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Outros dados, e cartas, no final da página


Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.

Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo, brincar com a poesia, com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas, as filosofias, as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas, as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser, alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo, mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar, tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada, não resolve nada,
não adianta nada.



Gonçalo M. Tavares, "O Homem ou é Tonto ou é Mulher", Campo das Letras, Porto, 2002 

O paradoxo de Dorian Gray

Quando o jovem morreu, a família construiu-lhe um jazigo imponente encimado por um arcanjo de mármore branco, de majestosas asas abertas. O arcanjo fora esculpido em mármore, ainda que não o parecesse porque a estátua foi-se deteriorando como se de uma pessoa morta se tratasse. Caíram-lhe as penas das asas como folhas, o corpo atrofiou-se e emagreceu, e tornou-se tão delgado que se jurava distinguir-se o relevo das suas costelas. Em pouco tempo, pedaços de mármore, grossos como punhos cerrados, foram-se soltando da escultura, como se ela estivesse, de facto, a apodrecer. Ainda que ninguém o declarasse abertamente, todos acreditavam que, dentro do jazigo, no seu fato de chumbo, o jovem permanecia imputrefacto e belo, como os cadáveres santos que as pessoas de outros tempos veneravam.


Ainda o sonho

- Estou a sonhar contigo? - perguntou ela à aparição ensolarada que emergira no seu sonho como um deus que emergisse das águas nalguma ilha grega.
- Não! - respondeu a aparição - estás a viver comigo. Sonhas comigo quando te acontece estares acordada!

Prospectiva 1

Num Natal dum futuro (pouco) distante, o Pai Natal será representado por um emissário do Banco, trajado condignamente (porque isso é essencial), que trará a nossa casa as prendas e as mercearias que costumamos adquirir na quadra, em troca da assinatura duns papéis em que nos declaramos endividados e insolventes para com o Banco, legitimando a penhora dos nossos bens e a apropriação de todas as nossas reservas em acções e papel-moeda.

Prospectiva 2

No Natal dum futuro distante, o Pai Natal será um andróide de barbas cor-de-chumbo, que descerá por um elevador estreito como o primeiro descia pela chaminé, e no pequeno contentor pressurizado com o feitio dum saco de tecido, trará belos presentes para os andróides mais novos: cabeças humanas mirradas, globos de vidro com dedos e órgãos humanos preservados em formol, pequenas e melodiosas harpas construídas a partir de costelas humanas.

Conto escrito a 2 mãos

Ela não sabia quando acontecia a passagem do milénio: 1999 ou 2000? Da primeira vez foi dançar com o companheiro. Da segunda vez ficou em casa sozinha. Olhou para a sala obscurecida e resolveu enche-la de velas. Quando as zero horas aconteciam o companheiro invadiu o espaço e numa fúria de vento apagou todas as velas. Que podiam provocar um incêndio, disse .  E foi-se embora novamente.
Lentamente aconchegada pelos cobertores da cama grande e fria adormeceu. Adormeceu e sonhou. Sonhou com uma coisa estranha que, para ela, era apenas uma noção académica, sonhou com a Samsara, com o ciclo incessante de morte e renascimento, e viu almas como folhas de árvores a dançar e a espiralar sobre a roda cósmica, e quando o seu sonho sossegou, como se as almas estivessem a pousar no solo como folhas caídas das árvores, reviu o seu companheiro no outro lado do mundo, era ele, apesar da pele tisnada pelo Sol e o turbante enrolado na cabeça, e gritava em desespero numa varanda dum palacete junto ao Ganges. Podia sentir o seu desespero, como podia sentir a sua própria dor, porque se havia imolado pelo fogo no pátio defronte do palácio. Foi então que acordou, na cama grande. O seu companheiro estava sentado na beira da cama, e refrescava-lhe as linhas do rosto com um polegar embebido em água perfumada, como se lhe pedisse desculpas. Mas ela agora sabia a razão do seu gesto, e compreendia. A água consagrava as memórias que o fogo não conseguira destruir.

(José e Maria)

Silent Night

Na noite profunda da cidade, as luzes mantinham-se despertas, havia as decorações natalícias floridas e luminosas das ruas, as decorações natalícias coloridas e sugestivas das montras com as luzinhas faiscantes em cadências programadas, o brilho trémulo e natalício do olhar dalguns transeuntes em marcha.

Dentro da noite profunda da cidade, um homem solitário cruzava esse esplendor de luz, e dentro dele, havia uma sombra por cada luz ou enfeite natalício em seu redor.


Discurso afirmativo

SIM! 
    Eu vivo neste país onde a prosperidade é uma orgia dionisíaca reservada a uma minoria, para a qual a lei e as justiça reservam langorosas carícias e beijos; e todas as (involuntárias) infracções por eles cometidas, são minimizadas pela retórica e inércia de quem tem e não tem poder para mudar as coisas.


SIM!
    É este país que conheço, onde os cabecilhas e a clientela política e partidária parece um corropio de chulos e madamas, e todos eles mamam nos generosos mamilos da nação.


SIM!
    É neste meu país, que os humildes de posses e de bens arcam com a crise, enquanto os Golias os fodem como e sempre que podem.


SIM!
    Eu vivo neste país, e este meu país chama-se PORNtugal


(caricatura, de Rafael Bordalo Pinheiro, in "A Paródia", ano de 1900)

No corredor do Metropolitano, reencontrei um velho conhecido, Gallaad, o puro Gallaad, de semblante muito triste, acocorado por detrás duma pequena mesa de pés articulados, como um vendedor ambulante. Perguntei-lhe o que se passava, se precisava de ajuda para alguma coisa.
- Não, meu amigo - respondeu-me - o que se passa, é que sou um desastrado. Vê-me isto - instou - tenho estes três copos virados para baixo e esta bola vermelhinha. Em muitas feiras, vi pessoas a atrair clientes e curiosos com este jogo, mas eu não sou capaz, perco sempre. Experimenta tu!
Colocou a bola sob um dos copos, e rodou-os sobre o tampo da mesa com energia e destreza.
- Tenta adivinhar onde está a bola!
- Neste! - respondi, apontando o copo do meio.
- Certo, mas tenta outra vez - pediu, baralhando de novo os copos.
- Neste - respondi sem hesitar, quando os copos deixaram de dançar.
- Vês, eu sou mesmo um desastrado, e nem queria enriquecer com isto, apenas brincar um pouco com as pessoas, e arrancar-lhes algumas risadas ou exclamações de espanto. Agora riem-se de mim, e depenam-me como a um frango.
- Gallaad, devias experimentar outra vez... num outro dia...um dia em que tragas copos que não sejam de vidro transparente.
- Não sei...Achas mesmo que vale a pena?

cuidados

A mulher, deitada sobre a colcha, não conseguia pegar no sono, escutava com uma ponta de ansiedade porque não conseguia ouvir a respiração do filho no quarto ao lado. Consultou mudamente o marido que ressonava ao seu lado, enfiou-se dentro do robe e foi espreitar. O filho dormia realmente, podia ouvir o sibilar discreto da sua respiração na escuridão do quarto. Aproximou-se da sua beira com pés de algodão, e acocorou-se ao seu lado. O seu filho parecia um anjinho, tão sossegado que estava na paz dos seus sonhos luminosos. Ajeitou-lhe o edredão à curva do queixo, prendeu-o melhor sob o colchão e levantou-se por fim, mais satisfeita consigo mesma. Aproveitou estar ali, no quarto, e foi esvaziar ao balde de papéis da casa-de-banho, o cinzeiro cheio de beatas e cinza que o filho tinha sobre a mesa-de-cabeceira.

mono-Logos

«Possuo uma pequena cicatriz junto à curva da sobrancelha direita, não é muito nítida, parece uma sombra quando tenho a luz pela frente, mas demarca-se como um traço escadeado, quando a luz incide lateralmente sobre o meu rosto, no contraste claro-escuro das sombras. É engraçado que não tenho memória nenhuma de como ela foi feita, nem os meus familiares guardam disso qualquer lembrança, ou mesmo os meus amigos de infância e juventude, os que conservei e os que perdi. Talvez tenha acontecido num dia em que eu tenha faltado à chamada, e não estivesse em mim. Ou, mais provavelmente, aconteceu há muito mais tempo do que a minha infância, numa outra vida».

Shorcut

     Athanor e Hermenegildo, primos em segundo grau, ficaram à conversa no balcão da Associação do bairro, enquanto decorria o baile de Sábado à noite. Falaram de empregos, da carestia, do preço da cerveja e dos camarões, do dinheiro que (não) se consegue pôr de parte. Numa coisa, os dois primos estavam de acordo, ser pobre já chateava, andar na labuta todos os dias da semana e não ver retribuição justa, nem a felicidade que se extrai das pequenas alegrias que o dinheiro nos pode proporcionar. Ali mesmo, enquanto desfaziam a dedo no tampo do balcão os círculos húmidos do fundo dos copos de cerveja, ambos tomaram uma decisão: tinham de pôr cobro à coisa, dar à volta por cima, espremer o caracol. E como é que haviam de fazê-lo? Athanor lembrou-se de repente, num flash dourado: tinham de procurar o senhor Lucro Fácil, Athanor sabia onde ele morava, podiam tocar-lhe à campainha e pedir-lhe conselho sobre como remar contra a crise. Hermenegildo concordou, e os dois abandonaram a Associação e puseram-se a caminho, a pé, que nenhum dos dois tinha carro e davam graças por isso, porque assim não se precisavam preocupar com o aumento dos combustíveis.
     Seis horas e vinte e três minutos depois, os dois primos chegaram ao portão da vivenda do senhor Lucro Fácil, e que vivenda!! Alcandorada no alto duma colina relvada como um castelo de sonho, era linda de morrer, com uma bigue piscina e diversos carros topo-de-gama estacionados por tudo quanto era sítio. Um aparato de raios laser riscava o céu sobre a vivenda, como se a vivenda fosse alguma discoteca. Tocaram à campainha, e só após muita insistência, é que alguém lhes respondeu pelo intercomunicador. O senhor Lucro Fácil não estava, aliás, nenhum dos funcionários da casa sabia dele, há várias horas que andava tudo em alvoroço devido ao seu desaparecimento. Os dois sentiram-se desanimados, mas decidiram voltar à cidade, e ir procurá-lo nos clubes onde aflui o pessoal da nota. Voltaram então, sempre a pé, mas agora levaram menos tempo porque as bolhas dos pés já haviam arrebentado e conseguiam caminhar com mais desenvoltura. Na cidade, passaram os ditos clubes em revista, de uma forma indirecta, diga-se, um pequeno suborno (que o dinheiro não abundava) aos engravatados arrumadores de carros, e ficavam logo a saber que o senhor Lucro Fácil não andava por ali. Num dos últimos clubes da lista que haviam elaborado, a coisa não foi tão fácil, os empregados acharam pouco o dinheiro que eles ofereciam e recusaram-se a dar qualquer informação. Athanor e Hermenegildo adoptaram então uma reacção extrema e suicida e tentaram forçar a entrada no clube, o que foi um acto verdadeiramente tresloucado, porque lhe apareceu pela frente um regimento de seguranças, que os brindou com uma sova meticulosa, antes de os enfiarem num carro da polícia, que os levou para a esquadra.
     Quando aí chegaram, os dois maltratados primos tiveram uma surpresa colosssal - o senhor Lucro Fácil, também lá estava, preso numa cela. E o pior, é que estava de muito mau humor, e pouco receptivo a dar conselhos sobre finanças ou métodos de enriquecimento.

Primeira conversa-de-encher-chouriços


- Bom dia, vizinha, viu as notícias?
- Vi, sim, que desgraças! Enchentes, aluimentos, tufões, terramotos. Vivemos num cantinho de céu, é o que eu lhe digo. Temos sido poupados a tudo isso, e tudo nos passa ao longe, para nós vermos na televisão, sentadas nos nossos sofázinhos.
- Também concordo consigo, vivemos mesmo num cantinho do céu, e só podemos dar graças por isso.




Segunda conversa-de-encher-chouriços

- Olá vizinha, está mais resignada hoje?
- Olhe, vou ficando, tenho a eternidade para me habituar. Quem iria imaginar que no cantinho do céu que tínhamos lá em baixo também aconteciam desgraças. Uma pessoa fia-se, e depois, pumba!
- Pois é, vizinha, só é pena que neste cantinho de céu, não haja uma reles televisão para vermos as desgraças nas notícias.



Aquele homem que ali vêem, de fato azul muito justo e capa vermelha, não é um homem qualquer, é o Super-Homem. Todos o conhecem. Vive no mesmo prédio que o Batman e o Lanterna Verde, e é adepto do Rochinha Futebol Clube, uma agremiação modesta do bairro suburbano em que reside. Todos os dias da semana, o nosso valente Super-Homem levanta-se às cinco da matina para enfrentar três horas e meia de transportes públicos que o conduzirão à cozinha do restaurante Ribamar, onde trabalha como ajudante de cozinheiro. O Super-Homem é uma pessoa satisfeita consigo mesmo e com a vida que leva, não obstante o salário ridículo que aufere, o aumento dos impostos, e a dor ciática que sempre o atormenta nestes meses rigorosos de Inverno. O Super-Homem não é casado, mas vive um namoro prolongado de casas separadas com Luísa Lanuda, uma jovem aspirante a jornalista, que vai vendendo jornais no seu quiosque para aprender alguma coisa do ramo. Poderíamos censurar ao Super-Homem a sua aparente felicidade e bonomia, mas não o faríamos se nos dissessem (porque são poucos os que o sabem), que o Super-Homem possui uma identidade secreta, a de Clark Kent, um jovem herói cheio de super-poderes que se diverte a valer, a voar pelos ares e a salvar as pessoas dos perigos que as ameaçam. Todos os que conhecem o medíocre e pacato Super-Homem, com o seu fato cheio de vincos e a capa rasgada, estão longe de imaginar que ele é o secreto autor dos feitos que fazem as manchetes dos jornais que a Luísa Lanuda vende no seu quiosque. E o mundo também fica mais sossegado, por acreditar que os super-heróis que cruzam o mundo, não são homens vulgares que picam o cartão e descascam batatas em cozinhas enevoadas de vapor.

1 - A negociação

- Cinco anos! Cinco anos foi quanto a tua mãe demorou desde a última vez que fez peru para a noite de Natal. E agora, a dois dias da malfadada noite, é que lhe deu vontade outra vez.
A filha estava sentada ao seu lado no assento do Volvo creme, a brincar com uma madeixa de cabelos caída sobre a testa.
- ...e já não há perus em lado algum - concluiu - tirando o carro da estrada de alcatrão e enfiando-o por um picadeiro cheio de buracos no meio do mato.
A filha esticou o pescoço para observar melhor algumas crianças que haviam escalado o tronco dum imbondeiro, e que agitavam os braços, sentados num ramo a mais de cinco metros de altura. Tentou acenar-lhes, mas deixou de os ver com a nuvem de pó levantada pelas rodas do carro. Alguns minutos volvidos de corrida e solavancos pela estrada, e o pai deteve o carro junto ao muro duma propriedade. O pai saiu e olhou em volta, enquanto fazia rodar o tronco sobre a cintura. Era uma propriedade grande, que havia sido construída por uma família indiana, que depois se havia mudado para Quelimane, vendendo-a ao seu actual proprietário, um mulato de nome Fonseca, que mantinha uma venda nas traseiras da casa e criava perus e galinhas. Viam-se os galinheiros no pátio fronteiro da casa, e também havia algumas aves à solta em redor da propriedade. O Fonseca veio ao seu encontro, e apertou-lhe as mãos, mas não com muita força, deixando espaço para uma respeitosa deferência.
- Gosto muito de o ver, patrão - disse-lhe, adoptando tacticamente o linguajar do preto, intrigado que estava por o ver ali - o que o traz aqui, patrão?
- Fonseca, preciso que me vendas um peru. A minha mulher quer cozinhar um para a noite de Natal, e já fui a todo o lado e ninguém tem nenhum para vender. Fazes-me esse favor?
- Não posso, patrão, todos os perus que aqui vê já foram contados e vendidos, estou só à espera que os venham carregar.
- Não me podes fazer uma coisa dessas, Fonseca. Vende-me a porcaria dum peru, e eu garanto-te que não te arrependes.
- Desculpe, patrão, mas não pode ser. Como lhe disse, eu vendi-os; já não são meus.
- Vá lá, Fonseca, pago-te o dobro do preço por um, e ainda te dou um saguate para ires beber umas laurentinas fresquinhas ao acampamento.
- Não posso, patrão, mil desculpas, mas não posso!
- Seja, Fonseca, tu é que sabes...Vamos, Rosa! - chamou a filha, que observava uma lagartixa luzidia que corria na base do muro.
Os dois regressaram ao carro. Quando a Rosa voltou a enrolar nos dedos uma madeixa do cabelo, ouviu o pai perguntar-lhe.
- Achas que aquele peru está gordo?
Ela olhou e viu um peru empoeirado a debicar nas ervas, uns poucos metros mais à frente, mas não percebeu a razão da pergunta. O pai pôs o carro a trabalhar, e acelerou pelo caminho por onde haviam chegado, mas ao passar perto do peru, bastou-lhe dar uma guinada ao volante, e a criatura foi apanhada pelas rodas do carro. O volvo travou e o o pai dela saiu serenamente, puxando do maço de tabaco que guardava no bolsinho da balalaica. O Fonseca corria na direcção deles com as mãos na cabeça.
- Acho que fiz negócio - murmurou o pai, enquanto acendia o cigarro.

Prémio Dardos

O João Ventura, atribuiu-me o Prémio Dardos (Obrigado, João!), que, para quem seja novato nestas coisas, comporta a seguinte legenda:


"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."


Este Prémio deve ser passado como um testemunho a dez outros blogues da escolha do visado (para quem apetecer), escolhas que nomeio de seguida:


Dias Felizes


All...for you


Cartas de Coimbra


Dias Desiguais


A Tradução da Memória


Na Ilha de Bruma


Acordar um Dia


Papel de Fantasia


Malefícios da Felicidade


Novo Mundo

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...