O erro e o terror

Bela Adormecida

O jovem príncipe, fazendo fé nas lendas locais, enfrentou a floresta de cardos e urzes que envolvia o castelo em ruínas da Bela Adormecida. Levou muito tempo para conseguir vencer aquela barreira mágica com enérgicas espadeiradas, levou muitas semanas, meses, anos sem fim. Quando chegou junto á princesa que dormia o seu sono de cem anos, percebeu a sua palidez. Devido ao encantamento em que havia sido mergulhada, as suas carnes, durante todo aquele tempo, haviam-se nutrido do éter até se tornarem translúcidas, e os seus longos cabelos cresceram em volta do leito como raízes desesperadas na busca de alimento. O jovem príncipe beijou-a, primeiro aflorando os lábios dela com os seus, depois fazendo deslizar a sua língua rosada pelos lábios ressequidos da princesa. Ela abriu os olhos, admirando o quarto em ruínas, as silvas e cardos atapetando as paredes e os dosséis, o pó e a fuligem sobre todas as formas e objectos; via tudo isto enquanto sentia a língua palpitante e imprudente do seu príncipe a explorar-lhe os meandros da boca.
Fechou os dentes e comeu-lhe a língua.
(A fome tem destas coisas).

(Gustave Doré)
Bela Adormecida 2

O jovem príncipe, fazendo fé nas lendas locais, enfrentou a floresta de cardos e urzes que envolvia o castelo em ruínas da Bela Adormecida. Levou muito tempo para conseguir vencer aquela barreira mágica com enérgicas espadeiradas, levou muitas semanas, meses, anos sem fim. Quando chegou junto á princesa que dormia o seu sono de cem anos, acordou-a com um beijo, ela, abrindo os olhos, vê um esqueleto que mal se sustém em pé, apenas seguro por alguns músculos e vestígios pútridos de carne. Um olho solitário, ainda brilhando dentro da cavidade ocular do crânio, percebe o seu terror, e explica.
- Levei muito tempo a chegar aqui, devias ter-me conhecido há oitenta anos atrás!


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