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Outros dados, e cartas, no final da página

Janeiro on Twitter

Iniciei-me na arte do Origami e consigo fazer gaivotas,mariposas, coelhos... Mas não tigres de papel. Mordem-me os dedos antes de os acabar.
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Diz-se que James Stewart ganhou medo das alturas quando rodava "Vertigo", e mesmo depois do psicólogo o achar bem, não quis ter alta.
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O vampiro casou-se, e a sua primeira preocupação de homem casado, foi a de ir à loja devolver todos os espelhos que lhe tinham oferecido.
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Nunca conseguiu economizar nas palavras, e o que começou por ser uma nota de suicídio converteu-se numa autobiografia, que vai expandir.
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O gato subiu à copa da grande árvore, e ficou gelado de medo. Os transeuntes chamaram os Bombeiros para tirar a árvore debaixo do gato.

A taberna de Delos

     A velha taberna de Rolo Paulo, situa-se no Beco das Fontainhas, na parte mais antiga, e degradada, da cidade. Já foi um restaurante ou casa de pasto, no tempos áureos do pai, e depois da morte deste, o filho converteu-o na taberna que é, por dar menos trabalho, e por não ter à mão uma cozinheira de mão-cheia como era a sua mãe, ainda viva e activa mas desavinda com ele por efeitos do testamento. Rolo Paulo, que já foi em tempos um jovem atleta de cabelos dourados e ar radiante, que gostava de correr pelas estradas sob a luz do sol, deixou que a meia-idade o encontrasse com mais quarenta quilos em cima, e um feitio e disposição semelhantes à de um endividado em noite de velório.
     A taberna de Rolo Paulo é um lugar escuro, sem muito asseio, onde os fregueses acorrem para umas bebidas e uns petiscos, mas também, para tentarem a sorte num dos jogos habituais - Totoloto, Lotaria, Euromilhões. Tem os clientes habituais da ordem, para umas e outras coisas, excepção feita para a tia de Rolo Paulo, Cassandra, que nunca joga e não faz consumo. Todas as tardes, ela traz de casa, três portas abaixo, um ovo cozido dentro duma caixa de plástico, que come numa mesa de canto, depois de o cortar e polvilhar com o sal e a pimenta que pede ao sobrinho, rematando o petisco com um copo de água, da torneira, que Rolo Paulo não pretende gastar muito dinheiro com ela. Cassandra condiz com o resto da casa, parecendo ajustada ao mesmo conceito de decoração. Suja, mal vestida, com os cabelos desgrenhados como se os tivesse pincelado resina, Cassandra não se limita a compor o cenário, intervindo frequentemente nas conversas com a sua voz anasalada. Não se mete com todos, apenas com aqueles que preenchem os boletins de jogo.
     «Vai jogar?» - pergunta quase sempre - »quer que lhe calhe a sorte grande? Eu digo-lhe os números» - ou - »a chave vai ser esta...». E diz os números todos, um por um, mas ninguém liga. Respondem-lhe com murmúrios ou breves acenos de cabeça. afastando-a do pensamento enquanto tentam adivinhar os números da sorte. Cassandra diz-lhes tudo, mas ninguém presta atenção, Cassandra é uma presença desagradável, tem uma voz irritante, cheira mal, parece mal. Mesmo Rolo Paulo não a ouve, nem sabe o que fazer com ela. «É família, percebem? O que é que eu hei-de fazer? Ela não joga com o baralho todo!».

Oeste Longínquo (3º mito urbano)

     Logo que o calor começava a abrandar e o Outono dava os seus primeiros sinais, começava na pequena cidade de prédios de madeira, o ciclo dos madeireiros, gente rude e laboriosa que passava semanas inteiras no abate das árvores e a lançar os troncos cortados na correnteza do rio, que os conduzia até à foz a jusante da cidade, onde outros homens como eles, os recolhiam e carregavam. Mas a principal característica do ciclo dos madeireiros é que estes tinham finalmente trabalho com fartura, e o dinheiro parecia provir então de uma fonte inesgotável . Irrequietos por se verem livres dele, deixavam as famílias nos pequenos povoados no seio das montanhas e desciam com frequência à cidade em busca de mulheres e monumentais bebedeiras.
     Nesse ano, desceu também com eles um mancebo ingénuo, de que os outros se riam à socapa por carregar o algodoado nome de Narciso. Narciso nunca tinha descido ao vale, não sabia o que era uma cidade ou qualquer das coisas boas e más que um homem pode encontrar numa cidade, e foi pois, um homem adâmico que percorreu as ruas poeirentas da cidade, onde tudo lhe parecia uma revelação, um milagre acabadinho de criar, as mulheres de saia rodada e chapéus ondulantes, a quantidade e diversidade de pessoas nos passeios e a cruzar a rua por entre carruagens e cavalos, as roupas diferentes, os lampiões de querosene pendurados nos alpendres, os cheiros e os sons de um mundo completamente distinto do seu. Mas o maior dos prodígios surgiu diante dos seus olhos na primeira loja que descobriu na rua central da cidade - uma montra batida pelo sol, gigantesca, que espelhava a sua imagem ou a de um homem mesmo igual a ele, com calças de suspensórios como as suas, botas de cano alto e chapéu preto como os seus. Parado diante da imagem, esboçou um sorriso, e a imagem sorriu também, e ensaiou então outros gestos sucessivos, levou a mão ao chapéu, coçou o furúnculo enorme no nariz, afagou os esparsos pêlos de barba, e o seu reflexo copiou-o em tudo. Não havia dúvidas, era mesmo ele, e achava-se lindo de morrer, extasiou-se de admirar a sua imagem e, querendo abraçá-la, mergulhou para ela de cabeça, entrando pela montra estilhaçada da loja.
     No interior do estabelecimento, resguardado pelo muro defensivo do balcão, o lojista não se mostrou surpreendido por aquela entrada insólita.
     - Montanheses estúpidos - crismou em voz baixa, multiplicando mentalmente o dinheiro que o vidro poderia custar.



     É um pedreiro diferente. Com um velho sábio Aimará, numa das suas viagens aos Andes, aprendeu o segredo de uma poção milenar que amolecia a pedra para ser moldada como barro macio. E isso tornou-se no seu trabalho apaixonado e secreto de todos os dias, compondo as formas sugeridas pelas pedras, e imprimindo-lhes traços, formas, feições. As suas obras anónimas geram espanto e maravilha nas pessoas, que louvam o engenho da mãe-natureza, olhando com menos indiferença o mundo em redor.
     Enquanto trabalha, este artista sumamente modesto, dá consigo a pensar como seria se alguma vez fosse elaborada um poção semelhante que pudesse ser aplicada ao coração humano; não para o moldar ou deformar, mas apenas para o limpar daquilo que ele possui em comum com a pedra mais dura.  

Raul Brandão - 2

«Sorrio, com as mãos enormes pousadas sobre as joelheiras das calças: sinto-me frio, tolhe-me o frio desde pequeno. Nunca me passou. Tive sempre as mãos geladas. O frio entranhou-se-me decerto com a pobreza.
»E os olhares intimidam-me: desvio logo os olhos. Ouço toda a gente dizer lá consigo: - É o filho da Candidinha. – Os desgraçados deviam ser sozinhos no mundo. Para mãe basta-lhes a Desgraça.
»O quê? A Vida?...A Vida reduz-se a isto: ser rico ou pobre. Mais nada. A ter ouro para todas as saciedades.
»O que custa romper, sair da pobreza! Toda a gente nos empurra. É uma luta sem tréguas. E, no entanto, há homens que logo triunfam. A beleza, por exemplo, possui o quer que é de misterioso: rodeia-se de uma atmosfera de simpatia, que ajuda a vencer. Certos homens estão sempre à vontade. Aparecem e dominam. Mas há uma classe de pobres que trazem o frio consigo. Gelam os outros. Esses, é que são verdadeiramente filhos da Desgraça. Podem ter génio embora, nunca triunfam. Toda a gente os desdenha, toda a gente os acotovela, toda a gente lhes foge. São marcados para a pior das indiferenças, para a pobreza perpétua.
»(…)Metesse eu os braços até ao cotovelo no ouro, pudesse eu mandar até ao domínio, que talvez me transformasse. Passava-me a gaguez, a fealdade, o ridículo. Seria outro. O ser curvo, mole e trôpego que eu sou deixaria de existir, como um vestido velho que se deita fora.
»Ensinam-nos tanta coisa inútil, enchem-nos de ilusões, para quê? Pois não era melhor dizer-nos logo em pequenos: - Só o ouro dá a felicidade, o resto são tropeços? Não era melhor secarem-nos o coração, torcê-lo, deixá-lo como uma pedra e encherem-nos a alma de coisas práticas? Dizer ao pobre: Adula, não percas um minuto, triunfa, apesar de tudo. Só o ouro omnipotente existe.
»(…) Deus é uma mentira que muitas vezes nos faz recuar; o amor é outra; a outra é a honra. Estas coisas nos grandes homens são as máscaras e disfarces para enganar os medíocres, ou palavras para que a turba lhes não roube aquilo de que se apoderaram pela manha ou pelo combate.
»(…) Não se deve lisonjear sempre, nem sorrir sempre como eu sorrio. Os outros, diante de mim, retraem-se. O meu riso soa falso. Nenhuma roupa me cai bem e naturalmente sobre o corpo. Tudo em mim parece emprestado.
»E, no entanto, do que eu seria capaz! De tudo! Que força eu sou para ser empregada por um homem de génio, para completar outro homem. Sinto em mim o génio da intriga. Nunca recuo, não tenho preconceitos…Quem me quer comprar?»

Raul Brandão, excerto de "A Farsa", cap. V, Publicações Europa-América, 1992

Raul Brandão - 1

«A Cega habituou-se. Habituou-se à escuridão, a sofrer, a estar sozinha e calada. Apurou-se-lhe o ouvido e o tacto. Com os olhos fixos no alto, percebe que correm os dias pelo sol que lhe passa nas mãos estendidas; sente no silêncio a vida dos montes e distingue todos os ruídos, e até a luz mais forte da luz mais fraca - o crepúsculo da madrugada. Às vezes confunde a claridade com o som, o canto da ave que ao anoitecer no salgueiro se despede da última gota de luz, com o fio de água que o vento balouça e se cala, para logo tornar a cair com o mesmo gorgolejo na pedra, como se lhe corresse dentro do peito».


Raul Brandão, trecho de "A Farsa", capítulo IX, Publicações Europa-América, 1992

Retrato de cores cruas

 
("Hotel Room", pintura de Edward Hopper)

     Ele está recostado seminu sobre a poltrona aos pés da cama e, atirados pelo chão, os salvados daquela noite, as peças do seu fato de colete e gravata, o chapéu cónico às riscas que usara na festa do escritório, o invólucro rasgado do preservativo. A colega regressa da casa-de-banho, compondo a alça do soutien, e senta-se ao seu colo.
     - Em que é que pensas?
     - Em muita coisa…sei lá…penso que tu até podias ser uma amiga de infância ou uma namorada da escola, penso que podias ser a tal, o amor de toda uma vida ou que toda uma vida procuramos sem resultado e que, neste momento, podia estar a sentir-me o homem mais feliz e completo do mundo.
     Ela afaga-lhe uma mecha de cabelo caída sobre a testa, acende um cigarro que deposita nos seus lábios. Encosta-se então ao seu peito peludo, e solta um suspiro antes de murmurar:
     - A solidão não passa nunca, pois não?


"Eu sou aquilo que escrevo!" - ainda gritou o velho romancista, consumindo-se em combustão espontânea no seu leito, enquanto na praça diante do Parlamento encerrado, os seus e outros milhares de livros eram incinerados por adeptos fanáticos do regime totalitário.

Culpa dividida

     O divórcio foi decretado, o casamento colapsara, e isso aconteceu porque ambos não haviam sabido ler e escutar os sinais. Pecaram por alheamento, quer quando ele fazia sinais de fumo enquanto fumava o seu cachimbo na biblioteca, ou acendia e apagava repetidamente os faróis quando arrumava o carro na garagem, ou ainda quando ela transmitia mensagens em código Morse ao tamborilar as unhas no braço da cadeira de espaldar, ou entoava o All by Myself durante o coito.

História com E maiúsculo

     A História é escrita pelos textos e autores que sobrevivem, e não pela cinza das bibliotecas incendiadas, ou pelos sábios condenados à morte ou ao silêncio, que é a mais prolongada das mortes. Se conseguíssemos redigir uma História paralela a partir de todos esses elementos perdidos, poderíamos constatar que os nossos livros e manuais escolares ensinariam nos nossos dias, histórias e factos muito diversos.
     Um pergaminho velino originário da antiga Biblioteca de Pérgamo, e depois transcrito para copta, naquele que ficou classificado como o Códice Adb Qurna – 4B (a primeira referência ocidental a esta obra encontra-se em Rawlinson, W.E., no seu “Account of Old Manuscripts”, de 1824), dá-nos uma visão diferente da vida de Aquiles, pelo menos, dos primeiros anos da vida do herói.
     Aquiles nasceu na Tessália, e era filho do rei Peleu. Este velho texto não alude à ambrósia ou a outro artifício usado pela sua mãe, Tétis, para o tornar invulnerável, e menciona, inclusive, que o infante Aquiles teria sido ferido de morte por um javali numa caçada. Quando ele recuperou, Tétis confia-o a Quíron, um velho eremita do monte Pélion. Dele diz o manuscrito que era mais antigo que os mais novos penhascos de Pélion, e que fizera gravar nos quatro membros o nome dos quatro minerais da ciência sagrada. Quíron educa Aquiles para ser vigoroso e feroz nas batalhas, instando-o a capturar feras, de músculos e espírito temperados por provações e pelo rigor dos elementos. Ao mesmo tempo, fazendo uso da sua ciência secreta, concede a Aquiles o Elixir da Longa Vida, que possibilitou que Aquiles se mantivesse eternamente jovem e pudesse viver para sempre, desde que, como é evidente, nenhuma espada, nenhuma fera ou nenhuma tempestade no mar, pusesse um fim à sua vida.
     Era imortal, mas não invulnerável, poderoso mas fraco. O Elixir proporcionava uma saúde e uma juventude inquebrantável, e a educação ministrada por Quíron preparara-o para enfrentar todos aqueles que o quisessem matar.
     Foi por esse motivo que Tétis o tentou mascarar de mulher, para que fosse poupado à sorte das guerras e aos perigos do mar, e sentiu como se já o tivesse perdido, quando Ulisses desmascarou esse disfarce e o trouxe de regresso ao palácio que o viu nascer.
     O texto restante do pergaminho segue de perto a versão clássica do mito, com a sua participação na guerra de Tróia ou as suas desavenças com Agamémnon; mas o conjunto da obra desenha um novo perfil do herói – o de um homem que não morreria nunca por doença ou por velhice, e cuja formação o tornava invencível num combate justo. Disso se apercebem os seus inimigos, que depois de o tentarem vencer em duelo, só o conseguem derrotar, atingindo-o com uma ou mais flechas envenenadas. O veneno não tira a vida ao herói, apenas o enfraquece, ocasião que os seus inimigos aproveitam para o degolarem. Quando os Aqueus lhe prestam homenagens fúnebres, fazem-no diante duma pilha de cadáveres porque o corpo de Aquiles, decapitado e despido da sua armadura real, não se distingue do corpo de qualquer outro herói morto na refrega.


Costumes e tradições

     De meados de Janeiro aos últimos dias de Fevereiro, é a época indicada para colher rímulas. Por lei, cada cidadão só tem direito a colher três pés de rímula, mas há muitas pessoas que ignoram a recomendação das autoridades e conservacionistas e excedem em muito esse limite. Como se sabe, as rímulas só devem ser colhidas em noites de Lua cheia, usando para o efeito uma foicinha previamente aspergida com óleos santos. Ignora-se quando se terá iniciado esta prática, e o bom-senso adverte-nos de que ela se terá revestido ao longo dos tempos com alguns adornos folclóricos. É o caso, por exemplo, da foicinha aspergida com santos óleos, premissa que não se compreende muito bem, porque aço é aço, e a foicinha corta de qualquer forma. Também será, porventura, a recomendação da colheita dever ser efectuada em noites de Lua cheia, o que é um absurdo, porque as luas nada têm a ver com a prática em si ou com o ciclo orgânico das rímulas. Mais aceitável é a tradição ordenar que a colheita se faça a coberto da noite, porque é de noite que as rímulas dormem profundamente, permitindo que as pessoas se aproximem e as sujeitem para lhes cortar alguns pés, antes que elas se consigam libertar e se adentrem na mata, a coxear.


O ferrão

Quando os médicos pediram para ela contar o que se passara, o que ela lhes narrou, não com tantos detalhes, foi mais ou menos o seguinte. Pela madrugada do dia em questão, ela voltou a casa no carro do namorado. Ele deteve-o uns metros mais acima na rua, discretamente. Deram um beijo de despedida, e ela saiu, saciada e satisfeita consigo mesma. Fora uma noite linda, a festa de casamento dos primos, o circuito por alguns bares da baixa, o sexo sem pressas no banco de trás do carro. Parou encostada ao portão da casa dos pais, estes deveriam estar a dormir, ou talvez não estivessem, o que daria ao mesmo. Não abriu o portão, e desceu a rua até à fímbria arenosa da praia. Largou a carteira num banco junto à praia, descalçou os sapatos de salto alto e entrou nela, sentindo a areia gelada a envolver-lhe os pés nus. Era uma sensação desconfortável e ao mesmo tempo, agradável, vigorosa. Continuou a caminhar pela praia adentro. Estava maré vazante e entre ela e as águas erguia-se uma linha irregular de seixos e canas quebradas, que venceu, recolhendo a saia comprida à altura dos joelhos, e dando passadas largas sobre as canas. Sentiu uma picada no pé, e no instante em que a sentiu, não lhe deu grande importância, inebriada como estava pela luz nascente, as notações musicais do mar e do piar das gaivotas e, mais fundo, pelo vórtice duma música que dera no rádio do carro enquanto o namorado a penetrava. Só depois, por uma reacção secundária do seu cérebro, olhou para trás para descobrir o que a picara, convencida que estava de que deveria ser a lasca de uma cana, ou um cacto de praia, mas o que os seus olhos viram, foi uma seringa abandonada.

Maat

Numa aldeia perdida nas montanhas, nasce um bebé com umas marcas cordoadas na garganta delicada. Chora muito quando nasce, mas depois sossega quando sente que tudo está bem, o sangue nas veias, o ar nos pulmões, o regaço quente da mãe.
Um pouco antes - horas ou dias dum tempo absoluto - e no outro lado do planeta, um homem inocente é enforcado numa árvore solitária da planície.

Ambíguo e contíguo

O Fonseca do prédio, que morava no segundo andar direito, era o que se poderia chamar um perfeito estranho para Beatriz, a anciã de cabelos brancos que para ali se mudara há trinta anos atrás, a seguir à viuvez. O Fonseca não sorria, não falava, nem sobre o tempo, respondia com resmungos aos seus cumprimentos persistentes, e só por uma vez, em todo aquele tempo o viu ter um gesto insólito, que foi o de apanhar um saco de cenouras que lhe havia caído do saco de compras e lho entregar em mãos antes de se escapulir para o seu apartamento como um animal esquivo que se refugia na sua toca. Fosse como fosse, o Fonseca era uma presença, uma pessoa e não um objecto, e acostumara-se a sua tangível estranheza como se acostumaria à rebelde submissão dum gato doméstico. Quando descobriram o Fonseca sem vida no seu apartamento, a anciã sentiu essa perda como um golpe terrível, e nunca como então, se sentiu verdadeiramente só no prédio, como se estivesse a experimentar uma segunda e absurda viuvez. E a perda pareceu-lhe ainda maior, quando lhe vieram contar que o apartamento do Fonseca parecia um santuário dedicado a ela, com o seu nome escrito ou gravado em diversos materiais, algumas fotos suas tiradas nas ruas da cidade, e pequenos vestígios pessoais, como a sua assinatura nos papéis do condomínio, um bilhete de cinema amarfanhado, ou as flores secas que deitava fora. Trinta anos é o tempo de uma vida.

Levantou-se no espaço apertado, abriu uma lata de conservas e comeu, mirou a copa das árvores, os bancos molhados na sua sombra, pôs de lado o portátil, ajustou o nó da gravata mirando-se ao espelho. A um canto da divisão, uma mão peluda colocou no chão mais umas quantas latas de conservas de peixe e fruta, e um cantil de água. Não lhe conseguia ver o rosto ou o resto do corpo, apenas a a mão e o antebraço enquanto executava a operação rotineira. Chegou-se ás grades, às ferrugentas barras de ferro que delimitavam a fachada nascente da jaula. Um casal de orangotangos descia o caminho defronte da jaula com um ar enfadado e domingueiro. À sua frente, a pequena cria segurava um balão pelo fio, enquanto gesticulava animadamente para chamar a atenção dos pais para aquele humano no Zoo.



Desabrigo

A jovem apareceu-lhe à porta da cabana numa manhã fria de Janeiro, tinha os cabelos desgrenhados e segurava contra o peito nu um punhado de flores silvestres com as mãos frias e sem sangue
- Abriga-me! - pediu ela.
Ele fê-la entrar, atirou mais um cepo para boca da lareira, e estendeu-lhe uma manta de motivos escoceses. Deixou-a aquecer-se ao pé do fogo, enquanto aquecia no fogareiro uma réstea de sopa num tacho enegrecido. Foi só quando ela começou a comer avidamente a sopa, de cócoras junto ao fogo, que ele se ajoelhou diante dela, e a fez olhá-lo nos olhos para lhe perguntar:
- Sabes que deixaste o paraíso lá fora, não sabes?

A imperfeição

Na Terra, parecia ser um dia como os outros, com a sua quota parte de guerras, mortes e salvamentos, alegrias e agonias. Mas esse não era uma opinião partilhada pelos doze conselheiros que se reuniram no salão de paredes de cristal, à espera do seu amo e senhor. Aquele era um dia excepcional, que exigia medidas excepcionais ou, pelo menos, era isso que pretendiam defender e argumentar. Ainda murmuravam sobre as razões que iriam apresentar e as palavras com que o fariam (não é que as palavras fossem mesmo necessárias), quando o seu amo entrou no salão: O amo, O arquitecto do universo, O enérgico demiurgo.
- Porque me chamaram desta vez? Vocês encontram sempre motivos mesquinhos para interromper a minha longa sesta.
- Temos uma aberração na Terra, um facto extraordinário, contra-natura, intolerável à luz dos planos da Criação e das suas constantes actualizações. Descobrimos que num dos países da América do Norte existe um homem, um banqueiro, que é o homem mais íntegro que já alguma vez existiu, honesto até ao tutano, fiável e compassivo. Esse homem infortunado tem também o atributo de ter nascido com um par de asas, enormes como as asas dum condor. Viemos até si para Lhe pedir para nos deixar descer à Terra para corrigir o defeito. Não sei como aquilo foi possível, dado a nossa fidelidade aos planos estabelecidos, e todos os nossos exames e testes ao processo criativo.
- Seja, vão lá corrigir a vossa trapalhada, mas façam-no enquanto ele dorme e entrem pelas portas de marfim como se entrassem pelas portas de chifre!
Os conselheiros sentiram-se consideravelmente aliviados e acotovelaram-se à saída do salão, tal era a pressa que tinham em reparar a grave falta cometida.
Dois dias terrestres depois, um deles, porta-voz da classe pediu uma nova audiência ao Arquitecto Supremo, que, desta feita, não fez qualquer esforço para disfarçar que tinha estado a dormir.
- O que é desta vez? Trazem-me boas notícias?
- Sim, trazemos. O problema exposto por nós já está solucionado. Agora, o tal homem que foi mencionado por nós é um banqueiro como os outros, dúbio e ganancioso, que todos os dias trabalha no seu Banco próspero, para onde se desloca na sua limusina, ou a esvoaçar com as asas de condor com que a natureza o dotou.

igualdade, fraternidade

     O jovem madraço preguiçava no seu fofo sofá, quando deu pelas horas - eram horas de entrar ao serviço. Mas não lhe apetecia, e tinha o braço dormente. Esfregou este braço, enquanto pensava no que não ia fazer. Só aquele braço estava dormente, o outro braço estava normal, assim como as pernas. Mal sentiu a comichão no braço diminuir, mudou de posição no sofá e o seu corpo adormeceu por completo. Para mais, detestava desigualdades...
- Burro velho não aprende línguas!! - afiançou-lhes o moleiro no seu acacianismo desdenhoso.
- Do you agree, donkey? - Perguntou Sancho Pança.
- Pas du tout! - zurrou o seu velho burro.

Rotinas

     Voltar do trabalho é uma das melhores rotinas que um homem pode adquirir, sobretudo, quando o trabalho ultrapassou, há muito, tudo quanto ele conseguia tolerar. Foi pois, com uma alegre boa-disposição que entrou no bairro onde morava, com as suas vivendas térreas de painéis solares a brilhar sobre as telhas escuras, e os vizinhos pacatos a passearem os cães nos passeios, ou a desunharem-se para manter a sua forma física em esforçadas caminhadas. Ainda se sentia uma pessoa abençoada quando divisou o álamo grande do seu jardim, e reconheceu, pelo vidro aberto, o ladrar cavado do São Bernardo que a mulher lhe havia oferecido pelos anos. Mas a boa disposição esfumou-se quando descobriu um táxi parado diante da casa com o motor a trabalhar. A mulher e os dois filhos também estavam cá fora na rua, como se o esperassem. Havia uma pilha de malas e maletas no acesso para a garagem, e dois vasos com plantas, as favoritas da esposa. Parou o carro, sabendo o que o esperava. Os filhos nem levantaram os olhos, habituados que estavam àquela cena redundante. O benjamim brincava com um boneco do Action Man, enquanto o filho mais velho folheava um livro, reconheceu-o pela capa com verdes estampados, era “A Floresta”, da Sophia Andersen. Saiu da protecção do carro, disposto a enfrentar tudo. O olhar entediado do taxista, encostado ao carro, e a pergunta acerada da esposa.
     - Então querido, quem é que vais levar hoje à marisqueira? A mim ou à tua amante?


     Escuro, escuridão total, sentia-se a mover num túnel longo e escuro, um verdadeiro buraco, havia degraus, ou subia por algo parecido a uma rampa, e começou a ver uma luminosidade crescente, esbatida em volta, depois, foi como se uma cortina se tivesse aberto, e uma luz intensa entrou-lhe pelos olhos adentro. Foi um autêntico colapso da memória, uma branca em que se esqueceu de quem era ou de como tinha chegado ali, e a luz persistia, mas não uma luz inerte, fria, a luz tinha movimentos, figuras, sons, conseguia ouvir a doce música que dela emanava, e também conseguia sentir a presença de outros seres e pessoas à sua volta, dançando ou murmurando sem medo no seio da escuridão. E logo uma figura enorme se agigantou diante de si, e a auréola criada pela luz nas suas costas infundiu-lhe um sincero temor religioso. Devia ser um anjo ou coisa parecida.
     - Estou morto? - perguntou-lhe, com um nó na garganta.
     - Não, mas estará um dia se continua a chegar atrasado às sessões de cinema. Mostre-me o seu bilhete!

A oração do novo ano

eu sou como o grito prestes a ser sonhado pela garganta o nascituro prematuro no seu casulo protector o rastilho atómico de uma nova estrela nos céus a onírica semente dormente pressentindo a árvore que nascerá dela o abraço prometido na hora do reencontro o livro que se começa a escrever após vinte anos de preparativos e gestação o voo de regresso ao carinho do ninho eu não quero saber de horóscopos, ascendentes, linhas da vida, eu sou o que escreve à má-fila na palma da mão e o que traça para si mesmo horóscopos abstrusos e absurdos, eu não sou nada, e raios-me-partam se nos próximos meses não serei um pouco mais do que nada antes de me lembrar de novo do nada que sou

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...