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Rendez-vous: Rute e Rui

Rute


Rute não era uma força da natureza, nem no sentido geral nem numa perspectiva humana, seria quando muito, um caprichoso somatório dalgumas das suas fraquezas. Era inconstante, impulsiva, generosa e cúpida, gastava todos os trunfos que tinha, ao mesmo tempo que se revelava capaz de se fechar em copas a ponto de ninguém conseguir saber ou pressentir o que sentia ou pensava. Numa madrugada de Sábado, Rute, porque lhe apeteceu, saiu nua para o jardim da sua casa, num impulso semelhante ao que a levou a estraçalhar algumas folhas de couve da sua horta com uma foicinha doméstica, e a cantar desafinadamente uma canção antiga de Sylvie Vartan acompanhada pelo rumor ritmado dos aspersores de rega dos jardins do vizinho. Aquele mesmo fundo musical fez com que saltasse a sebe do dito jardim, levando de braçado o seu gato castanho e felpudo. Sob a chuva miudinha dos aspersores, prosseguiu a sua dança livre em enérgicos rodopios de dervixe, segurando pelas patas o infortunado gato, enquanto eram seguidos pelos saltos e latidos nervosos dum Chihuahua negro que emergiu dos fundos da casa.


Rui

Rui era um anárquico reprimido, daquele género de pessoas que seria, no mínimo, feliz, se pudesse dar largas ao seu feitio inconformista e contestatário, mas que se via como muitos, na irónica condição de defender com unhas e dentes um emprego que lhe desagradava e uma vida que o feria até à medula, só para ter com que viver e pagar as suas contas e educar os filhos. Como resultado disso, tinha frequentes problemas de nervos, insónias, ansiedade descontrolada. Na mesma madrugada de Sábado, e depois duma noite de insónias, desistiu de tentar dormir e foi até à cozinha para beber um copo de água. Quando se encostou ao lava-louças, esgotado e com dores psicossomáticas nos artelhos, descobriu Rute, dançando nua no relvado com os animais que a seguiam nas suas órbitas artísticas.
- Mulher! - chamou aos gritos, sabendo-a acordada, algures nos lavabos - como é que se chama aqueles comprimidos que me deste ontem à noite?
- Não me lembro do nome, mas são feitos de raiz de valeriana, é muito natural e ajuda a descansar.
Rui abanou a cabeça, como se tentasse sacudir aquela alucinação.
- Acho que te enganaram, ou enganaram-se quando colhiam as raízes.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...