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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2011

Duas imagens para a mesma legenda

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Comunicação via rádio

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"Estou a sobrevoar neste momento uma ilhota rochosa a trinta milhas da costa, há uma fogueira a arder na praia, e letras gigantes desenhadas na areia. Um ésse, um ó e um ésse outra vez. Brutal! Deve ser dalgum eremita ou de um casal de pombinhos, a avisar que querem ser deixados a sós".



Abelha

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A jovem Débora tinha uma característica muito especial, uma abelha, pequenina e listada que a seguia por todo o lado, mantendo-se a uma discreta distância, mas sempre presente. Voejando alto a apenas alguns metros, pousada na fonte de pedra defronte da janela do seu quarto, a descansar no banco traseiro do seu carro, onde pudera chegar por um fresta no vidro que Débora deixava aberta em consideração pela sua amiga minúscula. Quem não gostava da presença da abelha era o namorado de Débora, Gustavo, que desenvolveu um ódio profundo pelo insecto, sobretudo depois dele ter voado ameaçadoramente em volta do seu nariz quando ele e Débora se enrolavam no banco traseiro do carro. Gustavo fez várias tentativas para liquidar a abelha. Tentou encapsulá-la com um copo de vidro na mesa de madeira do jardim, fumigá-la com fumo de cigarrilha, atingi-la com pedrinhas de saibro, mas sem resultado. O golpe de misericórdia para a abelha de Débora aconteceu quando ela estava pousada meigamente no om…
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Convivi com um homem chamado Trúvio, cujo corpo se revelava perante todos como um conjunto desigual e desproporcionado de membros e feições. Não tinha um braço igual a outro braço, uma perna parecida com a outra, os pulsos pareciam revirados e os dedos, os que tinha, apontavam os pontos cardeais como se tivessem sido partidos há muitos anos. As feições, como dizia, não desmereciam o contexto. Faltava-lhe uma orelha e o lóbulo da outra estava puxado para cima por algum fio invisível, o crânio era largo mas assimétrico, tinha uma das sobrancelhas com o feitio de um U, e os olhos, estrábicos, não fixavam nunca o mesmo ponto. Dificilmente Trúvio podia ser dado como exemplo de um homem vitruviano, projectado ou imaginado em função da Divina Proporção, mas posso dizer em seu favor, que era mais amável do que um cordeiro, e bebia cerveja como poucos.

Os quatro elementos

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As coisas aconteceram a um nível imperceptível no corpo daquele homem deitado na cama, sem que as pessoas que o rodeavam se apercebessem disso. Primeiro foi o Fogo, que começou a esmorecer no seu fígado como uma chama débil prestes a apagar-se, quase ao mesmo tempo que as sensações se diluíam ao longe, afastando-se vertiginosamente do núcleo dos seus rins, o âmago da Terra e, logo em sequência, o sangue parou no seu coração, morada do elemento Água, e o Ar evadiu-se da sua mente. Aí sim, as pessoas em redor deram por isso. Desatado que estava o último nó que segurava a sua alma ao corpo moribundo, todos puderam ouvi-lo com clareza, pensando, entre eles, que ele exalara o último suspiro.



Cultura (pouco) geral

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Diz-nos a mitologia grega que existe um cão monstruoso de três cabeças chamado Cérebro que guarda as portas do Inferno e do Paraíso, e que no centro dum e doutro mora um outro monstro chamado Coração.

o poder e a observação

A minha prima Otília acredita naquela história da relação entre o tamanho do nariz dum homem e as dimensões do seu membro viril. Ultimamente, confidenciou-me, tem dedicado tanto tempo ao tema, que começou a ter estranhos sonhos eróticos que envolvem homens com tromba de elefante.
A circular numa auto-estrada, entrou num túnel do tempo onde viveu trinta anos numa hora. Saiu mais velho, de cabelos brancos e músculos lassos, admirado de não lhe terem cobrado portagem.
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Este mês...

...estou acampado aqui ao lado
António Fresno desenvolveu ao longo dos anos uma aversão violenta às paredes, não podia ver uma que não fosse a correr contra ela, investindo de cabeça contra a superfície dura, uma e outra vez, até perder os sentidos, com a carne da cabeça transformada num rodilho de sangue. Os médicos decidiram então interná-lo, e fecharam-no num quarto apropriado com as paredes revestidas de almofadas e, quase que por magia, António Fresno deixou de investir contra as paredes. Nem lhes tinha ódio ou aversão, encostava-se a elas com uma doçura de gato doméstico, e a sua respiração parecia mesmo o ronronar tranquilo dum daqueles felinos. Os médicos ponderaram muito, e decidiram dar-lhe alta da instituição, desta vez, com o objectivo de o fazer perder aquele hábito perturbador de dormir em pé.

disperso diálogo esparso

- Ando meio chateado, aborrecido...
- Eu sei do que tu precisas, precisas de morar numa casa maior.
- Mas a minha casa é grande!
- Não, não é! Tu não cabes nela, não tens espaço que chegue para te mexeres, ar que baste para a tua respiração, livros e discos suficientes para nunca te sentires desapoiado, sem pés nem alicerces. A tua casa é tão pequena que não consegues espreguiçar-te sem correres o risco de partir alguma coisa ou dares um murro no tecto.
- Deves estar a brincar, a minha casa é tão grande que chego a sentir-me sozinho dentro dela. Para que é que eu preciso duma casa ainda maior...
- Está bem, retiro o que disse, a tua casa é enorme, gigantesca, mas tu não estás sozinho, tens-me a mim!
- A minha imagem no espelho...E porque é que achas que não posso passar sem ti. Devia era partir o espelho, e a ti com ele.
- Não faças isso! Afinal, estás a falar comigo, precisas de mim, e se partisses o espelho, cometias um grande erro porque, sem ele, é que a casa ia parecer mesmo muito peque…

Conto a duas mãos -1

De um momento para o outro viu-se reduzido a isto: um autêntico apátrida, um estudante-bolseiro, a viver num quarto alugado duma cidade desconhecida. Ainda não tinha, e era provável que nunca chegasse a ter, amigos, pessoas próximas ao seu afecto ou ao seu sorriso. O perímetro da sua vida reduziu-se ao extremo, vivia apenas do tempo das aulas, das refeições frugais, das horas de estudo no seu velho quarto habitado por muitas presenças pretéritas, dos passeios solitários numa cidade que permanecia estranha e longínqua como uma miragem ingrata.       Uma das poucas coisas agradáveis desses passeios, era a oportunidade de deter-se um pouco na ponte pedonal sobre a linha férrea, mesmo junto à estação de comboios. Fazia-o quando abandonava o seu refúgio à noite para ir jantar, sempre perto das nove da noite. Cruzava a ponte até meio, e parava a olhar para o lado norte, para o lado do túnel sob a estrada. Em cima das nove horas, chegava o comboio vindo de Torres. Sentia-se expectante, enqua…