões como se uma resposta pudesse emergir dessa névoa quente dentro de si enquanto o seu corpo oscilava docemente em cima do baloiço. Uma voz gutural vinda do interior da casa arrancou-a dessa tépida melancolia, e a jovem levantou-se, apagou o cigarro misturando-a na terra com a bique…

Luzes

- Sabes quem eu vi hoje na cidade? A Graça, aquela tua prima
- Eu também a vi...
- Verdade? Ainda bem, já não a via há tanto tempo que pensei que estava a alucinar.
- A alucinar estava eu, porque me pareceu que ela vinha a correr atrás do carro depois de a ter atropelado!

O negócio começou na cidade quase sem se dar por isso. Um empresário hoteleiro à beira da falência, decidiu criar um Residencial para mendigos temporários com o nome adequado de Francisco de Assis, e que funcionava mais ou menos do seguinte modo: os interessados (pessoas prósperas, com posses e meios, mas provindas dum segmento específico da sociedade) davam entrada no Residencial, e era-lhes facultado roupas modestas, uma tigela de zinco e a chave dum quarto. O dito quarto era muito simples, despido de conforto e artigos de luxo, para entrarem no seu papel. Um saco-cama no chão do quarto, uma casa-de-banho sumária com duche, sanita e lavatório, e um punhado de livros empilhados no chão da saleta, ao lado duma cadeira de madeira com encosto de palhinha.. Ao fim duma hora de terem dado entrada, os novos hóspedes entregavam as roupas da sua antiga vida, e carteira, relógios ou jóias que transportassem consigo, para serem depositadas nos cofres da Residencial. As refeições eram toma…

Um diálogo

A porta do compartimento da carruagem dos caminhos-de-ferro foi aberta por um homem baixo e calvo, cujas patilhas grisalhas e felpudas pareciam ter acumulado o cabelo que carecia em outras zonas da cabeça. Dentro do compartimento só estava uma mulher que lia uma revista junto à janela, a primeira dum molhe de revistas que transportava consigo. O recém-chegado fixou nela o olhar, e continuou a olhá-la com insistência  depois de se ter sentado no mesmo banco que ela, a apenas um metro de distância. Intencional ou por instinto, ela fez transitar o molhe de revistas pousado sobre as suas pernas para o banco ao seu lado, demarcando uma fronteira simbólica entre ela e aquele estranho de olhar despudorado.
     A mulher já não se conseguia concentrar na entrevista que estava a ler - "quanto tempo demorará este matarruano a meter conversa?" perguntava-se.
     - A senhora desculpe-me - começou ele de imediato - você vai achar estranho o que lhe vou dizer, mas parece-me que já a v…

Projecto

- Sabes...que eu...vou começar...a escrever...as...minhas...memórias?...Mais...propria-mente...a...minha...auto-hipnografia?
- E quando é que começas a escrever essa...coisa?
- Quando...me...sentir...um...pouco...menos...sono-lento...

Os malefícios do conhecimento

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Dez e meia da manhã de uma Sexta-Feira. Nuno Sequeira passa pelo balcão de atendimento da esquadra da GNR, para colher dados sobre as ocorrências policiais da cidade com o fito de redigir a sua coluna informativa na folha policial do jornaleco onde trabalha. Sandra, a agente que lhe serve de ligação, faculta-lhe os dados com gestos impessoais, não conseguindo disfarçar o desconforto e a irritabilidade que a sua presença provoca (é o que dá, misturar sexo com trabalho). Dá uma vista de olhos, e, às primeiras, não vê nada de anormal. Um caixa Multibanco forçada na Baixa, uma acesa rixa à porta dum bar de alterne, dois furtos de automóveis, uma tentativa de arrombamento duma joalharia, tudo muito morno, insonso e farinhento, sem tiros nem mortes. Tira alguns apontamentos num bloco de notas, quando se apercebe que Sandra está a registar uma nova ocorrência, que é participada por um outro policial. Lesto como uma lebre, dá a volta ao balcão e faz uma tentativa de abordagem, mas Sandra não …

Rito urbano

O grupo de treze amigos-cúmplices-confrades, reuniu-se no apartamento dum deles para levar a cabo um rito de revitalização da Primavera. Haviam escolhido um Sábado de manhã, por razões óbvias. Tinham todos empregos com funções administrativas e nenhum deles trabalhava  nesse dia, e a acrescentar a isso, a mulher-a-dias só chegava três horas depois, o que lhes dava tempo de sobra para a cerimónia mágico-religiosa.
      Rogério, ou DJ-Flee, como era conhecido na noite, colocou um disco com cânticos ameríndios e sentaram-se em círculo no tapete grande da sala, completamente nus. Ao centro, como um altar, erguia-se um pinheiro envasado, no qual eles concentrariam todas as energias do Atman. O cheiro a incenso era intenso. Néftis, ou Ana Torres de nome civil, dirigiu a cerimónia. Enquanto todos davam as mãos, ela ergueu as suas para o alto como os oradores das pinturas egípcias. Numa voz arrastada de transe, exortou: "Pinheiro sagrado, flori!". Fez-se silêncio até se dissipar o e…

estória seca

Calcorreou as ruas, mirando as casas fechadas. Telhados de xisto, janelas de vidro duplo, portas isoladas. Todos o queriam manter longe das suas casas, ostracizado como um leproso de cara descoberta. Invejou aquelas pessoas que o receavam, os interiores iluminados e aquecidos das casas, com as famílias a conversar e a jogar diante da lareira, ou em volta de uma mesa farta onde o centro axial era assinalado por uma terrina de sopa fumegante. Invejou os cães e gatitos que eram mantidos lá dentro - até eles tinham direito, os desprezíveis animais - o fumo odorífero a lenha queimada que saía das chaminés, as camisolas de lã que as velhas urdiam nos seus cadeirões com longas agulhas que esgrimiam no colo.
     Invejou-os e deixou-os para trás, caminhando ou soprando sobre a neve, o senhor Frio.

Infra-texto

Escreveu um pequeno conto, pequeno e breve, que terminava de forma explícita, enxuta, sem sombras nem evasivas. Apercebeu-se de que se havia excedido. O conto tinha um parágrafo a mais, aquele em que ele explicava e vulgarizava tudo. Seleccionou o parágrafo no monitor do portátil e apagou-o. Ficou um instante a olhar a página em branco, e começou a escrever um novo conto, com muito cuidado.     (Desta vez tinha de se conter para não contar de mais no próximo micro-conto).

O novo Diógenes

- «Lembra-te!», era a única coisa que aquele homem andrajoso dizia às pessoas na rua com o ar mais sério do mundo 
     - «Lembra-te!» - repetia o homem andrajoso
     As pessoas, regra geral, assustavam-se, e seguiam o seu caminho. Ás vezes, as pessoas lembravam-se, de algo que tinham esquecido em casa ou no trabalho, dum promessa velada que haviam deixado para trás, ou que o bebé no carro chorava porque já há sete horas que não comia, lembravam-se de coisas assim na penumbra da memória, detalhes e pessoas que não julgavam importante ter presentes, ou que magoavam ou comoviam quando saíam para a luz. Não era fácil, ter mau aspecto, e importunar as pessoas. Uma vez ou outra, tinha uma reacção mais extremada, como um chega-para-lá com um empurrão no peito ou no ombro, ou uma chuva de insultos e ameaças.
     O homem andrajoso não parecia importar-se com isso.
     «Lembra-te!».
     Continuava a dizer, coçando a feia cicatriz que sulcava a testa e a face esquerda.
     «Lembra-te!».
     I…

As nozes e os dentes

Um cão pode ser um problema, um grande problema, dos maiores que existem. Ele e a mulher haviam comprado o dálmata um pouco antes da separação, decisão que nascera dum entusiasmo assolapado dela, e foi ela quem se encarregou de criar o animal - até aí, tudo bem! - mas depois, quando o divórcio aconteceu, ela não quis ficar com o amigo de quatro patas, e recaiu sobre ele, o homem mais inocente da Terra, a pesada pena de tomar conta do cão. E dava trabalho, tanto como criar um filho. Tinha de o alimentar, cuidar dele e da sua higiene, levá-lo à vacina, passear o cão, e para mais, não tinha jeito nem gosto por animais, e aquilo ameaçava a sua despreocupada independência, a liberdade anárquica de ficar com os colegas depois do trabalho a beber uns copos, sair ao fim-de-semana, ou passar a noite em casa duma conquista de momento, ou de uma das damas a quem pagava para ter sexo.
     A decisão foi espontânea e natural - tinha de se livrar do cão! Nem pensou em matá-lo, porque não seria capa…

Vagamundos

Estava cansado demais para sonhar e queria algo mais que não sabia explicar o que era. Sentou-se à espera, no alto da sua morada…resoluto mas incomodado (a pedra das campas é fria).