Curta-metragem

Regressou a casa ao fim do dia, como todos os dias, sentia-se cansado, e vagamente apreensivo, rodou a chave, e escutou os sons da casa como se cheirasse uma flor, ouviu um rumor de passos na cozinha, e foi para lá que se dirigiu. A mulher estava sentada num banco de madeira diante da máquina de lavar louça, ela olhou-o por cima do ombro, mas não lhe deu importância, estava preocupada, podia respirar-se o nervosismo que ela exalava com os seus gestos quebrados e miudinhos. Perguntou-se se ela estaria a tomar a medicação, mas não era a altura ideal para indagar. Ela acabara de iniciar o programa de lavagem da máquina e ouviu-a suspirar, mais tranquila. Aproximou-se dela, e pousou-lhe as palmas das mãos nos ombros, e nesse instante, a máquina estremeceu toda, a engrenagem rangeu num estertor aflitivo, e ele de um salto, carregou no botão circular, colocando-a em pausa.
- O programa é o correcto, vês! - Afirmou ela, apontando o mostrador digital. 
Ele acocorou-se ao lado, e confirmou-o. Ela esperava, angustiada, e ele decidiu experimentar novamente, só para a tranquilizar, alguns breves segundos de alento enquanto a água corria nos tubos, e de novo o mesmo ranger metálico, próprio de um mecanismo obstruído no seu ciclo automático. Ele voltou a parar a máquina. A mulher sentara-se no chão da cozinha, encolhida sobre si e despenteada; uma das mãos arranhava o antebraço, gravando riscos nacarados na pele morena.
- Pode ser a louça - explicou-lhe - uma tigela ou uma travessa que saiu do sítio quando fechaste a porta, e que está agora a emperrar o programa. Vai descansar, amor, eu arrumo melhor a louça e reinicio a máquina. Desde o parto que tens dormido pouco e precisas de repouso.
- Sim, acho que tens razão, vou-me esticar um pouco em cima da cama...
- E a bebé? Está a dormir?
- Não, está a tomar banho...ou estava!




Para o Manuel

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