Há gente maluca pelas estradas

Álvaro Pereira (refiro o nome, embora os jornais tenham falado no caso, usando as suas iniciais, A.P.), era um homem de perto de sessenta anos, já reformado, que se deslocou à cidade naquela manhã para comprar um carro novo. Já o tinha visto no stand de viaturas, e já estava guardado para si. Foi só efectivar a compra - bafejado pelas mesuras e sorrisos do vendedor e da funcionária do escritório - e sair dali com o carro novo, a resplandecer ao Sol como uma criação divina. Deu umas voltas pela cidade, só para se habituar à direcção e às mudanças, e tomou o caminho de casa, ansioso por mostrá-lo à família. Foi sempre devagar, na ordem dos sessenta, setenta quilómetro por hora, receoso de estragar o seu brinquedo novo. Na faixa contrária, viu sair para a sua um carro azul numa ultrapassagem apertada, assustado, buzinou-lhe e acendeu-lhe as luzes em sinal de protesto, e o outro carro completou a ultrapassagem, sem lhe tocar, mas apenas por um cabelo - e Álvaro Pereira continuou, despreocupado, o seu caminho para casa.
No carro azul, seguia um jovem, que se picou com os protestos de Álvaro Pereira e que, aproveitando uma rotunda um pouco à frente, inverteu a marcha e seguiu no encalço de Álvaro, que veio a alcançar uns vinte quilómetros mais à frente. Acendeu-lhe as luzes e buzinou-lhe, e enquanto Álvaro se interrogava sobre o motivo daquele alarido, o carro azul começou a dar-lhe encostos no pára-choques traseiro, para o assustar. Mas isso não era suficiente para o jovem do carro azul, que só descansou quando lhe deu um encosto sobre a roda traseira, fazendo-o perder o controlo do carro e despenhar-se por um barranco ao lado da estrada. E assim, o jovem retomou o seu caminho, satisfeito que estava, o seu desproporcional desejo de vingança.
(E isto não passaria duma mera ocorrência policial, ou duma notícia de duas linhas nos jornais locais, se o jovem do carro azul não fosse o filho mais novo de Álvaro Pereira).

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