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Outros dados, e cartas, no final da página

"Espaço, a última fronteira..."

A grande questão da minha vida, não é a de qual o livro que eu gostaria de levar para uma ilha deserta, mas de qual a ilha deserta que eu gostaria de trazer para a minha vida.
«Odeio ventríloquos, odeio bonecos de ventríloquos e todos aqueles que operam a ventriloquia - políticos, eleitores, padres acabados de sair do seminário, populares reféns do senso-comum. Ao contrário de muitas crianças, eu nunca senti medo de palhaços, mascarados, gente pintada, mas os ventríloquos é uma outra história. O ventríloquo projecta a sua voz para um boneco, mas a voz que nos parece vir do boneco não lhe pertence, nem ao ventríloquo que o anima, é algo de diferente, metamorfoseado. A voz do boneco tem uma natureza e uma existência própria e pode conter outras vozes, de outros mundos e dimensões, vozes de gente que já morreu ou ainda sonha existir, vozes malditas há muito condenadas a um silêncio prudente,e que assim aproveitam a oportunidade para se evadirem da sua caixa de Pandora. Quando na catequese, me tentaram explicar o artifício mito-teológico do inferno, só o consegui assimilar imaginando Satanás, em pessoa, a manuasear um boneco caricatural de ventríloquo, emprestando-lhe a sua voz, e falando ele mesmo com a voz do boneco».


(Justino Miranda, "Transgressões Pessoais", capítulo 14, 3, Editora Ataraxia, Coimbra, 1974)
     Thomas More, político e humanista, tomou sobre si o encargo de ensinar um corvo a falar e a recitar as Sagradas Escrituras, usando para isso de estímulos perversos como a privação de comida e o uso de anilhas farpadas nas patas da ave. Quando, finalmente, o corvo lhe conseguiu escapar, só reteve dessa aprendizagem, a obsessão de repetir com uma voz torturada: "Never More, Never More, Never More!".
Foi uma noite terrível, o Vento derrubou contentores, espalhou lixo, partiu coisas. Quando chegou de madrugada a casa, ainda bêbado e enraivecido, a mulher achou justo que ele carregasse esse apelido.

Imodéstia

Os dois fantasmas estão sentados num madeiro apodrecido da praia, abismados com a calmaria que tinham diante dos olhos. Parecia um lago.
- O tsunami foi terrível – conta um – e só um tsunami podia matar-me. Os meus perderam-me, a minha família, os amigos, os meus companheiros maçons, os eleitores que me respeitavam, os leitores, críticos e historiadores que me admiravam e vão perpetuar o meu nome nos anais da literatura, a carpir a minha morte precoce aos oitenta e sete anos de idade.
- Foi terrível, na verdade – concordou o outro – eu na vida só tinha um cão, e não sei o que lhe sucedeu, mas quer tenha perecido ou não com o tsunami, estou certo de que anda à minha procura por uma praia como esta!
O outro ficou calado um momento, a olhar a água da maré que a areia da praia absorvia.
- Invejo-o! – disse por fim, baixinho, como se não fosse ele a falar.

O Golpe do Século

     Marco e Eugénio eram irmãos, e quase tão irmão como eles, era o seu primo, Margunto, que fora criado com eles, e se lhes assemelhava como um dedo mais da mesma mão. Nenhum deles gostava de trabalhar, e andavam de Sol a Sol a procurar formas e esquemas para não fazer puto dum corno – pequenas vigarices, que passavam por uma ou outra carteira surripiada aos incautos, caixas de correio forçadas na ansiosa esperança de encontrarem envelopes com dinheiro dentro,destruição e descaroçamento de parquímetros. Um deles, talvez Marco ou talvez Margunto – ambos se gabariam do mesmo – teve a ideia inspirada de darem um golpe a sério, daqueles que enchem os bolsos e trazem o repouso merecido durante largas semanas ou dias. Para isso, tinham de escolher alvos potenciais, uma casa que aparentasse conter bens de valor, e que não parecesse muito difícil de ser assaltada. Mas como fazer isso? Eugénio propôs – e aqui não houve dúvidas sobre a autoria da ideia, porque ele não permitiu outras versões piratas – que trabalhassem uns tempos para uma daquelas empresas que faziam manutenção de jardins. Era o emprego ideal para ver as casas mais de perto, escolher uma e estudar os seus pontos fracos. E assim fizeram, empregaram-se os três na mesma firma de jardinagem, e dedicaram as semanas seguintes a cortar relva e esgrimir os corta-sebes electrónicos – trabalhos que os levaram à beira da mais completa exaustão física - enquanto faziam o levantamento das vivendas mais prometedoras.
     Pouco mais de um mês depois disso (com o primeiro salário a pesar no bolso), e com os três sentados na bancada do Estádio Alvalade XXI, em tempo de intervalo do jogo, compararam as notas. O alvo foi escolhido nesse mesmo momento, opinando sobre ele enquanto comiam bifanas. Havia uma vivenda de dois pisos na periferia da cidade que era tentadoramente fácil. Era isolada, os donos nunca estavam durante o dia, não havia crianças por perto, nem vizinhos á porta ou parentes a cirandar por ali. Á Quinta-Feira, todas as Quintas-Feiras, vinha uma senhora limpar a casa e passar a roupa a ferro e, com um inestimável sentido de rotina, deixava a porta das traseiras aberta para trás enquanto limpava o primeiro andar – piso onde se deviam situar os quartos - e ia e vinha por ela para pôr os cobertores a assoalhar no estendal do jardim. Se eles conseguissem trancá-la à chave numa das divisões do primeiro andar, tinham a casa à disposição para tirarem de lá o que quisessem.
     Na semana que se seguiu a esse convénio, não foram trabalhar, concentrados como estavam em preparar o golpe (só com muito descanso é que a cabeça das pessoas trabalha como deve ser). Naquela Quinta-Feira, posicionaram-se junto à casa, à espreita, ocultando os corpos magros por detrás dos troncos dum eucaliptal que se estendia do outro lado da rua. Dali, observaram os donos da casa a saírem em carros separados e, perto das dez da manhã, chegar a empregada da limpeza num xaveco de três rodas, com o tubo de escape aos soluços. Esperaram, tensos. Ouviram-na entrar em casa e começar a abrir os estores das janelas do rés-do-chão. Enquanto corriam os estores da sala, os três entraram no jardim, pulando o portão pequeno dos fundos do jardim, e cinco minutos depois estavam agachados por detrás do oleado que cobria as cadeiras e espreguiçadeiras da piscina. Ali, ficavam a um passo da porta das traseiras e no ângulo em que estavam, junto à esquina do edifício, era pouco provável que ela os visse de qualquer uma das janelas do primeiro piso.
     Eugénio, que era o mais novo dos três, mas também o mais temerário, descalçou os sapatos e declarou.
     - Eu encarrego-me da mulher. Depois dela estar arrumada, cada um carrega com o que encontrar de mais valioso, e pomo-nos para fora daqui. Não podemos demorar mais de dez minutos, porque não sei se ela tem telemóvel, e também não lhe vou perguntar.
     Os outros concordaram em silêncio, tirando dos bolsos alguns sacos de supermercado dobrados que traziam. Veio a senhora pela primeira vez ao jardim, trazendo de braçado um edredão e duas almofadas desenfronhadas, e Eugénio assentou as palmas das mãos no chão com o corpo arqueado como um atleta na linha de partida, e quando a sua vítima voltou a subir as escadas, Eugénio seguiu-a a uma prudente distância, subindo os degraus da escada para o piso de cima. Reencontrou-a dentro dum quarto grande, ela viu-o e soltou um grito agudo, mas o lesto Eugénio fechou a porta do quarto. Que não tinha chave. Sentiu um suor gelado, agarrado à maçaneta da porta enquanto do outro lado a mulher aos gritos tentava abri-la para fora. Felizmente, os dois Mares tinham-no seguido.
     - Empurrem-me esse móvel para aqui, rápido! – ordenou, aflito para conseguir manter a porta fechada.
     Pelos dois, empurraram um pequeno móvel de gavetas de encontro à porta, mas como a mulher continuasse às ombradas à porta, encostaram a este uma pesada arca de mogno, e em cima desta, sentaram-se os três, para recobrar o fôlego.
     - Quando eu contar até dez – ciciou Eugénio, ofegante - vamos à procura da truta, da fruta, do dinheiro, digo. Um, dois, três, quatro…
     O cinco, já foi contado com eles a vasculhar as gavetas das divisões do primeiro andar, e o dez já os apanhou a descer as escadas para saquear o piso inferior.
     Não encontraram numerário, notas, pilim, mas iam apanhando o que podiam. Botões de punho, esferográficas, uma estatueta de latão da Vitória de Samotrácia, uns chinelos de quarto com o feitio de coelhos, dois vasos com gerânios, saboneteiras, cinzeiros de estanho, um quadro quadrado com uma truta em louça em alto-relevo. Reuniram o espólio em poucos minutos, e convergiram para a porta das traseiras.        
     Já no jardim, Margunto fê-los deter-se. Pareceu, pareceu-lhe, que levavam poucas coisas e de pouco valor, e assim não podia ser. Confiou os seus sacos aos primos e regressou ao interior da casa em busca dum último tesouro, de algo singularmente precioso que justificasse aquelas semanas de preparativos mentais, e trabalho árduo e mal pago. Após um périplo rápido por todas as divisões, encontrou finalmente o que procurava e meteu-o debaixo do braço.
     Os primos esperavam-no, impacientes, e correram juntos para o portão dos fundos do jardim, enquanto o  ar acima deles era sacudido pelos gritos que a empregada da limpeza soltava à janela.
     - O que é que foste buscar? O que é que trazes aí?
     - Os devedês com os filmes do Jean-Claude Van Damme – gabou-se – acho que devem estar aqui os mais importantes.



(uma homenagem aos Bons Malandros)

- Tenho uma vida invejável, um trabalho que me compraz e completa, uma mulher e filhos adoráveis, amigos leais e atentos, e bens e riquezas que chegam e sobejam. E isto apenas para apontar o que é mais óbvio, e a verdade é esta - eu estou condenado a ser feliz.
- E não podes fazer nada para o evitar? O teu advogado já meteu recurso?
- Estou a tentar reagir este estado de coisas e já instruí o meu advogado para avançar com um pedido de recurso, mas sabes que estas coisas levam o seu tempo. Mas isso tem o seu lado positivo, é que enquanto espero e desespero, consigo sentir-me um pouco menos feliz.

Oceano: Desconheces, Prometeu, que as palavras são remédio para um espírito enfermo?


Prometeu: Se é que existe palavra que, a tempo, alivie o coração, e que não oprima pela força a alma transbordante.


(Ésquilo, "Prometeu Agrilhoado", 1, tradução de Fernando Melro, Editorial Inquérito Lda., Lisboa, s/d)
- E agora?
- Pressione bem o polegar no lugar do contrato destinado à assinatura...E agora nesta cópia...E nesta ainda!
- Já está, e agora?
- Temos de aguardar, porque o sangue leva algum tempo a secar...

O perfeccionista

"Vinho maduro de sabor frutado, deve-se beber sempre à temperatura ambiente de 18 graus centígrados". 
Leu duas vezes o rótulo nas costas da garrafa de vinho, esfregando-o com a mão enluvada. Chegou-se à entrada do iglu, e não conseguiu conter uma lágrima enquanto admirava a planície gelada do Ártico que tinha diante de si.

tempos mudados

     João Armando Tibório, sempre foi uma criatura obcecada pelo detalhe e pelo rigor, que abominava imprecisões, alusões vagas, e vagos equívocos. Por isso, quando se apaixonou na flor da sua juventude por uma médica estagiária em serviço na sua aldeia natal, gravou meticulosamente o registo dessa paixão com um canivete na casca lisa duma árvore do adro da igreja: João Armando Tibório (depois, a silhueta dum coração, e o nome, também completo, da eleita) – Francisca Maria Etelvina da Conceição. Assim mesmo, com todas as letras, espaços e maiúsculas. 
     O tempo passou, e o nome permaneceu gravado e o tamanho dos caracteres aumentou, inclusive, com o crescimento da árvore. João Armando Tibório, partiu da sua aldeia pouco tempo depois, em busca duma vida melhor, e andou por seca e Meca até regressar à sua aldeia natal, uns vinte anos depois, com uma nova incumbência e uma nova missão. 
     Na própria semana do seu regresso, a árvore do testemunho amoroso foi deitada abaixo, e cortada em grossos toros para serem arrumados no depósito de lenha da residência paroquial.


desabafo

    «A minha vida está cheio de caminhos apenas iniciados, lances de escada vencidos até meio, travessias e viagens com uma volta no meio onde desisti, e muitas mais coisas similares, alegóricas, ou não, relações que ficaram no preâmbulo duma vida em comum, a mulher e filhos deixados para trás, negócios e projectos desfeitos à saída do estaleiro. Toda a minha vida foi isto, apenas começar e desistir em seguida. Isto é a única coisa que eu estou a levar a sério, com seriedade mesmo, do princípio ao fim, de fio a pavio...»
    Interrompeu-se para retomar o fôlego, mas o seu interlocutor, um enfermeiro da ala de doentes terminais, continuava a acenar distraidamente com a cabeça.

Contos tradicionais - 1

     Pascia o austero bode no monte, muito senhor do seu focinho e da sua barbicha de patriarca, quando avistou, a espreitar por detrás dos degraus dum cruzeiro, a mais bela cabra que alguma vez pusera a vista em cima, jovem e lanuda, de pêlo brilhante, segurando na boca um raminho de papoilas e asfódelos.
     - Bela cabra! - baliu o bode, metendo conversa - és bela como o Sol, és, aliás, tão bela, que é como se fosses dona do Sol. Porque não deixas estes ermos onde os lobos e os caçadores rondam, e me acompanhas até onde está o rebanho do meu senhor. Farei de ti minha esposa, e defender-te-ei com a força dos meus chifres.
     - Assim farei, meu senhor, mas só se não olhares para mim enquanto caminhamos.
     E a cabra acompanhou o bode até ao planalto onde estava o resto do rebanho, mas sempre a caminhar pelo meio das ervas altas, ou resguardando o seu corpo por detrás das rochas e arbustos.
     - É tímida - pensou o bode em balês - mas o tempo e o instinto farão o resto.
     Ainda assim, o cerdoso bode estranhava, a cabra andava sempre escondida, furtiva, como se os evitasse a todos, ou guardasse algum segredo pavoroso.
     - Está muito calor - baliu-lhe o bode - porque não vais até ao arroio para te refrescares.
     A cabrita baliu afirmativamente, em resposta, e dirigiu-se ao arroio cujas águas deslizavam no outro lado do monte. O astuto bode correu por um atalho e chegou lá primeiro que ela, e ocultou-se por detrás dumas urzes a espreitar. Viu, finalmente, a cabra aproximar-se, e sair do meio das ervas. E foi aí que o terrível segredo se desvelou, a cabra era disforme, porque em vez de belos cascos arredondados, possuía na extremidade das pernas, uns apêndices grosseiros, compridos e achatados. 
     A bela cabra tinha pés de dama.

«Que sonhará o indecifrável futuro?
(...)
«Sonhará mundos tão intensos, que a voz de uma das suas aves poderia matar-te».

(Jorge Luís Borges, Alguém Sonhará, in "Os Conjurados", Difel - Difusão Editorial Lda., Lisboa, 1985)

Rumos Circulares

Homero nunca existiu, o cego Homero, o rapsodo Homero que vagueava pela Grécia apoiado no seu bastão, a cantar as guerras dos Aqueus e os ardis de Ulisses. Homero foi inventado, sonhado por uma plêiade de outros poetas, que o conceberam cego, opaco, como uma gema negra que aborvesse e guardasse a luz que brilha sobre as ilhas e os mares do mundo antigo.


Mas o cego Homero, o imaginário cego Homero, também sonhava, com Ulisses e os Aqueus, e com outro criador, cego como ele, que passeava nas praias da Ática a ouvir os delírios salinos do Egeu, apoiado no ombro de Maria Kodama enquanto acolhia a luz do coração de Homero.



estória borrascosa

Um sonho bom é algo que não conseguimos represar em nós, e que temos necessidade de partilhar, como o amor ou o espirro. Afrânio Melegundes tivera um sonho desses, no qual estava a caminhar na clareira dum bosque e se ria como um perdido, como o mais feliz ou o mais tolo dos homens. Afrânio vestiu-se num ápice, e saiu para a rua à procura de amigos a quem pudesse relatar o sonho em todos os seus mínimos detalhes; e deambulou pela cidade à procura deles, entrou nos cafés, na repartição de Finanças e na igreja, foi até à estação de comboios e ao mercado da fruta; e quando já lhe começavam a doer os pés de tanto caminhar, é que se lembrou: "Ah, pois, eu não tenho amigos!".

- Então Nunes, como vai o senhor? - Pergunta o condutor da camioneta ao passageiro que acabara de entrar.
- Olhe, estou com'ó tempo, borrascoso.
O Nunes caminha por entre os bancos, e a mesma pergunta é feita por outros dois amigos que o saúdam, e repete o mesmo com ar desalentado: "estou com'ó tempo...".
Descobre, finalmente, um assento vago ao lado duma peixeira com lenço na cabeça e saia de sete folhos. Quando se instala, a peixeira vira-se para o lado da janela, e encolhe-se, algo receosa.
Não fosse o Nunes começar a trovejar.

A vida saudável nos prédios de apartamentos

Naquele prédio gigantesco, o poço do elevador que se abria do terraço à cave era rodeado pelas escadas intermináveis, que evoluíam em volutas em torno do poço do elevador, como a serpente de Hermes em volta do bordão. Subir e descer pelo elevador, evitava um cansaço extremo e um ritmo cardíaco acelerado e, de certa forma, pode-se dizer que auxiliava a saúde dos que o utilizavam. Dum modo paralelo, subir e descer as escadas, ainda que provocasse o que o elevador evitava, eram óptimos para fazer exercício e tonificar os músculos e a irrigação sanguínea do cérebro. Duas opções saudáveis dignas do caduceu de Hermes.
Ou podia-se optar por uma terceira opção, já que voar nos é interdito por natureza - quem preferisse atirar-se do alto do terraço ou dum dos seus andares mais elevados, decerto que tomava uma decisão exterior à saúde, mas pelo menos era contemplado com o atributo precioso de não ter de se preocupar mais com escolhas e decisões (ocupação que, como é sabido, pode causar algum desgaste e ansiedade, e diminuir a esperança de vida duma pessoa).

variações

Conduzia o mesmo carro de sempre por uma estrada por onde nunca tinha passado. A seguir a uma curva apertada, distinguiu na berma da estrada um terreno em desnível balizado por uma charca de águas lodosas e espessos canaviais. Um letreiro junto ao alcatrão, anunciava:
          ACEITO PEDRA E ENTULHO
Mais à frente, e entre dois lugarejos próximos, uma tabuleta semelhante estava cravada junto a um terreno plano que confinava com a estrada:
          ACEITA-SE TERRA
A seguir ao segundo lugarejo, quando o mato e os pomares haviam substituído as linhas direitas do casario, e diante duma casa em ruínas, precariamente remendada com placas de zinco e retalhos de madeira prensada, uma terceira placa pedia em letras trémulas e inseguras:
          ACEITAÇE PÁTRIA



A hora dos livros 1

Lançamento, no Rio de Janeiro, a 17 deste mês, de O Olho da Fechadura de Angela Schnoor, pela Editora Multifoco.


Daqui envio um abraço transatlântico à Angela, com votos de muitos sucessos para o lançamento e para a obra.


a hora dos livros 2


On demand:


- Vocês escondem-se e eu vou contar até dez, e depois vou à vossa procura!
O irmão mais novo, que era mais inclinado para as Humanidades, advertiu:
- Está bem, mas quando chegar a minha vez, hei-de soletrar até ao jota.


Um poeta é sempre um poeta, sejam quais forem as suas obras - um verso, um ensaio, um filho, um barco de papel dobrado com dedos de sonhar.


(degustando a prosa de Carlos de Oliveira)

sem cartesianismos

O filósofo Descartes era um homem probo e frugal, que desprezava lautos banquetes e apreciava dormir bem e durante muitas horas, da mesma forma que era capaz de estar uma noite inteira a debater ideias com outros filósofos e amigos. Durante essas longas conversas, era comum ficarem admirados com sua habilidade argumentativa e, não raro, dirigiam-lhe brindes, ou então, incitavam-no a fazê-lo como preito às matemáticas ou à luz da razão. Descartes, que trocara o vinho por sumos de frutos pisados (para não perder a clareza das suas deduções), erguia o seu copo e, com um ar grave, repetia para si mesmo: “Cogito, e ergo o sumo!”.


Plain Story

   Após uma manhã de ressaca dolorosa, o rotundo Nero Lobo saiu finalmente à rua, com uns óculos escuros para disfarçar as olheiras fundas. No quiosque dos jornais, Albano, o seu leal amigo, foi o primeiro a avisá-lo:
   - Andaram por aí a perguntar por si, quatro homens baixos de gabardina e chapéu de palhinha. Tinham um ar ameaçador e exibiam todos uma pinta colorida na testa como as mulheres indianas.
   Nero Lobo agradeceu e passou em revista, mentalmente, o que poderiam querer dele, enquanto, em paralelo, folheava uma revista de motos. Podiam estar a mando dalgum ex-cliente insatisfeito, ou duma vítima de devassa do seu ofício de detective privado, ou podiam simplesmente ser lacaios de Ribeiro Gordão, a quem pedira uns trocados para jogar no casino da Póvoa (empréstimo que uma amnésia reincidente o impedira de pagar). Fosse como fosse, a cabeça doía-lhe e custava-lhe discorrer sobre assuntos tão complexos em fase de ressaca. Precisava de circular, sacudir as banhas, caminhar um pouco. 
   Deambulou até aos jardins do centro da avenida, onde encontrou alguns conhecidos, com os quais jogou duas partidas de xadrez, uma competição de cálculo logarítmico, e solucionou problemas de Sudoku de elevada dificuldade. E como o apetite para exercícios mentais se mantivesse, foi até ao Sublime, um bar nocturno de Strip onde as artistas, por aquelas horas da manhã, compareciam ao serviço para preparar as roupas que iriam despir à noite e lavar e desinfectar os varões onde costumavam esfregar as suas partes pudendas. Absorvido por aquele exercício Zen de contemplação, foi chamado à realidade por um paquete disfarçado de canguru (ou o inverso, que a luz do estabelecimento era fraca e os óculos escuros também não ajudavam), que lhe trouxe um bilhete rasurado pelo Silvino das apostas, que lhe davam conta de que os quatro homens de gabardina haviam voltado ao quiosque do Albano para saber do seu paradeiro, e que o tinham torturado ao obrigá-lo a ler duma ponta à outra todos os artigos e legendas de fotos duma revista cor-de-rosa. "Albano está bem", respondia o bilhete à sua questão óbvia, "apenas ganhou um espirro alérgico à conta disso, o que não aconteceria se ele estivesse aqui a olhar para aquela gata ruiva no varão". Nero Lobo disse "Basta!" em voz alta, imobilizando as artistas de strip, que pensavam que ele queria brincar às estátuas. "Basta", repetiu, mas em voz baixa, falando para o zip do seu casaco de fato-de-treino - ninguém brinca com os meus amigos!". 
   Voltou à rua e à luz do meio-dia, decidido a procurar e a caçar os seus perseguidores. E ainda nem tivera tempo para dar três passos quando deu de caras com Ribeiro Gordão, que o olhava com desconfiança do alto da sua figura magra e esguia.
   - Queres o teu dinheiro de volta, Gordão? Podias pedir-me em vez de mandares atrás de mim os quatro cavaleiros do Apocalipse. 
   - Não sei do que estás a falar, a menos que te refiras ao romance mais medíocre que alguma vez li.
   - Falo dos quatro homens que puseste no meu encalço...
   - Não fui eu, e não quero o teu dinheiro, pelo menos, não antes de preencher e entregar a minha declaração de IRS.
   - Então, porque estás aqui?
   - Procurava-te e a todos os que me devem dinheiro, para pedir para não mo pagarem já, porque quero primeiro livrar-me dos que andam a investigar as minhas contas, e também porque ando à procura de gémeas univitelinas com as quais possa iniciar um estudo sobre as mutações genéticas das glândulas mamárias.
   - Seja - contemporizou Nero, intrigado ainda pelo mistério dos quatro homens de gabardina.
   Quatro homens, raciocinou, invocando todo o seu génio de investigador, quatro homens, quarteto, quarteto de cordas, quarteto de Liverpool. Devem estar nalguma loja de música, no palco duma sala de espectáculos, ou nas casas-de-banho do Salão Magno de Ópera. Seguindo a sua intuição, começou a vistoriar todos os lugares de que se lembrava relacionados com a arte da música, começando pela casa da dona Eufémia, sua antiga explicadora, com a qual se iniciara sexualmente (experiência que o levou a cantar no banho durante quinze dias). Na terceira paragem, o Lar de Idosos para fabricantes de realejos, encontrou finalmente os quatro homens misteriosos, que esfregavam dentaduras postiças enquanto assobiavam em coro o Amazing Grace.
   Nero Lobo olhou-os com gravidade, enquanto, por uma questão de segurança, tacteava a fisga que trazia sempre no bolso do fato-de-treino.
   - Chamo-me Nero Lobo - declarou - ouvi dizer que andam à minha procura. O que me querem?
   - Encontrá-lo - responderam em uníssono - fomos criados pelo gerador aleatório de personagens, e disseram-nos que só você nos poderia indicar o que iríamos fazer em seguida.
   Os dedos de Nero aliviaram a pressão sobre o cabo da fisga, e o seu pensamento divagou. Sobre o Amazing Grace que acabara de ouvir, as madressilvas no colo da sua esposa na noite de núpcias, a porca da sua tia a parir no celeiro, o croupier cantante do casino da Póvoa...
   - Vocês têm talento para a música - lembrou - e eu sempre quis trocar a minha profissão de detective pela de cantor. Se vocês quiserem colaborar, podemos formar um grupo, e estava a pensar num nome que poderíamos usar - o que é que vocês acham de Banda Gástrica?

Subtileveza

Folheou os velhos álbuns de família enquanto o pai, apenas a alguns metros, alimentava os peixes do aquário.
- Estava aqui a reparar numa coisa - disse-lhe - nas fotos antigas, você está sempre com um cigarro na boca ou na mão. Você fumava muito!
- Uma média de dois maços por dia, começava logo que me levantava, e era até depois do jantar, e comprava aos pacotes, como hoje se compra aos maços. Parecia uma daquelas locomotivas a carvão.
- E você não largava a chupeta, mesmo comigo ou com um dos meus irmãos ao colo. Se eu fosse um cínico, era capaz de afirmar que o tabaco e nós estávamos em pé de igualdade.
O velhote sorriu, com a sábia bonomia que a experiência acrescenta a um homem.
- Vê as coisas desta maneira - replicou - deixei de fumar há trinta anos, abandonei o tabaco, mas nenhum de vocês me pode acusar do mesmo!

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...