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A mostrar mensagens de Outubro, 2010

"Espaço, a última fronteira..."

A grande questão da minha vida, não é a de qual o livro que eu gostaria de levar para uma ilha deserta, mas de qual a ilha deserta que eu gostaria de trazer para a minha vida.
«Odeio ventríloquos, odeio bonecos de ventríloquos e todos aqueles que operam a ventriloquia - políticos, eleitores, padres acabados de sair do seminário, populares reféns do senso-comum. Ao contrário de muitas crianças, eu nunca senti medo de palhaços, mascarados, gente pintada, mas os ventríloquos é uma outra história. O ventríloquo projecta a sua voz para um boneco, mas a voz que nos parece vir do boneco não lhe pertence, nem ao ventríloquo que o anima, é algo de diferente, metamorfoseado. A voz do boneco tem uma natureza e uma existência própria e pode conter outras vozes, de outros mundos e dimensões, vozes de gente que já morreu ou ainda sonha existir, vozes malditas há muito condenadas a um silêncio prudente,e que assim aproveitam a oportunidade para se evadirem da sua caixa de Pandora. Quando na catequese, me tentaram explicar o artifício mito-teológico do inferno, só o consegui assimilar imaginando Satanás, em pessoa, a manuasear um boneco caricatural de ventríloquo, empresta…
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Thomas More, político e humanista, tomou sobre si o encargo de ensinar um corvo a falar e a recitar as Sagradas Escrituras, usando para isso de estímulos perversos como a privação de comida e o uso de anilhas farpadas nas patas da ave. Quando, finalmente, o corvo lhe conseguiu escapar, só reteve dessa aprendizagem, a obsessão de repetir com uma voz torturada: "Never More, Never More, Never More!".
Foi uma noite terrível, o Vento derrubou contentores, espalhou lixo, partiu coisas. Quando chegou de madrugada a casa, ainda bêbado e enraivecido, a mulher achou justo que ele carregasse esse apelido.

Imodéstia

Os dois fantasmas estão sentados num madeiro apodrecido da praia, abismados com a calmaria que tinham diante dos olhos. Parecia um lago. - O tsunami foi terrível – conta um – e só um tsunami podia matar-me. Os meus perderam-me, a minha família, os amigos, os meus companheiros maçons, os eleitores que me respeitavam, os leitores, críticos e historiadores que me admiravam e vão perpetuar o meu nome nos anais da literatura, a carpir a minha morte precoce aos oitenta e sete anos de idade. - Foi terrível, na verdade – concordou o outro – eu na vida só tinha um cão, e não sei o que lhe sucedeu, mas quer tenha perecido ou não com o tsunami, estou certo de que anda à minha procura por uma praia como esta! O outro ficou calado um momento, a olhar a água da maré que a areia da praia absorvia. - Invejo-o! – disse por fim, baixinho, como se não fosse ele a falar.

O Golpe do Século

Marco e Eugénio eram irmãos, e quase tão irmão como eles, era o seu primo, Margunto, que fora criado com eles, e se lhes assemelhava como um dedo mais da mesma mão. Nenhum deles gostava de trabalhar, e andavam de Sol a Sol a procurar formas e esquemas para não fazer puto dum corno – pequenas vigarices, que passavam por uma ou outra carteira surripiada aos incautos, caixas de correio forçadas na ansiosa esperança de encontrarem envelopes com dinheiro dentro,destruição e descaroçamento de parquímetros. Um deles, talvez Marco ou talvez Margunto – ambos se gabariam do mesmo – teve a ideia inspirada de darem um golpe a sério, daqueles que enchem os bolsos e trazem o repouso merecido durante largas semanas ou dias. Para isso, tinham de escolher alvos potenciais, uma casa que aparentasse conter bens de valor, e que não parecesse muito difícil de ser assaltada. Mas como fazer isso? Eugénio propôs – e aqui não houve dúvidas sobre a autoria da ideia, porque ele não permitiu outras versões pirat…
- Tenho uma vida invejável, um trabalho que me compraz e completa, uma mulher e filhos adoráveis, amigos leais e atentos, e bens e riquezas que chegam e sobejam. E isto apenas para apontar o que é mais óbvio, e a verdade é esta - eu estou condenado a ser feliz.
- E não podes fazer nada para o evitar? O teu advogado já meteu recurso?
- Estou a tentar reagir este estado de coisas e já instruí o meu advogado para avançar com um pedido de recurso, mas sabes que estas coisas levam o seu tempo. Mas isso tem o seu lado positivo, é que enquanto espero e desespero, consigo sentir-me um pouco menos feliz.
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Oceano: Desconheces, Prometeu, que as palavras são remédio para um espírito enfermo?


Prometeu: Se é que existe palavra que, a tempo, alivie o coração, e que não oprima pela força a alma transbordante.


(Ésquilo, "Prometeu Agrilhoado", 1, tradução de Fernando Melro, Editorial Inquérito Lda., Lisboa, s/d)
- E agora?
- Pressione bem o polegar no lugar do contrato destinado à assinatura...E agora nesta cópia...E nesta ainda!
- Já está, e agora?
- Temos de aguardar, porque o sangue leva algum tempo a secar...

O perfeccionista

"Vinho maduro de sabor frutado, deve-se beber sempre à temperatura ambiente de 18 graus centígrados". 
Leu duas vezes o rótulo nas costas da garrafa de vinho, esfregando-o com a mão enluvada. Chegou-se à entrada do iglu, e não conseguiu conter uma lágrima enquanto admirava a planície gelada do Ártico que tinha diante de si.

tempos mudados

João Armando Tibório, sempre foi uma criatura obcecada pelo detalhe e pelo rigor, que abominava imprecisões, alusões vagas, e vagos equívocos. Por isso, quando se apaixonou na flor da sua juventude por uma médica estagiária em serviço na sua aldeia natal, gravou meticulosamente o registo dessa paixão com um canivete na casca lisa duma árvore do adro da igreja: João Armando Tibório (depois, a silhueta dum coração, e o nome, também completo, da eleita) – Francisca Maria Etelvina da Conceição. Assim mesmo, com todas as letras, espaços e maiúsculas.       O tempo passou, e o nome permaneceu gravado e o tamanho dos caracteres aumentou, inclusive, com o crescimento da árvore. João Armando Tibório, partiu da sua aldeia pouco tempo depois, em busca duma vida melhor, e andou por seca e Meca até regressar à sua aldeia natal, uns vinte anos depois, com uma nova incumbência e uma nova missão.       Na própria semana do seu regresso, a árvore do testemunho amoroso foi deitada abaixo, e cortada …

desabafo

«A minha vida está cheio de caminhos apenas iniciados, lances de escada vencidos até meio, travessias e viagens com uma volta no meio onde desisti, e muitas mais coisas similares, alegóricas, ou não, relações que ficaram no preâmbulo duma vida em comum, a mulher e filhos deixados para trás, negócios e projectos desfeitos à saída do estaleiro. Toda a minha vida foi isto, apenas começar e desistir em seguida. Isto é a única coisa que eu estou a levar a sério, com seriedade mesmo, do princípio ao fim, de fio a pavio...»
    Interrompeu-se para retomar o fôlego, mas o seu interlocutor, um enfermeiro da ala de doentes terminais, continuava a acenar distraidamente com a cabeça.

Contos tradicionais - 1

Pascia o austero bode no monte, muito senhor do seu focinho e da sua barbicha de patriarca, quando avistou, a espreitar por detrás dos degraus dum cruzeiro, a mais bela cabra que alguma vez pusera a vista em cima, jovem e lanuda, de pêlo brilhante, segurando na boca um raminho de papoilas e asfódelos.
     - Bela cabra! - baliu o bode, metendo conversa - és bela como o Sol, és, aliás, tão bela, que é como se fosses dona do Sol. Porque não deixas estes ermos onde os lobos e os caçadores rondam, e me acompanhas até onde está o rebanho do meu senhor. Farei de ti minha esposa, e defender-te-ei com a força dos meus chifres.
     - Assim farei, meu senhor, mas só se não olhares para mim enquanto caminhamos.
     E a cabra acompanhou o bode até ao planalto onde estava o resto do rebanho, mas sempre a caminhar pelo meio das ervas altas, ou resguardando o seu corpo por detrás das rochas e arbustos.
     - É tímida - pensou o bode em balês - mas o tempo e o instinto farão o resto.
     Ainda as…
«Que sonhará o indecifrável futuro?
(...)
«Sonhará mundos tão intensos, que a voz de uma das suas aves poderia matar-te».

(Jorge Luís Borges, Alguém Sonhará, in "Os Conjurados", Difel - Difusão Editorial Lda., Lisboa, 1985)

Rumos Circulares

Homero nunca existiu, o cego Homero, o rapsodo Homero que vagueava pela Grécia apoiado no seu bastão, a cantar as guerras dos Aqueus e os ardis de Ulisses. Homero foi inventado, sonhado por uma plêiade de outros poetas, que o conceberam cego, opaco, como uma gema negra que aborvesse e guardasse a luz que brilha sobre as ilhas e os mares do mundo antigo.


Mas o cego Homero, o imaginário cego Homero, também sonhava, com Ulisses e os Aqueus, e com outro criador, cego como ele, que passeava nas praias da Ática a ouvir os delírios salinos do Egeu, apoiado no ombro de Maria Kodama enquanto acolhia a luz do coração de Homero.



estória borrascosa

Um sonho bom é algo que não conseguimos represar em nós, e que temos necessidade de partilhar, como o amor ou o espirro. Afrânio Melegundes tivera um sonho desses, no qual estava a caminhar na clareira dum bosque e se ria como um perdido, como o mais feliz ou o mais tolo dos homens. Afrânio vestiu-se num ápice, e saiu para a rua à procura de amigos a quem pudesse relatar o sonho em todos os seus mínimos detalhes; e deambulou pela cidade à procura deles, entrou nos cafés, na repartição de Finanças e na igreja, foi até à estação de comboios e ao mercado da fruta; e quando já lhe começavam a doer os pés de tanto caminhar, é que se lembrou: "Ah, pois, eu não tenho amigos!".

- Então Nunes, como vai o senhor? - Pergunta o condutor da camioneta ao passageiro que acabara de entrar.
- Olhe, estou com'ó tempo, borrascoso.
O Nunes caminha por entre os bancos, e a mesma pergunta é feita por outros dois amigos que o saúdam, e repete o mesmo com ar desalentado: "estou com'ó tempo...".
Descobre, finalmente, um assento vago ao lado duma peixeira com lenço na cabeça e saia de sete folhos. Quando se instala, a peixeira vira-se para o lado da janela, e encolhe-se, algo receosa.
Não fosse o Nunes começar a trovejar.

A vida saudável nos prédios de apartamentos

Naquele prédio gigantesco, o poço do elevador que se abria do terraço à cave era rodeado pelas escadas intermináveis, que evoluíam em volutas em torno do poço do elevador, como a serpente de Hermes em volta do bordão. Subir e descer pelo elevador, evitava um cansaço extremo e um ritmo cardíaco acelerado e, de certa forma, pode-se dizer que auxiliava a saúde dos que o utilizavam. Dum modo paralelo, subir e descer as escadas, ainda que provocasse o que o elevador evitava, eram óptimos para fazer exercício e tonificar os músculos e a irrigação sanguínea do cérebro. Duas opções saudáveis dignas do caduceu de Hermes. Ou podia-se optar por uma terceira opção, já que voar nos é interdito por natureza - quem preferisse atirar-se do alto do terraço ou dum dos seus andares mais elevados, decerto que tomava uma decisão exterior à saúde, mas pelo menos era contemplado com o atributo precioso de não ter de se preocupar mais com escolhas e decisões (ocupação que, como é sabido, pode causar algum des…

variações

Conduzia o mesmo carro de sempre por uma estrada por onde nunca tinha passado. A seguir a uma curva apertada, distinguiu na berma da estrada um terreno em desnível balizado por uma charca de águas lodosas e espessos canaviais. Um letreiro junto ao alcatrão, anunciava:
          ACEITO PEDRA E ENTULHO
Mais à frente, e entre dois lugarejos próximos, uma tabuleta semelhante estava cravada junto a um terreno plano que confinava com a estrada:
          ACEITA-SE TERRA
A seguir ao segundo lugarejo, quando o mato e os pomares haviam substituído as linhas direitas do casario, e diante duma casa em ruínas, precariamente remendada com placas de zinco e retalhos de madeira prensada, uma terceira placa pedia em letras trémulas e inseguras:
          ACEITAÇE PÁTRIA



A hora dos livros 1

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Lançamento, no Rio de Janeiro, a 17 deste mês, de O Olho da Fechadura de Angela Schnoor, pela Editora Multifoco.


Daqui envio um abraço transatlântico à Angela, com votos de muitos sucessos para o lançamento e para a obra.


a hora dos livros 2

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- Vocês escondem-se e eu vou contar até dez, e depois vou à vossa procura!O irmão mais novo, que era mais inclinado para as Humanidades, advertiu: - Está bem, mas quando chegar a minha vez, hei-de soletrar até ao jota.

Um poeta é sempre um poeta, sejam quais forem as suas obras - um verso, um ensaio, um filho, um barco de papel dobrado com dedos de sonhar.


(degustando a prosa de Carlos de Oliveira)

sem cartesianismos

O filósofo Descartes era um homem probo e frugal, que desprezava lautos banquetes e apreciava dormir bem e durante muitas horas, da mesma forma que era capaz de estar uma noite inteira a debater ideias com outros filósofos e amigos. Durante essas longas conversas, era comum ficarem admirados com sua habilidade argumentativa e, não raro, dirigiam-lhe brindes, ou então, incitavam-no a fazê-lo como preito às matemáticas ou à luz da razão. Descartes, que trocara o vinho por sumos de frutos pisados (para não perder a clareza das suas deduções), erguia o seu copo e, com um ar grave, repetia para si mesmo: “Cogito, e ergo o sumo!”.

Plain Story

Após uma manhã de ressaca dolorosa, o rotundo Nero Lobo saiu finalmente à rua, com uns óculos escuros para disfarçar as olheiras fundas. No quiosque dos jornais, Albano, o seu leal amigo, foi o primeiro a avisá-lo:
   - Andaram por aí a perguntar por si, quatro homens baixos de gabardina e chapéu de palhinha. Tinham um ar ameaçador e exibiam todos uma pinta colorida na testa como as mulheres indianas.
   Nero Lobo agradeceu e passou em revista, mentalmente, o que poderiam querer dele, enquanto, em paralelo, folheava uma revista de motos. Podiam estar a mando dalgum ex-cliente insatisfeito, ou duma vítima de devassa do seu ofício de detective privado, ou podiam simplesmente ser lacaios de Ribeiro Gordão, a quem pedira uns trocados para jogar no casino da Póvoa (empréstimo que uma amnésia reincidente o impedira de pagar). Fosse como fosse, a cabeça doía-lhe e custava-lhe discorrer sobre assuntos tão complexos em fase de ressaca. Precisava de circular, sacudir as banhas, caminhar um pou…

Subtileveza

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Folheou os velhos álbuns de família enquanto o pai, apenas a alguns metros, alimentava os peixes do aquário.
- Estava aqui a reparar numa coisa - disse-lhe - nas fotos antigas, você está sempre com um cigarro na boca ou na mão. Você fumava muito!
- Uma média de dois maços por dia, começava logo que me levantava, e era até depois do jantar, e comprava aos pacotes, como hoje se compra aos maços. Parecia uma daquelas locomotivas a carvão.
- E você não largava a chupeta, mesmo comigo ou com um dos meus irmãos ao colo. Se eu fosse um cínico, era capaz de afirmar que o tabaco e nós estávamos em pé de igualdade.
O velhote sorriu, com a sábia bonomia que a experiência acrescenta a um homem.
- Vê as coisas desta maneira - replicou - deixei de fumar há trinta anos, abandonei o tabaco, mas nenhum de vocês me pode acusar do mesmo!

Il Sogno del Minotauro: Imparare — José Eduardo Lopes

Il Sogno del Minotauro: Imparare — José Eduardo Lopes: ". (Immagine: Stefano De Luigi, Blanco) Fu con il Braille che l'amore si fece luce. Quando iniziarono a stare insieme, lei si lamentava c..."