- Ás vezes, estou a falar contigo e tenho receio de que vás pôr as minhas palavras no papel...
- Não o temas, eu sou um cronista de jornal, não um vampiro, e escrevo sobre temas ou notícias actuais que interessem a todos e não sobre trivialidades trocadas por pessoas como nós que encostam monólogos num café enquanto tomam o pequeno-almoço.
Ela assentiu com a cabeça, em sinal de concordância. Pediu-lhe o bule de chá, mas já não esperou por ele, empurrou a cadeira para trás, esticou as suas asas alongadas e transparentes de libélula, e alçou voo no salão, esvoaçando junto ao tecto, a descrever um oito em volta dos dois candeeiros de tecto.
O companheiro suspirou fundo, sentindo um certo embaraço ao ver a maneira como o voo dela perturbava os gestos estandardizados dos comensais. Pediu ao empregado um saleiro, e mal ela retomou o seu lugar à mesa, com as faces afogueadas e um brilho de felicidade nos olhos castanhos, ele levantou-se de imediato e espalhou sal pelas suas asas, para a dissuadir de novas iniciativas.
- É sempre assim, é como na cama – monologou ela – atrofias-me as asas e vais-te embora!

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