Contoadores de Histórias - 3

"Sonho de François Villon, poeta e malfeitor"




Na madrugada do Natal de 1451, quando estava mergulhado no último sono, François Villon, poeta e malfeitor, teve um sonho. Sonhou que estava uma noite de Lua cheia e que atravessava uma charneca desolada. Parou a comer um naco de pão que tirou do bornal e sentou-se numa pedra. Sentiu uma grande tristeza. Em seguida prosseguiu o seu caminho e chegou a uma estalagem. A casa estava escura e silenciosa, talvez dormissem todos. François Villon bateu à porta com insistência e a mulher do estalajadeiro veio abrir.
O que procuras a esta hora, viajante?, perguntou a mulher do estalajadeiro iluminando com a lanterna o rosto de Villon.
Procuro o meu irmão, respondeu François Villon, foi visto pela última vez nestas paragens e quero encontrá-lo.
Entrou na estalagem escura, iluminada apenas por um escasso fogo, e sentou-se a uma mesa.
Quero carneiro e vinho, ordenou, e ficou à espera. A mulher do estalajadeiro trouxe-lhe um prato de batatas cozidas e uma caneca de sidra. É o que temos para esta noite, disse, dá-te por satisfeito, viajante, porque os guardas andam por estes lados e acabaram com a nossa comida toda.
Enquanto Villon comia, entrou um velho com a cara coberta de trapos. Era um leproso, e apoiava-se a um bastão. Villon olhou para ele e não disse nada. O leproso sentou-se do outro lado da sala, junto ao fogo e disse: disseram-me que procuras o teu irmão.
A mão de Villon correu lesta ao punhal, mas o leproso deteve-o com um gesto. Eu não estou do lado dos guardas, disse, estou do lado dos malfeitores e posso guiar-te até onde está o teu irmão. Aproximou-se da porta apoiando-se ao seu bastão e Villon seguiu-o. Saíram para o frio do Inverno. Estava uma noite clara e a neve nos campos estava feita em gelo. À sua volta estendia-se uma charneca árida orlada pelo perfil negro das colinas cobertas de bosques. O leproso tomou um atalho e dirigiu-se penosamente para as colinas. Villon seguia-o e entretanto, por segurança, levava a mão no punhal.
            Quando a estrada começou a subir, o leproso parou e sentou-se numa pedra. Tirou do bornal uma gaita de beiços e começou a tocar uma música nostálgica. De vez em quando interrompia-se e cantava alguns versos de uma balada de bandidos que falava de estupros e malfeitores, de assaltos e gendarmes. Villon ouvia-o e sentia calafrios, pois sabia que aquela balada lhe dizia respeito. E então sentiu uma espécie de medo que lhe apertou as vísceras. Mas era medo de quê? Não sabia, porque ele não tinha medo dos gendarmes, nem tinha medo do escuro, nem do leproso. E sentiu que aquele medo era uma espécie de saudade e mágoa subtil.
Então o leproso levantou-se e Villon seguiu-o em direcção ao bosque. Quando chegaram à primeira árvore Villon deu-se conta que dos ramos pendia um enforcado. Tinha a língua de fora, e a Lua iluminava lividamente o cadáver. Era um desconhecido, e Villon passou adiante. Também da árvore seguinte pendia um enforcado, mas também esse era um desconhecido. Villon olhou em volta e viu que o bosque estava cheio de cadáveres que pendiam das árvores. Olhou-os um a um, serenamente, passando entre os pés que oscilavam com a aragem, até que encontrou o irmão. Desprendeu-o cortando a corda com o punhal e estendeu-o na erva. O cadáver estava rígido da morte e do gelo. Villon beijou-o na testa. E naquele momento o cadáver do irmão falou. A vida aqui está cheia de borboletas brancas que esperam por ti, meu irmão, disse o cadáver, e são todas elas larvas.
Villon levantou a cabeça, atordoado. O seu companheiro desaparecera e do bosque, como um grande coro fúnebre cantado em surdina, erguia-se a balada que o leproso cantava.

(Antonio Tabucchi, "Sonhos de Sonhos", Quetzal Editores, Lisboa, 1993)

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