INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

quase-crónica 2

   - Não te afastes muito, Rosa! - bradou-lhe Miguel da entrada do casarão convertido em Abrigo, trazia dois sacos com roupas e parecia muito atarefado. Rosa sabia, sorriu-lhe e acenou que não. A noite começava a cair e Rosa afastava-se com passadas tímidas, sorrateiras. Que sabia ele? A rua chamava-a, literalmente. Foi quando a passarada se acomodava na copa das árvores do passeio, que ela a ouviu distintamente, ouviu a sua menina a rir-se e a trautear uma cantilena infantil. Onde estaria ela? A malandra brincava certamente ás escondidas, como em tempos o faziam as duas na casa antiga. Apurou o ouvido e conseguiu perceber de novo as notas límpidas do seu riso.
   - Onde estás? - perguntou para o ar, e só lhe respondeu o chilrear ensurdecedor dos pássaros.
   Agachou-se ao pé dum carro estacionado, e espreitou por baixo. Nada. E outro mais adiante, e nada. Espreitava pelos gradeamentos das vivendas, às portas entreabertas dos prédios, ás esquinas das ruelas, e nada.
   - Anda, minha menina, está escuro e está frio, vem vestir as tuas roupinhas - desafiava, e ela não aparecia, e as ruas eram cada vez mais escuras e desoladas. E onde não havia casas, havia baldios, e casas em ruínas, onde se resguardavam os drogados em torno de pálidas luminárias. Já não havia carros, nem se viam pessoas pelas ruas.
   Pela primeira vez, sentiu receio, já não ouvia a sua menina e não sabia como voltar.
   - Miguel! Sequeira! - chamou Rosa com o medo na voz, sem qualquer esperança de maior.
   A resposta veio sob a forma de luz, uma luz doce, insidiosa, que emanava dum descampado junto a ela. Entrou nele de coração transbordante de felicidade.
   - Minha linda! - soluçou, feliz ao ver a filha diante de si, envolta por um halo de luz, uma figurinha pequena, mais pequena do que ela se lembrava.
   Subiu a rampa metálica ao encontro dela e abraçou-a com força, pespegando-lhe uma torrente de beijos.
   - Estás tão pequena! - queixou-se, emersas as duas na luz leitosa e brilhante - tens de comer mais, vou pedir ao Miguel que arranje comida para ti, muita comida!
   E como que para provar a sua razão, desentranhava da sua trouxa as roupas de criança da sua filha e ia experimentando-as nela.
   - Vês! Vês! - exclamava. Era a blusa que ficava larga, o lenço da cabeça, a saia com joaninhas estampadas que nem servia - tens de comer mais, estás a mirrar.
   A sua menina libertou-se dos seus abraços e acenou-lhe em jeito de adeus.
   - Precisas de ir, não é? Está bem, eu volto aqui noutro dia. Mas alimenta-te, minha querida, estás muito enfezada e assim fico preocupada contigo. Adeus!
   Desceu a rampa e ficou a acenar, enquanto a rampa do veículo espacial era recolhida para o interior do engenho. Lá dentro, e sem que ela o pudesse ver, um minúsculo alienígena horrorizado corria para se encerrar numa câmara de descontaminação.
   Rosa deu alguns passos para trás, sempre a acenar, quando a máquina se elevou nos ares, riscando a noite com a sua luz. E quando tudo ficou escuro, voltaram os receios, e ela voltou à rua, em busca do caminho para o Abrigo. Deambulou durante algum tempo até encontrar, ou ser encontrada, por Miguel. Quando o viu, Rosa correu a abraçá-lo, a chorar de alegria, feliz como nunca.
   Miguel não lhe perguntou a causa daquele pranto, não lhe perguntou nada, habituara-se a não o fazer.

Marcas

   Pequena fila na caixa do supermercado, um casal de idade dispõe os artigos na banda rolante, ela muito domingueira, de vestido pérola, colar de pérolas de vidro e cabelo armado num castelo de laca; e ao seu lado, o marido, de fatiota e lenço no bolso do casaco.O homem não está com meias medidas e e atrai as atenções com uma cantiguinha que improvisa sobre o sol e a chuva, libertando o seu cântico desafinado enquanto agita os ombros ao ritmo do repertório. Atrás deles, arruma-se na fila um casal jovem que os conhece.
   - Como está? - Pergunta o homem mais novo, com uma pergunta clássica do género: responde-qualquer-coisa-vaga-só-para-não-dizeres-que-não-te-dirigi-a-palavra.
   - Ah meu amigo! - responde - por aqui ando, a cantar para alegrar os corações dos outros.
   - Pelo menos está bem disposto... - respondeu o mais novo, com a voz em diminuendo para rematar o breve diálogo.
   - Ah! não é bem assim! - o crescendo da sua voz não augurava nada de bom - ainda hoje estive a chorar, a minha mulher que o diga. Estava a falar com uma moça nossa amiga, e veio à conversa a guerra no Ultramar, e pumba! - comecei a chorar só de falar nisso.
   - Aquilo deixou marcas, não é?
   - Se deixou, só quem lá esteve é que consegue perceber isso. Aquilo não foi só uma guerra, não foi como aquelas excursões armadas que a Nato e a ONU fazem, não senhor, aquilo foi um inferno na terra, pá, aquilo marcou as pessoas dos dois lados como um ferro em brasa na pele duma rês.
   - Pois, é complicado...
   - Complicado? Complicado é preencher o IRS, aquilo foi o diabo, e o diabo não larga as pessoas que estiveram numa guerra, e entra-lhes nos sonhos com a voz e a cara daqueles que nós matamos e torturamos lá. Ou você pensa que aquilo foi uma brincadeira?
   - Não, claro que não, eu ainda não era nascido, mas sei que não foi! Esteve lá muito tempo?
   - Não, eu não cheguei a ir. Quem lá esteve foi um primo meu, o Bicas. Epá! As coisas que o gajo conta, pá?! Nem lhe passam p'la cabeça, pá!!

Reunião de família

     Os convivas sentaram-se todos à mesa, estranhos convivas, na verdade. Na ala direita da mesa, um leão sentado, um rinoceronte, um hipopótamo e um zebu. E defronte a eles, também sentados como podiam, em cadeiras ou no chão, um elefante, uma girafa, um touro da Hircânia, e um corpulento javali. Era um verdadeiro jantar, porque eram animais mas também pessoas de verdade. Comiam como animais e conversavam efusivamente como peixeiras ou barbeiros em função. Na mesa ainda havia um lugar vago, e um prato (diminuto) vazio. O comensal a quem ele se destinava chegou atrasado, subiu por uma das pernas da mesa e posicionou-se junto ao prato com as patinhas dianteiras de barata a esfregarem-se uma na outra.
     - Gregor, pobre Gregor - susurrou o leão para o rinoceronte, o seu parente mais próximo entre os Samsa - sempre com os seus complexos de inferioridade.

A Besta do Extermínio

   A Roberto, zoólogo iniciante, especializado em Etologia, ocorreu-lhe uma dúvida original: o que aconteceria se um grande felino, um tigre ou pantera, fosse colocado diante dum espelho? Que comportamentos ou reacções se poderiam esperar dele?
   A questão parece insignificante, mas para ele assumiu uma importância capital, épica, um pouco como parece este tipo de questões a qualquer novel cientista que gostaria de passar de imediato do gatinhar ao voo, queimando as etapas intermédias e morosas que consomem dezenas de anos da vida útil dum indivíduo.
Dando seguimento à sua questão, mandou forrar um dos lados duma jaula em ferro, com um gigantesco espelho que preenchia um dos seus lados, ao topo. Em seguida, trouxeram a pantera negra, fazendo-a passar da jaula em que se encontrava para aquela, num movimento registado por câmara de vídeo e com Roberto com o bloco de notas numa das mãos e o gravador ligado no bolso da bata.
   A pantera entrou, correndo-se a porta atrás dela, e ficou a olhar para o espelho durante uns cinquenta longuíssimos segundos. De imediato, arqueou o corpo e saltou para a superfície vítrea mas quando todos esperavam ouvir o baque dos dois corpos sólidos, ou o estilhaçar do vidro, nada disso aconteceu. A pantera entrou dentro do espelho, passou para dentro dele.
   Agora, eu e vocês podemos compreender o triste fim que tiveram o Coelho Branco, o Gato de Cheshire, a Rainha de Copas, o Chapeleiro Louco e todas as outras criaturas maravilhosas que moravam no outro lado do espelho.

n-a-t-a-l

    Não quero que se deixem influenciar por mim, nem pretendo crocitar como uma ave agourenta, mas posso afirmar-vos que o Natal já não existe, foi destruído. Por quem? Por muitas pessoas e por nenhuma em especial. Eu vi! Vi tudo o que fizeram! Entraram portas adentro pela casa das minhas evocações, e destruíram a árvore de natal e os enfeites, despedaçaram no presépio as figuras toscas e os relevos em pedra e musgo que sustentavam casebres, moinhos, pontes e castelos. À árvore - pinheiro autêntico a cheirar a resina e a caruma - não satisfeitos em derrubá-la para a despojar de todo o enfeite, esgravataram no seu tronco como lémures ansiosos até exumarem nele pálidas lagartas que me apresentaram como uma iguaria inestimável, para que eu me apercebesse da podridão que lavrava sob a epiderme das decorações. Mas não foram só as decorações ou os enfeites que foram destruídos, foi tudo! A música, os risos, a ansiedade primaveril e luminosa, o odor dos cozinhados, a tentação alegre dos doces e bolos dispostos na mesa grande da família. Esta gente destruiu tudo, esgarçou, estilhaçou, estraçalhou, pisoteou tudo. Antes de me deixarem a sós com as ruínas das minhas memórias, houve um de entre eles que se aproximou de mim, deu-me duas pancadinhas no ombro e, como se pretendesse animar-me, lembrou:
   - O que é que tu estavas à espera? Tornaste-te um adulto!

o ponto de não-retorno

   A sua relação afectiva e sexual com Odete era marcada pela intermitência. Odete vinha ter com ele, ou ele ia ter com ela. Para cá e para lá. Na casa dum ou na do outro, no carro, nalgum lugar, lá iam tecendo a tapeçaria pálida dos seus quereres e sentires.Uma vez ela sugerira-lhe que vivessem juntos, e não passara da sugestão aventada, e esquecida; noutra ocasião, calhou a ele concluir a meio duma conversa, que seria mais confortável viverem os dois no mesmo sítio - sim, confortável fora a palavra que usara, como se mencionasse um colchão ortopédico ou uma almofada para pôr debaixo do rabinho num jogo de futebol. Talvez por isso, a proposta velada não teve seguimento. E as coisas arrastavam-se nesta urdidura surda, quando ele se viu sentado no barbeiro à espera de vez enquanto folheava uma revista com sete meses de idade. No rodapé duma entrevista, para preencher espaço vazio, mencionava-se um colorido facto histórico - Hernán Cortés, querendo motivar os seus homens a empreenderem a conquista do império Asteca, mandou incendiar os navios que os haviam levado até ali. Era um sinal claro e inequívoco do que tinham de fazer, tal como aquela nota de rodapé deflagrou aos seus olhos como um sinal providencial daquilo que ele próprio tinha de fazer.
   Umas horas depois, o tempo que precisou para ter o cabelo cortado e a barba feita, elegantizar-se e ultimar alguns preparativos, pegou no seu velhinho Fiat 127, e partiu ao encontro de Odete com a viatura a roncar e fumar como uma locomotiva velha. Eram já onze e trinta da noite quando lá chegou. Odete morava num quarto alugado na periferia da cidade, num prédio a apenas trinta metros da Escola onde agora leccionava com as mesmas regalias e estabilidade dum soldado raso da Legião Estrangeira. Seria problemático incendiar o carro diante do prédio, pelo que procurou um lugar vazio, o que só veio a encontrar no parque de estacionamento, completamente deserto, dum supermercado vizinho. Embebeu um pano com gasolina, e pendurou-o à saída do depósito como uma mecha monstruosa, e pegou-lhe fogo, fugindo dali a sete pés. A uma distância prudente, assistiu à explosão do pobre carro, com a expressão grave e soberana dum conquistador predestinado a derrubar impérios.
   Procurou Odete na sua morada. Odete não quis saber do seu carro nem de Cortéz. Odete já não o queria na vida dela porque se cansara e já não estava só. Sem protestar, voltou ao parque de estacionamento, e foi observar o rescaldo do seu carro incinerado. Na palma da mão, virava e revirava uma fina aliança em ouro, o único ouro que pudera trazer do seu império Asteca.

Carrêgo

   Quis o acaso que eu tivesse parado o carro à porta do café da aldeia, quando Juan Amalte se aproximava pelo passeio, a arrastar-se com movimentos penosos. Figura bizarra, a do Juan Amalte, cujo nome e história me contaram depois, a meu pedido. Imaginem o homem mais doente que possam imaginar, e podem titulá-lo de Juan Amalte sem qualquer injustiça. Torto, retorcido, os olhos raiados de sangue, apoiado num cajado grosso com toda a força dos seus braços porque as pernas já quase não o sustinham, e bastaria olhar com um pouco mais de atenção para descortinar na pele das mãos, do pescoço e da cara, altos sobre a pele, dos tumores emergentes que se formavam.
   Entrei no café para comer qualquer coisa e Amalte entrou também. Já todos sabiam ao que ele vinha. Juntaram-se à sua volta - homens e mulheres de diferentes idades - e imprimiram as mãos sobre o seu corpo enquanto ele gemia e gritava de dor e, logo em seguida, para meu completo espanto, começaram a insultá-lo e expulsaram-no dali com murros e pontapés. Enquanto o pobre homem subia a rua como podia, as pessoas no interior do café retomaram a sua compostura habitual como se nada se tivesse passado.
   Rebuscando alguma coragem, perguntei à dona do estabelecimento a razão daquela cena e o papel daquele homem estranho. Juan Amalte, explicou-me ela sem pejo, era o carrêgo da aldeia, pagavam-lhe para receber no seu corpo as faltas e os crimes das pessoas, e enquanto o fazia, a sua saúde e aparência definhavam de inúmeras formas diferentes. Quando a carga que tinha sobre si se tornava quase insuportável, ele abandonava a aldeia e subia à montanha onde, depois de processos e rezas que só ele conhecia, se banhava no Olho d'Água onde nascia o rio Pane que passava junto à aldeia, da parte do levante. Quando descia da montanha, Juan era um outro homem, forte e saudável como um estivador, e reinstalava-se na sua casa de sempre, vivendo confortavelmente do que os outros lhe davam.
   O meu trabalho como caixeiro-viajante, e os compromissos que já tinha agendado, não permitiram que me demorasse por ali até à volta de Juan Amalte, mas anotei mentalmente que teria de voltar àquela aldeia para voltar a ver o carrêgo dos seus habitantes. Por motivos vários que se prendem com a carteira de clientes e com as flutuações do negócio, apenas consegui fazê-lo largos meses depois e, mal lá entrei, dirigi-me de novo ao café, a única referência que tinha no local. A dona não me reconheceu, mas contei-lhe que havia lá estado antes e perguntei-lhe por onde andava o Juan Amalte.
   Ela contou-me então que Juan Amalte já não morava na aldeia, fora banido dela para todo o sempre, mas ela achava que ele não tinha a culpa e que fora uma injustiça de todo o tamanho. A vida da aldeia passara por uma fase sombria, com vários crimes de sangue que ninguém conseguiu deslindar, mas que todos acreditavam prender-se com terrenos e questões de partilhas. Depois desses crimes ocorrerem, Juan Amalte voltou a carregar com as faltas de todos e subiu à montanha para se purificar e, desta vez, teve de ser ajudado a subir por dois familiares porque não conseguia sequer andar. Naquele dia triste em que Juan se banhou na nascente do rio Pane, toda a criatura, animal ou homem, que bebeu das suas águas, morreu envenenada.

Sedimentos

    O número quatro da Rua das Bétulas, no bairro "operário" da cidade, é uma vivenda de dois pisos, com alpendres, telheiros e sacadas por todo o lado. Os primeiros moradores da casa de que as pessoas se lembram, era um casal que aí vivia, os Sousa. Diz-se que haviam vivido em Inglaterra e que no interior da casa isso era notório. Uma sala ampla com um balcão corrido num dos lados, com copos e canecas de vidro dependuradas como num pub, aparatos e acessórios de sistemas de aquecimento, muitos vidros e vidraças para receber a luz do Sol por ténue ou breve que ela surja. Mas o que os próprios Sousa apontavam como inequivocamente britânico era o papel-de-parede que revestia quase todas as divisões, e todas as que compunham o quadrilátero das paredes exteriores da casa. O primeiro papel de parede que eles elegeram tinha o motivo dum tecido de xadrês, o escocês, como nos kilts dos ditos e nas camisas de flanela dos pescadores portugueses. Como a humidade grassava naquela casa e o papel-de-parede desfazia-se como papel à chuva, os motivos do papel-de-parede foram sendo mudados ao mesmo ritmo, unicolores lisos, com listas, com motivos de flor-de-lis, de orquídeas, de animais da savana, silhuetas de andorinhas, de borboletas, de nuvens, de nus, de nozes, de ninfas... Os papéis iam-se sobrepondo em camadas, regendo o mais recente sem que o mais antigo fosse arrancado, e as paredes foram-se libertando da tirania dos ângulos e linhas rectas para apresentarem superfícies arredondadas, boleadas e curvilíneas como a anatomia de raparigas na tenra adolescência. É claro que estas remodelações tiveram um fim, morreram como morrem as pessoas. Neste caso, morreu apenas um dos membros do casal e o cônjuge foi viver para casa dum dos filhos. O número quatro da Rua das Bétulas esteve um tempo sem ninguém até ser comprada por um casal jovem, que se casara há menos de um ano. Este casal, que não partilhava os gostos anglófilos dos Sousas, nem a sua predilecção obsidiante pelo papel-de-parede, determinou desde o primeiro segundo no interior daquela casa, que toda aquela papelada tinha de ser removida por completo. Contrataram-se operários para o trabalho, que começaram a cortar o papel camada a camada, arrancando-a como se descascassem uma cebola. E o facto é que, quando chegaram ao último, ou melhor, quando arrancaram o último papel de parede, o escocês como o kilt dos ditos e as camisas de flanela dos pescadores, descobriram que não havia mais nada por trás, apenas a visão desembaraçada do jardim exterior da casa.

O escanção

    Pegou no copo alto com veneno e ergueu-o contra a luz, agitando para lhe admirar a cor e os tons, em seguida, aspirou a sua fragrância, com delicadeza, não para encher os pulmões mas para reter as suas modulações mais ténues. Por fim, e contrariando tudo o que havia aprendido ao longo dos anos, encheu a boca e engoliu sofregamente todo o líquido do copo.

O reencontro

   Com delicadeza, com luvas de pelúcia, ela contou-lhe:
   - Vais ser pai!
   Ele galgou, ejectou-se, entrou em órbita, apesar das preocupações tidas. Pai!?? Não tinha coragem para tal. Foi até ao quarto alugado em que vivia, fez as malas e desapareceu. Do quarto, da cidade, do universo dela.
   Os anos passaram, anos que chegassem para as montanhas se erodirem em sedimentos e areia, e os cabelos embranquecerem com a palidez invernal dos dias.
   Reencontrou-a, quase sem se aperceber disso. Viram-se cara a cara numa estação de comboios.
   - A tua filha está comigo! - disse-lhe ela secamente.
  A filha!!?? O que iria ela dizer, certamente gritaria de raiva e revolta, vilipendiando a fuga cobarde do cobarde que era.
   - Não quero vê-la! -defendeu-se.
   - Ela não te faz mal...
   E não fazia. Sentada numa cadeira de rodas, tinha a língua a pender da boca como um farrapo de carne, e o olhar demente dançava entre os candeeiros do tecto.

O exemplar

     Nas traseiras do Museu de Cera, há uma porta fechada a sete chaves que, para ser franqueada, tem de se subornar dois ou três funcionários do Museu, e apresentar uma licença especial rubricada por, pelo menos, quatro representantes do poder local. Cumpridos esses trâmites, chega ao pé de nós o discreto funcionário do Museu com o queixo afundado na base do pescoço, e abre a porta, lenta e morosamente, ao ritmo do trinco de cinco voltas da fechadura. Aberta a porta para trás, encontramos uma divisão pequena e uma segunda porta com fechadura de segredo electrónico que nos permite a passagem para um cubículo ainda mais pequeno com uma outra porta, esta com uma corrente e um cadeado entre o puxador e um ferro recurvo na parede. Finalmente, entramos numa sala mais espaçosa com um longo corredor sombrio em frente. O funcionário liga a lanterna de bolso e guia-nos pelo corredor, tendo o cuidado de manter o foco da lanterna apontado ao chão para que não se lembrem de estudar as suas feições.
     Chegados ao fim do corredor, bastou ao funcionário ligar o interruptor e acende-se a luz, fraca, como convinha. Estamos numa sala oval, com uma estátua de cera no centro da sala, mantida intacta pelo ambiente climatizado. Representa um homem sentado a uma secretária a manusear papéis. Tem as mangas da camisa arregaçadas, e olha para as os papéis espalhados pelo tampo com um ar preocupado. Esta estátua já figurou na exposição do Museu, mas foi retirado para não se infligirem danos morais aos visitantes desprevenidos. A estátua representa Arturo  Bromeliano da Costa, um abnegado servidor da Rex Publica, um político, invulgar, para não dizer, rarríssimo. Arturo serviu sempre a cidade e o estado com genuína e desinteressada dedicação. Nunca colheu ou comerciou favores, nunca acumulou cargos e auferimentos de dinheiro, nunca decidiu em função de outros imperativos que não fosse o bem das pessoas e a justiça dos actos. Arturo era uma ameaça, uma existência que incomodava. Um celerado matou-o a golpes de picareta, como a Trotsky. A estátua representa-o no seu trabalhoso ofício de explicador, único trabalho que se lhe conheceu e a sua única fonte de rendimentos. Para os políticos, Arturo é o sinal visível da anarquia, e de todas as forças que ameaçam subverter e colapsar a ordem política e a harmonia social. Quando alguém sobe nos quadros dos Partidos políticos ou se destaca nos corredores do poder, os seus pares trazem-no aqui para terem noção do que devem evitar, do exemplo que não devem seguir. É também por esse motivo que aqui estou, a convite do líder distrital do nosso partido. Enfrento a imagem da besta e, como os outros, cuspo no escarrador aos seus pés, e imprimo a palma das mãos no cabo da picareta que aí se guarda. Cumprido o rito, regresso com os outros ao exterior, todos mais convictos dos nobres ideais e sólidos princípios que nos movem.

espírito natalício

     No beco sujo e cheio de luxo, o sem-abrigo andrajoso encontrou no chão um casaco preto, quase novo, e silvou de alegria enquanto o vestia. Voltou a por a sua trouxa ás costas, e ainda não tinha dado dois passos, quando descobriu um gorro largado no chão, que enfiou na cabeça, e logo depois umas calças e uma camisola de lã atiradas para um canto. Tendo mudado de roupa e enfiado as velhas no saco, descobriu então a arma, brilhante e de cor da prata, a espreitar entre dois caixotes do lixo. Empunhou-a. Não precisava da arma, mas se a conseguisse vender, obtinha uns trocos para a comida. Com a nova indumentária e empunhando o revólver, chegou à entrada do beco, onde não encontrou mais nada, mas foi encontrado pela polícia.

quem é quem?

     Encontrou um velho senil na rua e levou-o à polícia (estava preocupado com ele, porque não parecia saber quem era nem onde morava). Aí, os polícias resolveram a situação com salomónica sabedoria, trocando-lhes os papéis e roupas, após o que deram aos dois instruções precisas sobre quem deveria encontrar quem, antes de os voltarem a ver de novo na esquadra.

a dança do fogo

   O corpo ficara gravemente carbonizado. Apenas o rosto fora um pouco poupado, a parte dos lábios, e os olhos, frescos e muito azuis como duas águas-marinhas. Agitava-se para que os filhos se aproximassem, e com os sons rebeldes da sua garganta, procurava dizer-lhes:
   - Acreditem ou não, as chamas dançavam para mim!

sem futuro

     Era uma pessoa sorridente mas de uma tristeza devastadora. E como todos os palhaços e gargalhadores profissionais e fabricantes de anedotas; andava desfasado, distante, do lado engraçado da vida, do bom humor e da alegre fruição da vida. E isso fazia dele um absurdo tão grande que não sobreviveu ao ponto final desta frase.



chanadu

Gostava 
muito de chá, 
de beber
diferentes 
tipos de chá a distintas 
horas do dia e da 
noite.
Chás de frutos,
de ervas
chás calmantes,
reparadores, 
chás para 
alguma coisa e para
coisa nenhuma
apenas, 
pelo prazer
do calor no peito
e o benefícios não
declarados
dos seus
sabores
aromáticos
também bebia
chá de angústia
todos
os dias
a qualquer hora,
chás de angústia,
sempre que 
a filha
acabava
em casa
o seu
périplo
da
droga

chama e gelo

     A deusa do Sono não chegava a por os pés no solo, e adejava sobre tudo como um fio de seda a esvoaçar e desse modo se aproximava das pessoas cansadas e tocava-lhes nas pálpebras para que as cerrassem com alívio. Mas a deusa do Sono tinha perpétuos sonhos de amor, e perseguia-os com toda a divindade ou semideus que encontrasse com o desejo a palpitar, ardente, no seu corpo jovem; outras vezes, com o próprio corpo daqueles que acabara de adormecer, suscitando neles sonhos febris e desconexos que reflectiam o acto. O esposo da deusa do Sono, o seu esquecido e atraiçoado esposo, seguia-a por toda a parte e, sempre que conseguia, contrariava a acção da deusa, insinuando nas pessoas uma inquietude nevoenta, fria e e atormentada que emergia numa gelada insónia.

A nostalgia do Sol

   Os humanos são uma coisa rara, pensou, enquanto se refugiava da chuva na frutaria do senhor Alves. São capazes de andar horas à torreira do Sol, mas uma gota de chuva obriga-os sempre a correr.
   - Chove a cântaros!!- exclamou em voz sonora, empregando correctamente essa expressão pitoresca.
   - É verdade, está no tempo dela! - retrucou o senhor Alves, de forma previsível.
   - Faz falta à agricultura, e as barragens estavam vazias - prosseguiu a Dona Amélia, uma freguesa, aproveitando a onda - e se ela não vier agora, o próximo ano será um ano tramado! Mas é pena não haver Sol para nos aquecer...sabia tão bem um pouquinho de Sol...
   Um súbito silêncio de conversa esgotada coroou as suas palavras. Entre um e outro, o refugiado meteu algumas cebolas num saco de plástico para justificar a entrada no estabelecimento. Lá do fundo daquele mutismo desconfortável, emergiu o senhor Alves com uma tirada filosófica:
   - Infelizmente, não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura!
   A frase aturdiu-o, porque baralhava os seus conceitos, e subvertia a lógica mais elementar. Pagou as cebolas com a quantia exacta que o senhor Alves lhe pediu, antes de sair para a chuva e voltar ao seu apartamento. Aí, sentou-se à janela a olhar a chuva. No horizonte, entre nuvens carregadas, começava a ganhar espaço uma nesga de céu claro.
- Não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura! - 
   Um novo conceito engatilha uma atitude correspondente, exige e carece de uma resposta adequada. Saiu do apartamento com um banco de madeira na mão, parou na despensa do condomínio e retirou dela um escadote sujo de tinta. Assim ajaezado, subiu as escadas até ao terraço do prédio, armou o escadote, e equilibrou o banco no degrau cimeiro. Parara de chover, uma pausa que se adivinhava breve entre dois aguaceiros. O Sol espreitava timidamente por entre as nuvens.
   Subiu os degraus do escadote, e deste, alcandorou-se em cima do banco de madeira. Abriu os botões da camisa, expondo o peito, que se abriu com um zumbido electrónico, deixando a descoberto o interior metálico e brilhante do andróide.
   - Estou aqui, Sol! - gritou para o astro. A plenos pulmões. Sendo esta, mais uma expressão pitoresca que assimilara na sua linguagem.

O direito inalienável ao trabalho

   - Tu não pareces entender. Preciso agir, fazer-me contratado e cumprir o contrato que celebro e com quem celebro. Eu preciso de trabalhar, de fazer algo de útil, de ser útil. Percebes isso?
   - Percebo, não choramingues mais. Eu arranjo-te as munições que precisas para a arma até ao entardecer! Mas têm de ser pagas na hora, não depois de fazeres o teu serviço!

Empate

   Dois pontos no mapa, podemos assinalá-los com um X e um Y ou atribuir-lhes coordenadas angulares ou decimais. 


   Duas pessoas que não se conhecem, partem do ponto X em direcção ao ponto Y por duas estradas diferentes.


   A primeira é um jovem. Olha-se para o seu carro e constata-se que ele pretende, nitidamente, dar nas vistas, chamar a atenção. Cor azul-eléctrico, flamas vermelhas pintadas no capô e nos lados do carro, jantes especiais, escape duplo, potente sistema de som permeabilizado pelos vidros rebaixados.


   A segunda pessoa é uma mulher de meia-idade que se dirige para o trabalho no seu pequeno carro utilitário, cuja tinta, de cor vermelha, está já queimada pelo Sol e adquiriu zonas rosadas e quase brancas. O motor também carbura mal, o que se nota na saída do tubo de escape, as rodas gemem nas curvas e as mudanças custam a entrar.


   Tendo em conta que a mulher de meia-idade não chegou ao destino, porque teve um acidente pelo caminho, poderíamos considerar que o primeiro condutor, o jovem com o carro armadilhado, foi bem mais sucedido que o segundo, porque chegou ao ponto Y ileso e com o carro incólume.


   Por outro lado, se pormenorizarmos que o carro da mulher de meia-idade teve uma falha nos travões que a atirou contra uma velhinha de bengala e um cão vadio e um grupo de ginastas em corrida, que atravessavam uma passadeira da estrada, temos por força de concluir que foi melhor sucedida do que o jovem, porque atraiu mais as atenções.

Desafio

   Ela voltou a casa, depois de ir levar os filhos à escola. Aproveitou estar um dia de céu limpo e abriu para trás as janelas da sala de estar para arejar a divisão enquanto a limpava. Andou atarefada a tirar a alcatifa e a arrumar os livros da estante, e quando foi buscar o espanador, notou que já tinha um outro na sala, pousado no chão a um dos cantos. Por brincadeira, usou os dois espanadores, um em cada mão, enquanto a manhã avançava ao ritmo dolente da voz calma e envolvente de Nat King Cole que saía do leitor de cê-dês. As coisas estavam a correr bem, até bem de mais. Veio-lhe isso à ideia quando um pobre pardal entrou pela janela aberta e pousou nos píncaros da estante-biblioteca. Fechou rapidamente a porta para o interior da casa e com os dois espanadores, esgrimiu o ar junto a ele, a tentar empurrá-lo de novo para o exterior. Mas o pequeno pássaro fez-se difícil, voou dali para a televisão, e para as almofadas do sofá, daqui para a portinhola aberta da salamandra e daqui para para incontáveis sítios mais, mas agora deixando sempre o desenho a grafite das suas patitas sujas com a fuligem da salamandra. Cansada de perseguir o passarito, sentou-se num sofá a olhar para ele, enquanto abanava com desalento os dois espanadores como se fossem duas asas coloridas.
   Finalmente, como se desse o jogo por concluído, o pardal esvoaçou para o aro da janela aberta, e virou-se para o interior, fitando-a. Esperava que ela o seguisse.

A bola de cristal

   - Diga-me o que vê aí?! - pediu-lhe, um pouco assustada com a expressão grave da vidente que acariciava o globo de vidro com as mãos finas e ossudas.
   - Você é uma mulher nova e trabalha...trabalha...
   - Num escritório! Como é que sabia?
   - Silêncio, por favor! Preciso concentrar-me. No local de trabalho, tem vindo a criar-se há poucas semanas, um forte ambiente de tensão...
   - Por causa dos aumentos! Só aumentaram o ordenado de cinco pessoas, e todas próximas ás chefias. É inadmissível aquilo, porque todos trabalhamos forte e feio!
   - Mas vejo alterações para breve no seu local de trabalho...
   - É muito verdadeiro. A Ana Sofia vai entrar em licença de maternidade e está previsto eu ir fazer o lugar dela no processamento de salários. Nunca aqui tinha vindo, mas a senhora é o máximo dos máximos!!
   - Peço-lhe silêncio uma vez mais, a bola é um canal que o meu espírito perscruta, mas preciso do silêncio.
   - Desculpe-me...E afectos? O que me pode dizer sobre isso?
   - Há uma pessoa no escritório interessada em si.
   - É o Saraiva! Não é mal parecido, embora todos digam que é um tarado sem sorte com as mulheres. Diz quem viu, que a casa dele parece um armazém de revistas e filmes pornográficos.
   - Por isso mesmo, tem de agir com cautela, e talvez nem ligar. Mas há outra pessoa...hum...acho que não é do escritório...é mais atraente que o Saraiva, e acaba de sair dum casamento ou duma relação complicada...
   - Já sei, é o Nunes, é bombeiro e separou-se agora da companheira, costumo encontrá-lo no ginásio e estou sempre a galá-lo ás escondidas.
   - O interesse é mútuo, e já é altura de passar à acção.
   - Obrigado, dona, muito obrigado. Tenho de ir agora. Posso dar-lhe um abraço?
   Levantaram-se as duas, e a consulente abraçou-a com força, não conseguindo disfarçar a comoção e a alegria que sentia pelas boas notícias. Quando ia a sair da sala, a vidente chamou-a e, limpando discretamente uma lágrima teimosa, avisou:
   - Quando sair daqui, não atravesse a rua antes de chegar ao Estádio, ou algo de muito mau pode acontecer!

vida de celulóide

    Em sua casa vivia um boneco malévolo e diabólico, que durante a noite o tentava matar com facas e machadinhas de cortar carne. Era mau e feio como as cobras. Enquanto assistia ao último filme da maratona de filmes que começara a ver cinco horas atrás, lembrou-se por fim: isso não existe, é apenas um boneco de película, o Chucky! Como é que eu me pude enganar??
    Mais tranquilo, viu o resto do filme no canal temático, foi à casa-de-banho soltar o lastro das cervejas que havia bebido, e só então foi abrir a arca de madeira que se agitava no meio do corredor. Ao levantar a tampa, saiu lá de dentro uma figura pequena de cabelos despenteados, e  rosto sujo e arranhado de tanto lutar. Mas não era o boneco diabólico. Era o seu filho.

o tempo e o espaço

     A hora mudara e não se dera conta. À hora em que compareceu para a missa de Domingo, não encontrou os fiéis reunidos cá fora, os homens bem vestidos a comentar os jogos da véspera ou as tropelías dos políticos, as senhoras com vestidos e blusas de mangas plissadas e cabeleiras montadas com laca, nem as crianças a correr em volta nas suas alegres brincadeiras, ou as bancas na qual se vendiam tremoços e pevides, fiadas de pinhões, saquinhos de plástico com figos e nozes.
     No lugar, também não encontrou o adro da igreja com o velho castanheiro e o pelourinho de coluna octogonal, nem a igreja, ou a rua circundante com as suas casas antigas. Haviam mudado a aldeia de lugar e não se dera conta.

Stela

     - Roubaste-me - chiou a velha senhora, com a veia do pescoço saliente - tinha aqui as minhas coisas e roubaste-mas todas...
Ignorou a fúria da sua expressão e afagou-lhe os cabelos que enxugara há pouco com um toalhão, mas não conseguiu evitar uma cotovelada que ela lhe deu, e que a atingiu no peito, dolorosamente.
     Recuou dois passos e sentou-se um pouco a esfregar o lugar onde a atingira, enquanto a mulher se agitava, deitada no leito.
     - Acalme-se - pediu mais uma vez - ninguém lhe roubou nada, você é que não se lembra do lugar onde deixa as coisas.
     - Roubaste-me - voltou ela.
Ignorou-a. Saiu do quarto e foi até à cozinha. Agitada pela angústia, preparou-lhe o chá que ela bebia, que sempre bebera à noite quando se deitava. Quando voltou ao quarto, já havia sossegado, e trauteava baixinho qualquer coisa. Já não era nada com ela. Quando pousou ao seu lado a bandeja com o chá, sentiu a sua mão pousar na sua, enquanto a brindava com um sorriso enlevado.
     - Tu és a Stela! - disse, como se tivesse acabado de a reconhecer - Sabes porque é que eu te dei o nome de Stela? Porque Stela é estrela, e tu és a minha estrela, aquela que tem guiado toda a minha vida. Sabes disso, não sabes?
     - Sei, mãe, sei disso! - confirmou, enquanto lhe servia o chá.

"Cortázar e eu", de Martín Gardella, escritor argentino

Contaram-me que na confeitaria London City, junto ás vidraças sobre a Avenida de Mayo, estava exposta a mesa na qual Cortázar costumava sentar-se a escrever. Pensei que, se tomasse o lanche naquele lugar, talvez me pudesse nutrir da sua brilhante inspiração. Depois de subornar um dos empregados, pude-me sentar-me na cadeira destacada e encomendar o que o escritor pedia habitualmente. Entre sorvos de café, comecei a escrever algumas linhas num pequeno bloco de notas. Nesse instante mágico, como se as minhas garatujas o houvessem invocado, Júlio apareceu sentado diante de mim.
- O que é que pretendes escrever? – perguntou-me o escritor.
- Um micro-relato – respondi.
- Esta mesa apenas inspira novelas – confessou – será melhor que procures num outro lugar.
Antes de desaparecer, anotou uma direcção estranha no meu caderno. Sem perder tempo, peguei nas minhas coisas e dirigi-me, entusiasmado, para aquele lugar desconhecido. Ali, deparei-me com um passadiço comprido que desembocava num estranho portão de cor verde.
- Estávamos á tua espera! – disse-me o Cronópio que me abriu a porta, enquanto eu me acomodava a uma mesa para escrever esta história.
Alguns dias depois, voltei a passar pela London City, e fiquei surpreendido ao ver que a mesa de Cortázar já não estava lá.





Em adenda ao conto, este passeio de Lucius de Mello aos lugares de Buenos Aires imortalizados por Borges e Cortázar. E este excerto, traduzido para português, do livro-entrevista de Omar Prego Gadea, La Fascinación de las Palabras (1985).

as palavras

     As palavras andavam pela sua casa, sem que ele soubesse o que fazer com elas. Tentou ser simpático, acomodá-las, fazer com que se sentissem em casa e ficassem por ali. Chegou-lhes cadeiras, sofás, mantas no chão, colchões, mas elas continuavam a vagar pela casa como se estivessem desconfortáveis. Ofereceu-lhes bebidas, o comando da televisão, diversos livros abertos, e páginas, muitas páginas em branco onde elas se poderiam instalar como rainhas opulentas. Mas não quiseram nada disso e não quiseram nada com ele e, uma por uma, foram saindo pelas portas e janelas da casa como se estivessem a evadir-se dalguma prisão. Quando ficou só, reencontrou o silêncio. O silêncio estava sempre ali, ainda que ele, por vezes, conseguisse alhear-se da sua presença. O silêncio não precisava que o tentasse reter ou seduzir. Permanecia ali, apenas, e aos poucos, ia-o devorando.


(inspirado no título dum blogue de Claudia Cortalezzi)

Rodeios

         Quando saí da Convenção, a noite ia já muito adiantada, e tinha sérias dúvidas sobre como voltar para o Hotel a uma hora daquelas. Os táxis passavam muito depressa, não via nenhum transporte público e nem sabia qual deles apanhar. Era a primeira vez que ia àquela cidade, e não tinha qualquer referência, para cúmulo, à noite. Começava a enervar-me quando vi aparecer um táxi, que chamei com um gesto. O táxi parou ao pé de mim com um chiar de travões. Entrei e a primeira coisa que vi foi o rosto lívido do taxista, que me pareceu algo nervoso.
    - Não estou aqui para o roubar - comecei por lhe dizer - só queria voltar para o meu hotel, o Condestável, na Avenida dos Capuchos.
   O taxista abanou a cabeça com os olhos pregados aos óculos que tirara para limpar com um pano.
   - Não é isso! O senhor não devia andar na rua, eu não devia andar na rua; e pede-me logo para ir para a Avenida dos Capuchos...vamos ver...vamos ver...
   Arrancou com tanta pressa que as rodas patinaram um pouco, e conduziu com um visível nervosismo pelas ruas da cidade. Parou a seguir a uma curva, no início duma rua com duas faixas e separador ao meio com relva e árvores. Levou um dedo aos lábios para me pedir silêncio, saiu do carro e ficou um momento à escuta lá fora, e logo depois voltou a sentar-se ao volante.
   - Por aqui não pode ser...não me parece seguro.
   Fez inversão de marcha e deu uma volta larga, a cruzar ruas e ruelas a uma velocidade doida. O meu receio de chocarmos ou atropelarmos alguém era compensado pelo facto de não ver mais ninguém na rua, nem a pé nem dentro de carros. Quando parou novamente o carro, repetiu o gesto de há pouco, depois reentrou no carro a abanar a cabeça com desalento. Ligou o rádio no canal da polícia à espera de ouvir alguma coisa, mas a única coisa que saía dali era o restolhar da electricidade estática.
   - Eu não sei o que o impede de me levar de volta ao Hotel, mas devo avisá-lo que, apesar de andar prevenido, não há dinheiro que pague tanta volta que o senhor está a dar - achei por bem esclarecer, mas ele limitou-se a repetir-me o gesto que me remetia ao silêncio.
   Arrancou de novo, estava quase desesperado, e aquilo era contagiante.
   Desta vez, parecia mais seguro sobre o caminho a tomar. Venceu algumas ruas e avenidas, e enveredou por umas ruas mais estreitas, com aspecto antigo. Devia ser a zona histórica da cidade, pensei, impressão que ficou confirmada quando passamos ao lado da Sé em granito, pesada e parda. Junto à Sé tomamos uma rua em espiral que subia o monte defronte a ela. Quando chegamos ao topo, pude descortinar uma torre de menagem iluminada por holofotes, com janelas e seteiras enegrecidas como olhos que dormem. Diante da torre, havia um largo alcatroado sem ninguém, e foi aí que o taxista parou o carro, num recanto escuro debaixo das árvores.
   «Mau - pensei para comigo - é agora que sou assaltado!»
   O taxista não fez caso dos meus receios e cogitações. Voltou a sair do carro, e ficou de novo à escuta. Não me pareceu mais sossegado, o que era inquietante.
   - Vou ali espreitar à frente - disse-me - as chaves ficam na ignição. Tranque as portas por dentro, e se me vir a correr para o carro, deixe-me entrar. Doutra forma, não abra as portas a ninguém!
   Afastou-se com passadas largas e deixei de o ver. Fiquei ali alguns breves minutos, também eu à escuta, mas não aguentei muito mais tempo. Saí do carro, tranquei-o com as chaves, e encaminhei-me na mesma direcção  que o taxista. Estava quase a alcançar o muro baixo que delimitava o largo da torre, quando senti que uma mão me puxava para o lado. Era o taxista, que continuava a apertar com força o meu braço, de raiva.
   - Já que é maluco, mantenha-se no escuro e não deixe que o vejam! - ordenou.
   - Porquê? - perguntei, uma pergunta que já andava a remoer há muito tempo.
   Ele estendeu o braço e apontou o largo iluminado diante da Sé.
   - Vê aqueles vultos no largo? É deles que fugimos, e enquanto não tomarem o caminho para aqui, estamos seguros. Não podemos andar pela cidade enquanto eles andarem por aí...
   Não fiz mais perguntas, e ficamos os dois de vigia, cosidos à escuridão do arvoredo. A noite ameaçava prolongar-se por tempos infinitos.

8'BRO 8: Coerência

     Joana d'Arc, uma jovem camponesa, não conseguia sossegar com aquela voz insistente na sua cabeça a repetir-lhe - "Vai, vai ter com o teu rei. Contigo a defendê-lo dos inimigos, a França e tu terão paz, e não haverá fome nem frio!". Joana obedeceu, tornou-se o braço armado de Carlos VII, a sua espada vitoriosa como a espada dum arcanjo e, mesmo então, no fragor das batalhas mais encarniçadas, a mesma voz ecoava na sua cabeça: "Prossegue, não desistas, a vitória está muito perto, e com ela, tu e a França não terão fome nem frio". Quando a estrela de Joana empalideceu até se extinguir, Joana foi julgada e condenada à fogueira. Concederam-lhe uma última refeição, confessou e foi amarrada ao poste. Quando os verdugos pegaram fogo à lenha, e grossas línguas de fogo se elevavam em volta, a mesma voz voltou: "Eu sempre te prometi que não terias fome nem frio...".

8'BRO 7: O meses do ano

       As crenças e ditos populares contêm sempre algo de verdadeiro que cabe aos mais instruídos destrinçar e apurar. É crença generalizada que o clima que faz nos primeiros dias do ano correspondem, como na relação micro/macroscosmo, ao clima que fará nos meses desse ano que correspondem a cada um desses dias (exemplo: 1ºdia / Janeiro, 2º dia / Fevereiro, e por aí fora). Como possuo alguma formação científica, dei-me ao trabalho de registar minuciosamente as condições de tempo em Portugal Continental nos primeiros dias de Janeiro deste ano, no geral e por distritos. Concluída a primeira tranche do trabalho, aguardei o transcorrer dos meses, sempre a apontar e registar. Nesta altura do ano, com praticamente dois meses para o final, já me é possível apresentar algumas conclusões provisórias e sujeitas a correcção.
    Devo começar por referir que a crença apontada possui uma veracidade impressionante. O estado de tempo dos primeiros dias do ano corresponde no geral ao clima do mês correspondente. O dia 1 de Janeiro, por exemplo, foi um dia de temperaturas amenas e condições de vento fraco e agitação média das águas do mar, verde no espectro dos extremos de temperatura. Tal como o mês de Janeiro. Poder-se-à argumentar que apenas se registou a continuação das condições climáticas desse primeiro dia, mas os riscos de se simplificar demasiado são notórios pelo que se segue. O quarto e quinto dia foram invulgarmente quentes para esta altura do ano, tal como os meses de Abril e Maio. Pelo contrário, Junho, Julho e Agosto pareceram um Verão deslocado, porque as temperaturas foram inferiores ao que esperava para estes meses, tal como baixou a média de temperatura o sexto, sétimo e oitavo dia do ano, voltando estas a subir para o nono e décimo dia de Janeiro, tal como o clima para Setembro e Outubro.
    Nesta altura, posso ainda acrescentar que o décimo e décimo primeiro dia do ano foram muito frios e chuvosos, e, não é para vos assustar, porque ainda estamos em Outubro, mas o décimo segundo dia do ano foi caracterizado por vendavais um pouco por todo o lado e temperaturas com máximos de temperatura negativa (em Ermesinde e nas Penhas Douradas, por exemplo), e que o décimo terceiro dia, que corresponderá ao décimo terceiro mês, foi de uma rotunda e completa catástrofe climatológica.
     Continuamos a aguardar os desenvolvimentos do clima, que registamos com minúcia, para completar o nosso estudo. E, para o ano, talvez o repitamos para confirmar (ou não) as conclusões deste.

8'BRO 6: o fim da viagem

     Para migrar rio abaixo para um novo assentamento da família, o patriarca da família e os seus filhos viajaram dois dias a pé até ao rio. Com machados abateram uma árvore gigante da margem, e com as enxós escavaram o miolo tenro da árvore até esculpir por completo uma piroga grande. Voltaram para a aldeia para irem buscar o resto da família. Juntaram os parcos haveres em trouxas e fizeram o percurso até ao rio, homens, mulheres e crianças  com o que demoraram três dias. Quando chegaram ao pé da piroga grande, a piroga há pouco tempo árvore e, a menos tempo, piroga, estava agarrada ao chão por pequenas raízes que a madeira havia lançado ao chão. O patriarca pensou no assunto, e mandou construir em volta da piroga a nova aldeia, como se tivessem chegado ao fim da viagem. Em volta da piroga, ou em volta da árvore, se quiserem, porque a família voltara a erguer a piroga, que enterraram até a um terço da altura com as raízes no seio da terra, e a natureza seguiu o seu curso.

8'BRO 5: hobby

   Se um dia destes, passeando vós pela borda do mar, ou no centro histórico dalguma cidade a admirar as igrejas e monumentos, é perfeitamente natural que vos cruzem com o Seixas. Como as pessoas não trazem o nome tatuado na testa, vou descrever-vos quem o Seixas é, não a sua aparência, porque isso seria quase uma delação. O Seixas é um homem afável-social-dado-generoso-cativante-bem-humorado-prestável-e-simpático (apetecia-me exagerar no hífen), domina diversas línguas e possui cultura e leituras que cheguem para manter uma conversa aprazível com qualquer pessoa (ou qualquer-pessoa, se preferirem). Com tudo isto, podem notar como simpatizo com o Seixas. O Seixas está onde é preciso. Se vê alguns turistas a fotografar um monumento ou uma rua da cidade, aborda-os na língua em que falam, e dá-lhes informações com o à-vontade dum guia turístico ou dum historiador, ou faz sugestões sobre lugares a visitar, e pontos estratégicos donde podem tirar fotografias esplêndidas. Da mesma forma, o Seixas pode estar ao pé de vós quando, com uma máquina fotográfica à trela, admiram os barcos numa marina ou um pôr-do-sol sobre o mar, ou se esforçam para tirar uma foto num lugar inesquecível à vossa cara-metade, ou o inverso. Mas o Seixas faz tudo de uma forma elegantemente subtil, inteligente e desarmante, aborda uma pessoa como se não o estivesse a fazer, convocava-vos para uma troca de impressões como se tivessem sido vocês a tomar a iniciativa. Nesse jogo de cumplicidade que ele tece com os outros, torna-se normal que vocês lhe perguntem qual o melhor ângulo para fixar uma rua ou estátua, que lhe peçam para tirar uma fotografia convosco enlaçados à vossa cara-metade, ou que colabore a vosso pedido para capturar o melhor frame dum barco na marina ou do sol poente sobre o mar. Debitando vocabulário de fotógrafo profissional, o Seixas ajuda-vos, colabora, responde com humana simpatia. E logo que se vê a segurar a máquina fotográfica que vocês lhe confiaram, o Seixas - porque é isso que ele gosta de fazer - desata a fugir a sete pés, tão depressa e para tão longe que vocês dificilmente voltam a por-lhe a vista em cima.

8'BRO 4: (entre)

  (quando os olhos se habituam ao quarto na penumbra, as formas emergem da escuridão como cadáveres frios depois dum naufrágio, mas as películas de pó tocadas pela luz débil que se coa pelo buraco da fechadura incendeiam-se diante das nossas pupilas, e precipitam-se riscando a escuridão aos pés da cama e sobre os nossos pés, fazendo-nos sentir o calor fosfórico e irreal desses asteróides longínquos).



8'BRO 3: Tentativa e erro

    Fim de tarde na rua pedonal vocacionada para o comércio. O pequeno redemoinho de vento que se formara sem aviso na esquina duma rua confluente, rodou com fúria por entre os transeuntes assustados e entrou pela porta duma livraria, e lá dentro prosseguiu com a devastação - livros pelos ares, estantes esvaziadas, folhas a dançar e a rodopiar no ar como derviches extáticos, papéis que silvavam generosamente para acompanhar os gritos agudos da livreira. Da mesma forma imprevista como se formara, o redemoinho dissolveu-se dentro da livraria.
   Chegara a hora de enquadrar o desastre, estimar os danos, contabilizar os prejuízos. Muitos livros danificados, mas apenas um em falta, um romance de Alejo Carpentier. Procurou-se melhor nos montículos de livros derribados e nas alturas das estantes, e teve-se a mais certa das certezas - faltava a obra de Carpentier.
   À força de tantas eclosões e viagens, os redemoinhos estão a ficar cada dia mais sábios na hora de escolher.

8'BRO 2: debater-se

   - Sinto-me aborrecido - desabafou com o pajem - são tristes os dias dum guerreiro quando não há guerras nem batalhas para travar. E as armas...as armas definham e enferrujam, temos de estar sempre a polir a lâmina das espadas, e a manter preparada a armadura, o cavalo, as hostes. O sangue coalha-nos nas veias, criamos gordura como porcos para a matança, cheiramos a bafio e a ranço como a vossa comida.
   - O que pensais fazer senhor? Invadir algum couto vizinho? Participar em justas de cavaleiros?
   - Não, já sei! - exclamou com um súbito entusiasmo - Já sei o que vou fazer! Há muito tempo que não luto contra mim mesmo, e é disso que preciso neste momento, uma luta feroz e encarniçada até ao completo esgotamento das forças, uma batalha que só terá o seu fim quando o oponente jazer por terra sem mais forças ou armas para combater.
   - E acha isso prudente, meu senhor?
   - Claro que sim,conquanto tu lhe vistas a armadura...

8'Bro 1: música-ambiente



   - Há formas diversas de dobrar roupa.
   Explicou-lhe a engomadeira, enquanto os dois bebiam um vermute aos pés da cama. Levantou-se e colocou-se ao pé duma pilha de roupa em cima duma cadeira.
   - As pessoas adquirem tiques ou movimentos próprios quando o fazem, gestos que mecanizaram depois de os inventarem ou receberem doutros. Há algumas que não são capazes de dobrar uma camisola ou uma camisa de manga comprida sem esta jazer em cima duma superfície plana como uma mesa ou a tábua de passar a ferro, mas até é simples, basta saber segurá-la pelos pontos-chave e dobra-se sem qualquer dificuldade.
   Desdobrara e voltara a dobrar uma camisa para exemplificar, fazendo-a bailar no ar diante do seu corpo nu como a mantilha duma dançarina exótica.
   - E às t'shirts prefiro fazer assim...
   Segurou-a pelos ombros, com as costas viradas para ele, prendeu a parte superior entre o queixo e a raiz do pescoço, e dobrou-a em três penadas, expondo e ocultando os seios carnudos com os mamilos espetados.
   - E à minha madrasta, já vi dobrar calças assim.
   E demonstrou com um par de calças, afastou as pernas nuas junto a si, lindas e alvas como uma aparição ao luar, estendeu as calças entre o antebraço e a face lateral das coxas, e dobrou-as sobre o braço.
   Sorriu, por fim, as calças atiradas para cima da cama, dobradas como pertencia.
   - Ainda bem que não temos de dobrar a pele - considerou - daria muito trabalho e não ficaríamos muito bem sem ela assim, estendida.
   Aflorou com as costas duma mão o braço musculado, as espáduas, a pele intumescida do membro.
- Assim não dá para dobrar - ciciou com o olor do vermute, mordiscando-lhe o lábio inferior.

Novas medidas

     Minutos antes de tocarem à campainha, Iturbérzio olhou pela janela e ficou assustado com os rolos de fumo que se viam no seu quintal. A sua corrida para a porta, coincidiu com o toque da campainha. Abriu-a e viu diante de si dois homens com máscara de oxigénio e pastas pretas nas mãos.
     - Não se assuste - disse um deles com uma voz soprada- este fumo dispersa-se num ápice. E era por causa deste e doutros fumos que pretendíamos entrevistá-lo. Vamos entrar com sua licença e tirar estas máscaras mesmo sem a sua licença porque doutro modo não podemos expor o que pretendemos expor no curto espaço de tempo de que dispomos para o fazer com cada cidadão que entrevistamos.
     Entraram, mostraram as credenciais e apresentaram-se de viva voz.
     - Somos representantes duma iniciativa do governo a nível nacional e estamos aqui tal como os nossos colegas noutras casas para sensibilizar as pessoas - falava de rajada, sem pausas nem pontuações, e assim continuou - perante a difícil situação financeira nacional e internacional o Governo prepara-se e esta é apenas uma campanha preambular para criar um imposto especial sobre o ar que se respira e é claro que pode objectar que o ar é de todos e que não se deveria pagar imposto por isso mas o reverso da medalha é que este executivo gasta milhões de euros em programas e em incentivo de programas de manutenção e conservação do ecossistema na aposta em fontes limpas de energia e na prevenção de incêndios ou catástrofes ecológicas e sem esses apoios e esses serviços de prevenção e resposta começarão a multiplicar-se as ocasiões em que o senhor vai à janela e só vê fumo em volta da casa ou que vai à praia com os seus filhos e dá por si a brincar com eles bem no centro duma maré negra que trouxe até vós golfinhos moribundos a vomitar peixe ingerido ou gaivotas e corvos-do-mar moribundos a piarem tristemente e também aumentariam exponencialmente as despesas do seu agregado familiar com problemas respiratórios e de sangue e reacções alérgicas da pele e estômago.
     Parou. Iturbérzio ia formar uma tentativa de réplica, mas um dos visitantes estendeu-lhe um papel com tudo discriminado.
     - Entenda que isto é apenas um contacto preliminar semelhante ao de uma operação estatística. Nos próximos meses o Executivo apresentará a proposta na Assembleia da Republica e então terá mais informação sobre o assunto veiculada pelas vias normais e habituais.
     Parara novamente, e Iturbérzio aproveitou.
     - Eu sei que vocês só estão a dar conhecimento do assunto, mas eu acho isso um absurdo. Qualquer dia, fazem-nos pagar imposto para ter sexo...
     Nenhum deles respondeu, olhavam através dele como se fosse transparente. Um mirou o relógio, enquanto o outro tirava do bolso um pequeno gravador e registava a ideia:
     «Imposto para ter sexo. Over!».
     Deram meia volta sobre os calcanhares como os militares e dirigiram-se para o portão de saída. Pelo caminho, Iturbérzio viu um deles abaixar-se para apanhar alguma coisa que não conseguiu ver o que era.
     (Tratava-se do invólucro duma granada de fumo).

Rotina rota (ou como se avisa nos filmes: Baseado em Factos Reais)

       Todos os dias da semana, a rotina de Hermínio estava tecida com liames tão débeis que, um dia, tinha mesmo de se romper. E esse dia aconteceu mais depressa do que ele estava à espera. Como a mulher entrava cedo ao serviço, cabia-lhe a ele despachar os três filhos, que tinham, respectivamente, dois, cinco e nove anos. O mais velho vestia-se sozinho, mas tinha de lhe preparar a papa da primeira refeição. Aos outros dois, vestia-os, calçava-os, dava-lhes de comer. Até sair de casa, era um corropio de mochilas, sacos, brinquedos, biberão, fraldas, dentes por lavar, cotonetes nos ouvidos, cremes na cara. Por volta das oito e trinta conseguia tê-los a todos dentro do carro, mais a bagagem que enfiava na mala atrás. Deixava primeiro o mais velho na escola, porque era o único que tinha horário, ficava dentro do carro até ele entrar no recinto, depois corria para o infantário e deixava o do meio, mas tinha de ir lá dentro com o o mais novo ao colo e a mochila dele pendurada do ombro porque tinha de ser confiado pessoalmente à educadora e ali ninguém lhe deixava qualquer margem de manobra para cedências. Entregue o número dois, corria até ao outro lado da cidade para entregar o mais pequeno à sogra. Terminada esta tarefa, e já se tinha afastado uma centena de metros de carro quando foi assaltado pela certeza de que se tinha esquecido dalguma coisa importante. Voltou a casa da sogra. Entreguei o menino, não foi? - Sim - E as fraldas descartáveis? - Sim - Não sabe se hoje ele tem vacinação? - Não, é Quinta, tu avisaste-me ontem! Pediu desculpas, e correu ao infantário. O filho estava a brincar na sala em cima dum tapete com outras trinta crianças, a educadora fez-lhe o favor de sair da cozinha e interromper o precioso café para lhe confirmar que não faltava nada, que estava tudo em ordem, e não havia nenhum detalhe incongruente, como chinelos nos pés ou calças de pijama vestidos. Saiu, só faltava um. Foi ao portão da escola primária. O mais velho estava na aula, tinha de esperar pelo recreio. Esperou. Quando soou a campainha, a funcionária foi pedir autorização, e lá o deixaram entrar. Falou com ele, e com a professora, e não, não faltava nada, trouxera tudo, livros e material escolar. E a ginástica, não precisas do fato-de-treino? Ainda perguntou, na dúvida, mas o filho lembrou-lhe que a ginástica era no dia seguinte. Antes de desistir da indagação, voltou à casa da sogra. Não falta mesmo nada? É que eu tenho a certeza de que me esqueci dalguma coisa...Desta vez, a sogra masquiu, com um ar de desaprovação - Se calhar, esqueceste-te de ir trabalhar, porque já são onze horas, mas antes, devias ir primeiro a casa tirar o pijama.

estória paralela 2

     Um empreendimento imobiliário em Cornwall, Inglaterra, levou à escavação duma área imensa para se construírem os alicerces das futuras casas. Enquanto as escavadoras estavam em acção, uma delas trouxe á superfície o fragmento dum rochedo com uma espada cravada até à bainha. A espada, à qual não se concedeu uma importância de maior, foi libertada do sua prisão de pedra e estimada pelos especialistas como datando do século V ou VI. Continua a ser estudada, mas é claro que, apesar da sugestão, essa espada não podia ser a Excalibur do rei Artur, que este retirou da pedra e empunhou até à morte.
     Ou podia.
     Podia ser que um homem astuto, como dizem ter sido Merlin, a tivesse ocultado no meio da vegetação, e tivesse criado uma réplica cravada num montículo de lama seca, para que o rei por ele escolhido, a extraísse sem esforço, para espanto e veneração dos que esperavam o seu advento.
     Podia ser...

Abrir e ver

     Os cientistas aguardaram que morresse o "homem-que-nunca-chorou". Sentiam uma natural curiosidade científica por aquele fenómeno. Como o "homem-que-nunca-chorou" não tinha família, perguntaram-lhe de viva voz se autorizava a autópsia e, diante do seu obstinado silêncio, iniciaram-na. Abriram os sacos lacrimais junto aos olhos, estavam intactos mas o sal petrificara-se na saída por onde deveriam fluir as lágrimas, o que era uma explicação credível para a ausência de pranto. A surpresa maior veio quando examinaram o resto do corpo, porque encontraram vestígios de sal por todo ele, em volta dos órgãos e no meandro das veias e nervos. Faziam lembrar, à escala microscópica, o leito seco de rios salgados.

O Imbondeiro


     Quando a família decidiu, em conjunto, regressar a Portugal, o avô Anselmo, o ancião da família, sentiu relutância em fazê-lo. Estava há quarenta anos em Angola, ali vira nascer os netos, ali nascera de novo para uma vida que não tinha nada a ver com as suas origens no interior beirão. Porque é que tinha de voltar? Perguntava aos filhos. Estes explicaram-lhe que era mais seguro, que a guerra civil já dizimara muita gente e que, não tardaria, podia acontecer-lhes o mesmo, e então, seria demasiado tarde para decisões ou escolhas. Acedeu, por fim, mas pediu ao filho mais novo, ao André, para levar com ele uma caixa de madeira com solo de Angola. Este concordou, preferindo essa bizarria do pai ao remorso que sentiria se ele ficasse para trás e viesse a descobrir mais tarde que tinha sido chacinado por beligerantes.
     De regresso a Portugal, o velho Anselmo não resistiu muito tempo e faleceu poucos meses depois. Fosse devido ao clima, a que já não estava habituado, ou fosse devido a uma agudização da saudade, essa enfermidade latente na alma dos portugueses e que pode eclodir e desenvolver-se duma forma acelerada e potencialmente mortal.
     Anselmo foi inumado no meio de rochedos escalvados na sua propriedade, a poucas centenas de metros da casa onde a sua família vivera durante gerações. Os filhos concordaram entre eles, que aquele era o lugar mais apropriado. Num relance, rochedos nus no meio do descampado, sob o Sol e o calor seco, pareciam reconstituir um lugar trazido dalgum ponto da savana africana. Durante o velório, André lembrara-se da caixa com solo angolano que pertencia ao pai, e esse solo foi disperso no fundo da cova antes de descerem o féretro.
     A história de Anselmo acabaria aqui, não fosse permanecer no coração dos que o haviam conhecido, e na paisagem daquele ermo na Beira Baixa. Com os anos, e não obstante todas as probabilidades consentidas pelos factores bióticos e abióticos presentes, germinou no ponto exacto da sepultura de Anselmo, um pequeno imbondeiro que cresce de ano para ano, sem sinais de debilidade ou deformação.
     Os filhos e netos de Anselmo acham que essa árvore insólita se deve a alguma semente trazida no solo angolano que estava encerrado na caixa de madeira, mas André, ao invés, acredita que a semente, trouxe-a Anselmo no coração.

A mulher

     Escreve. No Word, por hábito. Tinha manuscrito umas notas no moleskine, e agora tenta encadeá-las numa história ou conto.
     - Desculpe, interrompo? - Pergunta uma mulher que estica a cabeça pela porta que deixara aberta.
     (Uma porta de madeira maciça, de cor cerejeira, e dobradiças e puxadores em latão dourado, ou cor de bronze, que sempre gostara mais desses tons metálicos discretos, como os que deveriam apresentar as armas dos Aqueus).
     Ignora a mulher, e encadeia as notas do rascunho manuscrito, dedilhando rapidamente no teclado. Mas a mulher não se vai embora.
     - Interrompo, ou posso entrar?
     (Ela deve ter uns sessenta anos, pele sardenta no pescoço e bochecas, cabelos de um louro a fugir para o castanho, produto de sucessivas e desastrosas colorações. Também podia ter cabelos negros, como a Amélia, uma criada que houvera na casa dos pais, e que metia assim a cabeça pelo aro das portas, sempre receosa de estar a incomodar)
     - Posso entrar? - Voltou a perguntar.
     Assim não dava, não ia conseguir continuar com o que estava a escrever.
     - Não pode! - respondeu por fim - deixe-me a sós e, se eu precisar de si, chamo-a!
     Ela obedeceu. A mulher, o personagem feminino, eclipsou-se discretamente da sua história, permitindo que ele continuasse a escrevê-la.

Caminhantes

- Não compreendo isto…como é que estas pessoas conseguem sobreviver? – Começou por dizer á avó, que baixou o lume do fogão a gás para o ouvir com mais cuidado – eu trabalho de manhã á noite, seis dias por semana, ás vezes até mais, e mesmo assim nunca tenho dinheiro para o que preciso. Hoje de madrugada, quando ia para o trabalho, vi outra vez à beira da estrada o mesmo casal que vi no outro dia. A idade dos dois juntos pouco deve passar dos trinta, cada um deles empurra um carrinho de bebé; muito tranquilos e satisfeitos, como se todos vivessem do ar e não houvesse despesas, comida e roupas, vacinações e médicos, todas essas coisas.
- Não te deverias preocupar com isso – aconselhou a avó, com a sabedoria cumulada durante toda uma vida - Realmente, a culpa disso é o atraso e a ignorância das gentes, tem-se filhos quando ainda não sabe o que é ser mulher ou ser homem, e depois levam-nos á trela…
- Mas não é isso que mexe comigo. Os dois vão a pé a caminho da cidade com os filhos no carrinho, mas nenhum deles parece com ar de quem vai trabalhar, tem um ar airoso de malta em férias, sem preocupações de espécie alguma, como se estivessem a dizer-nos - nós debaixo do céu e Deus dá-nos o que nos faltar. Se nenhum dos dois trabalha, têm que ter alguém que os ajude, que apare os golpes, o que, com quatro crianças como aquelas, é quase uma missão impossível…
- Já te disse para não te preocupares com isso – voltou a avó, sem sinal de impaciência - temos que saber eleger as coisas com que nos devemos preocupar, e nessas não estão, de certeza, a situação daqueles que já morreram.

Um decálogo

Na Web pode-se encontrar diversos decálogos e conselhos sobre o ofício da escrita e, muito particularmente, sobre a elaboração de contos. Linco esta página da Ciudad Seva, que concede muita matéria para reflexão; e transcrevo um decálogo elaborado pelo escritor colombiano Esteban Dublín, que me pareceu de uma humildade e sensatez invulgares. Intitulou-o: "10 MANERAS DE SER PARA ESCRIBIR MICRORELATOS" (os sublinhados são meus):


1. Sé respetuoso. La literatura ha dado grandes maestros que pueden enseñarte. Antes de escribir, por favor, lee.
2. Sé implacable. Escribe tu historia como la sientes. Cuando escribes con sinceridad, dejas que hable tu corazón.
3. Sé inconforme. Aun cuando creas que tu micro está listo, reléelo y enfréntate a él. Puede ser una batalla feroz, pero al final, ambos terminarán ganando.
4. Sé riguroso. No dejes ninguna palabra al azar. Tienes muchas cosas para decir y poco tiempo para convencer.
5. Sé iluso. Deja que tu imaginación llegue donde tu razón no te deja. Lo peor que puede pasar es que encuentres algo nuevo que decir.
6. Sé humilde. No subestimes la inteligencia del lector. Por más grande que te sientas, siempre lo tendrás a él como tu juez.
7. Sé travieso. Diviértete con lo que escribes. Si logras sacarle una sonrisa al lector, no importa cómo denominen tu texto. Ya hiciste algo grande.
8. Sé persistente. Si tu historia no convence, escribe otra. En algún momento, la cadena se soltará a tu favor.
9. Sé agradecido. Tienes dones y facultades que otros ni siquiera imaginan. Hay problemas reales en el mundo más allá de que a unos cuantos no les guste lo que escribiste.
10. Sé necio. Nadie puede decirte como escribir.

A dignidade dos que foram

     Os pássaros enormes voltaram a pousar no muro alvo de cal. Depois dos corvos, eram estes que traziam mais preocupado, o casal de trabalhadores. Não ligavam nenhuma ao espantalho muito semelhante a uma pessoa, nem a ameaças ou gritos lançados de longe, das janelas do andar superior da casa onde os dois moravam, do lado oposto do muro. Os pássaros só saíam do solo, ou abandonavam as suas posições no muro quando alguém os corria a brandir e a esgrimir com a enxada. Aves teimosas e temerárias, sobranceiras, a desafiá-los o tempo todo, enquanto lambiam as penas das asas ou esfregavam os dentes do bico nas garras pontiagudas de uma cor semelhante ao bronze. Ele e a mulher revezavam-se para as manter à distância. Se um se demorava no interior da casa, o outro tinha forçosamente de andar cá por fora para manter a autoridade. A maior parte das vezes calhava aos dois trabalhar no exterior, com a pá, a enxada e o carro-de-mão. O casal estava encarregue de zelar pelo recinto, e cabiam-lhe todas as tarefas inerentes ao lugar. A população crescia, a população dos que ali estavam enterrados também, e havia que desalojar para a vala colectiva os ossos dos sepulcros mais antigos (ossos, e não apenas ossos) para arranjar espaço para mais sepulturas. E sempre e enquanto o faziam, havia que manter à distância aquelas aves indesejáveis. 

Dar corda

     Hora de ponta, com os dois no carro de regresso a casa sob um Sol inclemente de fim de tarde. O homem está ao volante, mas começa a denotar lentidão de reflexos e reacção, demora nos gestos. A mulher pede para ele encostar. "Deve ser do calor...", pensa ela, enquanto lhe levanta a camisola, aplica-lhe a chave nas costas e dá à corda até lhe repor a energia e as forças. Nessa noite, na cama de casal, a cena repete-se, com ele enganchado entre as suas coxas em plena penetração. Era demais. Como ainda estava dentro da garantia, no dia seguinte, foi entregá-lo à loja, para reparação. No impresso, inquirem a natureza da anomalia, e ela escreve: "hipersensibilidade ás variações térmicas".

pequeno mundo

     Quando a solidão aperta na casa grande, ajoelha-se diante da casa das bonecas, limpa os pequeníssimos móveis, pega em cada figura e sacode o pó das suas roupas e escova ternamente os seus cabelos com uma escova de bonecas. Logo em seguida, recoloca cada uma das figuras no sítio ou dispõem-nas em novos lugares, sentadas a uma mesa ou num sofá, deitadas nas caminhas ou a subir ou descer as escadas. Quando se inclina para as deitar na cama, embala-as primeiro nos braços como se fossem uma filha, a sua filha.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...