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O Natal está à porta, dissera a mãe para os dois filhos, amanhã, têm de me matar o peru! Matar o peru, frase enorme, gigante, ocupando todo o espaço como a parede duma barragem. Matar o peru! Como é que isso se faz? Não tem preceito nenhum, é só embebedá-lo e depois corta-se o pescoço, simplificou a mãe, com ar de quem tem mais o que fazer.
No dia seguinte, antevéspera de Natal, os dois irmãos lançaram-se ao trabalho. Um deles foi buscar o copo da liquidificadora para junto da garrafeira. Abriram garrafas a esmo, vertendo para o copo um pouco do seu néctar. Porto, Brandy, aguardentes velhas, concentrado de groselha, licor de amaranto, licor de ovo. Deitaram para lá até estar quase cheio, depois, misturaram bem com uma colher de sopa.
- Acho que nem vai ser preciso matá-lo, o bicho vai cair como se tivesse tomado cianeto.
Desceram ao galinheiro e conseguiram segurá-lo pelas asas, com um deles a prendê-lo entre os joelhos e o outro a verter a mistela no seu bico disforme. Largaram-no ás pressas e saíram do espaço enredado, curiosos para ver o efeito da bebida. Mas o peru não se deu por achado, continuou com os seus passinhos de avestruz e a menear preguiçosamente a cabeça como fosse algum bebedor experiente.
Os dois voltaram á garrafeira e compuseram uma nova poção alcoólica, que enfiaram pela garganta do bicho. Sentaram-se do lado de fora, e desta vez já se notava algum efeito, sobretudo no andar da ave, que parecia querer desenhar um ésse a cada passada. Vai buscar outra rodada, ordenou o irmão mais velho, e o outro obedeceu. Misturou um novo coquetel no copo, e quando se acercou do galinheiro o irmão já estava do lado de dentro, com o machado da lenha aos pés.
- Agora é que vamos segurar o galo pelo rabo – garantiu, despejando o coquetel no bico do peru – Segura-o pela cabeça!
Ele segurou-a, fechando o bico entre a palma das mãos, o irmão pôs um pé sobre o corpo do peru, fazendo-a deitar-se sobre o bebedouro escavado na rocha, e com uma machadada incisiva, separou-lhe a cabeça do corpo.
O irmão mais novo largou com nojo a cabeça decepada, enquanto o peru se levantou dum salto, com o sangue a esguichar do pescoço. Ficou em pé durante longos instantes, como se estivesse a inteirar-se do que se estava a pensar, ou procurasse a cabeça que fora amputada, e logo a seguir caiu para o lado como um saco de areia tombado.
- Vamos encher a barriga e vamos ficar bêbedos com a carne desta galinha estúpida.
E riram-se os dois com vontade, sacudindo o sangue e o absurdo da situação.


(Porque é que se lembrava disso agora, neste bar enevoado de estação ferroviária? Era noite e a noite traz de volta os nossos medos e as nossas memórias mais caladas. E tinha aquele grupo de pândegos assustadores que tentavam embebedá-lo ao balcão enquanto se gabavam das rixas em que tinham entrado e exibiam as suas navalhas de ponta-e-mola. Ninguém diz aos turistas por onde podem andar).

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...