Passageiros

Depois dum dia de trabalho, e de umas cervejas com os colegas no café junto à Repartição, andou um pouco pelas ruas, a aproveitar a última luz do dia (amanhecia mais cedo agora do que há quinze dias atrás), e por fim sentou-se no lancil do passeio e fixa o olhar na vertigem metálica dos carros que passam junto a si. Quando se apercebe, há mais pessoas que o imitam, sentadas no lancil a olhar os carros. Tem idades, raças e vestimentas diversas, mas todas envergam uma expressão de enfado como a sua. Os carros ligam a luz dos faróis, pela mesma altura em que se acendem os candeeiros e as luzes das montras e dos anúncios de néon. Pouco depois, um samaritano em trabalho comunitário distribui por eles umas sandes em forma de triângulo, envoltas em plástico e uma chávena de café de têrmo (aos que lhe pediam, arranjava também um cigarrinho, confiado como um bem ilícito). Passam todos ali a noite, despertos e com o olhar distante; por três vezes passou ali um mesmo polícia a farejar, alertado por algum taxista ou por um vizinho mais nervoso; mas nada fez contra eles, deixando-os estar sentados nas suas vidas. Passou a hora do desalvoroço urbano, e a hora dos noctívagos mais persistentes, por fim, ficaram a sós com a noite funda e quieta e sentiram-se como se fossem irmãos ou náufragos, a partilhar um refúgio exíguo e precioso, e viram o tempo arrastar-se até às primeiras luzes da madrugada com um sentimento de genuína fraternidade a aquecer-lhe o íntimo. Na manhã plena, não conseguiram suportar a visão dos rostos dos outros, a crueza das suas feições e dos seus olhares, e foram desertando timidamente, cada um para o seu caminho e para o seu mundinho, ficando ali apenas o nosso homem, no mesmo ponto do lancil em que se sentara, e ninguém (a não ser um cão vadio que passava) pareceu notar que ele não tocara na sandes e no café depositado ao seu lado, e que a sua cabeça assente nos joelhos dobrados estava tão fria e sem vida como a pedra do lancil.

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