INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Polaroid

Reencontrei hoje na rua o meu antigo professor de Filosofia, cumprimentou-me vagamente na medida da vaga noção que tem de me ter conhecido em tempos (o mundo é névoa, lá dizia Unamuno), circunstância a que não dei uma importância exagerada. O meu antigo professor de Filosofia, é um pouco desligado das trivialidades e conveniências deste mundo (invejo-o por isso), e respira melhor no seu mundo conjectural, alicerçado em noções, ideias e discursos. Quando o vejo ao lado da esposa, que jovem ainda, tem sobre ele um ascendente maternal, sou levado a supor que, sem ela, ele não conseguiria atar os atacadores dos sapatos, ou saber que tem de levar a chave de casa quando se ausenta dela. Absorveu, talvez, uma dose de cultura que não consegue comportar dentro de si, pelo menos, de forma organizada e ordenada. Gosta de um boa conversa, dum tema qualquer que surja para ser debatido ou desenvolvido, mas à mínima faúlha, começa a divagar sem restrições, a galope desenfreado na sua montada, confundindo os dialogantes e os próprios temas.
Há uma imagem que retenho dele. Em tempos idos ele costumava frequentar o Café Central, na Praça da República, o antigo e genuíno Café Central, antes das obras e modernizações que o desvirtuaram e tornaram banal. Pedia uma água, e sentava-se a um canto, absorto, a escrevinhar em guardanapos de papel. Ao fim de, talvez, uma hora, desse trabalho solitário, levantava-se e distribuía timidamente pelas mesas os papéis escritos. Em cada quadrado de papel, oferecia uma citação dum filósofo, uma frase solta, uma sentença, um argumento. Era a sua maneira muito própria de sacudir as pessoas, de as provocar, de levá-las a pensar um pouco. Ainda guardei um dos seus testemunhos filosóficos, que fez as vezes de marcador na "Nave dos Loucos", que levei bastante tempo a acabar de ler. A frase que me calhou era de Heidegger, mas não poderia citá-la, não por falta de memória, mas porque a letra do meu antigo professor de Filosofia conseguia ser tremendamente ilegível.

5 comentários:

  1. Gostei desta leitura.

    "As frases que nos calham", diria.

    Muito bom.

    É um prazer continuar a ler os seus textos.


    Um abraço,

    Rui

    ResponderEliminar
  2. Que bela figura este seu professor.
    Talvez difícil conviver com ele, mas interessante conhecê-lo.

    ResponderEliminar
  3. Rui, agradeço a visita e o apoio.

    Angela, conviver com ele é fácil, porque é daquelas pessoas, nada egoístas, que estão sempre a arranjar espaço nas suas vidas para novos conhecimentos e novos conhecidos. Mesmo quando, à primeira vista, não parece a pessoa mais sociável do mundo.

    ResponderEliminar
  4. Muito bom este texto. E a ilegilibilidade da letra fecha-ocom chave de ouro!

    ResponderEliminar
  5. Caro José, quando escrevi conviver, pensei em dividir o dia a dia, o mesmo espaço, o que para mim é insuportável até com pessoas atentas, imagino com um filósofo! Quantas brigas tolas por pequenas coisas...

    ResponderEliminar

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...