Sem ondas



Ocioso e aborrecido logo pela manhã, o velho reformado deambulou pela sua cidade, andou no parque onde não encontrou um banco onde lhe apetecesse ancorar, subiu à Praça da República onde esteve à conversa com gente conhecida junto à porta duma tasca, e depois desatou amarras e boleou à deriva pelas ruas. Num recôndito dumas arcadas, viu um jornal diário aberto com o rosto voltado para cima. Já tinha uns dias aquele jornal, mas interessou-o. Acocorou-se ao lado, virou as primeiras páginas, pôs de lado as páginas de anúncios, que não lhe interessavam de todo, viu as notícias de abertura com os destaques nacionais e internacionais, e ia pela metade do suplemento do desporto, quando descobriu sob o jornal um sem-abrigo que dormia. Que chato! Com muito cuidado, para não o acordar, fechou-o também pelos vincos, e arrumou-o muito bem dobrado em cima das páginas de anúncios. Quando retomou a leitura do jornal, notou pela numeração das páginas que se extraviara uma delas, e ficou a pensar em qual das dobras o deixara. Pegou de novo no sem-abrigo que dormia, estendeu-o gentilmente no chão como um tapete e descobriu a dita página, à altura do coração, dobrada com o feitio dum barco de papel. De certeza que ele sonhava com viagens no seu sonho profundo.

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