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Báratro, ou o anticlímax

O castelo apalaçado de Les Grenouilles, foi construído por uma família de burgueses ricos, os Michaux, que nos seus primeiros tempos, haviam pretendido ter antecedentes aristocráticos, comprando títulos e forjando genealogias. A revolução francesa demoveu a família desse processo de enobrecimento da riqueza conquistada, mas os Michaux conservaram a sua fortuna e o seu palácio. Assim como se haviam notabilizado em toda a província por colaborar com os desmandos da exploração da igreja e da nobreza, corresponderam de forma igualmente aplicada quando calhou a vez de se saquear os nobres e enviar as suas famílias para a prisão ou o exílio. O brasão que havia sido criado pela família, e que esta manteve apesar de tudo, era algo invulgar, esquartelado, possuía, a par de motivos correntes como um leão rampante, uma árvore, e uma pluma de avestruz, um motivo intrigante que sugeria o acto de apunhalamento de um homem, podia-se ver a figura curvada da vítima e uma mão enluvada no canto superior do quartel a segurar um punhal de lâmina fina junto às suas costas, e quase encostado aos joelhos da figura, podia-se admirar também a silhueta misteriosa dum cofre ou caixa.

Após alguns desaires financeiros, nas três primeiras décadas do século vinte, recuperaram a fortuna com uma hábil parceria comercial com os invasores alemães da França ocupada. O castelo de Les Grenouilles chega aos anos do pós-guerra num estado lastimável, a precisar de restauros e melhoramentos. É isso que compreende Henri Michaux, o novo patriarca da família, que transforma o imóvel num destino turístico, com uma parte substancial do palácio a ser convertido em hotel de luxo. O dinheiro, aliás, não parecia ser um entrave para os sucessivos investimentos e gastos excêntricos da família, e alguns investigadores afirmavam que tinha ficado retida em Les Grenouilles, uma parte do ouro e objectos preciosos saqueados pelos alemães, e que estes tinham tentado drenar da região nos últimos meses da ocupação.

Apesar dos rumores e das invectivas contra essa família centenária, ela continuou a prosperar, aproveitando todas as oportunidades, e sem pudores ou reservas de espécie alguma, quanto à sua natureza ética ou moral. Ao patriarca cabia as decisões de fundo, e ao patriarca que dobrou o ano dois mil, François, neto de Henri, colocou-se um novo problema – o destino a dar ao segredo da família, este segredo era um eufemismo para um objecto inquietante, um cofre, no qual estava encerrado o espírito tutelar da família, um espírito corrompido pela sombra e pelo mal. Era esse cofre que figurava no brasão, e que se havia mantido na família, guardado com mil cuidados. A fortuna e os sucessos da família estavam assentes, como uma árvore ou um leão em triunfo, sobre esse espírito e sobre o seu exemplo. O dinheiro não mudava de cor com o sangue e valia por si mesmo, mesmo que fosse obtido com um assassínio, uma falsificação, ou a aliança com os que roubam e matam. Infortunadamente, o cofre havia caído ao chão por acidente, e as dobradiças da tampa haviam cedido um pouco, permitindo uma fresta no encaixe da tampa. Essa fresta era o suficiente para permitir escutar vozes estranhas em volta, em francês arcaico, mas inteligível, e para que se admirasse algo semelhante a finos tentáculos ou patas de aranha, a experimentar o ar cá de fora, a tactear a parede da caixa ou a agitar-se no ar.

François Michaux convocou toda a família para uma reunião no seu gabinete, à meia-noite, como fora ensinado a proceder, e como aconselhava a prudência, devido a presença de tanta gente estranha nas dependências do castelo. Vieram todos, os novos e os velhos, os grupos familiares e os lobos solitários. Algumas crianças de colo dormiam no regaço das suas mães, enquanto as crianças pequenas tinham sido deixadas numa divisão anexa, a brincar ou dormitar num tapete enorme. François explicou-lhes o motivo, o Segredo estava danificado, e temia que o espírito se pudesse libertar, porque as suas vozes eram cada vez mais alteradas e mais nítidas e também não era seguro mantê-lo ali, onde um curioso ou um criado o podia descobrir ou libertar. Não considerava uma solução ideal fechá-lo num cofre e propôs, mais do que sugeriu, atirá-lo para dentro do Báratro, a cisterna antiga nos subterrâneos, e que as obras de Henri Michaux haviam convertido na fossa do castelo.
Todos concordaram sem hesitação. No fundo da fossa, ninguém ouviria os seus gritos, e o espírito não se sentiria tentado a evadir-se, enclausurado para sempre no seu cofre. Decidiram conduzi-lo lá, naquele mesmo instante. Acenderam-se archotes, outros ligaram lanternas, e penetraram nos subterrâneos do castelo, com François Michaux na frente a transportar o cofre do assassino. Ninguém ficou para trás, nem as crianças adormecidas, nem os que se mexiam com dificuldade. Cruzaram corredores sombrios, os primeiros dos quais, ainda juncados com uma parcela do tesouro alemão, e espólio reunido com pilhagens nos palácios dos guilhotinados.
Quando alcançaram a galeria do Báratro, o fedor tornou-se insuportável. Henri Michaux levantou o braço para todos se deterem, e ele, sozinho, desceu as escadas até a tampa quadrada da fossa. Pousou o cofre no chão de cimento, levantou a tampa, e erguendo o Segredo nos ares, atirou-o para as trevas da fossa. Nesse instante, por todos os cantos da galeria, ecoou um grito pavoroso e gelado:
- Não! Para a merda, não!!!


1 comentário:

  1. Então o espírito cruzou os mares e aportou em Terra Brasilis onde fez escola.
    Muito bom, José!

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