A causa primeira

O homem pardacento foi até ao consultório do oftalmologista por bons motivos, via tudo em tons cinza, como se as cinzas tivessem vestido o mundo. O especialista fez-lhe exames, testes, análises, mas não conseguiu perceber porquê. Fez alguns progressos quando lhe receitou lentes de contacto coloridas, mas o homem pardacento sabia que essas eram cores artificiais e depressa se enfastiou delas. Diante do seu descontentamento, efectuou as diligências necessárias para que o seu paciente recebesse um transplante da retina, mas o palpite saiu gorado. Após a operação, continuava a ver tudo em tons cinza. O paciente desistiu do oftalmologista, que já não tinha respostas para os seus males, e recorreu a psicólogos e neurocientistas, médicos e charlatães. Hoje, o homem pardacento continua ver tudo em tons cinza, mas tornou-se um homem mais paciente e estóico. Está há dez anos à espera que haja uma vaga para um transplante do coração.

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