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A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Há gente maluca pelas estradas

Álvaro Pereira (refiro o nome, embora os jornais tenham falado no caso, usando as suas iniciais, A.P.), era um homem de perto de sessenta anos, já reformado, que se deslocou à cidade naquela manhã para comprar um carro novo. Já o tinha visto no stand de viaturas, e já estava guardado para si. Foi só efectivar a compra - bafejado pelas mesuras e sorrisos do vendedor e da funcionária do escritório - e sair dali com o carro novo, a resplandecer ao Sol como uma criação divina. Deu umas voltas pela cidade, só para se habituar à direcção e às mudanças, e tomou o caminho de casa, ansioso por mostrá-lo à família. Foi sempre devagar, na ordem dos sessenta, setenta quilómetro por hora, receoso de estragar o seu brinquedo novo. Na faixa contrária, viu sair para a sua um carro azul numa ultrapassagem apertada, assustado, buzinou-lhe e acendeu-lhe as luzes em sinal de protesto, e o outro carro completou a ultrapassagem, sem lhe tocar, mas apenas por um cabelo - e Álvaro Pereira continuou, despreoc…
Mês de Outubro do ano de 1929, Belarmino Açudas, proprietário de terras e criador de gado, passeava-se pela Feira de gado anual de Santa Susana, a examinar os animais que estavam à venda. A sua experiência de anos permitia-lhe avaliar em segundos o verdadeiro valor de um animal, e conseguia comprar alguns por um preço muito inferior a esse (e ao que lhe era pedido) pagando de imediato, com moedas que extraía duma bolsa de couro presa à cintura. Era uma figura alta e majestosa, o Belarmino Açudas, com a sua jaqueta castanha, as suas botas de montaria, e o chapéu novo na cabeça. Admirava uns cavalos numa cerca, caminhando em volta, quando notou que ia pisando um monte de bosta no chão. Deu um salto para o evitar, mas não conseguiu evitar uma queda aparatosa sobre algumas pranchas de madeira; e Belarmino Açudas sofreu um crash na bolsa.

A divisão de Solicitações de Suicídio Transferido, estava a ter um dia normal de expediente. As pessoas chegavam à sala de espera que precedia o Corredor da Morte, tiravam uma senha de atendimento do dispensador electrónico e esperavam a sua vez. A natureza dos candidatos era heterogénea, desempregados, endividados, deprimidos crónicos, alguns doentes terminais, e pessoas que não tinham mais nada para fazer, todos se recolhiam no anonimato das suas histórias e motivos pessoais, sentados uns ao lado dos outros como náufragos sem esperança. A seguir à hora do almoço, as coisas complicaram-se porque se avariou o dispensador de senhas de atendimento. Em pouco tempo, instalou-se o caos, as pessoas discutiam umas com as outras sobre quem havia chegado primeiro e quem tinha prioridade sobre os demais; e ninguém cedia nem ninguém levava a melhor, situação penosa para um momento que deveria ser de tranquilidade e paz. O administrador da divisão de SST, vendo aproximar-se as dezasseis horas, em…

O rio que parou

Saíra da sua vila natal há uns trinta anos atrás, primeiro, andara nos paquetes, onde serviu como despenseiro e ajudante de copa, depois, arranjou contrato de trabalho em França, e por lá se fixou, num lugarejo da costa mediterrânica, onde, com o correr do tempo, se estabeleceu com uma marisqueira, criada em sociedade com o cunhado. Ao fim desses anos todos, sentiu curiosidade de rever os lugares onde vivera até aos primeiros anos da juventude. Escolheu o mês de Agosto, o mês das migrações, e voltou à terra natal. Estava preparado para rever uma terra transformada radicalmente, com prédios de apartamentos e villas futuristas onde antes se lembrava das casas simples, quase todas térreas, com paredes e muros revestidos a pedra e telhados planos de telha marselha, por vezes, com uma eira ancestral ou um celeiro com paredes de pedra, aninhados entre o tecido das moradias e quintais. Mas, estranhamente, a primeira sensação que teve quando entrou na vila, é que ela não tinha mudado nada, ou…

O soldado e a bailarina

- Dormi mal esta noite, doem-me as pernas! Não sei como vou conseguir dançar assim...
- Eu levava-te comigo a umas termas, mas dou-me mal com o calor - referiu o soldadinho de chumbo, pesaroso por não poder ajudar a quem ama.
- Obrigada, não há-se ser nada. Penso que se deve à mania que a  minha dona tem, de estar a arrancar e a colocar de novo as minhas pernas.

A panaceia administrativa

Um avião avariou-se antes de levantar voo, e abriu-se um inquérito, o senhor Pereira foi insultado num balcão das Finanças e abriu-se um  inquérito, uma família de cinco pessoas foi atacada por pulgas num Hotel de cinco estrelas e abriu-se um inquérito, a dona Eufémia perdeu um par de óculos e a virgindade num quarto de motel e abriu-se um inquérito. Ás nove horas do dia vinte e sete de Agosto, três pessoas perderam o comboio, e abriu-se um inquérito; e às quinze horas do mesmo dia, duas pessoas perderam os seus cheques-refeição mas não quiseram que fosse aberto um inquérito. Como já havia um inquérito aberto desde as nove da manhã, aproveitaram e foram lá, e no valor dos seus cheques-refeição, levantaram duas sopas, empadinhas de carne, costeletas panadas com batatas fritas e duas sobremesas geladas (Ah! e duas cervejas de lata, frescas!).

Doçaria

Receita de Bolo Molhado


Ingredientes: 3 chávenas de chá de farinha; 2 de açúcar; 2 colheres de sopa de fermento, uma pitada de sal.
Preparação: Bater muito bem os ingredientes, e levar a cozer em forma de buraco em forno muito quente. Quando estiver cozido, deixar arrefecer completamente e, em seguida, atirar o bolo ao mar.

nada de novo debaixo do céu

O sol queima onde amanhã será Outono. As Estações são iguais para o mendigo sentado na estação de comboios, que apenas conhece e desconhece o tilintar das esmolas e o sussurrar dos pés no pavimento.

A causa primeira

O homem pardacento foi até ao consultório do oftalmologista por bons motivos, via tudo em tons cinza, como se as cinzas tivessem vestido o mundo. O especialista fez-lhe exames, testes, análises, mas não conseguiu perceber porquê. Fez alguns progressos quando lhe receitou lentes de contacto coloridas, mas o homem pardacento sabia que essas eram cores artificiais e depressa se enfastiou delas. Diante do seu descontentamento, efectuou as diligências necessárias para que o seu paciente recebesse um transplante da retina, mas o palpite saiu gorado. Após a operação, continuava a ver tudo em tons cinza. O paciente desistiu do oftalmologista, que já não tinha respostas para os seus males, e recorreu a psicólogos e neurocientistas, médicos e charlatães. Hoje, o homem pardacento continua ver tudo em tons cinza, mas tornou-se um homem mais paciente e estóico. Está há dez anos à espera que haja uma vaga para um transplante do coração.

Polaroid

Reencontrei hoje na rua o meu antigo professor de Filosofia, cumprimentou-me vagamente na medida da vaga noção que tem de me ter conhecido em tempos (o mundo é névoa, lá dizia Unamuno), circunstância a que não dei uma importância exagerada. O meu antigo professor de Filosofia, é um pouco desligado das trivialidades e conveniências deste mundo (invejo-o por isso), e respira melhor no seu mundo conjectural, alicerçado em noções, ideias e discursos. Quando o vejo ao lado da esposa, que jovem ainda, tem sobre ele um ascendente maternal, sou levado a supor que, sem ela, ele não conseguiria atar os atacadores dos sapatos, ou saber que tem de levar a chave de casa quando se ausenta dela. Absorveu, talvez, uma dose de cultura que não consegue comportar dentro de si, pelo menos, de forma organizada e ordenada. Gosta de um boa conversa, dum tema qualquer que surja para ser debatido ou desenvolvido, mas à mínima faúlha, começa a divagar sem restrições, a galope desenfreado na sua montada, confun…

Filistiaria

Gregor Samsão possuía uma vaidade enorme nos seus longos cabelos encaracolados, o que enfurecia deveras a sua companheira. Uma noite em que ele adormecera no seu colo, Dalila subtrai uma tesoura da caixa de costura e, gentilmente, tesourada a tesourada, corta-lhe os cabelos até à flor da pele. Acabada a sua obra, desperta-o, e ri-se na cara de Samsão, que fica pior do que uma barata quando descobre o que ela lhe fez.

Twisted

Cento e quarenta caracteres, é um limite de texto dentro do qual é tentador escrever. 


Iniciei-me hoje no Twitter, numa página que possui o título imperfeito (não são todos?) de nanonarrativas, e onde poderão encontrar disso, mas também frases soltas, trocadilhos, e fatos-diversos (informais e de cerimónia).
Para os visitantes deste blogue, os twits estarão expostos na barra lateral direita, os que frequentam o bairro do Facebook, os mesmos estarão apensos num separador do Perfil. 


Twitt this (or not)
Aproveitando a esparsa luz em volta, ela saiu do seu esconderijo sob a cama e correu a bom correr pelas divisões da casa, atravessou o salão com lustre, a escadaria e um dos quartos. Quando estava quase a alcançar a cozinha, cometeu o erro de se expor num espaço aberto. Ainda sentiu a sombra ameaçadora sobre si, mas já era tarde demais, a parede negra caiu em cima dela, esmagando-a, com os seus sucos internos a espalharem-se do seu corpo arrebentado.
- Uhh, que nojo! - exclamou a menina, pensando em como iria limpar aquela barata morta da sua casa das bonecas.

A mãe

Ela costumava dizer aos filhos: «Quando eu estiver debaixo da terra, não me ponham em cima flores de papel ou de plástico, porque eu detesto. Se não tiverem dinheiro ou vontade de comprar flores verdadeiras, colham ervas na berma dos caminhos e papoilas nos valados!». Os filhos não se esqueceram disso, da mesma forma que nunca se lembravam do mesmo.  A natureza, compensou essa indiferença, e teceu em volta da sua campa uma coroa de fetos, giestas e flores bravias.

pesadelo desperto

Acordou cedo de mais, na mesa de operações, com a barriga aberta em plena cirurgia. No meio do seu terror gelado, ouviu as vozes dos médicos.
- Pouca anestesia outra vez?
- O cozinheiro diz que dá mau sabor à carne!

Ainda a solução

Recorreu aos adesivos de nicotina para perder o vício de fumar. A única objecção que tinha contra esse método, é que os fabricantes desaconselhavam colar os adesivos, ao mesmo tempo, na boca e nas narinas.

A solução

Recorreu aos adesivos de nicotina para acabar com o vício de fumar, mas pareceu-lhe que isso não era suficiente, e recuperou então o velho hábito de mascar tabaco. Em boa hora o fez, porque nunca mais precisou de acender um cigarro.

Ginóides

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Os dois robôs assistem ao pôr-do-sol sobre o mar. - O que é isso a brilhar no teu pé? É uma lágrima?! - Não…Na verdade, foi isso que eu pedi quando o fabricante me actualizou, mas ele não percebeu bem o que eu requisitava. É corrimento!

Parvoíce do dia:

- Como é que vocês me encontraram? - indagou o Quatro, retirando da cara o falso bigode de cossaco e as patilhas compridas postiças.
- Foi fácil, foi só juntar dois mais dois!

Desculpa emergente

- Queres ir beber um copo depois do trabalho? Dar uma volta?
- Não posso! Tenho de ir para casa colher os morangos e os amendoins do Farmville!

Lavores

- Mas que bela manta de retalhos, princesa! É impressionante como conseguiu adicionar-lhe objectos e flores secas, e tudo disposto de forma harmoniosa e artística!
- Obrigada, a minha gratidão pelas suas palavras é ainda maior, por me sentir incompreendida por todos!
- Não ligue porque é pura inveja, as pessoas criticam as coisas que não são capazes de fazer, mas a verdade, é que você tem umas belas mãos de fada.
- Agradeço uma vez mais, e só para você ver como as coisas são, a fada foi a primeira a criticar-me. Acho que não gostou de se ver  privada das mãos.

A linha da vida

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Ouróbus, pode parecer um nome incomum para alguém, mas o que ele representa para as pessoas do seu meio é um homem afável e simpático, com aquela nuance de distanciamento e devaneio que os filósofos e os poetas deixam transparecer involuntariamente. Gosta de conversar com as outras pessoas, de argumentar e debater, e dizem à boca pequena que é um artista, um pintor, de temas abstractos ou naturezas-mortas (a coscuvilhice do mundo ainda não canonizou esse detalhe) e quando ganha confiança com alguém, gosta de a convidar para almoçar ou cear em sua casa.  No dia combinado, o convidado é, em regra, recebido à porta pela própria cozinheira, que o introduz na sala de visitas, alegando que Ouróbus está a acabar de se vestir e que não se demora. Na sala, não se encontra mais ninguém, e seja sob a pálida luz que se coa pelas janelas de brocados, ou sob a luz do candeeiro de pé alto ao lado da lareira, a atenção do convidado fixa-se naturalmente no cavalete junto á parede superior, diante da po…

Báratro, ou o anticlímax

O castelo apalaçado de Les Grenouilles, foi construído por uma família de burgueses ricos, os Michaux, que nos seus primeiros tempos, haviam pretendido ter antecedentes aristocráticos, comprando títulos e forjando genealogias. A revolução francesa demoveu a família desse processo de enobrecimento da riqueza conquistada, mas os Michaux conservaram a sua fortuna e o seu palácio. Assim como se haviam notabilizado em toda a província por colaborar com os desmandos da exploração da igreja e da nobreza, corresponderam de forma igualmente aplicada quando calhou a vez de se saquear os nobres e enviar as suas famílias para a prisão ou o exílio. O brasão que havia sido criado pela família, e que esta manteve apesar de tudo, era algo invulgar, esquartelado, possuía, a par de motivos correntes como um leão rampante, uma árvore, e uma pluma de avestruz, um motivo intrigante que sugeria o acto de apunhalamento de um homem, podia-se ver a figura curvada da vítima e uma mão enluvada no canto superior…

desbaratar

A liberdade tem filhos estouvados, que deixam secar e espoliar o leite dos seus seios, antes de se descobrirem irremediavelmente sedentos do que perderam.

Garatujado num W.C. público:

Love is blind God is love. Stevie Wonder is blind, Stevie Wonder is god.

Uma nesga de sombra para o Verão - 1

O novo blogue do João Gaspar, com um design original e com originais da qualidade a que já nos habituou. Diz-se que são em má caligrafia, mas isso depende da caligrafia que sirva de comparação.

Um soneto de Camões, e prosa parasita

9 DE AGOSTO
O primeiro momento em que a viu, foi de revelação, sentiu, soube, que era a ela a mulher que sempre procurara, uma intuição apaixonada que o bom senso não aconselharia, e que o raciocínio descarnado, de imediato, classificaria entre as muitas demências de que o homem é capaz. Mas soube-o naquele instante. Não foi uma paixão á primeira vista, muleta ficcional ou poética de tantas pessoas superficiais, mas um amor sem palavras, abnegado e absoluto, como o de um rio jovem formado pelas enxurradas, e que aos primeiros requebros do seu percurso descobre diante de si a imensidade do Oceano onde irá desaguar.  


Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, Que a ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assim negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida,

Mas a vi…

Na tertúlia literária:

- Ofereço-te um tostão pelos teus pensamentos!
- Os meus pensamentos não estão à venda. E nunca estarão! Nie! Never! Jamais! Nigdy!
- E se te oferecer quatro mil e quinhentos euros por uma conferência tua, sobre o tema que escolheres e na data que te convier?
- Assim, já começamos a falar a mesma língua!

Rendez-vous: Rute e Rui

Rute

Rute não era uma força da natureza, nem no sentido geral nem numa perspectiva humana, seria quando muito, um caprichoso somatório dalgumas das suas fraquezas. Era inconstante, impulsiva, generosa e cúpida, gastava todos os trunfos que tinha, ao mesmo tempo que se revelava capaz de se fechar em copas a ponto de ninguém conseguir saber ou pressentir o que sentia ou pensava. Numa madrugada de Sábado, Rute, porque lhe apeteceu, saiu nua para o jardim da sua casa, num impulso semelhante ao que a levou a estraçalhar algumas folhas de couve da sua horta com uma foicinha doméstica, e a cantar desafinadamente uma canção antiga de Sylvie Vartan acompanhada pelo rumor ritmado dos aspersores de rega dos jardins do vizinho. Aquele mesmo fundo musical fez com que saltasse a sebe do dito jardim, levando de braçado o seu gato castanho e felpudo. Sob a chuva miudinha dos aspersores, prosseguiu a sua dança livre em enérgicos rodopios de dervixe, segurando pelas patas o infortunado gato, enquanto er…

O erro e o terror

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Bela Adormecida

O jovem príncipe, fazendo fé nas lendas locais, enfrentou a floresta de cardos e urzes que envolvia o castelo em ruínas da Bela Adormecida. Levou muito tempo para conseguir vencer aquela barreira mágica com enérgicas espadeiradas, levou muitas semanas, meses, anos sem fim. Quando chegou junto á princesa que dormia o seu sono de cem anos, percebeu a sua palidez. Devido ao encantamento em que havia sido mergulhada, as suas carnes, durante todo aquele tempo, haviam-se nutrido do éter até se tornarem translúcidas, e os seus longos cabelos cresceram em volta do leito como raízes desesperadas na busca de alimento. O jovem príncipe beijou-a, primeiro aflorando os lábios dela com os seus, depois fazendo deslizar a sua língua rosada pelos lábios ressequidos da princesa. Ela abriu os olhos, admirando o quarto em ruínas, as silvas e cardos atapetando as paredes e os dosséis, o pó e a fuligem sobre todas as formas e objectos; via tudo isto enquanto sentia a língua palpitante e impr…

Desovar

Clara sentia-se incompleta, diluída e liquefeita em cálidas recordações do pretérito lar aconchegante.  A vida de Clara não fora mais a mesma desde que ela e a sua filha Gema, haviam abandonado a casa ancestral.

vida depois da vida

As perdizes, quando morrem, sobem ao Céu das aves, onde fazem ecoar o seu áspero grito de amor e vivem perdizes para sempre.

Recoleta, Buenos Aires

Era o primeiro dia no seu novo apartamento, e não tinha muita coisa para mudar, mas tivera um trabalho digno de Hércules a preparar a mudança. Roupa dobrada e acondicionada em malas próprias, de uma forma que evidenciava um perfeccionismo obcecado. Não havia uma peça de roupa a mais em cada mala, nem um par de meias a sobrar, as suas tolhas estavam dobradas na perfeição, as suas camisolas pareciam prontas a serem exibidas nas estantes dum Pronto-a-Vestir, a roupa estava folgada, sem pressões que criassem vincos e dobras indesejáveis. Os seus artigos de higiene numa caixa, discos e livros em caixas próprias, arrumados no seu inteiror por ordem alfabética de autores e artistas, outras pequenas caixas para os seus bibelôs pessoais, distribuídos pelas caixas com uma ordem intrínseca que contemplava as suas dimensões, cores ou volumes. Maiores cuidados lhe mereceu a sua colecção de selos – seis álbuns de selos em estado impecável, como se tivessem sido acabados de comprar. Durante uma sema…

Estratégia de êxito

Apesar da troça e do desprezo de conhecidos e vizinhos, a avestruz Penastoc até se dava bem com o subterfúgio de enterrar a cabeça na areia quando pressentia ou avistava problemas, o seu gesto desconcertava os predadores, e conferia-lhe uma protecção eficaz em dias de tufão ou queda de granizo. Mas a estratégia revelou todas as suas deficiências, no dia em que Penastoc avistou um caçador na altura em que cruzava um campo de minas.