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Plain Story

   Após uma manhã de ressaca dolorosa, o rotundo Nero Lobo saiu finalmente à rua, com uns óculos escuros para disfarçar as olheiras fundas. No quiosque dos jornais, Albano, o seu leal amigo, foi o primeiro a avisá-lo:
   - Andaram por aí a perguntar por si, quatro homens baixos de gabardina e chapéu de palhinha. Tinham um ar ameaçador e exibiam todos uma pinta colorida na testa como as mulheres indianas.
   Nero Lobo agradeceu e passou em revista, mentalmente, o que poderiam querer dele, enquanto, em paralelo, folheava uma revista de motos. Podiam estar a mando dalgum ex-cliente insatisfeito, ou duma vítima de devassa do seu ofício de detective privado, ou podiam simplesmente ser lacaios de Ribeiro Gordão, a quem pedira uns trocados para jogar no casino da Póvoa (empréstimo que uma amnésia reincidente o impedira de pagar). Fosse como fosse, a cabeça doía-lhe e custava-lhe discorrer sobre assuntos tão complexos em fase de ressaca. Precisava de circular, sacudir as banhas, caminhar um pouco. 
   Deambulou até aos jardins do centro da avenida, onde encontrou alguns conhecidos, com os quais jogou duas partidas de xadrez, uma competição de cálculo logarítmico, e solucionou problemas de Sudoku de elevada dificuldade. E como o apetite para exercícios mentais se mantivesse, foi até ao Sublime, um bar nocturno de Strip onde as artistas, por aquelas horas da manhã, compareciam ao serviço para preparar as roupas que iriam despir à noite e lavar e desinfectar os varões onde costumavam esfregar as suas partes pudendas. Absorvido por aquele exercício Zen de contemplação, foi chamado à realidade por um paquete disfarçado de canguru (ou o inverso, que a luz do estabelecimento era fraca e os óculos escuros também não ajudavam), que lhe trouxe um bilhete rasurado pelo Silvino das apostas, que lhe davam conta de que os quatro homens de gabardina haviam voltado ao quiosque do Albano para saber do seu paradeiro, e que o tinham torturado ao obrigá-lo a ler duma ponta à outra todos os artigos e legendas de fotos duma revista cor-de-rosa. "Albano está bem", respondia o bilhete à sua questão óbvia, "apenas ganhou um espirro alérgico à conta disso, o que não aconteceria se ele estivesse aqui a olhar para aquela gata ruiva no varão". Nero Lobo disse "Basta!" em voz alta, imobilizando as artistas de strip, que pensavam que ele queria brincar às estátuas. "Basta", repetiu, mas em voz baixa, falando para o zip do seu casaco de fato-de-treino - ninguém brinca com os meus amigos!". 
   Voltou à rua e à luz do meio-dia, decidido a procurar e a caçar os seus perseguidores. E ainda nem tivera tempo para dar três passos quando deu de caras com Ribeiro Gordão, que o olhava com desconfiança do alto da sua figura magra e esguia.
   - Queres o teu dinheiro de volta, Gordão? Podias pedir-me em vez de mandares atrás de mim os quatro cavaleiros do Apocalipse. 
   - Não sei do que estás a falar, a menos que te refiras ao romance mais medíocre que alguma vez li.
   - Falo dos quatro homens que puseste no meu encalço...
   - Não fui eu, e não quero o teu dinheiro, pelo menos, não antes de preencher e entregar a minha declaração de IRS.
   - Então, porque estás aqui?
   - Procurava-te e a todos os que me devem dinheiro, para pedir para não mo pagarem já, porque quero primeiro livrar-me dos que andam a investigar as minhas contas, e também porque ando à procura de gémeas univitelinas com as quais possa iniciar um estudo sobre as mutações genéticas das glândulas mamárias.
   - Seja - contemporizou Nero, intrigado ainda pelo mistério dos quatro homens de gabardina.
   Quatro homens, raciocinou, invocando todo o seu génio de investigador, quatro homens, quarteto, quarteto de cordas, quarteto de Liverpool. Devem estar nalguma loja de música, no palco duma sala de espectáculos, ou nas casas-de-banho do Salão Magno de Ópera. Seguindo a sua intuição, começou a vistoriar todos os lugares de que se lembrava relacionados com a arte da música, começando pela casa da dona Eufémia, sua antiga explicadora, com a qual se iniciara sexualmente (experiência que o levou a cantar no banho durante quinze dias). Na terceira paragem, o Lar de Idosos para fabricantes de realejos, encontrou finalmente os quatro homens misteriosos, que esfregavam dentaduras postiças enquanto assobiavam em coro o Amazing Grace.
   Nero Lobo olhou-os com gravidade, enquanto, por uma questão de segurança, tacteava a fisga que trazia sempre no bolso do fato-de-treino.
   - Chamo-me Nero Lobo - declarou - ouvi dizer que andam à minha procura. O que me querem?
   - Encontrá-lo - responderam em uníssono - fomos criados pelo gerador aleatório de personagens, e disseram-nos que só você nos poderia indicar o que iríamos fazer em seguida.
   Os dedos de Nero aliviaram a pressão sobre o cabo da fisga, e o seu pensamento divagou. Sobre o Amazing Grace que acabara de ouvir, as madressilvas no colo da sua esposa na noite de núpcias, a porca da sua tia a parir no celeiro, o croupier cantante do casino da Póvoa...
   - Vocês têm talento para a música - lembrou - e eu sempre quis trocar a minha profissão de detective pela de cantor. Se vocês quiserem colaborar, podemos formar um grupo, e estava a pensar num nome que poderíamos usar - o que é que vocês acham de Banda Gástrica?

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...