INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Na cidade e no mundo

- Não gosto disto! – afirmou o multimilionário para o arquitecto, apontando a cornija semicircular do edifício – desfaçam-se das estátuas. Podem oferecê-las aos municípios da região, que esses tipos põem uma estátua em tudo quanto é sítio. Quero um palácio arejado, moderno. Use muito vidro e muito metal na redecoração. Na praça, construam jardins, ergam-se canteiros de flores com árvores e esculturas em material metamórfico.
- Assim faremos, tenho as ideias todas na cabeça. Estou certo de que vai adorar o meu projecto quando o vir!
- Lá dentro não quero quadros nem talha dourada, nem tapeçarias ou cortinados grandes. Tudo moderno, simples, eficaz. Vivemos no século vinte e dois, caramba! Já é altura de fazermos as coisas como deve ser.
- Concordo plenamente consigo, e as obras que o senhor viu no meu portfólio secundam os seus ideais estéticos. E já agora, se não for um abuso, posso fazer-lhe uma pergunta?
- Faça, homem servil, faça a sua pergunta.
- O senhor tem alguma finalidade prevista para o cadeirão de S. Pedro, aquele em que o Papa se costumava sentar?
- Não de todo, é mais uma aberração da qual nos temos de livrar.
- Então, pedia-lhe que mo cedesse. Queria oferecê-lo de presente a um antiquário meu amigo.


O Natal está à porta, dissera a mãe para os dois filhos, amanhã, têm de me matar o peru! Matar o peru, frase enorme, gigante, ocupando todo o espaço como a parede duma barragem. Matar o peru! Como é que isso se faz? Não tem preceito nenhum, é só embebedá-lo e depois corta-se o pescoço, simplificou a mãe, com ar de quem tem mais o que fazer.
No dia seguinte, antevéspera de Natal, os dois irmãos lançaram-se ao trabalho. Um deles foi buscar o copo da liquidificadora para junto da garrafeira. Abriram garrafas a esmo, vertendo para o copo um pouco do seu néctar. Porto, Brandy, aguardentes velhas, concentrado de groselha, licor de amaranto, licor de ovo. Deitaram para lá até estar quase cheio, depois, misturaram bem com uma colher de sopa.
- Acho que nem vai ser preciso matá-lo, o bicho vai cair como se tivesse tomado cianeto.
Desceram ao galinheiro e conseguiram segurá-lo pelas asas, com um deles a prendê-lo entre os joelhos e o outro a verter a mistela no seu bico disforme. Largaram-no ás pressas e saíram do espaço enredado, curiosos para ver o efeito da bebida. Mas o peru não se deu por achado, continuou com os seus passinhos de avestruz e a menear preguiçosamente a cabeça como fosse algum bebedor experiente.
Os dois voltaram á garrafeira e compuseram uma nova poção alcoólica, que enfiaram pela garganta do bicho. Sentaram-se do lado de fora, e desta vez já se notava algum efeito, sobretudo no andar da ave, que parecia querer desenhar um ésse a cada passada. Vai buscar outra rodada, ordenou o irmão mais velho, e o outro obedeceu. Misturou um novo coquetel no copo, e quando se acercou do galinheiro o irmão já estava do lado de dentro, com o machado da lenha aos pés.
- Agora é que vamos segurar o galo pelo rabo – garantiu, despejando o coquetel no bico do peru – Segura-o pela cabeça!
Ele segurou-a, fechando o bico entre a palma das mãos, o irmão pôs um pé sobre o corpo do peru, fazendo-a deitar-se sobre o bebedouro escavado na rocha, e com uma machadada incisiva, separou-lhe a cabeça do corpo.
O irmão mais novo largou com nojo a cabeça decepada, enquanto o peru se levantou dum salto, com o sangue a esguichar do pescoço. Ficou em pé durante longos instantes, como se estivesse a inteirar-se do que se estava a pensar, ou procurasse a cabeça que fora amputada, e logo a seguir caiu para o lado como um saco de areia tombado.
- Vamos encher a barriga e vamos ficar bêbedos com a carne desta galinha estúpida.
E riram-se os dois com vontade, sacudindo o sangue e o absurdo da situação.


(Porque é que se lembrava disso agora, neste bar enevoado de estação ferroviária? Era noite e a noite traz de volta os nossos medos e as nossas memórias mais caladas. E tinha aquele grupo de pândegos assustadores que tentavam embebedá-lo ao balcão enquanto se gabavam das rixas em que tinham entrado e exibiam as suas navalhas de ponta-e-mola. Ninguém diz aos turistas por onde podem andar).

A ciência da impaciência

Estava-se a chegar a hora derradeira, e a família carinhosa apinhava-se á entrada do quarto do velho moribundo. Já fora dada a extrema-unção e o ar estava carregado com o cheiro do incenso. Está por minutos, afirmou uma velha pouco menos velha do que ele, que não pertencia á família, mas estava sempre junto ás famílias na grande comunhão fraterna do passamento. Ele está preso, contrapôs um dos filhos, e com a ajuda imediata de três ou quatro familiares, descalçou-lhe as botas, desabotoou as calças e a camisa, e procurou nas roupas dele, algum laço ou nó que precisasse ser desfeito para que a alma ficasse ligeira e ganhasse voo e altura. A gravata, ajudou outro, o mesmo que lha colocara ao pescoço, preparando atempadamente a grave dignidade do velório. Liberto da gravata, o velho continuava vivo, e a resfolegar como um cão cansado. Acho que é a casa, ponderou outro em voz alta, tem os tectos muito baixos e está a prendê-lo aqui dentro, devíamos levá-lo lá para fora, para ele se ir em paz. E outro argumentou em substituição, um de nós devia deitar-lhe as mãos ao pescoço e acabar com isto, e essa declaração não suscitou nenhum protesto.


Para uniformizar as convenções e representações do relevo, estão reunidos em Lisboa, geógrafos de todos os países de expressão oficial portuguesa, no intuito de se chegar a um Acordo Orográfico comum.


Contoadores de Histórias - 3

"Sonho de François Villon, poeta e malfeitor"




Na madrugada do Natal de 1451, quando estava mergulhado no último sono, François Villon, poeta e malfeitor, teve um sonho. Sonhou que estava uma noite de Lua cheia e que atravessava uma charneca desolada. Parou a comer um naco de pão que tirou do bornal e sentou-se numa pedra. Sentiu uma grande tristeza. Em seguida prosseguiu o seu caminho e chegou a uma estalagem. A casa estava escura e silenciosa, talvez dormissem todos. François Villon bateu à porta com insistência e a mulher do estalajadeiro veio abrir.
O que procuras a esta hora, viajante?, perguntou a mulher do estalajadeiro iluminando com a lanterna o rosto de Villon.
Procuro o meu irmão, respondeu François Villon, foi visto pela última vez nestas paragens e quero encontrá-lo.
Entrou na estalagem escura, iluminada apenas por um escasso fogo, e sentou-se a uma mesa.
Quero carneiro e vinho, ordenou, e ficou à espera. A mulher do estalajadeiro trouxe-lhe um prato de batatas cozidas e uma caneca de sidra. É o que temos para esta noite, disse, dá-te por satisfeito, viajante, porque os guardas andam por estes lados e acabaram com a nossa comida toda.
Enquanto Villon comia, entrou um velho com a cara coberta de trapos. Era um leproso, e apoiava-se a um bastão. Villon olhou para ele e não disse nada. O leproso sentou-se do outro lado da sala, junto ao fogo e disse: disseram-me que procuras o teu irmão.
A mão de Villon correu lesta ao punhal, mas o leproso deteve-o com um gesto. Eu não estou do lado dos guardas, disse, estou do lado dos malfeitores e posso guiar-te até onde está o teu irmão. Aproximou-se da porta apoiando-se ao seu bastão e Villon seguiu-o. Saíram para o frio do Inverno. Estava uma noite clara e a neve nos campos estava feita em gelo. À sua volta estendia-se uma charneca árida orlada pelo perfil negro das colinas cobertas de bosques. O leproso tomou um atalho e dirigiu-se penosamente para as colinas. Villon seguia-o e entretanto, por segurança, levava a mão no punhal.
            Quando a estrada começou a subir, o leproso parou e sentou-se numa pedra. Tirou do bornal uma gaita de beiços e começou a tocar uma música nostálgica. De vez em quando interrompia-se e cantava alguns versos de uma balada de bandidos que falava de estupros e malfeitores, de assaltos e gendarmes. Villon ouvia-o e sentia calafrios, pois sabia que aquela balada lhe dizia respeito. E então sentiu uma espécie de medo que lhe apertou as vísceras. Mas era medo de quê? Não sabia, porque ele não tinha medo dos gendarmes, nem tinha medo do escuro, nem do leproso. E sentiu que aquele medo era uma espécie de saudade e mágoa subtil.
Então o leproso levantou-se e Villon seguiu-o em direcção ao bosque. Quando chegaram à primeira árvore Villon deu-se conta que dos ramos pendia um enforcado. Tinha a língua de fora, e a Lua iluminava lividamente o cadáver. Era um desconhecido, e Villon passou adiante. Também da árvore seguinte pendia um enforcado, mas também esse era um desconhecido. Villon olhou em volta e viu que o bosque estava cheio de cadáveres que pendiam das árvores. Olhou-os um a um, serenamente, passando entre os pés que oscilavam com a aragem, até que encontrou o irmão. Desprendeu-o cortando a corda com o punhal e estendeu-o na erva. O cadáver estava rígido da morte e do gelo. Villon beijou-o na testa. E naquele momento o cadáver do irmão falou. A vida aqui está cheia de borboletas brancas que esperam por ti, meu irmão, disse o cadáver, e são todas elas larvas.
Villon levantou a cabeça, atordoado. O seu companheiro desaparecera e do bosque, como um grande coro fúnebre cantado em surdina, erguia-se a balada que o leproso cantava.

(Antonio Tabucchi, "Sonhos de Sonhos", Quetzal Editores, Lisboa, 1993)

Humano, demasiado humano

Tirou-lhe a mordaça da boca, e perguntou com voz preocupada.
- Não sofre de claustrofobia, pois não?
O outro abriu muito os olhos, espantado. Passou-lhe pela cabeça falar das mãos atadas atrás das costas, que já nem sentia, as dores nos joelhos, ou da ferida no ombro. Mas não, moveu o queixo dum lado para o outro até sentir novamente os nervos dos maxilares, e conseguiu responder.
- Não, não sofro de claustrofobia!
- Ah, ainda bem? Ainda temos cento e tal quilómetros pela frente, e com você aí fechado na mala do carro, era uma chatice.

Crónica anacrónica

O infortunado nasceu com os cabelos brancos e a pele enrugada dum velho, e mesmo aqueles que o amavam, não podiam deixar de admitir que era um bebé feio como tudo. Mas a consternação geral foi suavizada pela descoberta de que o tempo ia elidindo as causas desse choque inicial. Aos poucos, com os anos, a criança tomou a pele macilenta e os cabelos descorados da meia-idade, e mais tarde, pelo mesmo número de anos em que deveria ter-se tornado um jovem, tornou-se à mesma um jovem em percurso inverso. Ao contrário dos demais, o tempo marchava a favor, e era generoso. Num abrir e fechar de olhos, o bebé que nascera velho, tomou a figura dum adolescente magro e com acne, pela mesma altura em que os familiares e amigos da família começaram a interrogar-se sobre qual seria o desfecho desse processo caprichoso, e debatiam-no com ardor nas reuniões familiares e nas mesas dos cafés. No meio de tamanho frenesim filosófico e existencial, a mãe do visado preferiu não esperar por respostas, e emigrou apressadamente, sentindo-se como se sentia, velha e incapaz de voltar a carregar um filho no ventre.

escheriano

Desperta de manhã com a sirene dos bombeiros. Devia haver algum fogo. Levanta-se, sentindo-se repousado e cheio de energia. Na cozinha, serve-se de uma caneca de café e de um pão sem nada, e vai até á sala para abrir as janelas. Puxa a fita do estore, e este sobe, mas, do outro lado não reencontra a rua de todos os dias e a luz da manhã, apenas uma sala, exactamente igual á sua, com os mesmos móveis e objectos, e até a noz de cotão sob a mesa de centro que oscila com a corrente de ar. Enchendo-se de coragem, passa uma e outra perna sobre o caixilho da janela e entra na sala simétrica. Como a sua, tem acesa a lâmpada de tecto. Interroga-se se o resto da casa será igual, vai até á cozinha, igual á que abandonara há minutos, com a ressalva do termo do café ainda estar sobre o balcão de mármore, e a caixa do pão continuar cerrada. Suspendendo a respiração entra no quarto. Um homem, ele, está deitado na cama. Julga, precipitadamente, que ele dorme, mas logo se apercebe que tem os braços e as feições contraídas, e que já não respira. Recua até á porta do quarto, e volta á sala. Os estores das janelas estão de novo corridos. Puxa pela fita do estore, e este abre-se, emoldurando um quadrado de céu nocturno sobre a cidade. Pensa e repensa sobre o que deveria fazer a seguir, quando sente que o seu espírito, como o mundo em volta, desaceleram nitidamente, enquanto os seus membros e os seus olhos são tomados por uma sonolência a que não consegue oferecer resistência.


Trabalhador dedicado e obediente, um cidadão empenhado de modos finos e educados, leal na amizade, na política e no desporto; mostrava-se atento aos sucessos e problemas do mundo e da sociedade. 
À entrada de casa, ao lado do bengaleiro, tinha um cabide onde pendurava a máscara que estivera a usar (nunca ninguém vira o seu verdadeiro rosto).

Hábitos antigos

A família foi-se juntando aos poucos na casa do falecido para o velório. Vai-se a ver, não havia corpo para velar. A viúva explicou: «Ele foi andando, estava cansado de esperar!».

Ganhava os dias (esmolava), fazendo de homem-estátua na Rua Augusta, petrificado no meio da correnteza humana e pintado com o branco do mármore e dos muros caiadas dos cemitérios. Numa tarde bonita de Sol, cansou-se da sua imobilidade e começou a fazer de estátua corredora; e todos julgaram que aquilo era um perfeito absurdo até verem que corria ao seu lado a estátua do Vasco da Gama, que descera do Arco Triunfal.

Passageiros

Depois dum dia de trabalho, e de umas cervejas com os colegas no café junto à Repartição, andou um pouco pelas ruas, a aproveitar a última luz do dia (amanhecia mais cedo agora do que há quinze dias atrás), e por fim sentou-se no lancil do passeio e fixa o olhar na vertigem metálica dos carros que passam junto a si. Quando se apercebe, há mais pessoas que o imitam, sentadas no lancil a olhar os carros. Tem idades, raças e vestimentas diversas, mas todas envergam uma expressão de enfado como a sua. Os carros ligam a luz dos faróis, pela mesma altura em que se acendem os candeeiros e as luzes das montras e dos anúncios de néon. Pouco depois, um samaritano em trabalho comunitário distribui por eles umas sandes em forma de triângulo, envoltas em plástico e uma chávena de café de têrmo (aos que lhe pediam, arranjava também um cigarrinho, confiado como um bem ilícito). Passam todos ali a noite, despertos e com o olhar distante; por três vezes passou ali um mesmo polícia a farejar, alertado por algum taxista ou por um vizinho mais nervoso; mas nada fez contra eles, deixando-os estar sentados nas suas vidas. Passou a hora do desalvoroço urbano, e a hora dos noctívagos mais persistentes, por fim, ficaram a sós com a noite funda e quieta e sentiram-se como se fossem irmãos ou náufragos, a partilhar um refúgio exíguo e precioso, e viram o tempo arrastar-se até às primeiras luzes da madrugada com um sentimento de genuína fraternidade a aquecer-lhe o íntimo. Na manhã plena, não conseguiram suportar a visão dos rostos dos outros, a crueza das suas feições e dos seus olhares, e foram desertando timidamente, cada um para o seu caminho e para o seu mundinho, ficando ali apenas o nosso homem, no mesmo ponto do lancil em que se sentara, e ninguém (a não ser um cão vadio que passava) pareceu notar que ele não tocara na sandes e no café depositado ao seu lado, e que a sua cabeça assente nos joelhos dobrados estava tão fria e sem vida como a pedra do lancil.

- Mãe, o pai já não tem emprego? - perguntou a rapariga.
- Tem, mas mandaram-no ficar em casa uns tempos, a ver se as coisas melhoram...
- É que ele passa o dia sentado no sofá a olhar para a rua, já não fala com ninguém e perdeu o sorriso.
- Vais ver, ele anda à procura do sorriso, e quando o encontrar, as coisas voltam todas ao normal.
- Não sei - e baixando a voz, para não ser ouvida pela figura imóvel sentada no sofá - era melhor tu ajudares, sabes que o pai não é capaz de encontrar nada sozinho!

Curta-metragem

Regressou a casa ao fim do dia, como todos os dias, sentia-se cansado, e vagamente apreensivo, rodou a chave, e escutou os sons da casa como se cheirasse uma flor, ouviu um rumor de passos na cozinha, e foi para lá que se dirigiu. A mulher estava sentada num banco de madeira diante da máquina de lavar louça, ela olhou-o por cima do ombro, mas não lhe deu importância, estava preocupada, podia respirar-se o nervosismo que ela exalava com os seus gestos quebrados e miudinhos. Perguntou-se se ela estaria a tomar a medicação, mas não era a altura ideal para indagar. Ela acabara de iniciar o programa de lavagem da máquina e ouviu-a suspirar, mais tranquila. Aproximou-se dela, e pousou-lhe as palmas das mãos nos ombros, e nesse instante, a máquina estremeceu toda, a engrenagem rangeu num estertor aflitivo, e ele de um salto, carregou no botão circular, colocando-a em pausa.
- O programa é o correcto, vês! - Afirmou ela, apontando o mostrador digital. 
Ele acocorou-se ao lado, e confirmou-o. Ela esperava, angustiada, e ele decidiu experimentar novamente, só para a tranquilizar, alguns breves segundos de alento enquanto a água corria nos tubos, e de novo o mesmo ranger metálico, próprio de um mecanismo obstruído no seu ciclo automático. Ele voltou a parar a máquina. A mulher sentara-se no chão da cozinha, encolhida sobre si e despenteada; uma das mãos arranhava o antebraço, gravando riscos nacarados na pele morena.
- Pode ser a louça - explicou-lhe - uma tigela ou uma travessa que saiu do sítio quando fechaste a porta, e que está agora a emperrar o programa. Vai descansar, amor, eu arrumo melhor a louça e reinicio a máquina. Desde o parto que tens dormido pouco e precisas de repouso.
- Sim, acho que tens razão, vou-me esticar um pouco em cima da cama...
- E a bebé? Está a dormir?
- Não, está a tomar banho...ou estava!




Para o Manuel



No avião de passageiros que levantara voo sem aviso, todos estavam atentos, o piloto clandestino, e o seu co-piloto, igualmente clandestino, e as poucas hospedeiras e passageiros, todos clandestinos. A meio do voo, uma delas alertou o piloto em sobressalto, porque havia dois passageiros oficiais sentados lá atrás, com passagens e tudo. - E a bagagem deles, está conforme? - Completamente, não excede o limite de peso numa grama sequer. (Isso é grave, pensou o piloto), e falando já de viva voz, avisou a hospedeira para não os deixar sair dos seus lugares, que ele avisaria o aeroporto mais próximo para ter as autoridades preparadas para os deter.

Sem ondas



Ocioso e aborrecido logo pela manhã, o velho reformado deambulou pela sua cidade, andou no parque onde não encontrou um banco onde lhe apetecesse ancorar, subiu à Praça da República onde esteve à conversa com gente conhecida junto à porta duma tasca, e depois desatou amarras e boleou à deriva pelas ruas. Num recôndito dumas arcadas, viu um jornal diário aberto com o rosto voltado para cima. Já tinha uns dias aquele jornal, mas interessou-o. Acocorou-se ao lado, virou as primeiras páginas, pôs de lado as páginas de anúncios, que não lhe interessavam de todo, viu as notícias de abertura com os destaques nacionais e internacionais, e ia pela metade do suplemento do desporto, quando descobriu sob o jornal um sem-abrigo que dormia. Que chato! Com muito cuidado, para não o acordar, fechou-o também pelos vincos, e arrumou-o muito bem dobrado em cima das páginas de anúncios. Quando retomou a leitura do jornal, notou pela numeração das páginas que se extraviara uma delas, e ficou a pensar em qual das dobras o deixara. Pegou de novo no sem-abrigo que dormia, estendeu-o gentilmente no chão como um tapete e descobriu a dita página, à altura do coração, dobrada com o feitio dum barco de papel. De certeza que ele sonhava com viagens no seu sonho profundo.
Rodin, o escultor, era um homem abençoado que só tinha que se preocupar com a sua arte. As contas por pagar, e o dinheiro para as pagar, ele deixava-as ao cargo do Pensador, assim como as críticas, os conflitos burocráticos, as acusações, e os miasmas da ignorância e da inveja - tudo isso ele entregava ao Pensador que havia criado. Criara-o para pensar por ele e ele Pensava, como toda a criatura obediente e humilde e ignorante. Por vezes, o trabalho era demasiado para o Pensador, e recaíam umas sobras sobre o pensamento de Rilke, que fazia o que podia para ajudar porque também tinha mais coisas em que pensar.

Contoadores de Histórias - 2

O Professor de Inglês


«Por favor saia da porta», disse a voz do elevador, «vai subir».
Quando, quinze minutos mais tarde, desci os doze andares daquele prédio confortável que era o mais moderno de Leopoldville encontrei o homem que comigo subira e a voz cantante anunciou: «Vai descer». Saí rapidamente mas ainda reparei que o homem ficara e subira novamente como quem esquecera alguma coisa. Tinha um ar triste, aquele homem.
Voltei no dia seguinte e ele chegou logo a seguir. «Por favor saia da porta» disse a voz. Fui discutir assuntos da organização, passei meia hora fazendo falar os números, e ao chegar ao ascensor o homem lá estava. - Trabalha no prédio? – perguntei. – Não, respondeu. – Sou professor de inglês. E teve um sorriso esbatido, todo sépia e distância, como se tivesse sido arrancado de um velho livro de Dickens. Quando tenho dois minutos livres, venho até aqui, a escola é a dois passos. Fico subindo e descendo.
«Vai subir», disse a voz suave, e o homem prosseguiu olhando para o micro: - É a voz da minha mulher, morreu há dois meses. E esboçou um gesto acanhado, como quem pedia desculpa. «Por favor saia da porta», disse a voz enquanto eu saía, hesitante. O professor subiu novamente.


Sidónio Muralha, "O Andarilho", Prelo Editora, Lisboa, 1975
- outros contos que destaco na obra: "Os Zamus", "Os Cegos do Maniema".

Ajuda



O Justiceiro Nocturno levantou-se dum salto quando viu o seu símbolo projectado na nuvens pelo holofote da esquadra da polícia de Gotham. Arrumou a sua caixa de costura, vestiu num ápice a vestimenta de herói (com máscara, capa, penacho e tudo) e saiu pela janela, como um bom ocupa que se preze. A escada de incêndio por onde desceu para a rua, já tivera melhores dias e rangia por todos os lados; dois lances de escada mais abaixo, teve de dar um salto para evitar um alguidar vazio de roupa, caiu em cima dum gato enrolado a um canto do patamar, que miou de dor, fazendo-o dar um novo salto como se fosse impulsionado por uma mola, e caiu, mal, sobre a esquina do gradeamento. Quando recuperou a compostura, tinha sangue no joelho e no antebraço e, pior do que isso, rasgara a capa de veludo (feita no melhor tecido que conseguira arranjar), o que tornava impossível valer a alguém como super-herói naquela noite. A gemer e a manquejar, regressou ao seu quarto e, depois de verter algumas lágrimas pela sua capa estropiada, apontou aos céus e acendeu o seu próprio holofote, que projectou nas nuvens o símbolo da Cruz Vermelha.
«Os Paulinos são uma família amável e generosa, veja que, só no ano passado, o casal ofereceu-me, pr'á aí, uns quatro sacos de batatas, umas sete dúzias de ovos, dois ou três baldes com saladas diversas, uns quatro patos e cinco galinhas poedeiras. E a filha do casal é a luz daquela casa, uma menina tão notável, que lhe dei as melhores notas, apesar de nunca ter sido uma aluna aplicada ou brilhante».

Mensagens esdrúxulas

1
Quando configuramos a nossa lista de contactos de telemóvel, e queremos suprimir um contacto, por exemplo, alguém chamado Francesmino, e nos aparece a mensagem automática: "Eliminar Francesmino?". 
Os mais impressionáveis ou supersticiosos costumam desistir da operação.


2
Há uma pessoa/página no Facebook com o sugestivo nome de Portugal Místico. Nada a apontar, senão a mensagem de ordem do Facebook: "As pessoas que não são amigas de Portugal apenas vêem alguma da sua informação de perfil. Se conheces Portugal pessoalmente, envia-lhe uma mensagem ou adicioná-lo como amigo".


(Devo confessar que sou amigo de Portugal, embora haja nele demasiadas coisas que me revoltam, e que nos fazem andar de candeias às avessas)

- Ás vezes, estou a falar contigo e tenho receio de que vás pôr as minhas palavras no papel...
- Não o temas, eu sou um cronista de jornal, não um vampiro, e escrevo sobre temas ou notícias actuais que interessem a todos e não sobre trivialidades trocadas por pessoas como nós que encostam monólogos num café enquanto tomam o pequeno-almoço.
Ela assentiu com a cabeça, em sinal de concordância. Pediu-lhe o bule de chá, mas já não esperou por ele, empurrou a cadeira para trás, esticou as suas asas alongadas e transparentes de libélula, e alçou voo no salão, esvoaçando junto ao tecto, a descrever um oito em volta dos dois candeeiros de tecto.
O companheiro suspirou fundo, sentindo um certo embaraço ao ver a maneira como o voo dela perturbava os gestos estandardizados dos comensais. Pediu ao empregado um saleiro, e mal ela retomou o seu lugar à mesa, com as faces afogueadas e um brilho de felicidade nos olhos castanhos, ele levantou-se de imediato e espalhou sal pelas suas asas, para a dissuadir de novas iniciativas.
- É sempre assim, é como na cama – monologou ela – atrofias-me as asas e vais-te embora!

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...