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Recoleta, Buenos Aires

Era o primeiro dia no seu novo apartamento, e não tinha muita coisa para mudar, mas tivera um trabalho digno de Hércules a preparar a mudança. Roupa dobrada e acondicionada em malas próprias, de uma forma que evidenciava um perfeccionismo obcecado. Não havia uma peça de roupa a mais em cada mala, nem um par de meias a sobrar, as suas tolhas estavam dobradas na perfeição, as suas camisolas pareciam prontas a serem exibidas nas estantes dum Pronto-a-Vestir, a roupa estava folgada, sem pressões que criassem vincos e dobras indesejáveis. Os seus artigos de higiene numa caixa, discos e livros em caixas próprias, arrumados no seu inteiror por ordem alfabética de autores e artistas, outras pequenas caixas para os seus bibelôs pessoais, distribuídos pelas caixas com uma ordem intrínseca que contemplava as suas dimensões, cores ou volumes. Maiores cuidados lhe mereceu a sua colecção de selos – seis álbuns de selos em estado impecável, como se tivessem sido acabados de comprar. Durante uma semana tivera insónias, ao pensar que um selo se podia extraviar, arrancado dum dos álbuns por uma brisa repentina ou um gesto desajeitado dum dos tipos das mudanças, até mesmo a possibilidade dum dos selos sair do lugar próprio e exacto o apavorava, e antevia com terror o momento em que folhearia qualquer dos álbuns na casa nova, só para descobrir que os selos lá dentro estavam de viés ou dobrados pela cintura nas cintas translúcidas. Resolveu o problema, acondicionando os seis álbuns na caixa de vidro dum aquário grande comprado de propósito, arrumou-os lá dentro e preencheu os espaços vazios do aquário com retalhos de plástico-bolha e tiras de papel canelado, e fechou hermeticamente a tampa de vidro do aquário, selando-a com cola instantânea. Foi ao aquário filatélico que dedicou quase toda a sua atenção durante a odisseia da mudança, sentou-se ao seu lado no compartimento de carga da carrinha das mudanças, abraçando-se a ele e lutando contra as oscilações das curvas para que ele não se estilhaçasse em mil pedacinhos. Quando chegou ao destino, escoltou o sarcófago de vidro até ao apartamento e, lá chegados, só descansou quando o viu pousado no chão ao lado da porta, a dois passos do bulício caótico e abrutalhado dos homens da empresa de mudanças. Sentara-se numa das cadeiras a observar o trabalho quando uma figura de mulher se recortou na moldura da porta, entre duas passagens de caixas de cartão, impressionou-o a altura da figura, mais do que os seus cabelos cor-de-palha, os olhos azuis ou a garrafa de vinho branco que trazia na mão.
- Olá! - Cumprimentou-o – chamo-me Leonor, moro três apartamentos antes do seu, e vinha dar-lhe as boas-vindas. Por acaso não tem duas taças a jeito.
Agradeceu entredentes a amabilidade, e reviu mentalmente a logística da mudança. Caixa numerada C-7, cê de Cozinha, e sete da ordem em que as taças de vidro apareciam na sua lista discriminativa de todo o acervo da sua cozinha. Não foi difícil encontrar a caixa, colocada no chão da nova cozinha com o dístico da referência à vista. Foi relativamente fácil desembrulhar duas taças de vidro, o que o preocupava não era esse resgate antecipado dos dois objectos, mas a sua causa. Leonor devia estar só, talvez o tivesse espreitado quando ali estivera da vez anterior, ou então, agora, no próprio momento em que chegara com as suas armas e bagagens. Insinuara-se de imediato, e era capaz de apostar em como não tardaria em voltar ali para pedir uma chávena de arroz ou perguntar-lhe se era capaz de lhe arranjar o exaustor da cozinha, para cavaquear sobre as lacunas do bairro ou os melindres do condomínio, se lhe desse uma aberta, consideraria mudar-se para o apartamento dele, e assim simplificar a vida dela. Simplificação, era o perfeito antónimo do que essa possibilidade lhe sugeria!
- Já conhecia o bairro? – Perguntou ela, enquanto lhe servia vinho.
- Mal, estive cá algumas vezes, mas só de passagem…
- Não é um mau sítio, mesmo atendendo a algumas coisas que lhe faltam...suponho que o puseram a par da situação actual do condomínio?!
Leonor queria mudar-se para ali, já não tinha dúvidas. Até se sentia agoniado, só de imaginar os seus discos e livros arrancados da sua ordem impreterível, as toalhas largadas no chão, todo o seu mundo embrulhado e amarfanhado como uma folha de papel carbonizada. Não podia permitir, não tinha lugar para ela na sua vida, nenhum espaço vago, nenhum canto desafogado.
- Como tem o seu apartamento neste caos, se quiser, cozinho alguma coisa para si e trago cá para jantarmos, tenho pizza congelada, e também peixe, garoupa.
A alusão ao peixe inspirou-o. O aquário! Retirados os álbuns de selos, ficava o aquário, aquele descomunal paralelepípedo de vidro, a ocupar um espaço morto. Podia arrumá-la lá dentro, dobrada como um feto, com a tampa de vidro selada com cola instantânea. Iria sobrar-lhe algum cartão canelado e retalhos de plástico-bolha.
- A ideia agrada-me - Confessou - já trago alguma fome, e também me saberia bem um pouco de companhia nestes dias de adaptação.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...