A linha da vida

Ouróbus, pode parecer um nome incomum para alguém, mas o que ele representa para as pessoas do seu meio é um homem afável e simpático, com aquela nuance de distanciamento e devaneio que os filósofos e os poetas deixam transparecer involuntariamente. Gosta de conversar com as outras pessoas, de argumentar e debater, e dizem à boca pequena que é um artista, um pintor, de temas abstractos ou naturezas-mortas (a coscuvilhice do mundo ainda não canonizou esse detalhe) e quando ganha confiança com alguém, gosta de a convidar para almoçar ou cear em sua casa. 
No dia combinado, o convidado é, em regra, recebido à porta pela própria cozinheira, que o introduz na sala de visitas, alegando que Ouróbus está a acabar de se vestir e que não se demora. Na sala, não se encontra mais ninguém, e seja sob a pálida luz que se coa pelas janelas de brocados, ou sob a luz do candeeiro de pé alto ao lado da lareira, a atenção do convidado fixa-se naturalmente no cavalete junto á parede superior, diante da porta, ponto de fuga de todas as linhas e volumes da sala. Uma tela quase virgem, apenas com alguns riscos ou traços em desordem, e ao lado, pousadas numa camilha ao lado do cavalete, os pincéis e os godés de tintas variadas, como que abandonados à pressa devido á premência dum compromisso social. O convidado vagueia pela sala, desinquietado, finge interessar-se pelos poucos objectos decorativos que aí se encontram, um jarrão a um canto ou um retrato numa das paredes, mas, confiado no silêncio e na solidão do momento, volta para junto do quadro, admira com alguma sobranceria os riscos na tela, escolhe um dos pincéis, e depois de eleger uma cor, embebe o pincel na tinta e acrescenta um traço ao quadro. Fino, médio, largo como um rastro preguiçoso, sinusóide, ou quebrado como uma grega escalar, e as cores, as cores também importam, e muito, azul-marinho, cinzento, vermelho-sangue, violeta, tantas cores diferentes que o convidado pode escolher para si mesmo, e para o fim que o espera. Uma queda numa escada, o suicídio num salto para o abismo anil, um nó cortante que dilacerará o seu coração, o risco de fogo dum disparo na noite profunda, a onda que o engolirá, a tristeza cinzenta onde se imolará em silêncios até deixar de respirar. Quando Ouróbus entra finalmente na sala, o convidado sente-se algo desconfortável, como se tivesse cometido uma falta e pudesse ser descoberto, mas mal olha para o rosto do seu anfitrião, os seus receios esfumam-se de imediato, porque Ouróbus ri com bonomia, com a tranquilidade de quem cumpriu na perfeição o trabalho que lhe haviam confiado e, com uma ironia a que não consegue resistir, pergunta sempre ao seu convidado se lhe agrada o esboço na tela.


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