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A mostrar mensagens de Janeiro, 2011

Janeiro on Twitter

Iniciei-me na arte do Origami e consigo fazer gaivotas,mariposas, coelhos... Mas não tigres de papel. Mordem-me os dedos antes de os acabar.
* Diz-se que James Stewart ganhou medo das alturas quando rodava "Vertigo", e mesmo depois do psicólogo o achar bem, não quis ter alta.
* O vampiro casou-se, e a sua primeira preocupação de homem casado, foi a de ir à loja devolver todos os espelhos que lhe tinham oferecido.
* Nunca conseguiu economizar nas palavras, e o que começou por ser uma nota de suicídio converteu-se numa autobiografia, que vai expandir.
* O gato subiu à copa da grande árvore, e ficou gelado de medo. Os transeuntes chamaram os Bombeiros para tirar a árvore debaixo do gato.

A taberna de Delos

A velha taberna de Rolo Paulo, situa-se no Beco das Fontainhas, na parte mais antiga, e degradada, da cidade. Já foi um restaurante ou casa de pasto, no tempos áureos do pai, e depois da morte deste, o filho converteu-o na taberna que é, por dar menos trabalho, e por não ter à mão uma cozinheira de mão-cheia como era a sua mãe, ainda viva e activa mas desavinda com ele por efeitos do testamento. Rolo Paulo, que já foi em tempos um jovem atleta de cabelos dourados e ar radiante, que gostava de correr pelas estradas sob a luz do sol, deixou que a meia-idade o encontrasse com mais quarenta quilos em cima, e um feitio e disposição semelhantes à de um endividado em noite de velório.
     A taberna de Rolo Paulo é um lugar escuro, sem muito asseio, onde os fregueses acorrem para umas bebidas e uns petiscos, mas também, para tentarem a sorte num dos jogos habituais - Totoloto, Lotaria, Euromilhões. Tem os clientes habituais da ordem, para umas e outras coisas, excepção feita para a tia de Rol…

Oeste Longínquo (3º mito urbano)

Logo que o calor começava a abrandar e o Outono dava os seus primeiros sinais, começava na pequena cidade de prédios de madeira, o ciclo dos madeireiros, gente rude e laboriosa que passava semanas inteiras no abate das árvores e a lançar os troncos cortados na correnteza do rio, que os conduzia até à foz a jusante da cidade, onde outros homens como eles, os recolhiam e carregavam. Mas a principal característica do ciclo dos madeireiros é que estes tinham finalmente trabalho com fartura, e o dinheiro parecia provir então de uma fonte inesgotável . Irrequietos por se verem livres dele, deixavam as famílias nos pequenos povoados no seio das montanhas e desciam com frequência à cidade em busca de mulheres e monumentais bebedeiras.
     Nesse ano, desceu também com eles um mancebo ingénuo, de que os outros se riam à socapa por carregar o algodoado nome de Narciso. Narciso nunca tinha descido ao vale, não sabia o que era uma cidade ou qualquer das coisas boas e más que um homem pode encont…
É um pedreiro diferente. Com um velho sábio Aimará, numa das suas viagens aos Andes, aprendeu o segredo de uma poção milenar que amolecia a pedra para ser moldada como barro macio. E isso tornou-se no seu trabalho apaixonado e secreto de todos os dias, compondo as formas sugeridas pelas pedras, e imprimindo-lhes traços, formas, feições. As suas obras anónimas geram espanto e maravilha nas pessoas, que louvam o engenho da mãe-natureza, olhando com menos indiferença o mundo em redor.
     Enquanto trabalha, este artista sumamente modesto, dá consigo a pensar como seria se alguma vez fosse elaborada um poção semelhante que pudesse ser aplicada ao coração humano; não para o moldar ou deformar, mas apenas para o limpar daquilo que ele possui em comum com a pedra mais dura.  

Raul Brandão - 2

«Sorrio, com as mãos enormes pousadas sobre as joelheiras das calças: sinto-me frio, tolhe-me o frio desde pequeno. Nunca me passou. Tive sempre as mãos geladas. O frio entranhou-se-me decerto com a pobreza. »E os olhares intimidam-me: desvio logo os olhos. Ouço toda a gente dizer lá consigo: - É o filho da Candidinha. – Os desgraçados deviam ser sozinhos no mundo. Para mãe basta-lhes a Desgraça. »O quê? A Vida?...A Vida reduz-se a isto: ser rico ou pobre. Mais nada. A ter ouro para todas as saciedades. »O que custa romper, sair da pobreza! Toda a gente nos empurra. É uma luta sem tréguas. E, no entanto, há homens que logo triunfam. A beleza, por exemplo, possui o quer que é de misterioso: rodeia-se de uma atmosfera de simpatia, que ajuda a vencer. Certos homens estão sempre à vontade. Aparecem e dominam. Mas há uma classe de pobres que trazem o frio consigo. Gelam os outros. Esses, é que são verdadeiramente filhos da Desgraça. Podem ter génio embora, nunca triunfam. Toda a gente os desd…

Raul Brandão - 1

«A Cega habituou-se. Habituou-se à escuridão, a sofrer, a estar sozinha e calada. Apurou-se-lhe o ouvido e o tacto. Com os olhos fixos no alto, percebe que correm os dias pelo sol que lhe passa nas mãos estendidas; sente no silêncio a vida dos montes e distingue todos os ruídos, e até a luz mais forte da luz mais fraca - o crepúsculo da madrugada. Às vezes confunde a claridade com o som, o canto da ave que ao anoitecer no salgueiro se despede da última gota de luz, com o fio de água que o vento balouça e se cala, para logo tornar a cair com o mesmo gorgolejo na pedra, como se lhe corresse dentro do peito».


Raul Brandão, trecho de "A Farsa", capítulo IX, Publicações Europa-América, 1992

Retrato de cores cruas

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("Hotel Room", pintura de Edward Hopper)
     Ele está recostado seminu sobre a poltrona aos pés da cama e, atirados pelo chão, os salvados daquela noite, as peças do seu fato de colete e gravata, o chapéu cónico às riscas que usara na festa do escritório, o invólucro rasgado do preservativo. A colega regressa da casa-de-banho, compondo a alça do soutien, e senta-se ao seu colo.      - Em que é que pensas?      - Em muita coisa…sei lá…penso que tu até podias ser uma amiga de infância ou uma namorada da escola, penso que podias ser a tal, o amor de toda uma vida ou que toda uma vida procuramos sem resultado e que, neste momento, podia estar a sentir-me o homem mais feliz e completo do mundo.      Ela afaga-lhe uma mecha de cabelo caída sobre a testa, acende um cigarro que deposita nos seus lábios. Encosta-se então ao seu peito peludo, e solta um suspiro antes de murmurar:      - A solidão não passa nunca, pois não?

"Eu sou aquilo que escrevo!" - ainda gritou o velho romancista, consumindo-se em combustão espontânea no seu leito, enquanto na praça diante do Parlamento encerrado, os seus e outros milhares de livros eram incinerados por adeptos fanáticos do regime totalitário.

Culpa dividida

O divórcio foi decretado, o casamento colapsara, e isso aconteceu porque ambos não haviam sabido ler e escutar os sinais. Pecaram por alheamento, quer quando ele fazia sinais de fumo enquanto fumava o seu cachimbo na biblioteca, ou acendia e apagava repetidamente os faróis quando arrumava o carro na garagem, ou ainda quando ela transmitia mensagens em código Morse ao tamborilar as unhas no braço da cadeira de espaldar, ou entoava o All by Myself durante o coito.

História com E maiúsculo

A História é escrita pelos textos e autores que sobrevivem, e não pela cinza das bibliotecas incendiadas, ou pelos sábios condenados à morte ou ao silêncio, que é a mais prolongada das mortes. Se conseguíssemos redigir uma História paralela a partir de todos esses elementos perdidos, poderíamos constatar que os nossos livros e manuais escolares ensinariam nos nossos dias, histórias e factos muito diversos.      Um pergaminho velino originário da antiga Biblioteca de Pérgamo, e depois transcrito para copta, naquele que ficou classificado como o Códice Adb Qurna – 4B (a primeira referência ocidental a esta obra encontra-se em Rawlinson, W.E., no seu “Account of Old Manuscripts”, de 1824), dá-nos uma visão diferente da vida de Aquiles, pelo menos, dos primeiros anos da vida do herói.      Aquiles nasceu na Tessália, e era filho do rei Peleu. Este velho texto não alude à ambrósia ou a outro artifício usado pela sua mãe, Tétis, para o tornar invulnerável, e menciona, inclusive, que o i…

Costumes e tradições

De meados de Janeiro aos últimos dias de Fevereiro, é a época indicada para colher rímulas. Por lei, cada cidadão só tem direito a colher três pés de rímula, mas há muitas pessoas que ignoram a recomendação das autoridades e conservacionistas e excedem em muito esse limite. Como se sabe, as rímulas só devem ser colhidas em noites de Lua cheia, usando para o efeito uma foicinha previamente aspergida com óleos santos. Ignora-se quando se terá iniciado esta prática, e o bom-senso adverte-nos de que ela se terá revestido ao longo dos tempos com alguns adornos folclóricos. É o caso, por exemplo, da foicinha aspergida com santos óleos, premissa que não se compreende muito bem, porque aço é aço, e a foicinha corta de qualquer forma. Também será, porventura, a recomendação da colheita dever ser efectuada em noites de Lua cheia, o que é um absurdo, porque as luas nada têm a ver com a prática em si ou com o ciclo orgânico das rímulas. Mais aceitável é a tradição ordenar que a colheita se f…

O ferrão

Quando os médicos pediram para ela contar o que se passara, o que ela lhes narrou, não com tantos detalhes, foi mais ou menos o seguinte. Pela madrugada do dia em questão, ela voltou a casa no carro do namorado. Ele deteve-o uns metros mais acima na rua, discretamente. Deram um beijo de despedida, e ela saiu, saciada e satisfeita consigo mesma. Fora uma noite linda, a festa de casamento dos primos, o circuito por alguns bares da baixa, o sexo sem pressas no banco de trás do carro. Parou encostada ao portão da casa dos pais, estes deveriam estar a dormir, ou talvez não estivessem, o que daria ao mesmo. Não abriu o portão, e desceu a rua até à fímbria arenosa da praia. Largou a carteira num banco junto à praia, descalçou os sapatos de salto alto e entrou nela, sentindo a areia gelada a envolver-lhe os pés nus. Era uma sensação desconfortável e ao mesmo tempo, agradável, vigorosa. Continuou a caminhar pela praia adentro. Estava maré vazante e entre ela e as águas erguia-se uma linha irre…

Maat

Numa aldeia perdida nas montanhas, nasce um bebé com umas marcas cordoadas na garganta delicada. Chora muito quando nasce, mas depois sossega quando sente que tudo está bem, o sangue nas veias, o ar nos pulmões, o regaço quente da mãe.
Um pouco antes - horas ou dias dum tempo absoluto - e no outro lado do planeta, um homem inocente é enforcado numa árvore solitária da planície.

Ambíguo e contíguo

O Fonseca do prédio, que morava no segundo andar direito, era o que se poderia chamar um perfeito estranho para Beatriz, a anciã de cabelos brancos que para ali se mudara há trinta anos atrás, a seguir à viuvez. O Fonseca não sorria, não falava, nem sobre o tempo, respondia com resmungos aos seus cumprimentos persistentes, e só por uma vez, em todo aquele tempo o viu ter um gesto insólito, que foi o de apanhar um saco de cenouras que lhe havia caído do saco de compras e lho entregar em mãos antes de se escapulir para o seu apartamento como um animal esquivo que se refugia na sua toca. Fosse como fosse, o Fonseca era uma presença, uma pessoa e não um objecto, e acostumara-se a sua tangível estranheza como se acostumaria à rebelde submissão dum gato doméstico. Quando descobriram o Fonseca sem vida no seu apartamento, a anciã sentiu essa perda como um golpe terrível, e nunca como então, se sentiu verdadeiramente só no prédio, como se estivesse a experimentar uma segunda e absurda viuvez.…
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Levantou-se no espaço apertado, abriu uma lata de conservas e comeu, mirou a copa das árvores, os bancos molhados na sua sombra, pôs de lado o portátil, ajustou o nó da gravata mirando-se ao espelho. A um canto da divisão, uma mão peluda colocou no chão mais umas quantas latas de conservas de peixe e fruta, e um cantil de água. Não lhe conseguia ver o rosto ou o resto do corpo, apenas a a mão e o antebraço enquanto executava a operação rotineira. Chegou-se ás grades, às ferrugentas barras de ferro que delimitavam a fachada nascente da jaula. Um casal de orangotangos descia o caminho defronte da jaula com um ar enfadado e domingueiro. À sua frente, a pequena cria segurava um balão pelo fio, enquanto gesticulava animadamente para chamar a atenção dos pais para aquele humano no Zoo.



Desabrigo

A jovem apareceu-lhe à porta da cabana numa manhã fria de Janeiro, tinha os cabelos desgrenhados e segurava contra o peito nu um punhado de flores silvestres com as mãos frias e sem sangue
- Abriga-me! - pediu ela.
Ele fê-la entrar, atirou mais um cepo para boca da lareira, e estendeu-lhe uma manta de motivos escoceses. Deixou-a aquecer-se ao pé do fogo, enquanto aquecia no fogareiro uma réstea de sopa num tacho enegrecido. Foi só quando ela começou a comer avidamente a sopa, de cócoras junto ao fogo, que ele se ajoelhou diante dela, e a fez olhá-lo nos olhos para lhe perguntar:
- Sabes que deixaste o paraíso lá fora, não sabes?

A imperfeição

Na Terra, parecia ser um dia como os outros, com a sua quota parte de guerras, mortes e salvamentos, alegrias e agonias. Mas esse não era uma opinião partilhada pelos doze conselheiros que se reuniram no salão de paredes de cristal, à espera do seu amo e senhor. Aquele era um dia excepcional, que exigia medidas excepcionais ou, pelo menos, era isso que pretendiam defender e argumentar. Ainda murmuravam sobre as razões que iriam apresentar e as palavras com que o fariam (não é que as palavras fossem mesmo necessárias), quando o seu amo entrou no salão: O amo, O arquitecto do universo, O enérgico demiurgo.
- Porque me chamaram desta vez? Vocês encontram sempre motivos mesquinhos para interromper a minha longa sesta.
- Temos uma aberração na Terra, um facto extraordinário, contra-natura, intolerável à luz dos planos da Criação e das suas constantes actualizações. Descobrimos que num dos países da América do Norte existe um homem, um banqueiro, que é o homem mais íntegro que já alguma vez e…

igualdade, fraternidade

O jovem madraço preguiçava no seu fofo sofá, quando deu pelas horas - eram horas de entrar ao serviço. Mas não lhe apetecia, e tinha o braço dormente. Esfregou este braço, enquanto pensava no que não ia fazer. Só aquele braço estava dormente, o outro braço estava normal, assim como as pernas. Mal sentiu a comichão no braço diminuir, mudou de posição no sofá e o seu corpo adormeceu por completo. Para mais, detestava desigualdades...
- Burro velho não aprende línguas!! - afiançou-lhes o moleiro no seu acacianismo desdenhoso.
- Do you agree, donkey? - Perguntou Sancho Pança.
- Pas du tout! - zurrou o seu velho burro.

Rotinas

Voltar do trabalho é uma das melhores rotinas que um homem pode adquirir, sobretudo, quando o trabalho ultrapassou, há muito, tudo quanto ele conseguia tolerar. Foi pois, com uma alegre boa-disposição que entrou no bairro onde morava, com as suas vivendas térreas de painéis solares a brilhar sobre as telhas escuras, e os vizinhos pacatos a passearem os cães nos passeios, ou a desunharem-se para manter a sua forma física em esforçadas caminhadas. Ainda se sentia uma pessoa abençoada quando divisou o álamo grande do seu jardim, e reconheceu, pelo vidro aberto, o ladrar cavado do São Bernardo que a mulher lhe havia oferecido pelos anos. Mas a boa disposição esfumou-se quando descobriu um táxi parado diante da casa com o motor a trabalhar. A mulher e os dois filhos também estavam cá fora na rua, como se o esperassem. Havia uma pilha de malas e maletas no acesso para a garagem, e dois vasos com plantas, as favoritas da esposa. Parou o carro, sabendo o que o esperava. Os filhos nem levantar…
Escuro, escuridão total, sentia-se a mover num túnel longo e escuro, um verdadeiro buraco, havia degraus, ou subia por algo parecido a uma rampa, e começou a ver uma luminosidade crescente, esbatida em volta, depois, foi como se uma cortina se tivesse aberto, e uma luz intensa entrou-lhe pelos olhos adentro. Foi um autêntico colapso da memória, uma branca em que se esqueceu de quem era ou de como tinha chegado ali, e a luz persistia, mas não uma luz inerte, fria, a luz tinha movimentos, figuras, sons, conseguia ouvir a doce música que dela emanava, e também conseguia sentir a presença de outros seres e pessoas à sua volta, dançando ou murmurando sem medo no seio da escuridão. E logo uma figura enorme se agigantou diante de si, e a auréola criada pela luz nas suas costas infundiu-lhe um sincero temor religioso. Devia ser um anjo ou coisa parecida.
     - Estou morto? - perguntou-lhe, com um nó na garganta.
     - Não, mas estará um dia se continua a chegar atrasado às sessões de cinema.…

A oração do novo ano

eu sou como o grito prestes a ser sonhado pela garganta o nascituro prematuro no seu casulo protector o rastilho atómico de uma nova estrela nos céus a onírica semente dormente pressentindo a árvore que nascerá dela o abraço prometido na hora do reencontro o livro que se começa a escrever após vinte anos de preparativos e gestação o voo de regresso ao carinho do ninho eu não quero saber de horóscopos, ascendentes, linhas da vida, eu sou o que escreve à má-fila na palma da mão e o que traça para si mesmo horóscopos abstrusos e absurdos, eu não sou nada, e raios-me-partam se nos próximos meses não serei um pouco mais do que nada antes de me lembrar de novo do nada que sou