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A mostrar mensagens de Novembro, 2010

parábola

Alguns homens estão abrigados da chuva numa paragem de autocarros.
     - Vocês não sabem o que eu tenho passado de dificuldades - diz um - desde que perdi o meu braço, é só entraves e obstáculos.
     - Pior do que tu estou eu - afirmou o seu vizinho de abrigo - perdi de vista os meus dois braços, e não há próteses que aligeirem a minha perda.
     - E eu? - rezingou outro - sem dois braços e uma perna. Acham vocês que eu tenho uma vida fácil?
     - Esqueces-te de mim? - interveio o quarto homem - sem braços e sem pernas a conduzir a cadeira de rodas motorizada com uma manete segura pelos dentes. Desde que os meus membros se viram livres de mim, que sou uma reflexo lunar daquilo que antes fui.
     E quedaram-se todos num silêncio sofrido, cheios de pena de si mesmos e segregando um surdo desprezo pelos outros; silêncio, só interrompido pela voz de uma perna que subia sozinha o passeio junto à paragem.
     - Estava a ouvir a vossa conversa - disse a perna - e de bom grado me juntari…

O sonho de António M.

António M. teve um sonho bizarro - sonhou que enquanto caminhava pela estrada caiu num buraco sem fundo, sem fundo porque, no sonho, esse buraco parecia mesmo não ter fundo, nem sequer paredes, era apenas uma espécie de túnel nas trevas em que ele mergulhava de cabeça. No sonho, para manter o domínio de si e evitar o pânico, começou a bater os braços acima da sua cabeça como se nadasse numa lagoa de águas lodosas. Por fim, ao fim do que lhe pareceu demorar horas ou dias, o túnel acabou e António M. viu-se à beira do dito buraco na praia rochosa duma ilha dos mares austrais (soube de imediato que estava nos mares austrais porque avistou a uns poucos metros de si um canguru com uma tarja com a palavra Welcome). Ainda mal se recompusera da experiência, a esfregar os braços cansados de tanto nadar, e voltou a cair no mesmíssimo buraco, empreendendo o percurso inverso a agitar os braços acima da sua cabeça. Desta vez, a viagem foi mais curta porque António M. acordou, não na estrada onde i…
Podemos acomodar-nos ás coisas e situações, ou podemos sentir cansaço, e rebelarmo-nos de alguma forma, por mais passiva que seja. O pior sucede quando nos cansamos do nosso cansaço, porque aí não temos como sair porque estando encerrados no cansaço, trancamos por fora todas as portas que existiam.



Era um poliglota e começou muito cedo, aos quinze anos já dominava fluentemente sete línguas diferentes, e vinte anos depois, esse número decuplicara. O que nunca se alterara, fora a sua incapacidade para se comunicar com as outras pessoas.

Nó aberto

Dezoito horas e quarenta e cinco de um dia comum da semana. A Rosa foi a primeira a chegar a casa, saía do trabalho mais cedo do que o marido, vantagem de trabalhar por turnos numa fábrica de confecções. Enquanto o marido não chegara, tivera tempo de beber uma cerveja com duas colegas numa marisqueira ali perto, e dar um pulo ao ginásio para queimar as calorias adquiridas, e voltar a casa, de banho tomado e corpo cansado de bom cansaço. Por essa hora chegou o marido, de mãos nos bolsos e trombas amarradas ao semblante. O que é que se passa? Perguntou-lhe. Algum problema? Ele não lhe deu resposta. Sentou-se nos degraus das traseira, ao relento, o olhar fundo nos olhos cavados. Coçava aflitivamente o joelho, tique que lhe era característico quando algo de muito grave o preocupava. Ela tentou mais uma vez. Precisas dalguma coisa? Precisava de me matar! Sibilou por fim. Ela encolheu os ombros e desapareceu no ventre da casa. Ele perscrutava a noite profunda. Tinha medo, tremia de medo e d…

tempo de desespera

Tirou um dia de folga no trabalho para comparecer a uma consulta que havia marcado com dois anos de antecedência. A consulta era só da parte da tarde, mas tirou o dia inteiro porque lhe parecia que tanto tempo de espera exigia de si uma preparação mais cuidada. Assim sendo, naquele dia acordou de madrugada, porque a consulta era à tarde e estivera muito tempo à espera e tinha de se preparar. Mas faltavam muitas horas, e só precisava de meia-hora para vencer a pé a distância que o separava do Centro Médico onde tinha de se apresentar. Andou pela casa, folheou umas revistas, entreviu alguns programas de televisão, e parecia-lhe que ainda era de madrugada, e a consulta era só à tarde e estivera muito tempo à espera e não tinha que se preparar. Por fim, cansada, sentou-se na mesa da cozinha a amassar areia de ampulheta na água duma clepsidra, a fazer tempo.

Precognição

Numa esquina da cidade, deteve os seus passos diante da montra duma livraria que exibia obras de rostos descorados pela luz do Sol. Uma delas sobressaía entre todas pelo magnetismo do seu título: "Este é o teu Destino!". Entrou na livraria em resposta. O livro era caro, e não conseguia folheá-lo porque estava fechada em cruz com uma cinta lacrada sobre a capa. Também não havia indicação do nome do autor ou do teor da obra, e o título, em letras prateadas sobre fundo negro, estava arrumado a um canto da capa para poder ser lido facilmente. Desprezou as suas contenções despesistas e comprou-o num impulso iluminado. Mal saiu para a rua com o seu livro do destino, desfez o lacre da cinta com as chaves do carro e abriu-o com ansiedade. Não havia nada para ler, o livro só tinha páginas em branco.
     «É verdade! Nós é que escrevemos o nosso próprio destino» - ocorreu-lhe, num floreado filosófico, mas o que lhe saiu da garganta foi um pouco diferente:
     - Cabrões!

Constatação

Imagem
Há quem use lentes de contacto azuis, para afirmar que viu Agra.









(foto de Carlos Marques da Silva)

Um cliente difícil

Júlio perdeu um pé aos trinta e dois anos. Um princípio de gangrena no meio do mato, e os médicos amputaram-no. Estranhamente, mesmo sem ter o pé, continuou a senti-lo. Era frequente mudar de posição na cama durante a noite, porque lhe parecia que o peso desse pé sobre o outro o magoava, e não poucas vezes sentia comichão no lugar onde deveria estar o calcanhar e fazia descer as unhas das mãos para se coçar deliciadamente. Os médicos diziam-lhe que isso era psicológico, e Júlio concordava, mas isso não o tornava mais tolerante ou menos exigente, quando era chegado o momento, na sapataria, de experimentar um novo par de sapatos.
Muitas vezes, a sinopse editorial dum novo livro é como uma biópsia literária que retira deste a melhor análise possível, para nos facilitar a entrada num corpo de textos enfermos e a apodrecer.

Arte rodoviária

Sentado no banco da camioneta da linha vinte e três, o aspirante a romancista inspirado alinhavava nas teclas do laptop o seu novo e ambicioso enredo onde a morte tinha um papel preponderante. Para não se repetir procurava mentalmente metáforas para a morte programada dalguns personagens, um seria ceifado pela morte, outro desencarnado como se lhe tirassem a alma com um saca-rolhas, outro colhido mas não ceifado, outro seria levado pelo vento como uma pétala de flor…      Algures, a meio da sua criatividade fecunda, a camioneta da linha vinte e três saiu estrada fora, e explodiu quarenta metros mais abaixo. E todos os ocupantes morreram. Sem metáforas.

O cidadão comum e o tirano, divergem por uma ligeira heterofonia:
O primeiro preza e defende a liberdade de expressão; o segundo, ama e pratica a liberdade de supressão.

Da negação do vazio absoluto:

A vida de cada pessoa está cheia de ausências.
«Viver é outra coisa, eu sei. Falamos sozinhos; cruzam-se, as pessoas, na rua, como se estivessem sós, não se conhecem, não procuram conhecer-se; uns escrevem, outros revoltam-se de outra maneira contra o abismo que separa um corpo de outro corpo; vivemos, em público, uma terrível vida privada. Repara nos velhos: olham para o lado enquanto falam; sozinhos; os companheiros de seu diálogo só morreram para os outros; mas também nós, os outros, temos a nosso lado, à mesa, na cama connosco, o silêncio, e memórias». «(…) O amor foi uma sílaba imensa quando, sobre as dunas estendidos, nos libertamos do rio caudaloso das palavras que entre nós corria».
Casimiro de Brito, “Contos da Morte Eufórica”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984

A (má) gestão da crise

Paráfrase de Kennedy:
Não perguntem como é que o país se pode endividar por vocês, mas perguntem antes, como é que vocês se podem endividar pelo vosso país.
Estava só e sossegado no seu cantinho fresco, quando sentiu um alto suspeito no corpo, talvez maligno.
     «O que é isto? - perguntou-se - é um caroço, TENHO UM CAROÇO!, sinto-o sobre a pele. Ainda há minutos estava tão sossegado e fiado no meu futuro, e agora descubro este caroço!! Quanto tempo me restará de vida? Um mês? Um ano?».
     Ali ficou, torturando-se com estes pensamentos como um condenado a caminho do cadafalso. Eis então que surge por baixo uma vaca, pesada e lenta, guiando-se pela sombra convidativa do pessegueiro, mas que erguendo o focinho feio, o viu, suspenso duma ramada a um metro do solo e, sem demonstrar empatia pelas suas inquietações oncológicas, abriu a bocarra grande cheia de saliva e engoliu-o.