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Um soneto de Camões, e prosa parasita

9 DE AGOSTO

O primeiro momento em que a viu, foi de revelação, sentiu, soube, que era a ela a mulher que sempre procurara, uma intuição apaixonada que o bom senso não aconselharia, e que o raciocínio descarnado, de imediato, classificaria entre as muitas demências de que o homem é capaz. Mas soube-o naquele instante. Não foi uma paixão á primeira vista, muleta ficcional ou poética de tantas pessoas superficiais, mas um amor sem palavras, abnegado e absoluto, como o de um rio jovem formado pelas enxurradas, e que aos primeiros requebros do seu percurso descobre diante de si a imensidade do Oceano onde irá desaguar.  


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,


Mas a vida não é linear, nem condescendente com as experiências supra-humanas, e a ele, o amador, que sentia ter encontrado o objecto de todo o amor de que era capaz, não conseguiu vencer a distância que o separava daquela a quem amava, porque a vida dos dois estava enredada num novelo de logros, equívocos, falsas ideias e esperanças desesperançadas. Mas ele esperou, esperou sete anos até o ciclo se completar, até ela se aperceber do seu amor e corresponder a ele, tão ou mais surpreendida do que ele, que não queria acreditar que a espera acabara, e com ela, os dias de estéril errância e dúvidas insones.


A vida dos dois conjugou-se e entrelaçou-se, real, batalhadora, árdua mas autêntica, unidos no mesmo barco num oceano caprichoso. Um dia, mais de dez anos depois, ela lembrou-se em conversa desses primeiros tempos, confusos e conturbados, e perguntou-lhe se ele se apercebera de que haviam decorrido sete anos desde o primeiro dia em que haviam visto, até ao momento em que as suas vidas se haviam tornado unas. Ele confirmou, sabiam que tinham sido sete anos, e que estaria disposto a esperar outros sete, mais sete e sete outros, e que só temia que mesmo isso não fosse suficiente, e que a sua vida se dissipasse sem a ver aceitar o seu amor, ou, como tão bem dissera o poeta sobre Jacob, que ele:

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Para tão longo amor, tão curta a vida.



4 comentários:

  1. é lindo este soneto. obrigada por lembrá-lo. E a prosa, não será uma bela liana?

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  2. Angela, as lianas fazem-me sempre lembrar o Tarzan, mas poderá eventualmente ser ;) Ou aquelas figueiras que galgam no dorso duma árvore centenária, roubando-lhe o espaço e a luz...

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  3. maria.c13:54:00

    os castanheiros são árvores centenárias... :)

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  4. José,esta sua prosa, uma bela liana, não rouba a luz nem o espaço de Camões, mas sou emocional e penso que, muitas vezes,alguns de seus textos podem crescer ao lado: se equiparam!

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