INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Há gente maluca pelas estradas

Álvaro Pereira (refiro o nome, embora os jornais tenham falado no caso, usando as suas iniciais, A.P.), era um homem de perto de sessenta anos, já reformado, que se deslocou à cidade naquela manhã para comprar um carro novo. Já o tinha visto no stand de viaturas, e já estava guardado para si. Foi só efectivar a compra - bafejado pelas mesuras e sorrisos do vendedor e da funcionária do escritório - e sair dali com o carro novo, a resplandecer ao Sol como uma criação divina. Deu umas voltas pela cidade, só para se habituar à direcção e às mudanças, e tomou o caminho de casa, ansioso por mostrá-lo à família. Foi sempre devagar, na ordem dos sessenta, setenta quilómetro por hora, receoso de estragar o seu brinquedo novo. Na faixa contrária, viu sair para a sua um carro azul numa ultrapassagem apertada, assustado, buzinou-lhe e acendeu-lhe as luzes em sinal de protesto, e o outro carro completou a ultrapassagem, sem lhe tocar, mas apenas por um cabelo - e Álvaro Pereira continuou, despreocupado, o seu caminho para casa.
No carro azul, seguia um jovem, que se picou com os protestos de Álvaro Pereira e que, aproveitando uma rotunda um pouco à frente, inverteu a marcha e seguiu no encalço de Álvaro, que veio a alcançar uns vinte quilómetros mais à frente. Acendeu-lhe as luzes e buzinou-lhe, e enquanto Álvaro se interrogava sobre o motivo daquele alarido, o carro azul começou a dar-lhe encostos no pára-choques traseiro, para o assustar. Mas isso não era suficiente para o jovem do carro azul, que só descansou quando lhe deu um encosto sobre a roda traseira, fazendo-o perder o controlo do carro e despenhar-se por um barranco ao lado da estrada. E assim, o jovem retomou o seu caminho, satisfeito que estava, o seu desproporcional desejo de vingança.
(E isto não passaria duma mera ocorrência policial, ou duma notícia de duas linhas nos jornais locais, se o jovem do carro azul não fosse o filho mais novo de Álvaro Pereira).
Mês de Outubro do ano de 1929, Belarmino Açudas, proprietário de terras e criador de gado, passeava-se pela Feira de gado anual de Santa Susana, a examinar os animais que estavam à venda. A sua experiência de anos permitia-lhe avaliar em segundos o verdadeiro valor de um animal, e conseguia comprar alguns por um preço muito inferior a esse (e ao que lhe era pedido) pagando de imediato, com moedas que extraía duma bolsa de couro presa à cintura. Era uma figura alta e majestosa, o Belarmino Açudas, com a sua jaqueta castanha, as suas botas de montaria, e o chapéu novo na cabeça. Admirava uns cavalos numa cerca, caminhando em volta, quando notou que ia pisando um monte de bosta no chão. Deu um salto para o evitar, mas não conseguiu evitar uma queda aparatosa sobre algumas pranchas de madeira; e Belarmino Açudas sofreu um crash na bolsa.

A divisão de Solicitações de Suicídio Transferido, estava a ter um dia normal de expediente. As pessoas chegavam à sala de espera que precedia o Corredor da Morte, tiravam uma senha de atendimento do dispensador electrónico e esperavam a sua vez. A natureza dos candidatos era heterogénea, desempregados, endividados, deprimidos crónicos, alguns doentes terminais, e pessoas que não tinham mais nada para fazer, todos se recolhiam no anonimato das suas histórias e motivos pessoais, sentados uns ao lado dos outros como náufragos sem esperança. A seguir à hora do almoço, as coisas complicaram-se porque se avariou o dispensador de senhas de atendimento. Em pouco tempo, instalou-se o caos, as pessoas discutiam umas com as outras sobre quem havia chegado primeiro e quem tinha prioridade sobre os demais; e ninguém cedia nem ninguém levava a melhor, situação penosa para um momento que deveria ser de tranquilidade e paz. O administrador da divisão de SST, vendo aproximar-se as dezasseis horas, em que todos os serviços eram interrompidos e todos abalavam para casa a tempo de tomarem o chá das cinco, tomou uma decisão radical: "Assim, não vamos lá. Organizem um pelotão de fuzilamento!".

O rio que parou

Saíra da sua vila natal há uns trinta anos atrás, primeiro, andara nos paquetes, onde serviu como despenseiro e ajudante de copa, depois, arranjou contrato de trabalho em França, e por lá se fixou, num lugarejo da costa mediterrânica, onde, com o correr do tempo, se estabeleceu com uma marisqueira, criada em sociedade com o cunhado. Ao fim desses anos todos, sentiu curiosidade de rever os lugares onde vivera até aos primeiros anos da juventude. Escolheu o mês de Agosto, o mês das migrações, e voltou à terra natal. Estava preparado para rever uma terra transformada radicalmente, com prédios de apartamentos e villas futuristas onde antes se lembrava das casas simples, quase todas térreas, com paredes e muros revestidos a pedra e telhados planos de telha marselha, por vezes, com uma eira ancestral ou um celeiro com paredes de pedra, aninhados entre o tecido das moradias e quintais. Mas, estranhamente, a primeira sensação que teve quando entrou na vila, é que ela não tinha mudado nada, ou quase nada. Não conseguia detectar mudanças algumas na paisagem, nas casas, ruas e ruelas. Notou que o relógio da torre da igreja estava parado, e os ponteiros gigantes marcavam quatro horas e quinze minutos, e quase de imediato, quando foi à farmácia à procura do velho senhor Albano, o farmacêutico (a ver se ele ainda era vivo), notou que o relógio da parede da farmácia também estava parado, caprichosamente, nas mesma hora que o relógio da torre, quatro e quinze. "Esta terra parou no tempo", concluiu para si o emigrante, com aquela ponta de orgulho de quem se deu bem no estrangeiro e que anseia para que os seus atávicos conterrâneos o reconheçam. Mas essa observação quase sarcástica assumiu dimensões assustadoras quando viu chegar-se ao balcão o senhor Albano, com a mesma idade que aparentava há três décadas atrás, Albano, que foi atender ao balcão a Rosa, a sua prima Rosa, que continuava a mesma jovem de vinte anos de que se lembrava, de cabelos compridos e roupas garridas, apesar dos dois primos terem nascido com poucas semanas de diferença.

O soldado e a bailarina

- Dormi mal esta noite, doem-me as pernas! Não sei como vou conseguir dançar assim...
- Eu levava-te comigo a umas termas, mas dou-me mal com o calor - referiu o soldadinho de chumbo, pesaroso por não poder ajudar a quem ama.
- Obrigada, não há-se ser nada. Penso que se deve à mania que a  minha dona tem, de estar a arrancar e a colocar de novo as minhas pernas.

A panaceia administrativa

Um avião avariou-se antes de levantar voo, e abriu-se um inquérito, o senhor Pereira foi insultado num balcão das Finanças e abriu-se um  inquérito, uma família de cinco pessoas foi atacada por pulgas num Hotel de cinco estrelas e abriu-se um inquérito, a dona Eufémia perdeu um par de óculos e a virgindade num quarto de motel e abriu-se um inquérito. Ás nove horas do dia vinte e sete de Agosto, três pessoas perderam o comboio, e abriu-se um inquérito; e às quinze horas do mesmo dia, duas pessoas perderam os seus cheques-refeição mas não quiseram que fosse aberto um inquérito. Como já havia um inquérito aberto desde as nove da manhã, aproveitaram e foram lá, e no valor dos seus cheques-refeição, levantaram duas sopas, empadinhas de carne, costeletas panadas com batatas fritas e duas sobremesas geladas (Ah! e duas cervejas de lata, frescas!).

Doçaria

Receita de Bolo Molhado


Ingredientes: 3 chávenas de chá de farinha; 2 de açúcar; 2 colheres de sopa de fermento, uma pitada de sal.
Preparação: Bater muito bem os ingredientes, e levar a cozer em forma de buraco em forno muito quente. Quando estiver cozido, deixar arrefecer completamente e, em seguida, atirar o bolo ao mar.

nada de novo debaixo do céu

O sol queima onde amanhã será Outono. As Estações são iguais para o mendigo sentado na estação de comboios, que apenas conhece e desconhece o tilintar das esmolas e o sussurrar dos pés no pavimento.

A causa primeira

O homem pardacento foi até ao consultório do oftalmologista por bons motivos, via tudo em tons cinza, como se as cinzas tivessem vestido o mundo. O especialista fez-lhe exames, testes, análises, mas não conseguiu perceber porquê. Fez alguns progressos quando lhe receitou lentes de contacto coloridas, mas o homem pardacento sabia que essas eram cores artificiais e depressa se enfastiou delas. Diante do seu descontentamento, efectuou as diligências necessárias para que o seu paciente recebesse um transplante da retina, mas o palpite saiu gorado. Após a operação, continuava a ver tudo em tons cinza. O paciente desistiu do oftalmologista, que já não tinha respostas para os seus males, e recorreu a psicólogos e neurocientistas, médicos e charlatães. Hoje, o homem pardacento continua ver tudo em tons cinza, mas tornou-se um homem mais paciente e estóico. Está há dez anos à espera que haja uma vaga para um transplante do coração.

Polaroid

Reencontrei hoje na rua o meu antigo professor de Filosofia, cumprimentou-me vagamente na medida da vaga noção que tem de me ter conhecido em tempos (o mundo é névoa, lá dizia Unamuno), circunstância a que não dei uma importância exagerada. O meu antigo professor de Filosofia, é um pouco desligado das trivialidades e conveniências deste mundo (invejo-o por isso), e respira melhor no seu mundo conjectural, alicerçado em noções, ideias e discursos. Quando o vejo ao lado da esposa, que jovem ainda, tem sobre ele um ascendente maternal, sou levado a supor que, sem ela, ele não conseguiria atar os atacadores dos sapatos, ou saber que tem de levar a chave de casa quando se ausenta dela. Absorveu, talvez, uma dose de cultura que não consegue comportar dentro de si, pelo menos, de forma organizada e ordenada. Gosta de um boa conversa, dum tema qualquer que surja para ser debatido ou desenvolvido, mas à mínima faúlha, começa a divagar sem restrições, a galope desenfreado na sua montada, confundindo os dialogantes e os próprios temas.
Há uma imagem que retenho dele. Em tempos idos ele costumava frequentar o Café Central, na Praça da República, o antigo e genuíno Café Central, antes das obras e modernizações que o desvirtuaram e tornaram banal. Pedia uma água, e sentava-se a um canto, absorto, a escrevinhar em guardanapos de papel. Ao fim de, talvez, uma hora, desse trabalho solitário, levantava-se e distribuía timidamente pelas mesas os papéis escritos. Em cada quadrado de papel, oferecia uma citação dum filósofo, uma frase solta, uma sentença, um argumento. Era a sua maneira muito própria de sacudir as pessoas, de as provocar, de levá-las a pensar um pouco. Ainda guardei um dos seus testemunhos filosóficos, que fez as vezes de marcador na "Nave dos Loucos", que levei bastante tempo a acabar de ler. A frase que me calhou era de Heidegger, mas não poderia citá-la, não por falta de memória, mas porque a letra do meu antigo professor de Filosofia conseguia ser tremendamente ilegível.

Filistiaria

Gregor Samsão possuía uma vaidade enorme nos seus longos cabelos encaracolados, o que enfurecia deveras a sua companheira. Uma noite em que ele adormecera no seu colo, Dalila subtrai uma tesoura da caixa de costura e, gentilmente, tesourada a tesourada, corta-lhe os cabelos até à flor da pele. Acabada a sua obra, desperta-o, e ri-se na cara de Samsão, que fica pior do que uma barata quando descobre o que ela lhe fez.

Twisted

Cento e quarenta caracteres, é um limite de texto dentro do qual é tentador escrever. 


Iniciei-me hoje no Twitter, numa página que possui o título imperfeito (não são todos?) de nanonarrativas, e onde poderão encontrar disso, mas também frases soltas, trocadilhos, e fatos-diversos (informais e de cerimónia).

Para os visitantes deste blogue, os twits estarão expostos na barra lateral direita, os que frequentam o bairro do Facebook, os mesmos estarão apensos num separador do Perfil. 


Twitt this (or not)

Aproveitando a esparsa luz em volta, ela saiu do seu esconderijo sob a cama e correu a bom correr pelas divisões da casa, atravessou o salão com lustre, a escadaria e um dos quartos. Quando estava quase a alcançar a cozinha, cometeu o erro de se expor num espaço aberto. Ainda sentiu a sombra ameaçadora sobre si, mas já era tarde demais, a parede negra caiu em cima dela, esmagando-a, com os seus sucos internos a espalharem-se do seu corpo arrebentado.
- Uhh, que nojo! - exclamou a menina, pensando em como iria limpar aquela barata morta da sua casa das bonecas.

A mãe

Ela costumava dizer aos filhos:
«Quando eu estiver debaixo da terra, não me ponham em cima flores de papel ou de plástico, porque eu detesto. Se não tiverem dinheiro ou vontade de comprar flores verdadeiras, colham ervas na berma dos caminhos e papoilas nos valados!».
Os filhos não se esqueceram disso, da mesma forma que nunca se lembravam do mesmo. 
A natureza, compensou essa indiferença, e teceu em volta da sua campa uma coroa de fetos, giestas e flores bravias.

pesadelo desperto

Acordou cedo de mais, na mesa de operações, com a barriga aberta em plena cirurgia. No meio do seu terror gelado, ouviu as vozes dos médicos.
- Pouca anestesia outra vez?
- O cozinheiro diz que dá mau sabor à carne!

Ainda a solução

Recorreu aos adesivos de nicotina para perder o vício de fumar. A única objecção que tinha contra esse método, é que os fabricantes desaconselhavam colar os adesivos, ao mesmo tempo, na boca e nas narinas.

A solução

Recorreu aos adesivos de nicotina para acabar com o vício de fumar, mas pareceu-lhe que isso não era suficiente, e recuperou então o velho hábito de mascar tabaco. Em boa hora o fez, porque nunca mais precisou de acender um cigarro.

Ginóides


Os dois robôs assistem ao pôr-do-sol sobre o mar.
- O que é isso a brilhar no teu pé? É uma lágrima?!
- Não…Na verdade, foi isso que eu pedi quando o fabricante me actualizou, mas ele não percebeu bem o que eu requisitava. É corrimento!

Parvoíce do dia:

- Como é que vocês me encontraram? - indagou o Quatro, retirando da cara o falso bigode de cossaco e as patilhas compridas postiças.
- Foi fácil, foi só juntar dois mais dois!

Desculpa emergente

- Queres ir beber um copo depois do trabalho? Dar uma volta?
- Não posso! Tenho de ir para casa colher os morangos e os amendoins do Farmville!

Lavores

- Mas que bela manta de retalhos, princesa! É impressionante como conseguiu adicionar-lhe objectos e flores secas, e tudo disposto de forma harmoniosa e artística!
- Obrigada, a minha gratidão pelas suas palavras é ainda maior, por me sentir incompreendida por todos!
- Não ligue porque é pura inveja, as pessoas criticam as coisas que não são capazes de fazer, mas a verdade, é que você tem umas belas mãos de fada.
- Agradeço uma vez mais, e só para você ver como as coisas são, a fada foi a primeira a criticar-me. Acho que não gostou de se ver  privada das mãos.

A linha da vida

Ouróbus, pode parecer um nome incomum para alguém, mas o que ele representa para as pessoas do seu meio é um homem afável e simpático, com aquela nuance de distanciamento e devaneio que os filósofos e os poetas deixam transparecer involuntariamente. Gosta de conversar com as outras pessoas, de argumentar e debater, e dizem à boca pequena que é um artista, um pintor, de temas abstractos ou naturezas-mortas (a coscuvilhice do mundo ainda não canonizou esse detalhe) e quando ganha confiança com alguém, gosta de a convidar para almoçar ou cear em sua casa. 
No dia combinado, o convidado é, em regra, recebido à porta pela própria cozinheira, que o introduz na sala de visitas, alegando que Ouróbus está a acabar de se vestir e que não se demora. Na sala, não se encontra mais ninguém, e seja sob a pálida luz que se coa pelas janelas de brocados, ou sob a luz do candeeiro de pé alto ao lado da lareira, a atenção do convidado fixa-se naturalmente no cavalete junto á parede superior, diante da porta, ponto de fuga de todas as linhas e volumes da sala. Uma tela quase virgem, apenas com alguns riscos ou traços em desordem, e ao lado, pousadas numa camilha ao lado do cavalete, os pincéis e os godés de tintas variadas, como que abandonados à pressa devido á premência dum compromisso social. O convidado vagueia pela sala, desinquietado, finge interessar-se pelos poucos objectos decorativos que aí se encontram, um jarrão a um canto ou um retrato numa das paredes, mas, confiado no silêncio e na solidão do momento, volta para junto do quadro, admira com alguma sobranceria os riscos na tela, escolhe um dos pincéis, e depois de eleger uma cor, embebe o pincel na tinta e acrescenta um traço ao quadro. Fino, médio, largo como um rastro preguiçoso, sinusóide, ou quebrado como uma grega escalar, e as cores, as cores também importam, e muito, azul-marinho, cinzento, vermelho-sangue, violeta, tantas cores diferentes que o convidado pode escolher para si mesmo, e para o fim que o espera. Uma queda numa escada, o suicídio num salto para o abismo anil, um nó cortante que dilacerará o seu coração, o risco de fogo dum disparo na noite profunda, a onda que o engolirá, a tristeza cinzenta onde se imolará em silêncios até deixar de respirar. Quando Ouróbus entra finalmente na sala, o convidado sente-se algo desconfortável, como se tivesse cometido uma falta e pudesse ser descoberto, mas mal olha para o rosto do seu anfitrião, os seus receios esfumam-se de imediato, porque Ouróbus ri com bonomia, com a tranquilidade de quem cumpriu na perfeição o trabalho que lhe haviam confiado e, com uma ironia a que não consegue resistir, pergunta sempre ao seu convidado se lhe agrada o esboço na tela.


Báratro, ou o anticlímax

O castelo apalaçado de Les Grenouilles, foi construído por uma família de burgueses ricos, os Michaux, que nos seus primeiros tempos, haviam pretendido ter antecedentes aristocráticos, comprando títulos e forjando genealogias. A revolução francesa demoveu a família desse processo de enobrecimento da riqueza conquistada, mas os Michaux conservaram a sua fortuna e o seu palácio. Assim como se haviam notabilizado em toda a província por colaborar com os desmandos da exploração da igreja e da nobreza, corresponderam de forma igualmente aplicada quando calhou a vez de se saquear os nobres e enviar as suas famílias para a prisão ou o exílio. O brasão que havia sido criado pela família, e que esta manteve apesar de tudo, era algo invulgar, esquartelado, possuía, a par de motivos correntes como um leão rampante, uma árvore, e uma pluma de avestruz, um motivo intrigante que sugeria o acto de apunhalamento de um homem, podia-se ver a figura curvada da vítima e uma mão enluvada no canto superior do quartel a segurar um punhal de lâmina fina junto às suas costas, e quase encostado aos joelhos da figura, podia-se admirar também a silhueta misteriosa dum cofre ou caixa.

Após alguns desaires financeiros, nas três primeiras décadas do século vinte, recuperaram a fortuna com uma hábil parceria comercial com os invasores alemães da França ocupada. O castelo de Les Grenouilles chega aos anos do pós-guerra num estado lastimável, a precisar de restauros e melhoramentos. É isso que compreende Henri Michaux, o novo patriarca da família, que transforma o imóvel num destino turístico, com uma parte substancial do palácio a ser convertido em hotel de luxo. O dinheiro, aliás, não parecia ser um entrave para os sucessivos investimentos e gastos excêntricos da família, e alguns investigadores afirmavam que tinha ficado retida em Les Grenouilles, uma parte do ouro e objectos preciosos saqueados pelos alemães, e que estes tinham tentado drenar da região nos últimos meses da ocupação.

Apesar dos rumores e das invectivas contra essa família centenária, ela continuou a prosperar, aproveitando todas as oportunidades, e sem pudores ou reservas de espécie alguma, quanto à sua natureza ética ou moral. Ao patriarca cabia as decisões de fundo, e ao patriarca que dobrou o ano dois mil, François, neto de Henri, colocou-se um novo problema – o destino a dar ao segredo da família, este segredo era um eufemismo para um objecto inquietante, um cofre, no qual estava encerrado o espírito tutelar da família, um espírito corrompido pela sombra e pelo mal. Era esse cofre que figurava no brasão, e que se havia mantido na família, guardado com mil cuidados. A fortuna e os sucessos da família estavam assentes, como uma árvore ou um leão em triunfo, sobre esse espírito e sobre o seu exemplo. O dinheiro não mudava de cor com o sangue e valia por si mesmo, mesmo que fosse obtido com um assassínio, uma falsificação, ou a aliança com os que roubam e matam. Infortunadamente, o cofre havia caído ao chão por acidente, e as dobradiças da tampa haviam cedido um pouco, permitindo uma fresta no encaixe da tampa. Essa fresta era o suficiente para permitir escutar vozes estranhas em volta, em francês arcaico, mas inteligível, e para que se admirasse algo semelhante a finos tentáculos ou patas de aranha, a experimentar o ar cá de fora, a tactear a parede da caixa ou a agitar-se no ar.

François Michaux convocou toda a família para uma reunião no seu gabinete, à meia-noite, como fora ensinado a proceder, e como aconselhava a prudência, devido a presença de tanta gente estranha nas dependências do castelo. Vieram todos, os novos e os velhos, os grupos familiares e os lobos solitários. Algumas crianças de colo dormiam no regaço das suas mães, enquanto as crianças pequenas tinham sido deixadas numa divisão anexa, a brincar ou dormitar num tapete enorme. François explicou-lhes o motivo, o Segredo estava danificado, e temia que o espírito se pudesse libertar, porque as suas vozes eram cada vez mais alteradas e mais nítidas e também não era seguro mantê-lo ali, onde um curioso ou um criado o podia descobrir ou libertar. Não considerava uma solução ideal fechá-lo num cofre e propôs, mais do que sugeriu, atirá-lo para dentro do Báratro, a cisterna antiga nos subterrâneos, e que as obras de Henri Michaux haviam convertido na fossa do castelo.
Todos concordaram sem hesitação. No fundo da fossa, ninguém ouviria os seus gritos, e o espírito não se sentiria tentado a evadir-se, enclausurado para sempre no seu cofre. Decidiram conduzi-lo lá, naquele mesmo instante. Acenderam-se archotes, outros ligaram lanternas, e penetraram nos subterrâneos do castelo, com François Michaux na frente a transportar o cofre do assassino. Ninguém ficou para trás, nem as crianças adormecidas, nem os que se mexiam com dificuldade. Cruzaram corredores sombrios, os primeiros dos quais, ainda juncados com uma parcela do tesouro alemão, e espólio reunido com pilhagens nos palácios dos guilhotinados.
Quando alcançaram a galeria do Báratro, o fedor tornou-se insuportável. Henri Michaux levantou o braço para todos se deterem, e ele, sozinho, desceu as escadas até a tampa quadrada da fossa. Pousou o cofre no chão de cimento, levantou a tampa, e erguendo o Segredo nos ares, atirou-o para as trevas da fossa. Nesse instante, por todos os cantos da galeria, ecoou um grito pavoroso e gelado:
- Não! Para a merda, não!!!


desbaratar

A liberdade tem filhos estouvados, que deixam secar e espoliar o leite dos seus seios, antes de se descobrirem irremediavelmente sedentos do que perderam.


Garatujado num W.C. público:

Love is blind
God is love.
Stevie Wonder is blind,
Stevie Wonder is god.


Uma nesga de sombra para o Verão - 1

O novo blogue do João Gaspar, com um design original e com originais da qualidade a que já nos habituou. Diz-se que são em má caligrafia, mas isso depende da caligrafia que sirva de comparação.

Um soneto de Camões, e prosa parasita

9 DE AGOSTO

O primeiro momento em que a viu, foi de revelação, sentiu, soube, que era a ela a mulher que sempre procurara, uma intuição apaixonada que o bom senso não aconselharia, e que o raciocínio descarnado, de imediato, classificaria entre as muitas demências de que o homem é capaz. Mas soube-o naquele instante. Não foi uma paixão á primeira vista, muleta ficcional ou poética de tantas pessoas superficiais, mas um amor sem palavras, abnegado e absoluto, como o de um rio jovem formado pelas enxurradas, e que aos primeiros requebros do seu percurso descobre diante de si a imensidade do Oceano onde irá desaguar.  


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,


Mas a vida não é linear, nem condescendente com as experiências supra-humanas, e a ele, o amador, que sentia ter encontrado o objecto de todo o amor de que era capaz, não conseguiu vencer a distância que o separava daquela a quem amava, porque a vida dos dois estava enredada num novelo de logros, equívocos, falsas ideias e esperanças desesperançadas. Mas ele esperou, esperou sete anos até o ciclo se completar, até ela se aperceber do seu amor e corresponder a ele, tão ou mais surpreendida do que ele, que não queria acreditar que a espera acabara, e com ela, os dias de estéril errância e dúvidas insones.


A vida dos dois conjugou-se e entrelaçou-se, real, batalhadora, árdua mas autêntica, unidos no mesmo barco num oceano caprichoso. Um dia, mais de dez anos depois, ela lembrou-se em conversa desses primeiros tempos, confusos e conturbados, e perguntou-lhe se ele se apercebera de que haviam decorrido sete anos desde o primeiro dia em que haviam visto, até ao momento em que as suas vidas se haviam tornado unas. Ele confirmou, sabiam que tinham sido sete anos, e que estaria disposto a esperar outros sete, mais sete e sete outros, e que só temia que mesmo isso não fosse suficiente, e que a sua vida se dissipasse sem a ver aceitar o seu amor, ou, como tão bem dissera o poeta sobre Jacob, que ele:

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Para tão longo amor, tão curta a vida.



Na tertúlia literária:

- Ofereço-te um tostão pelos teus pensamentos!
- Os meus pensamentos não estão à venda. E nunca estarão! Nie! Never! Jamais! Nigdy!
- E se te oferecer quatro mil e quinhentos euros por uma conferência tua, sobre o tema que escolheres e na data que te convier?
- Assim, já começamos a falar a mesma língua!

Rendez-vous: Rute e Rui

Rute


Rute não era uma força da natureza, nem no sentido geral nem numa perspectiva humana, seria quando muito, um caprichoso somatório dalgumas das suas fraquezas. Era inconstante, impulsiva, generosa e cúpida, gastava todos os trunfos que tinha, ao mesmo tempo que se revelava capaz de se fechar em copas a ponto de ninguém conseguir saber ou pressentir o que sentia ou pensava. Numa madrugada de Sábado, Rute, porque lhe apeteceu, saiu nua para o jardim da sua casa, num impulso semelhante ao que a levou a estraçalhar algumas folhas de couve da sua horta com uma foicinha doméstica, e a cantar desafinadamente uma canção antiga de Sylvie Vartan acompanhada pelo rumor ritmado dos aspersores de rega dos jardins do vizinho. Aquele mesmo fundo musical fez com que saltasse a sebe do dito jardim, levando de braçado o seu gato castanho e felpudo. Sob a chuva miudinha dos aspersores, prosseguiu a sua dança livre em enérgicos rodopios de dervixe, segurando pelas patas o infortunado gato, enquanto eram seguidos pelos saltos e latidos nervosos dum Chihuahua negro que emergiu dos fundos da casa.


Rui

Rui era um anárquico reprimido, daquele género de pessoas que seria, no mínimo, feliz, se pudesse dar largas ao seu feitio inconformista e contestatário, mas que se via como muitos, na irónica condição de defender com unhas e dentes um emprego que lhe desagradava e uma vida que o feria até à medula, só para ter com que viver e pagar as suas contas e educar os filhos. Como resultado disso, tinha frequentes problemas de nervos, insónias, ansiedade descontrolada. Na mesma madrugada de Sábado, e depois duma noite de insónias, desistiu de tentar dormir e foi até à cozinha para beber um copo de água. Quando se encostou ao lava-louças, esgotado e com dores psicossomáticas nos artelhos, descobriu Rute, dançando nua no relvado com os animais que a seguiam nas suas órbitas artísticas.
- Mulher! - chamou aos gritos, sabendo-a acordada, algures nos lavabos - como é que se chama aqueles comprimidos que me deste ontem à noite?
- Não me lembro do nome, mas são feitos de raiz de valeriana, é muito natural e ajuda a descansar.
Rui abanou a cabeça, como se tentasse sacudir aquela alucinação.
- Acho que te enganaram, ou enganaram-se quando colhiam as raízes.

O erro e o terror

Bela Adormecida

O jovem príncipe, fazendo fé nas lendas locais, enfrentou a floresta de cardos e urzes que envolvia o castelo em ruínas da Bela Adormecida. Levou muito tempo para conseguir vencer aquela barreira mágica com enérgicas espadeiradas, levou muitas semanas, meses, anos sem fim. Quando chegou junto á princesa que dormia o seu sono de cem anos, percebeu a sua palidez. Devido ao encantamento em que havia sido mergulhada, as suas carnes, durante todo aquele tempo, haviam-se nutrido do éter até se tornarem translúcidas, e os seus longos cabelos cresceram em volta do leito como raízes desesperadas na busca de alimento. O jovem príncipe beijou-a, primeiro aflorando os lábios dela com os seus, depois fazendo deslizar a sua língua rosada pelos lábios ressequidos da princesa. Ela abriu os olhos, admirando o quarto em ruínas, as silvas e cardos atapetando as paredes e os dosséis, o pó e a fuligem sobre todas as formas e objectos; via tudo isto enquanto sentia a língua palpitante e imprudente do seu príncipe a explorar-lhe os meandros da boca.
Fechou os dentes e comeu-lhe a língua.
(A fome tem destas coisas).

(Gustave Doré)
Bela Adormecida 2

O jovem príncipe, fazendo fé nas lendas locais, enfrentou a floresta de cardos e urzes que envolvia o castelo em ruínas da Bela Adormecida. Levou muito tempo para conseguir vencer aquela barreira mágica com enérgicas espadeiradas, levou muitas semanas, meses, anos sem fim. Quando chegou junto á princesa que dormia o seu sono de cem anos, acordou-a com um beijo, ela, abrindo os olhos, vê um esqueleto que mal se sustém em pé, apenas seguro por alguns músculos e vestígios pútridos de carne. Um olho solitário, ainda brilhando dentro da cavidade ocular do crânio, percebe o seu terror, e explica.
- Levei muito tempo a chegar aqui, devias ter-me conhecido há oitenta anos atrás!


Desovar

Clara sentia-se incompleta, diluída e liquefeita em cálidas recordações do pretérito lar aconchegante. 
A vida de Clara não fora mais a mesma desde que ela e a sua filha Gema, haviam abandonado a casa ancestral.

vida depois da vida

As perdizes, quando morrem, sobem ao Céu das aves, onde fazem ecoar o seu áspero grito de amor e vivem perdizes para sempre.


Recoleta, Buenos Aires

Era o primeiro dia no seu novo apartamento, e não tinha muita coisa para mudar, mas tivera um trabalho digno de Hércules a preparar a mudança. Roupa dobrada e acondicionada em malas próprias, de uma forma que evidenciava um perfeccionismo obcecado. Não havia uma peça de roupa a mais em cada mala, nem um par de meias a sobrar, as suas tolhas estavam dobradas na perfeição, as suas camisolas pareciam prontas a serem exibidas nas estantes dum Pronto-a-Vestir, a roupa estava folgada, sem pressões que criassem vincos e dobras indesejáveis. Os seus artigos de higiene numa caixa, discos e livros em caixas próprias, arrumados no seu inteiror por ordem alfabética de autores e artistas, outras pequenas caixas para os seus bibelôs pessoais, distribuídos pelas caixas com uma ordem intrínseca que contemplava as suas dimensões, cores ou volumes. Maiores cuidados lhe mereceu a sua colecção de selos – seis álbuns de selos em estado impecável, como se tivessem sido acabados de comprar. Durante uma semana tivera insónias, ao pensar que um selo se podia extraviar, arrancado dum dos álbuns por uma brisa repentina ou um gesto desajeitado dum dos tipos das mudanças, até mesmo a possibilidade dum dos selos sair do lugar próprio e exacto o apavorava, e antevia com terror o momento em que folhearia qualquer dos álbuns na casa nova, só para descobrir que os selos lá dentro estavam de viés ou dobrados pela cintura nas cintas translúcidas. Resolveu o problema, acondicionando os seis álbuns na caixa de vidro dum aquário grande comprado de propósito, arrumou-os lá dentro e preencheu os espaços vazios do aquário com retalhos de plástico-bolha e tiras de papel canelado, e fechou hermeticamente a tampa de vidro do aquário, selando-a com cola instantânea. Foi ao aquário filatélico que dedicou quase toda a sua atenção durante a odisseia da mudança, sentou-se ao seu lado no compartimento de carga da carrinha das mudanças, abraçando-se a ele e lutando contra as oscilações das curvas para que ele não se estilhaçasse em mil pedacinhos. Quando chegou ao destino, escoltou o sarcófago de vidro até ao apartamento e, lá chegados, só descansou quando o viu pousado no chão ao lado da porta, a dois passos do bulício caótico e abrutalhado dos homens da empresa de mudanças. Sentara-se numa das cadeiras a observar o trabalho quando uma figura de mulher se recortou na moldura da porta, entre duas passagens de caixas de cartão, impressionou-o a altura da figura, mais do que os seus cabelos cor-de-palha, os olhos azuis ou a garrafa de vinho branco que trazia na mão.
- Olá! - Cumprimentou-o – chamo-me Leonor, moro três apartamentos antes do seu, e vinha dar-lhe as boas-vindas. Por acaso não tem duas taças a jeito.
Agradeceu entredentes a amabilidade, e reviu mentalmente a logística da mudança. Caixa numerada C-7, cê de Cozinha, e sete da ordem em que as taças de vidro apareciam na sua lista discriminativa de todo o acervo da sua cozinha. Não foi difícil encontrar a caixa, colocada no chão da nova cozinha com o dístico da referência à vista. Foi relativamente fácil desembrulhar duas taças de vidro, o que o preocupava não era esse resgate antecipado dos dois objectos, mas a sua causa. Leonor devia estar só, talvez o tivesse espreitado quando ali estivera da vez anterior, ou então, agora, no próprio momento em que chegara com as suas armas e bagagens. Insinuara-se de imediato, e era capaz de apostar em como não tardaria em voltar ali para pedir uma chávena de arroz ou perguntar-lhe se era capaz de lhe arranjar o exaustor da cozinha, para cavaquear sobre as lacunas do bairro ou os melindres do condomínio, se lhe desse uma aberta, consideraria mudar-se para o apartamento dele, e assim simplificar a vida dela. Simplificação, era o perfeito antónimo do que essa possibilidade lhe sugeria!
- Já conhecia o bairro? – Perguntou ela, enquanto lhe servia vinho.
- Mal, estive cá algumas vezes, mas só de passagem…
- Não é um mau sítio, mesmo atendendo a algumas coisas que lhe faltam...suponho que o puseram a par da situação actual do condomínio?!
Leonor queria mudar-se para ali, já não tinha dúvidas. Até se sentia agoniado, só de imaginar os seus discos e livros arrancados da sua ordem impreterível, as toalhas largadas no chão, todo o seu mundo embrulhado e amarfanhado como uma folha de papel carbonizada. Não podia permitir, não tinha lugar para ela na sua vida, nenhum espaço vago, nenhum canto desafogado.
- Como tem o seu apartamento neste caos, se quiser, cozinho alguma coisa para si e trago cá para jantarmos, tenho pizza congelada, e também peixe, garoupa.
A alusão ao peixe inspirou-o. O aquário! Retirados os álbuns de selos, ficava o aquário, aquele descomunal paralelepípedo de vidro, a ocupar um espaço morto. Podia arrumá-la lá dentro, dobrada como um feto, com a tampa de vidro selada com cola instantânea. Iria sobrar-lhe algum cartão canelado e retalhos de plástico-bolha.
- A ideia agrada-me - Confessou - já trago alguma fome, e também me saberia bem um pouco de companhia nestes dias de adaptação.


Estratégia de êxito

Apesar da troça e do desprezo de conhecidos e vizinhos, a avestruz Penastoc até se dava bem com o subterfúgio de enterrar a cabeça na areia quando pressentia ou avistava problemas, o seu gesto desconcertava os predadores, e conferia-lhe uma protecção eficaz em dias de tufão ou queda de granizo. Mas a estratégia revelou todas as suas deficiências, no dia em que Penastoc avistou um caçador na altura em que cruzava um campo de minas.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...